Voltaire ajuda

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sábado, 5 de agosto de 2017

5 de agosto de 2017.

Vontade de chorar, mas eu não choro. Vontade de vomitar, mas eu não vomito. Até para combinar com essa maldita e antiga história: eu fico no quase. Então escrevo para que pelo menos as palavras nasçam e eu tenha alguma coisa para mim!
Estou assim o dia inteiro. Sensação ruim. Estômago pesado. Desgosto. Desgosto. Desgosto profundo. Desgosto. Mágoa. Raiva.

É melhor que caminhar vazio.

Amanhã será um novo dia
certamente eu vou ser mais feliz.

All day, all day
When you look around
you wonder
Do you play to win?
Or are you just a bad loser?

E foi assim: eu telefonava, eu escrevia sempre a mesma coisa: “posso ir à reunião do (****censurado****)?” ou “eu tiro fotos e faço vídeos, se o (****censurado****) precisar...”. (****censurado****) é o grupo de apoio aos moradores em situação de risco social em vilas e favelas, grupo político onde ela milita há vários anos. E ela sempre me respondia a mesma coisa: “obrigada, mas ainda não”.
Eu queria fazer daquele sábado perfeito um mês perfeito, um ano perfeito... Aí na única vez que ela me convida para alguma coisa, eu não vou. Passo mal; sinto ansiedade e fico com raiva dela e dou um “gelo” por causa dessa coisa do (****censurado****) e do grupo de estudos marxista que ela não deixa eu participar. O convite era para um forró vegetariano. Adivinha o que ela me conta, toda inocente há apenas uns dois dias atrás? Que nesse forró vegetariano ela “conheceu um cara”.
Ah!


- A culpa é minha. Eu não podia falhar. Eu falhei, eu cometi um erro...

DESDÊMONA: - Você não errou, e isso te machuca. Ela não errou e isso também te machuca. Você não estava errado, e isso te machuca. Ela também não estava errada, e isso também te machuca. Acontece, aconteceu. Você sabe a verdade e o que fazer. É sinal de amadurecimento que você sinta mágoa e não raiva.

- Eu deveria ter ido àquele maldito forró vegetariano...

OTELO: - A vida é dura por muitos motivos, que o tempo seja indomável é apenas um deles. Quem te garante que se você tivesse ido ao forró teria sido melhor? Talvez você a visse dançando com ele, os dois se beijando... Como saber quais batalhas eu deveria ter perdido ou ganho para tornar-me o general vencedor que eu sou hoje? Não se lamente pelo passado, abrace o futuro.

- É difícil esquecer os sinais, todos aqueles detalhes do sábado perfeito...

IAGO: - Ela te deu esperanças, para o cara do forró ela deu muuuuito mais... HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ!

OTELO: - Chegou quem não foi convidado!

IAGO: - Para falar aquilo que você e Desdêmona não conseguem falar! Daquilo que vem das profundezas, daquilo que tem a cor, o cheiro por ser feito de sangue e entranhas! [Olhando dentro de meus olhos] A sabedoria de Otelo e a compaixão de Desdêmona são tão profundas quanto uma piscina infantil. Palavras que soam bonitas aos ouvidos, mas não atingem o peito. Agora é a vez de Iago!

- Fale.

IAGO: - Você quer?

DESDÊMONA: - Por que você o chama? Por que você quer ouvi-lo?

- A dor é real. Pelo menos isso vindo dela é real.

IAGO: - Um jogo não é a melhor e a mais divertida maneira de uma criança conhecer uma outra criança? Ah, os jogos! Os jogos! Muita sinceridade é insuportável, devemos agradecer aos jogos da sedução entre homens e mulheres! As mulheres... A fraqueza torna necessária a mentira e a dissimulação, o jogar a isca para conhecer o pescador... Ela te conheceu apenas ontem, na mesa do restaurante e não antes.

OTELO: - Pare! Isso é apenas preconceito contra as mulheres, rancor se passando por conhecimento da alma humana! Não deixe que Iago continue!

- Continue; Iago.

IAGO: - Bom, sabemos que ela estava “na seca” há muito tempo...

- E daí?

IAGO: - E daí que ela deve ter dado gooooostoooooso para ele! Na primeira vez, então? Imagine! Imagine!

- Imagino.

IAGO: - E como será que ela geme na hora? Héin? Como será que ela geme para ele? Com aquela cara docinha... Ela é (****censurado****), não é? Aquela cara docinha, aquela cara de professora, aquele jeito de professora, aquele cabelo de professora... De professora de interior. Aquela voz tão doce... Ah, ela gemendo! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! Para ele! Abraçada forte cada vez mais, umedecendo o ouvido dele de tão perto que a sua boca estava! Imagine! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ!

- Mais.

OTELO: - Você não precisa disto. Vai construir o que com tudo isso?

- Mais, Iago!

IAGO: - Apenas sigo ordens! O Otelo falou antes sobre o tempo. Hum, o tempo. Tempo, tempo...

- O que tem o tempo?

IAGO: - Quanto tempo demorou para ela abrir as pernas para ele? Héin? Três sorrisos, duas piadas, alguns minutos de mãos dadas e a calcinha já estava perdida... E o que você tirou dela? O que você ganhou com a história de vocês dois? Um beijo na bochecha depois de um show de dança na UFMG? HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ! Mais doce que o mel no deserto é este animal traiçoeiro chamado mulher querendo ser amiga depois! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ!

- Já pode parar, Iago. Já ouvi o suficiente. Já estou contaminado o suficiente, já posso fazer sozinho. Confundir prazer com dor e imaginar ele beijando a ponta daqueles seios pequenos, apertando forte e atravessando aquele quadril tão magro até ela dizer o que escreveu para mim naquela apostila: “T.Q.M Te Quiero Mucho”. E ela repetindo isso para ele, como naquelas cenas de sexo caricatas dos piores filmes de comédia: “Te quiero!, te quiero!, te quiero!...” E a cama e meu coração, depois, arrebentadas.

DESDÊMONA: - Não é jogo porque não há vencedores ou perdedores. Há aqui apenas pessoas livres. Encontros e desencontros, pois a vida é rica e variada e é esta a sua graça.

OTELO: - Derrota? Então encare como derrota. Esta vendo estas cicatrizes em meu braço direito? Derrotas são fundamentais, uma derrota bem compreendida é sinônimo de dez vitórias impossíveis e consecutivas. A derrota é uma cicatriz bonita e as dificuldades estimulam os fortes. E cada segundo é um renascimento.


- É tentador demais, em uma situação como essa, eu deixar de olhar-me no espelho. Olhar-me no espelho e sentir vergonha e raiva. E inveja. A pergunta de um bilhão de euros: que ele tem que eu não tenho? Mora sozinho; tem carro e um emprego de verdade. Com certeza. Óbvio. Não há como fugir do diagnóstico onipresente escrito em minha testa, como uma marca de Caim: eu sou uma aberração.

SEM-PERNAS: - Nem melhor e nem pior, diferente. E isso é tanto que você nem pode imaginar. Aprenda a gostar de si, aprenda a gostar de cada segundo que passa para assim o tempo também respeitar você. Aprenda a construir, além de apenas pensar e ler.

- Obrigado, Capitão da Areia. Não esperava ouvir palavras estimulantes vindas de você.

SEM-PERNAS [piscando os olhos]: - Digamos que um monstro sente o cheiro de outro monstro, o conhece e respeita.


- A solução é óbvia: lutar e engolir o orgulho. Continuar perto, o que mais é justo eu pedir?  E tentar evitar vomitar quando vê-la com ele.

DIANA: - Não consigo me lembrar se você me contou que teve febre alta depois do nosso primeiro beijo.

- Ela conhece muita gente interessante e eu preciso conhecer gente. Ela conhece muita gente e isso pode me ajudar na fotografia.

DIANA: - Pragmatismo que você não teve comigo. Será que com ela você vai ter?

- Vou colocar meu coração no freezer: ter apenas casos e se tiver uma namorada, traí-la até com a mãe dela!

DIANA: - A promessa que todo romântico machucado diz no dia seguinte e que nunca consegue cumprir. Bom dia, Aldrin.

- Bom dia, Diana. Ainda lendo Fernando Pessoa e trabalhando com engenharia aeronáutica em Padre Paraíso?

DIANA: - As escolas do Brasil nos ensinam física nuclear, mas as ruas só tem trabalho para vendedores de lojas e servidores públicos enjaulados em escritórios. Eu ainda sonho e isso é o voo que desejo. E o Fernando é companhia querida sempre presente.

- Eu te chamei, do fundo da minha memória, porque estou com medo que nossa história seja igual ao dessa história agora.

DIANA: - Ela não é, se isto te aflige. Mas é bom lembrar que amor é entrega gratuita e engolir muita situação que mata aos poucos nosso orgulho.

- Mas não totalmente...

DIANA: - Não totalmente. Sem orgulho você não é você.

- O que fazer na próxima semana?

DIANA: - Ir neste teatro que você quer na segunda, procurar os cursos de inglês e culinária. Você só precisa sair mais. Conhecer mais gente. Ei...

- O quê?

DIANA: - Ela é bonita, mas só quer sua amizade mesmo. E você reparou naquela conversa dela com aquela amiga: ela vai aceitar emprego na outra cidade. É inviável. Em todos esses anos de você tentando alguma coisa com ela. Nunca rolou porque não era para rolar mesmo. É inviável.

- É, a palavra exata para nós dois: inviável. Não há como ser mais racional que este diagnóstico.


DIANA: - Não há como ser.

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