Voltaire ajuda

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domingo, 2 de julho de 2017

2 de julho de 2017.

DESDÊMONA: - Se ela tivesse te dado um beijo você seria dela para sempre, é este o ponto?

- Sou romântico, não castrado.

DESDÊMONA: - A culpa deve ser minha! Falo javanês? Nem Otelo e nem você. Ninguém me escuta!

- O que foi?

DESDÊMONA: - Não foi isso que perguntei. Perguntei o que ela deveria ter feito naquele sábado. Ela, ela, não você, você! Me diga o que ela deveria ter feito no sábado que você mesmo disse que fora perfeito.

- Eu não sei! Eu não sei! Mil vezes eu não sei! Sei que aquele sábado era perfeito e agora não é mais!

DESDÊMONA: - E por que não é mais? Aniversário é para ser algo alegre, mas você esta se envenenando. E é há assim já faz mais de uma semana! Derramou tudo apenas no dia do seu aniversário. Você esta olhando para trás e ficando cego e amargo. E esta piorando a cada segundo. O que esta acontecendo em seu íntimo?

IAGO: - Damas da noite podem ajudar homens a aguentar os jogos das moças de família, sabiam? Ajuda a ter paciência. Apaga o fogo, equilibra a alma. Ajuda a gente a tratar bem as donzelas.

DESDÊMONA: - Quem convidou você para esta conversa, demônio?

IAGO: - Pergunta ao autor deste blog!

- Eu sei nada! E sei menos a cada segundo que passa. E não sei onde estou neste diálogo. A única coisa que sei é a raiva, o espinho e a minha carne que geme. Então eu apenas escrevo e escrevo e não sei como colocar um ponto final. Tenho nada, tenho nada, apenas este verbo: escrever e escrever.

IAGO: - Desdê você me empresta aquele seu bonito lenço bordado?

DESDÊMONA: - Cachorro!

IAGO: - Ora, vamos ser honestos! A garota acha que ele vai comer ela e depois vai pular pela janela e sair voando. Ela conhece ele há anos e se pensa assim é sinal que ela não é exatamente flor que se cheire.

DESDÊMONA: - Ela tem o direito de pensar e de sentir o que quiser e nós não temos como ter certeza de qual é o verdadeiro caso aqui. E mesmo que você esteja correto, é um receio legítimo e que provavelmente tem uma origem triste e...

IAGO: - Sim, sim, é a velha e velha história: a culpa é do ex!

DESDÊMONA: - A assombrar o presente e apagar todos os futuros sentimentais, sim! Se for este o caso, se for este o caso. Talvez não seja este o caso.

- Que outro caso seria?

DESDÊMONA: - Talvez ela queira amizade! Ser amiga!

IAGO: - Ah, claro! Amizade!

DESDÊMONA: - Isso é pouco? Me digam vocês dois se isso é pouco! É pouco amizade? Pergunto enquanto lembram quantos já nos disseram que amizade é mais generosa que o amor.

IAGO: - Senhoras e senhores, o espetáculo da honestidade feminina! Quer dizer que quando ele telefonou há meses atrás, depois de tantos anos de afastamento, era apenas para uma amizade a mais?

DESDÊMONA: - E qual seria o problema? Amizade, curiosidade? Nunca se conheceram direito mesmo. Começar do zero! Curiosidade, amizade.

 - Curiosidade sim. Sim, eu concordo! Eu sou mesmo uma atração de circo! Concordo!

IAGO: - HÁHÁ!HÁÁÁHÁ! HÁ!!

DESDÊMONA: - Não se faça de vítima, não se faça de inocente! Você foi atrás de outras garotas, antes dela. Você sabe, ela sabe. O que você acha que ela pensou? “Nossa, ele me ama tanto que me telefonou depois de tantos anos de agonia muda! Já não aguentava mais e aí teve que telefonar!” Ou: “Ele fracassou com todas, agora vai comigo”. Você se colocou no lugar dela? Você tentou se colocar no lugar dela? Você pelo menos sabe que pode se colocar no lugar dela?

ALEXANDER PORTNOY: - Todo mundo pega todo mundo hoje em dia, custava dar uns amassos pelo menos? Ia traumatizar? Ficaram quase dois dias juntos, pô!

DESDÊMONA: - Eu não acredito que você trouxe ELE para a nossa conversa! Eu simplesmente não acredito! Já não basta Iago venenoso? Agora ele também? Ele, ele!

- Os livros mais importantes são O Meu Pé de Laranja Lima e O Pequeno Príncipe. Mas é ele o personagem de ficção com a qual eu mais me identifico.

DESDÊMONA: - O personagem de ficção com a qual você mais se identifica é um pervertido egocêntrico?

IAGO: - Isso esta ficando cada vez melhor! Ela nunca ira te perdoar e você vai continuar onde sempre esteve, mas pelo menos um texto bom nasceu! Um brinde à metalinguagem! Um brinde ao sacrifício artístico!

ALEXANDER PORTNOY: - E aí, já bateu uma hoje? Já? E quantas vezes? Me preocupa, pois é sinal de velhice serem sempre as mesmas mulheres com as quais você tem sonhos eróticos. A roqueira mais velha com sorriso de luz, a sempre simpática magrinha de óculos, a bela mulata de lábios invencíveis, as duas ruivas que o inferno lhe deu de presente e esta...

- A última vez que bati uma foi pensando nela. A última vez...

FREUD: - O charuto é poderoso! Você sabe que não vai ser a sua última vez!

- A última vez que bati uma foi pensando nela. A última vez... A última vez! Isso não é romântico?

ALEXANDER PORTNOY: - Ah, mas com certeza! Muito romântico! Romântico demais! Apenas pergunto como você vai contar isso para ela!

IAGO: - Rá! Boa, boa...

ALEXANDER PORTNOY: - E não foi?

DESDÊMONA: - Este diálogo esta ficando non sense. Mais verdadeiro, mas mais non sense também. Vamos parar antes que o time do Monty Python suba ao palco.




REI MIDAS: - Dizem que você é inteligente...

- É o que dizem...

REI MIDAS: - Então deve saber que eu quase morri de fome quando eu quis que tudo que eu tocasse virasse ouro. Você sabe aonde eu quero chegar, não é? Se escrever sobre tudo aqui neste seu diário ...

- O que eu tenho; Midas? Nada, nada! Eu escrevo, eu peço, por favor, para me dizerem que eu existo; eu escrevo, eu explodo por dentro e por fora, eu escrevo, eu grito antes do fim, eu escrevo, eu deixo uma mensagem na parede suja do banheiro da rodoviária, eu escrevo, eu pergunto se há alguém a me responder...






- Quero entregar meu coração a ela ou ela é apenas o único motivo que encontrei forte o bastante para mudar a minha vida? Sei que apenas eu posso me salvar, mas...?
- Ela estava certa eu não ter me dado um beijo. Ela sabe. Todas sabem. As mulheres sempre sabem. Eu enjoo, sofro de tédio. Nada garantiria que eu iria continuar. De mãos dadas ou sem as mãos dadas, dividindo ou não o copo de Milk-shake cruzando o nosso olhar como nos filmes românticos, eu já não saberia por que telefonar de novo. Ficar por ali, pois depois de um ponto nada de bonito há para conhecer em mim. Tenho nada. Tenho nada. Absolutamente nada! Nada, nada, nada e nada!




- Não é a garota, Otelo. Sou eu. Estou mal, general.

OTELO: - O que passa?

- Um aperto na garganta. Uma ansiedade indefinida, um horizonte nublado e uma vontade de morrer. Mas não posso morrer num lugar que já esta morto. Eu só poderia cortar meus pulsos se estivesse em uma bonita praia do nordeste, aí seria algo! Aqui, não. Aqui tudo já esta morto. Eu mesmo já estou morto aqui. Teria que me mudar, sair daqui para poder pelo menos morrer. Nem morrer aqui é possível. Eu vejo alguns funcionários públicos daqui andando pela rua: eles fazem nada e ganham tudo, mas não os invejo. Realmente não os invejo. O tempo é precioso, não pode ser gastado em vão. E é tão fácil gastá-lo em vão! Todas as pessoas e todas as ocasiões levam a você gastar o tempo em vão! Eis os sonhos que me deram quando criança! Estou ficando sem saída. Sem alternativa. A minha bússola interna sumiu. Onde esta a minha bússola interna, Otelo?

OTELO: - A sua bússola sempre foi o seu coração. Quando libertei a Etiópia, tive que tomar as decisões mais difíceis e pedia aos deuses que eu fosse tão firme quanto as rochas gigantes do litoral africano. Anos e anos e o mar poderoso não destruía aquelas rochas. Fique firme.

- Firme e frio. Ficar frio, tratar os outros como objetos que se movem, falam e nos dão sustos as vezes? Crueldade! Uma dúvida! Eu sou um fantasma ou são as pessoas nas ruas é que são fantasmas?

OTELO: - Bom, pelo menos eu sei que sou um fantasma! (risos)

- (risos)

-  Eu precisava rir um pouco, obrigado. Meu humor é roleta russa. Na sexta terrível, penso que não morri porque o Windows Media Player tocou “Equinoxe V”, de Jean Michel Jarre, e “Brimful of Asha”, do CornerShop. Não é fabuloso ter os critérios que eu tenho?

OTELO: - Você precisa mudar.

HENRY DAVID THOREAU: - Todo dia é uma segunda chance. Feche os olhos e se concentre. Tudo tudo que você precisa você já tem.

- Com 34 anos eu já queimei todos os meus navios na praia. O único caminho é sair da areia e mergulhar na densa floresta em minha frente. Carregando o que tenho, sem perguntar se são virtudes ou vícios.


OTELO: - Você sabe o que acontece no final, o final é o retorno ao mar; então apenas rasgue a floresta para lembrar à ilha que você esteve ali. 

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