Voltaire ajuda

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domingo, 16 de julho de 2017

16 de julho de 2017.

A gente se mede pelos inimigos que enfrenta ou, numa fórmula mais diplomática, pelas batalhas que decide viver. Parece que foi Platão quem nos ensinou isso. Bom, aí é que esta: eu sou grande ou eu sou pequeno?

E sou ansioso. Sou ansioso então eu fico rangendo os meus dentes. Então fico rangendo os meus dentes e isso faz a minha cabeça doer. A dentista uma vez disse que neste ritmo aos 50 anos eu vou estar banguela. Fizeram para mim uma proteção para os dentes, uma coisa parecida com os que lutadores de boxe usam. Qual é o nome desse trem? Sei lá. Fizeram para mim. De vez enquanto uso.

Um convite de última hora. Ansiedade e pessimismo remexendo o lodo do meu rio interno: medo, medo, medo e medo. Onde eu arranjei tanto medo? Onde arranjei essa preferência em me torturar por fantasmas do futuro? Eu não fui a única criança a assistir as vídeocassetada do Faustão no domingo a noite. Eu não fui a única criança com uma mãe e uma avó materna que tinham tanta preferência e gosto por histórias macabras. E um pai que terminava tudo que dizia com um mortal “esta bom, mas e se”. Não sou o único que fica com sentimento de medo e ódio quando assiste aos programas policiais da Record e Bandeirantes.
As cordas da minha harpa interna ainda estão na garantia? Alô, PROCON: troco meu lirismo de meia tigela desses textos meus por sussurros em meu ouvido a dizer: vai dar tudo certo, vai dar tudo certo, vai dar tudo certo, vai dar tudo certo!
(A metáfora da harpa veio a mim pelas mãos de James Joyce em Dublinenses. Por alguma manha da memória, os dois trechos favoritos deste livro nunca se perderam dentro de mim. Sempre que preciso deles eles vem rapidinho ficar na ponta de minha língua a falar e na ponta de meus dedos a digitar, para serem derramados para fora. E olha que faz uns dez anos que li este livro.
Então, já que estamos aí. E é tão chique fazer citações! Me achando um Mario Sérgio Cortella ou um Leandro Karnal da vida! Só que sem a grana que eles recebem para fazer palestras e sem a plateia achando tudo inteligente e engraçado [um pouquinho mais engraçado, do que inteligente, devo confessar baixinho já que eu gosto desses dois...].
Então, já que estamos por aqui.
“Mas o meu corpo era uma harpa cujas cordas vibravam às suas palavras e gestos.”
E
“A fortuna que eu tinha
Impossível contar
E de um nome ilustre
Eu podia me orgulhar
Mas também sonhei
O que mais me agradou
Que teu amor por mim
Nunca mudou”
Dublinenses é um livro de contos de James Joyce. É um grande livro de Joyce e o elogio mais sedutor para quem nunca o leu é este: é um livro de James Joyce e é um livro normal. Recomendo muito. Podem ler sem medo. A única coisa que estranhei quando li este livro é que os contos pareciam terminar de forma abrupta, meio que no susto e choque. Meu conto favorito é o Um Caso Doloroso.)

Olhe o tamanho do último parêntese que usei no último aforismo. Me lembrei de uma professora da faculdade de jornalismo especialista em texto de revistas, a (***censurado***):
- Aldrin, este texto seu tem muitos parêntese e parênteses muitos longos. Isso é ruim, pois o texto fica “fechado”.
(risos)
Gostava dessa professora. E ela ficava muito mais bonita quando prendia o cabelo ao estilo “rabo de cavalo”.
E por falar em puxões de orelhas em textos e salas de aula. Agora desta vez estamos no colégio. Há mais de duas décadas. A professora:
- “Hoje em dia” é nome de jornal. Não usem ou evitem usar esta expressão nas redações.
Quando eu ouvia isso, eu tinha vontade de protestar aos gritos:
- As palavras são de todo mundo! Por causa de uns donos de jornal eu estou proibido de usar uma expressão? Isso é ridículo!
Mas eu nunca falei isso. Eu só comecei a falar o que eu penso muito, muito tempo depois.

Meus aforismos ficaram melhores e nascem mais rápidos depois que eu parei da dar títulos a eles.
Por quê?
Tem alguma coisa haver com liberdade, provavelmente. Mas liberdade em relação a quê?

GURU NANAK: - O que veio fazer aqui na Índia?
- Estou procurando.
GURU NANAK: - Procurando o quê?
- Não sei. Só sei que o que procuro eu poderia encontrar no bairro onde moro. Mas sabe como é; mergulhar no sagrado rio Ganges é mais cinematográfico.
GURU NANAK: - Ocidental muito engraçadinho! Se aquilo que procura sempre esteve no seu bairro, então ele esta invisível a você agora. Para deixar de ser invisível você precisa mudar. Aqui...
- O que?
GURU NANAK: - Quando você terminar a saída e o retorno necessário, não se esqueça de levar estes cartões postais.

Box Coleção Ditadura – Elio Gaspari.
Box Em Busca do Tempo Perdido – Marcel Proust.
Mas realmente eu não tenho um pingo de vergonha na cara. Imagino como eu seria com sapatos se fosse mulher!
SIMONE BEAVOIR: - Aldrin... Aldrin...
Desculpa, Simone. Sei que fui machista. Desculpa, isso não vai se repetir.
Folheando o quinto volume da grande obra de Gaspari:
“No governo do estado havia um novo personagem, Paulo Maluf, disposto a mostrar a que vinha, e seu secretário de Segurança argumentava: “O espancamento às vezes é uma atitude enérgica, mas não tem nada de exagerado”. [16]”
“16. Declaração do secretário de Segurança Octávio Gonzaga Jr., Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo, 18 de março de 1979.”
5. A DITADURA ACABADA – Elio Gaspari. (Editora Intrínseca, Rio de Janeiro, RJ, 2016, página 143).
Onde nós estamos em 2017? O Brasil mudou bastante, como podemos ver.
Sobre Proust não há o que dizer de surpreendente: uma das três mais importantes obras de ficção do século XX, lido e estudado no mundo todo desde que veio ao público pela primeira vez. Proust foi tão vitorioso e influente que sou capaz de achar que os sete romances que compõem Em Busca do Tempo Perdido não são tão revolucionários assim; porque, naturalmente, depois de Proust todo mundo começou a escrever como Proust. (Obviamente não é exatamente isso, mas o espírito do trem é esse, vocês me entendem?).

Aí eu aproveito que estou torrando dinheiro mesmo na livraria e compro um Paulo Mendes Campos bem baratinho. R$14,90. Leio algumas páginas e uma daquelas imagens categóricas minhas caem:
- Uai, eu acho que o Paulo Mendes Campos é o parente literário mais próximo que eu tenho?

Entre Franz Kafka e Paulo Mendes Campos existe uma marmota voadora de cabeça para baixo. Eu!

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