Voltaire ajuda

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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

14 a 17 de agosto de 2017.

Não é uma vitória do amadurecimento. Não é uma vitória da desconfiança. Não é uma vitória do tédio, este poderoso bombeiro que apaga todas as nossas chamas internas. E não é uma vitória do esgotamento físico, pois meu peito e meus cotovelos ainda conseguem aguentar muito esse coração que eu tenho.
Não é nada disso. É só uma decisão. É só uma coisa: não vou mais falar dessa minha última decepção amorosa. Essa é a última postagem em que este assunto vai aparecer. Nem devia aparecer, mas por motivos literários e de “terapia informal” eu ainda preciso falar um pouco sobre o assunto.
O que restou de veneno e de desejo reprimido e frustrado eu guardarei para mim. Tomara que isso não vire pesadelos ou úlceras. E nem misoginia.

A postagem no FaceBook era uma piada, meu comentário também era uma piada. Mas a minha “amiga de FaceBook” me mandou fazer terapia ao responder à minha piada. Gosto muito dessa minha “amiga de FaceBook”, mas como eu sempre vivo à flor da pele é comum algumas coisas bobas me morderem forte por dentro e foi este o caso. Mas já passou e esta tudo bem entre nós. E havia uma coincidência: eu tinha começado a fazer terapia no dia anterior.

A segunda-feira começou com eu indo ao psicólogo. Foi a melhor ida ao psicólogo que eu já tive na vida e olhe que sou quase um Woody Allen nessa área. Foi bom porque desta vez foi eu quem quis ir, fui eu quem procurou ajuda. E acho que pela primeira vez eu consegui me explicar direito. Ou pelo menos eu estava com mais autoestima e maturidade para explicar melhor a minha situação.
Gostei do psicólogo, simpatizei com ele. Claro que facilitou a minha fragilidade e o fato dele não ter puxado a minha orelha. Aparentemente eu não preciso tomar aquele remédio contra ansiedade, mas em compensação o acompanhamento deve ser constante: o psicólogo marcou a nova consulta para a próxima semana. É até bom porque aí eu fico mais alerta e produtivo até mesmo para ter o que contar a ele. Estou muito otimista, realmente acho que não sou tão ferrado assim da cabeça.
Nessa consulta aconteceu algo muito importante para mim: eu chorei. Fazia muito tempo que eu não chorava. Não chorei quando me senti traído e rejeitado, não chorei naquela crise no ônibus lotação, não chorei por causa da consulta com o médico de cabeça e seu veneno preto naquela sexta sombria; mas ali eu chorei. E foi bom chorar! A gente fica melhor e fica mais leve quando o choro é justo e aquele choro foi assim. Eu choro fácil e estava com muito medo que tudo que me aconteceu tivesse me travado, tivesse me bloqueado emocionalmente.

Logo após o almoço fui ao posto de saúde levar os resultados dos exames de fezes, urina e sangue. Nada de errado comigo, saúde ok. “Um dos melhores resultados que já vi!”, disse a clínica geral que me atendeu.
Então o que aconteceu no ônibus lotação no dia sete de agosto? Devo ter sentido muita fome porque eu tinha comido pouco e havia muito tempo e minha glicose realmente fez drama, mas a sensação de terror deve ter sido presente da ansiedade que eu sentia desde o início daquela manhã.
Manhã que começou com eu imaginando ela e ele dançando forró, quadril colado com quadril. Esse erotismo não combina com um romântico esfaqueado nas costas? Talvez porque imaginar ela sorrindo para ele como não sorria há tanto tempo para um homem era uma imagem horrível demais até para estar em um pesadelo. O meu inconsciente preza pela razoabilidade!
Os especialistas dizem que o café da manhã é a refeição mais importante do dia e eu digo que é a pior hora para estar em minha casa: assuntos sempre desagradáveis e uma diferença radical de pontos de vistas entre meus pais que me espanta desde que eu era criança e que sempre me faz pensar naquela citação do Antoine de Saint-Exupery. (Bom, acho que fui completo aqui como eu precisava ser e ao mesmo tempo fui bem diplomático).
O que aconteceu naquela segunda foi o estouro de algo que se acumulava: a decepção amorosa que culminou na conversa no restaurante na sexta, o “exorcismo emocional” ao escrever no dia seguinte 5 de agosto de 2017... Tudo acumulando e na segunda-feira finalmente explodiu. A dor física da fome era inédita e era isso que minha ansiedade precisava para me pegar numa crise que era apenas susto, mas que foi suficiente para me despertar.
Se eu fosse mais corajoso, - e engraçado -, eu ligava para ela e contava que a nossa música é “She drives my crazy”, do Fine Young Cannibals; e assim o é oficialmente! Mas eu não sou tão corajoso e tão engraçado assim.

Aqui não é o filme “Casablanca”, nós não teremos sempre Paris. Paris é para os outros. Nós? Nós sempre teremos eu fazendo chá para você naquele sábado perfeito. Ninguém nunca vai fazer um chá tão gostoso como eu fiz para você naquele sábado perfeito. Nunca, esta me entendendo? Nunca! Não sei se isso é uma declaração de amor ou se é uma praga que rogo sobre você, mas é bom nunca se esquecer disso: chá gostoso apenas aquele feito por minhas mãos trêmulas querendo de todo o universo apenas o suficiente para te agradar. E não adianta você reclamar porque nada que esteja sob o céu pode mudar o que foi dito aqui!
(O texto acima, que eu sei; esta piegas e uma *****; é trecho de outro texto, antigo e que não vou publicar. Usei-o porquê de repente me ocorreu que ele pode servir como um bom encerramento. Ou melhor: o encerramento do assunto.).
Opa, opa.
Ainda falta um detalhe. É mais estético-técnico do que romântico ou espiritual. Mas ele tem valor e merece ser registrado aqui. E também porque como animal humano eu gosto/preciso/é inevitável dar significado às coisas que acontecem.
Seguinte. Quando nos conversamos por telefone e ela me contou que no forró vegetariano ela tinha conhecido “um cara”, a ligação pelo celular estava péssima. Os telefonemas nossos sempre eram de boa qualidade, mas naquela vez a ligação estava muito muito ruim. Então foi assim:
... XXXXX....ZZZZ...SHIII....BSZ... BSZ... Eu não saía há muito tempo... Bzzzzz... Chi..... ZZZZZZZZ... Eu conheci... BZZZZSSS... uma pessoa... XXXXX.... SSSSSHHHIIII.... ZZZ.....
Eu não sei se vou conseguir explicar. Bom, só se começa a aprender a escrever quando se aprende que palavras nunca são suficientes. Mas vamos tentar.
Não foi culpa dela, não foi culpa minha, da Embratel ou das tempestades solares, e nem o Buda sabia se o karma é pessoal ou não; mas é que esse zumbido todo durante a ligação entre celulares deu um certo ar de banalidade e pequenez a uma coisa que bateu em mim de uma maneira nada pequena e banal. Esse zumbido deu uma marca única a esta dor. Vocês me entendem? Não sei se me explico bem. Não sei. Não, não, a questão não é se aquela informação devia ou não devia ter sido dada cara a cara, não é essa a questão aqui. A questão é que houve o zumbido e esse zumbido esta presente na marca que ficou em meu coração. Pronto, acho que agora finalmente expliquei direito. 
Pronto. (*)

De tarde fui à academia de ginástica e musculação fazer a avaliação física. Uma semana após a data da primeira marcação, pois tinham desmarcado a anterior. Cheguei antes da doutora e fiquei andando pela academia. Estava acanhado no meio daqueles atletas e meio oprimido por aquela música eletrônica que estava tocando, mas estava decidido a fazer aquilo tudo me ajudar. Então, de repente, comecei a gostar da música e de todo aquele pessoal mais forte que eu.

Foi uma segunda-feira maravilhosa. Gostei bastante dela. Por causa de um problema financeiro, vou ter que esperar apenas mês que vem para poder entrar na academia.

A terça-feira já não foi tão produtiva assim. A única coisa fabulosa para ser registrada aqui foi eu ter ido à prefeitura de Rio Acima tentar vender algumas fotos minhas da prefeita. Mas não deu certo. Preciso fazer um documento e blá blá. Coisa oficial e tal. Caramba, eu só queria entregar o CD com as fotos gravadas e ganhar algum dinheiro para eu me convencer que eu tenho alguma coisa de adulto em mim!

Na quarta-feira tive compromisso em Belo Horizonte. De Rio Acima a Nova Gameleira, sabem o que é isso? De ônibus! Ônibus de novo! Senti um pouco de ansiedade forte no café da manhã, mas deu tudo certo. E assim como naquela terça-feira, meu ato de coragem não teve “pódio de chegada e nem beijo de namorada”.
Fui ver o apertamento da família. Uma lata de sardinha com armários destruídos e paredes brancas cheirando a tinta fresca, apenas. Mas no meio daquele vazio e dos restos de reformas havia também um sonho querendo realizar-se.
Um fotógrafo solitário lutando para pagar contas e escrevendo um blog que é o seu escândalo inocente e analgésico. O que pode ter de impossível nisso, Brasil real? Merda, eu vou conseguir!

Quinta-feira. O que fiz quinta-feira? Bizarro: eu já esqueci? Ah, lembrei: salvei a poupança da família e consegui imprimir as minhas fotos em “fine art”!
Ligaram para minha mãe. Vejam só como ela é distraída: ganhou um super prêmio e ela nem sabia que estava concorrendo a um prêmio! Oh, oh! Parece preconceito, mas pelo tom de voz já dava para saber que era golpe. E era jovem demais e a linguagem não combinava com um técnico da Caixa Econômica Federal. E que história é essa de dizer que se ela não quisesse o prêmio o dinheiro ia ficar com o atendente que estava telefonando para ela? Esses caras revisam o texto que escrevem? Parece que nas penitenciárias tem celular, mas não tem folhas de rascunho para os presos.
Mas a minha mãe quase caiu no golpe. Minha mãe tem ensino superior completo e conseguiu o diploma numa época que isso para os pobres no Brasil era realmente um milagre. E minha mãe é uma mulher experiente. Mas a natureza humana, mas a quantidade de sonhos frustrados que há em nossa casa... Foi uma luta convencer a minha mãe que aquilo era um golpe. Uma luta. Tive que discutir feio com ela muitas e muitas vezes. O trem todo durou um pouco mais de duas horas.
- Mas ele não pediu nenhuma informação pessoal para mim!
- Pelas informações que ele te deu, você não teria como pegar o prêmio, então você teria que ligar para ele de volta. E nessa hora ele iria pedir mais informações para você. E para ter certeza que você não perderia o número dele, o desgraçado ligou para você duas vezes em menos de meia hora. Vê se alguém do governo vai ligar para casa de alguém duas vezes em menos de meia hora insistindo que a pessoa precisa receber um premio! Governo não dá, governo tira.
De noite eu vivi um momento histórico na vida de fotógrafo. Venci a minha velha impressora e as manhas da fotografia digital: depois de anos de luta, eu consegui imprimir as minhas fotografias com um resultado fiel ao que vejo no monitor do computador. Demorei tempo demais porque sou burro e solitário. O segredo era lembrar que eu podia diminuir o contraste e aumentar o brilho também e não, como eu sempre fazia, só aumentar mais o brilho e depois aumentar um pouquinho o contraste. É que a impressora sempre escurece a foto, então você tenta calcular o quanto ela vai escurecer a foto e tenta clarear na medida certa. Para compensar, entendem?

** Folheando e folheando Memórias, Sonhos e Reflexões, do C. G. Jung, eu encontrei este trecho. Como foi durante a escrita justamente daquele trecho do meu texto, achei que era muita coincidência. Então até por coerência achei legal colocar aquilo. Que os budistas não fiquem aborrecidos comigo. E nem com o Carlos Gustavo Jung!

[Antigamente era comum traduzir nomes estrangeiros quando havia correspondência em português. Descobri isso porque muitos livros que eu tenho são velhos, comprados em sebos. Eu às vezes me lembro de respeitar esse esquecido costume que acho divertido e simpático quando escrevo.]

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

14 de agosto de 2017.

Domingo, dia 6 de agosto de 2017. Foi um dia bom, gostoso. Eu ficava pensando no texto 5 de agosto de 2017. Em cada frase, em cada fala completa dos personagens e nas reações possíveis dos leitores em cada momento de suas leituras. Adorava pensar nessas coisas, orgulhoso que estava de ter escrito um texto bom. Um dos melhores que já escrevi. É raro eu ficar orgulhoso de mim assim. A felicidade só não era completa porque eu não tinha com quem compartilha-la e porque eu tinha me esquecido de fazer meu Iago destruir uma coisa importante: o chá. Naquele sábado perfeito eu fiz chá para ela duas vezes e achei aquilo a coisa mais linda e importante do mundo! Era para o meu Iago ter destruído isso também, mas esqueci. Fico confiando em minha memória e no instinto que na hora vai dar conta do recado e aí acontece isso na hora de digitar meus textos no computador. Tenho que andar com uma agenda ou algumas folhas de rascunhos para anotar tudo aquilo que me ocorre de criativo nas letras. Autores profissionais fazem isso, não? Tenho que ser mais profissional.
E por que eu escrevi 5 de agosto de 2017? Porque eu não queria morrer, se eu tivesse deixado para escrever aquele texto no dia seguinte um câncer espontâneo teria me levado. Se eu escrevi aquilo como vingança, para machucá-la? Pois é, aqui a coisa fica complicada. Queria machucá-la sim, mas mais importante que isso: queria que ela soubesse que eu era capaz disso. Avisar que sim, eu estava machucado e sim, eu também sabia machucar! O importante era avisar que em mim havia egoísmo, violência e obscenidade, e não apenas sensibilidade, delicadeza e uma carência infinita. Ela achava que eu era um fraco e eu tinha provado que sabia morder. Obviamente que ela não pensava isso, mas a minha dor tinha me tornado bastante cego. Mas era triste essa agressividade sim, pois não sou agressivo. Mas minha dor tinha colocado as coisas desse jeito: Lei de Talião pela metade, pois pelo menos ela tem com quem se consolar; ele; e eu tenho ninguém. Isso tudo parece adolescente e aborrecente a vocês? Bom, o que fazer? Não vou repetir um texto como aquele nunca mais.
Ah, eu quase me esqueci de um detalhe fundamental aqui. É óbvio que essa agressividade do texto era um reflexo torto do meu desejo por ela. Ora, se eu gostava dela e até achava que o que nós tínhamos se transformaria rapidamente em amor eterno, eu não deveria preocupar-me com o futuro: machucada, ela não iria se afastar de mim? Mas o texto 5 de agosto de 2017 era também um ultimato: olha é assim do lado de cá e pronto; agora é a sua vez garota. E eu também achava; e aqui mais uma vez o aborrecente e o carente reaparecem com força total; que como eu tinha me colocado tão completamente e tão verdadeiramente no texto que não havia possibilidade outra senão essa: ter dó de mim, pois se eu a machucava, também era verdade que eu estava me machucando ainda mais. Minha sinceridade visceral despertaria sorrisos cúmplices nos leitores e isso me salvaria no julgamento final do texto. É o que acho, mas é claro que não tenho controle sobre quem me lê.

Em 5 de agosto de 2017 eu consegui imitar Shakespeare de maneira digna e por um motivo improvável: eu brinquei com Shakespeare. E só pude fazer isso porque eu não tive medo do talento dele. Muita gente trata o Bardo Inglês como se ele fosse Deus e um Deus chato, aí realmente não da para brincar. E, principalmente, não da para se aproximar e criar. Eis todo o “segredo” do trem.

É difícil pensar em tudo e, estando apaixonado, não se pode esperar muita lucidez mesmo da gente. Bom, vamos ver o que o calendário pode nos dizer sobre esta última decepção amorosa minha.
Quando foi o sábado perfeito? Quando foi o forró vegetariano? E quando foi a sexta em que conversamos pessoalmente pela última vez? A matemática é implacável: três meses do primeiro ao último evento, sendo que o forró esta quase exatamente no meio deles. Três meses sem se ver! Três meses, p****! Três meses! Onde eu estava com a cabeça? Como podia achar que ela estava me dando esperanças? Como eu fui patético.
E o meu Otelo de 5 de agosto de 2017 estava correto, não teria sido uma boa ideia eu ter ido àquele forró vegetariano. Ela nunca gostou de mim para ser namorado e era óbvio que naquele forró eu iria ver coisas desagradáveis.

Mas eu gostava dela? O Amor... O Amor exige tanto da gente! Por exemplo, eu tenho certeza que ela e o cara do forró vão ficar juntos para todo o sempre. Como posso ter certeza disso? E isso não é uma maneira de fugir e desistir? E mais, se fosse amor verdadeiro eu não deveria aceitar ser apenas amigo e vê-la sorrindo para ele pelo resto de minha vida? Ah... Mas isso eu não consigo fazer. Sou orgulhoso demais. E meu afastamento não deixa de ser uma confissão de sentimento. Talvez não tão heroico, mas é alguma coisa.
Merda. Merda. Não sei amar. Alguém sabe? Alguém? Alguém me ensina? Já sei a parte da dor, falta saber viver a outra parte, a parte agradável do Amor.
Mas o que eu sentia por ela? Pergunta ferrada que não me deixa em paz. Temos deveres, mas também temos direitos. Ok, Amor exige sacrifícios e que a gente mande o nosso orgulho e o nosso egoísmo para a putaquepariu. Ok, ok, mas e a parte dos direitos? Qual o direito que eu teria se eu a amasse de verdade? De confessar meu amor? De dar um jeito de sempre ficar perto dela? Tem alguma coisa errada aqui. Algo me escapa. O que é? Não posso esperar que ela ficasse sempre ao meu lado. E confessar meu amor mudaria as coisas drasticamente. Hum, me parece que no Amor nós não temos direitos, mas apenas deveres. Amar verdadeiramente seria privilégio suficiente, não precisando de qualquer outra coisa a mais. Ah, me lembrei de algo: o espaço! Quando se ama se quer ficar perto, mas... Mas também quer que se fique livre! Então é só uma questão de saber se a pessoa amada esta feliz. Se eu sei que a pessoa amada esta feliz, não é covardia a gente se afastar. Não seria abandono.
OVÍDIO: - Mas se mais uma pessoa que a ama esta perto não seria ainda melhor para ela?
ERIC FROMM: - Quanto mais gente que nos ama nós tivermos por perto, melhor...
Ah, seus bando de fedazunha! Quem convidou vocês?

WESLEY SAFADÃO: - Aqui, eu acredito que você tem que dar um tempo sabe? Ficar ai mais na sua, cuidando de si. Esperar a poeira baixar... O mundo dá voltas! E foi muito inteligente de sua parte deixar em aberto, sem conclusão, um texto sobre o Amor. Nunca se pode mesmo dizer tudo sobre o Amor. É um desses assuntos inesgotáveis!
Por Júpiter, até o Wesley Safadão apareceu aqui para me dar conselhos!

Naquela noite no restaurante apareceu uma amiga dela. Meio francesa ou francesa mesmo. Acho que ela tentou bancar a cupido. Atitude inteligente: salva o coração do amigo apaixonado aqui ao mesmo tempo em que o manteria por perto... Mulheres! Sempre mais profissionais no mundo do Amor que nós, homens!
Mas não deu certo, eu tinha que sair. Estava machucado demais e não tinha onde dormir naquela noite em Belo Horizonte.
Devia ter ficado. Aquela francesa era deslumbrante e parecia mesmo muito inteligente. Conversar com ela e quem sabe ganhar pelo menos um beijinho! Merda! Sempre me acontece algo! Por que o Amor me odeia? O Amor credita que nada tenho a oferecer?

Naquela segunda-feira dia 7, decidi entrar em uma academia de ginástica e musculação. Eu quero ficar gostoso. Do jeito que eu sou franzino, eu tenho que pedir desculpas às mulheres. Devia ter feito isso há mais de 15 anos. Bom, o tempo meu sou eu mesmo quem faço.

Naquela noite no restaurante com ela, eu fui fotógrafo como nunca antes eu tinha sido. Fiz um truque de profissional!
Explico. Eu não estava conseguindo me abrir com ela, não conseguia sequer olhar para ela. Magoado, se ela entrasse em meus olhos a hemorragia interna ficaria ainda mais aguda em mim. As palavras, sempre sempre insuficientes, não saiam de minha boca. 
Então me lembrei da minha câmera fotográfica. Usei-a como máscara: coloquei a câmera em frente ao meu rosto e confessei meu amor. E tirei fotos das reações dela enquanto ouvia tudo. Falei de um jeito bobo para que ela sorrisse mesmo, mas sei que ela sabia que aquilo era sincero. O resultado final são oito das melhores fotos que já tirei em toda minha vida.
Por questões de privacidade, não quero atrapalhar o namoro dela com o senhor peeeeerfeição, não posso publicar as fotos em meu FaceBook. Mas por favor, quem estiver me lendo, acredite em mim: as fotos ficaram lindas. Acreditem! Por favor, acreditem!

Hoje é o dia que marquei para fazer um exame físico na academia. Tenho que fazer isso antes de “entrar” na academia, propriamente dita. Sou tímido e academia me inspira certo “ar de colégio”. Mas acho que ali ninguém vai se importar comigo. E não tem problema todo mundo ali ser atlético, eu estou no caminho e isto basta para mim. Não tenho pressa, mas vou ser bem militar no plano de exercícios que praticarei.

Falei em minha timidez. Naquele momento de desespero no ônibus lotação “3838 Rio Acima – Belo Horizonte”, naquela segunda dia 7 de agosto, eu estava morrendo de fome. Meu café da manhã tinha sido um pão com maionese quase três horas antes. Eu tinha perdido o ônibus das 8 e das 9 e tinha acabado de comer quase a 7 e meia. Atrás de mim havia uma mulher comendo uns salgadinhos. Olhei para ela umas cinco vezes, mas preferia desmaiar a parecer tão ridículo em pedir uns salgadinhos.

E eu tinha mais medo de desmaiar do que morrer. Tudo bem morrer, eu nunca tive medo de Deus, apesar do que a minha família e a Igreja me ensinaram, mas desmaiar era outra história. Se eu desmaiasse, eu iria acordar onde e como? Não queria desmaiar de jeito nenhum!

Naquela segunda eu vivi momentos de terror bem barra pesada e estava sozinho. Muito sozinho. Talvez alguém aconselhasse uma crença religiosa ou algo do tipo para aliviar momentos como esses no futuro. Pois é, eu não tenho religião e em casos assim eu tento ser otimista quanto ao futuro e tento pensar em coisas boas. É a alternativa que tenho. Nem sempre funciona. Naquele dia no ônibus lotação não funcionou. Não conseguia pensar em coisas boas. O que me salvou foi o fim da indecisão interna minha. Percebi que aquilo tudo não era frescura minha. Decidi que daria o sinal, desceria, acharia um lugar para comer algo e matar aquela fome lancinante e voltaria para Rio Acima para ir ao hospital público e etc. E foi o que fiz e foi o que aconteceu.
Mas mesmo uma crença em Deus não seria muito útil, pois se Deus existe é o Deus imaginado por Espinosa e pelos estoicos. Um Deus a qual não adianta muito orar pedindo ajuda. O máximo que você pode fazer é orar agradecendo, pois Ele já nos deu tudo que precisamos para ser feliz aqui: a nossa força de vontade e irmãos ao nosso redor. Claro que nem sempre somos fortes o suficiente e, num mundo governando por falsos valores, nem sempre podemos chamar estranhos de “irmãos” e nem mesmo nós mesmos nos comportamos de acordo com isso muitas vezes.


Espero não passar pelo que passei no ônibus lotação, mas isso não é algo que eu possa garantir. Aliás, nem sei o que aconteceu. Falei em “glicose fazendo drama” porque foi o que a médica plantonista falou para mim no hospital e mesmo ela não tem certeza. Só vou mandar as amostras de fezes e urina no dia 16 e sei lá quando os resultados virão e depois ainda tem que marcar no posto de saúde uma consulta com a clínica geral. O que dá um ou dois dias de espera. Mas mesmo assim tenho certeza que antes do fim do mês já estarei mais tranquilo. 

domingo, 13 de agosto de 2017

7 e 11 de agosto de 2017.

Deveria usar uma metáfora espiritual como “Maya tirou o seu véu sobre os meus olhos” ou “Moisés voltando para os hebreus depois de seus anos de formação no deserto”, mas sabem como é: sou apenas eu, o Aldrin! Foi apenas a minha glicose fazendo drama no ônibus lotação “3838 Rio Acima – Belo Horizonte”. Mas alguma coisa que começou em 1997 terminou nesta segunda-feira, dia sete de agosto de 2017. Se não é assim, assim vai ser; decidido pela medida da coisa que aconteceu: eu mesmo!

Ainda estão aí? O aforismo acima foi mesmo feito para prender a atenção. Agora que vocês decidiram continuar a ler, eu vou tentar ser mais exato. Mas é difícil, a coisa toda é grande e pequena ao mesmo tempo, dramática e simples: eu vejo as cores do mesmo jeito que antes e continuo basicamente ainda a mesma marmota de antes. Mas estou mais atento e concentrado. Compreendi a natureza da minha solidão e percebi, ao mesmo tempo, como eu sou igual às outras pessoas e não inferior e exilado. Mas o mais importante: eu venci sozinho uma situação difícil e estou usando isso como a rocha fundadora para aprender amar aquele homem que vejo todo dia no espelho. Se vou conseguir? Isso é um problema meu e acho que vou sim. Uma segunda-feira única de uma semana única.

Mas confesso que é decepcionante num momento seminal como esse, que realmente pode mudar tudo para sempre, você verificar que sua vida tem elementos de filme da “Sessão da Tarde” da Globo.
O médico de cabeça que procurei por causa da minha ansiedade, na sexta, depois de uma consulta de meia hora, me indicou um trem que só de pensar me causa arrepio, humilhação e mais ansiedade: agora que finalmente despertei, você quer que durma ou vire zumbi? Bom, você pode ser um doutor e eu mais um anônimo com defeito de fabricação falando as mesmas coisas que o senhor ouve o dia inteiro; mas eu tenho uma vantagem nesta situação que o senhor não tem: sou eu eu que estou mais perto de mim! Preciso de ajuda, mas eu já fui um jornalista especialista em toxicomania na faculdade então afaste de mim esse trem! Vamos procurar outros métodos, eu sei que isso é possível. Qual é a insinuação? Que eu vou me matar; que eu vou virar um mendigo? É isso? Me digam, é isso? É? Ainda vão me deixar livre para dizer que isso não vai acontecer?
Nesse mesmo dia da consulta, que me deixou chocado e triste como nunca eu estive em toda minha vida, eu voltei a pé para casa. Quase uma hora de caminhada sob o sol de meio dia. Durante todo o percurso eu sempre estive a ponto de ter que parar para me desmanchar em lágrimas, pois imaginava que agora teria que policiar todas as minhas atitudes e falas pois agora eu teria que desconfiar de mim mesmo e ficava imaginando o que as pessoas diziam de mim pelas minhas costas e pela primeira vez senti o peso de meus 34 anos em flashes internos e violentos; mas a luz do sol me esquentava e fazia de mim uma planta que, eu sei, nunca entregaria uma luta desse jeito. Muito obrigado, Sol! Mas muito obrigado, mesmo!
Quando cheguei à minha casa eu contei tudo para meu pai e perguntei a ele se ele acreditava que eu poderia morar e vencer em Belo Horizonte. Como tentei antes, anos atrás. A resposta de meu pai foi muito encorajadora, para minha surpresa, mas o seu estilo continua o de sempre: lógico e distante. Mas se a resposta de meu pai foi perfeita, ele se esqueceu de um detalhe importante para mim: ele não conseguiu olhar nos meus olhos enquanto dizia que acreditava no próprio filho. Valeu o esforço, pai! Eu sei que custou muito ao senhor gastar assim tão indignamente aquelas palavras todas. Ainda bem que eu não perguntei ao meu pai sobre amor! Minha mãe, por sua vez, ficou explodindo em nervos durante todo o dia. “Minha mãe é a emoção e meu pai é a razão, e eu sou o quê?” Não conseguia responder essa pergunta quando eu era criança, mas agora acho que sei a resposta. Albert Camus namorava o absurdo, eu danço com a angústia e apenas tenho que evitar que ela pise muito em meu pé durante esta minha festa.
Então que coisa mais barata e clichê nós temos aqui: ninguém acredita no herói! Há anos atrás era exatamente o contrário. Bom, paciência! Os filmes da “Sessão da Tarde” não terminam bem?

O ponto nefrálgico é que estou começando o jogo “do zero” e ao mesmo tempo eu não estou. Vou ter que administrar essas duas dimensões e heranças em minha caminhada. Como se faz isso? Mais dança para eu participar.

Decidi tentar voltar a Belo Horizonte por mim, mas também decidi voltar a Belo Horizonte por ela. Eu devo isso a ela!
Como explico? É coisa de homem. Difícil de explicar. Mesmo que a gente nunca seja amigos ou namorados no futuro, - já aceitei essa hipótese -, ela precisa saber que eu não sou fraco. Pelo menos isso ela precisa saber! Que eu não sou um “eterno filho”. Só isso. Só saber disso. Que esta passagem sua em minha vida não foi gratuita e que ela me inspirou coisas boas. Mandei uma mensagem de celular para ela falando sobre isso. Agradecendo a ela a inspiração. A gente terminou, mas pelo menos assim a gente terminou bem. Um bom futuro para todos nós, então!

Mandei essa mensagem de celular na terça-feira, ou seja: o dia seguinte àquela segunda-feira. Nesta terça eu fui corajoso como nunca.
Mas isso fica para a próxima postagem. Na próxima postagem, também, vou contar que no dia 6 de agosto eu descobri que sou escritor. Então além de ganhar dinheiro com fotos eu posso também fazer algum serviço como redator.

Vocês ainda estão aí? Se alguém aí estiver precisando escrever alguma coisa importante ou estiver precisando de uma sessão de fotos, tem profissional novo na praça. E eu cobro barato! Mas se a cliente for mulher linda, não pode me tratar bem. Sou carente e me apaixono fácil.
MARQUÊS DE SADE: - E na verdade, nem te tratar mal...

Ah, é... Esqueci! Vixe, então deixa pra lá! 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

5 de agosto de 2017 Post scriptum

Ars gratia artis ou o desesperado desejo de ser amado por todos e todas? Censurei uma parte do meu texto 5 de agosto de 2017. Não ia fazer, mas no último minuto resolvi. Ia deixa-lo como está e a razão estaria no “não irei apagá-lo, mas nunca mais escreverei algo assim”. Mas resolvi censurar uma parte dele. Belo Horizonte é “um ovo”, como diziam meus colegas da faculdade ao fazer referência ao fato de que a capital de Minas Gerais é efetivamente uma cidade do interior onde todo mundo se conhece.

Vai ter texto novo aqui em breve. Como sempre as palavras, frases e marcas interiores estão dançando entre si e se reproduzindo em meu interior. Aí é como sempre: eu sento em frente ao computador e o trem acontece. Espero que o texto seja bom.

sábado, 5 de agosto de 2017

5 de agosto de 2017.

Vontade de chorar, mas eu não choro. Vontade de vomitar, mas eu não vomito. Até para combinar com essa maldita e antiga história: eu fico no quase. Então escrevo para que pelo menos as palavras nasçam e eu tenha alguma coisa para mim!
Estou assim o dia inteiro. Sensação ruim. Estômago pesado. Desgosto. Desgosto. Desgosto profundo. Desgosto. Mágoa. Raiva.

É melhor que caminhar vazio.

Amanhã será um novo dia
certamente eu vou ser mais feliz.

All day, all day
When you look around
you wonder
Do you play to win?
Or are you just a bad loser?

E foi assim: eu telefonava, eu escrevia sempre a mesma coisa: “posso ir à reunião do (****censurado****)?” ou “eu tiro fotos e faço vídeos, se o (****censurado****) precisar...”. (****censurado****) é o grupo de apoio aos moradores em situação de risco social em vilas e favelas, grupo político onde ela milita há vários anos. E ela sempre me respondia a mesma coisa: “obrigada, mas ainda não”.
Eu queria fazer daquele sábado perfeito um mês perfeito, um ano perfeito... Aí na única vez que ela me convida para alguma coisa, eu não vou. Passo mal; sinto ansiedade e fico com raiva dela e dou um “gelo” por causa dessa coisa do (****censurado****) e do grupo de estudos marxista que ela não deixa eu participar. O convite era para um forró vegetariano. Adivinha o que ela me conta, toda inocente há apenas uns dois dias atrás? Que nesse forró vegetariano ela “conheceu um cara”.
Ah!


- A culpa é minha. Eu não podia falhar. Eu falhei, eu cometi um erro...

DESDÊMONA: - Você não errou, e isso te machuca. Ela não errou e isso também te machuca. Você não estava errado, e isso te machuca. Ela também não estava errada, e isso também te machuca. Acontece, aconteceu. Você sabe a verdade e o que fazer. É sinal de amadurecimento que você sinta mágoa e não raiva.

- Eu deveria ter ido àquele maldito forró vegetariano...

OTELO: - A vida é dura por muitos motivos, que o tempo seja indomável é apenas um deles. Quem te garante que se você tivesse ido ao forró teria sido melhor? Talvez você a visse dançando com ele, os dois se beijando... Como saber quais batalhas eu deveria ter perdido ou ganho para tornar-me o general vencedor que eu sou hoje? Não se lamente pelo passado, abrace o futuro.

- É difícil esquecer os sinais, todos aqueles detalhes do sábado perfeito...

IAGO: - Ela te deu esperanças, para o cara do forró ela deu muuuuito mais... HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ!

OTELO: - Chegou quem não foi convidado!

IAGO: - Para falar aquilo que você e Desdêmona não conseguem falar! Daquilo que vem das profundezas, daquilo que tem a cor, o cheiro por ser feito de sangue e entranhas! [Olhando dentro de meus olhos] A sabedoria de Otelo e a compaixão de Desdêmona são tão profundas quanto uma piscina infantil. Palavras que soam bonitas aos ouvidos, mas não atingem o peito. Agora é a vez de Iago!

- Fale.

IAGO: - Você quer?

DESDÊMONA: - Por que você o chama? Por que você quer ouvi-lo?

- A dor é real. Pelo menos isso vindo dela é real.

IAGO: - Um jogo não é a melhor e a mais divertida maneira de uma criança conhecer uma outra criança? Ah, os jogos! Os jogos! Muita sinceridade é insuportável, devemos agradecer aos jogos da sedução entre homens e mulheres! As mulheres... A fraqueza torna necessária a mentira e a dissimulação, o jogar a isca para conhecer o pescador... Ela te conheceu apenas ontem, na mesa do restaurante e não antes.

OTELO: - Pare! Isso é apenas preconceito contra as mulheres, rancor se passando por conhecimento da alma humana! Não deixe que Iago continue!

- Continue; Iago.

IAGO: - Bom, sabemos que ela estava “na seca” há muito tempo...

- E daí?

IAGO: - E daí que ela deve ter dado gooooostoooooso para ele! Na primeira vez, então? Imagine! Imagine!

- Imagino.

IAGO: - E como será que ela geme na hora? Héin? Como será que ela geme para ele? Com aquela cara docinha... Ela é (****censurado****), não é? Aquela cara docinha, aquela cara de professora, aquele jeito de professora, aquele cabelo de professora... De professora de interior. Aquela voz tão doce... Ah, ela gemendo! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! Para ele! Abraçada forte cada vez mais, umedecendo o ouvido dele de tão perto que a sua boca estava! Imagine! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ!

- Mais.

OTELO: - Você não precisa disto. Vai construir o que com tudo isso?

- Mais, Iago!

IAGO: - Apenas sigo ordens! O Otelo falou antes sobre o tempo. Hum, o tempo. Tempo, tempo...

- O que tem o tempo?

IAGO: - Quanto tempo demorou para ela abrir as pernas para ele? Héin? Três sorrisos, duas piadas, alguns minutos de mãos dadas e a calcinha já estava perdida... E o que você tirou dela? O que você ganhou com a história de vocês dois? Um beijo na bochecha depois de um show de dança na UFMG? HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ! Mais doce que o mel no deserto é este animal traiçoeiro chamado mulher querendo ser amiga depois! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ!

- Já pode parar, Iago. Já ouvi o suficiente. Já estou contaminado o suficiente, já posso fazer sozinho. Confundir prazer com dor e imaginar ele beijando a ponta daqueles seios pequenos, apertando forte e atravessando aquele quadril tão magro até ela dizer o que escreveu para mim naquela apostila: “T.Q.M Te Quiero Mucho”. E ela repetindo isso para ele, como naquelas cenas de sexo caricatas dos piores filmes de comédia: “Te quiero!, te quiero!, te quiero!...” E a cama e meu coração, depois, arrebentadas.

DESDÊMONA: - Não é jogo porque não há vencedores ou perdedores. Há aqui apenas pessoas livres. Encontros e desencontros, pois a vida é rica e variada e é esta a sua graça.

OTELO: - Derrota? Então encare como derrota. Esta vendo estas cicatrizes em meu braço direito? Derrotas são fundamentais, uma derrota bem compreendida é sinônimo de dez vitórias impossíveis e consecutivas. A derrota é uma cicatriz bonita e as dificuldades estimulam os fortes. E cada segundo é um renascimento.


- É tentador demais, em uma situação como essa, eu deixar de olhar-me no espelho. Olhar-me no espelho e sentir vergonha e raiva. E inveja. A pergunta de um bilhão de euros: que ele tem que eu não tenho? Mora sozinho; tem carro e um emprego de verdade. Com certeza. Óbvio. Não há como fugir do diagnóstico onipresente escrito em minha testa, como uma marca de Caim: eu sou uma aberração.

SEM-PERNAS: - Nem melhor e nem pior, diferente. E isso é tanto que você nem pode imaginar. Aprenda a gostar de si, aprenda a gostar de cada segundo que passa para assim o tempo também respeitar você. Aprenda a construir, além de apenas pensar e ler.

- Obrigado, Capitão da Areia. Não esperava ouvir palavras estimulantes vindas de você.

SEM-PERNAS [piscando os olhos]: - Digamos que um monstro sente o cheiro de outro monstro, o conhece e respeita.


- A solução é óbvia: lutar e engolir o orgulho. Continuar perto, o que mais é justo eu pedir?  E tentar evitar vomitar quando vê-la com ele.

DIANA: - Não consigo me lembrar se você me contou que teve febre alta depois do nosso primeiro beijo.

- Ela conhece muita gente interessante e eu preciso conhecer gente. Ela conhece muita gente e isso pode me ajudar na fotografia.

DIANA: - Pragmatismo que você não teve comigo. Será que com ela você vai ter?

- Vou colocar meu coração no freezer: ter apenas casos e se tiver uma namorada, traí-la até com a mãe dela!

DIANA: - A promessa que todo romântico machucado diz no dia seguinte e que nunca consegue cumprir. Bom dia, Aldrin.

- Bom dia, Diana. Ainda lendo Fernando Pessoa e trabalhando com engenharia aeronáutica em Padre Paraíso?

DIANA: - As escolas do Brasil nos ensinam física nuclear, mas as ruas só tem trabalho para vendedores de lojas e servidores públicos enjaulados em escritórios. Eu ainda sonho e isso é o voo que desejo. E o Fernando é companhia querida sempre presente.

- Eu te chamei, do fundo da minha memória, porque estou com medo que nossa história seja igual ao dessa história agora.

DIANA: - Ela não é, se isto te aflige. Mas é bom lembrar que amor é entrega gratuita e engolir muita situação que mata aos poucos nosso orgulho.

- Mas não totalmente...

DIANA: - Não totalmente. Sem orgulho você não é você.

- O que fazer na próxima semana?

DIANA: - Ir neste teatro que você quer na segunda, procurar os cursos de inglês e culinária. Você só precisa sair mais. Conhecer mais gente. Ei...

- O quê?

DIANA: - Ela é bonita, mas só quer sua amizade mesmo. E você reparou naquela conversa dela com aquela amiga: ela vai aceitar emprego na outra cidade. É inviável. Em todos esses anos de você tentando alguma coisa com ela. Nunca rolou porque não era para rolar mesmo. É inviável.

- É, a palavra exata para nós dois: inviável. Não há como ser mais racional que este diagnóstico.


DIANA: - Não há como ser.