Voltaire ajuda

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domingo, 2 de abril de 2017

Um instante para Kant.

UM INSTANTE PARA KANT
Uma “amiga de FaceBook” pediu ajuda sobre um livro de Kant. O livro em questão eu não li, mas apaixonado por filosofia desde 1999 eu acumulei bastante material. E isso inclui muita coisa sobre Kant e o livro em questão.

O problema é que a “amiga de FaceBook” pediu ajuda muito em cima da hora, mas acho que da tempo. Não deu para “pedir ajuda” a História da Filosofia, de Reale e Antiseri; pois as suas mais de cem páginas dedicadas ao filósofo alemão priorizam as suas três críticas e acaba assim “espalhando” a análise da A Razão dentro dos Limites da Simples Razão em vários subcapítulos que pelos títulos eu não conseguia perceber se eram úteis à questão aqui. Vai mesmo História da Filosofia, de Will Durant, que tem um ótimo subcapítulo sobre o livro em questão e História da Filosofia, de Bryan Magee, que resume Kant de maneira rápida e completa.

Publico o que vou mandar por e-mail à essa “amiga de FaceBook”, pois é útil. Kant, ao lado de Platão e Aristóteles, forma o grande trio da filosofia.

Para o ensaio A Religião dentro dos Limites da Simples Razão
HISTORIA DA FILOSOFIA – Will Durant (Abril Cultural, São Paulo, SP, 2000)
- Sobre o ensaio A Religião dentro dos Limites da Simples Razão: Com todo o respeito às três Críticas, este é talvez o texto mais corajoso de Kant.

- A religião não deve ter como base a lógica da razão teórica, mas sim a prática do senso moral. Ou seja: as religiões devem ser julgadas pelo que elas acrescentam de valor á moralidade da sociedade. Pelo que elas podem ajudar as pessoas a se comportarem bem, pelo modo como podem ajudar as pessoas a se desenvolverem.
Por outro lado, as religiões não podem ser juízes de um código moral.

- Um líder religioso é muito importante, mas não pode substituir um presidente ou um rei. Isso aconteceu várias vezes durante a história e o resultado foram mil seitas e mil guerras religiosas.

- Testemunhos de milagres devem ser respeitados, mas não se pode confiar no testemunho dos envolvidos. Aqui a paixão domina e não podemos nos esquecer disso. Entendemos que uma pessoa deseje orar pedindo ajuda, mas temos que ter cabeça fria para compreender que uma oração não consegue ir contra as leis naturais que fazem parte da experiência.

Para um resumo da filosofia de Kant
HISTÓRIA DA FILOSOFIA – Bryan Magee (Edições Loyola, São Paulo, SP, 1999)
- Qual o limite do conhecimento humano? Antes de Kant este limite não estava bem esclarecido. A maioria dos filósofos acreditava que não havia mesmo um limite. Tudo que existia era possível que fosse conhecido pelo homem.
Kant diz que não é bem assim. O nosso corpo, nossos cinco sentidos, nosso celebro, tudo isso impõe limites ao que podemos conhecer. Podemos conhecer muito menos de tudo aquilo que existe, muito menos.

- Então podemos dividir a realidade total em aquilo que os humanos podem conhecer e aquilo que nunca poderemos conhecer, justamente por sermos humanos. Ocorre que a diferença entre esses dois mundos não era o que se pensava antes. Eles são ainda mais radicalmente diferentes do que se pensava. A coisa em si não é a representação desta mesma coisa, e apenas a representação desta mesma coisa é que temos algum acesso.

- O mundo dos fenômenos é o “nosso mundo”, é onde vemos as estrelas e sentimos o calor de uma xícara de café. Aqui temos as experiências que nos são possíveis.
O mundo numênico é o mundo das “coisas em si”, e não nos é acessível.

- O nosso mundo, o mundo dos fenômenos, não é um mundo louco. Há ordem aqui: leis matemáticas, leis da física... Qual é a estrutura de nossa experiência? Como podemos ter acesso à experiência de ver uma estrela de sentir o cheiro de uma rosa? Como é a “rede humana” pela qual podemos “pescar” aquilo que afinal podemos conhecer?
Esta “rede” é o espaço-tempo, a causalidade, as famosas categorias do entendimento identificadas por Kant. O que não se encaixa nessas categorias não nos é possível conhecer, é como se não existisse. Mas é claro que podem existir. Apenas não temos como saber. Como Deus e as almas imortais.

- Então neste nosso mundo podemos conhecer. Temos a ciência a nos ajudar. Mas neste nosso mundo existe um objeto material especial, algo meio complicado: nós mesmos. O nosso corpo é um objeto material. Como é possível o livre-arbítrio em um mundo que obedece as leis científicas?

- Kant acreditava que sim, temos livre-arbítrio. E isso era algo que podia ser demonstrado de uma maneira direta: pela ausência de uma pessoa que realmente acredite no determinismo aplicado a seres humanos.
Quem realmente acredita que não é livre? Se não existe livre-arbítrio, como uma pessoa poderia reclamar de um ladrão ou como poderia se arrepender de uma atitude triste ou ficar feliz diante de uma atitude generosa? Simplesmente não teria opção, agiu porque tinha que agir assim e pronto.
Mas não é assim. Sabemos intimamente que não é assim, sabemos intimamente que temos sim livre-arbítrio.

- Mas o livre-arbítrio não é contraditório com as leis deste nosso mundo fenomenológico, as leis científicas? É que a origem de nossos atos livres não é desse mundo dos fenômenos e sim no mundo numênico, aquela parte da realidade total que não temos acesso.
Mas como é possível o mundo numênico se manifeste por meio de nossas escolhas livres aqui no mundo humano dos fenômenos? É uma questão que Kant tentou responder mas não conseguiu muito e ainda esta em aberto. O seu grande seguidor Arthur Schopenhauer fez grandes avanços nesta área.

- Somos humanos e vimos que nossas decisões tem uma origem que transcende a experiência possível. Isso pode sugerir certa anarquia na moralidade, mas não é bem assim. Moralidade é para pessoas racionais e mais, a moralidade não é algo determinado por gostos individuais. Há uma universalidade aqui, há uma racionalidade aqui que impera a todos. E também intimamente acreditamos nisso, ou então não faria sentido querer convencer alguém por meio de argumentos. Uma razão que seja válida tem que ser universalmente válida.
Assim como na ciência existem leis que são universais, na moralidade também tem leis cuja aplicação é universal. Se é certo para mim, tem que ser certo para qualquer outra pessoa na mesma posição.
Estamos prontos para compreender o famoso imperativo categórico de Kant: “Age apenas segundo máximas que tu também queres que sejam leis universais”.

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