Voltaire ajuda

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domingo, 19 de março de 2017

19 de março de 2017.

Preço
Eu, assim como quem esta me lendo, tenho preço. Não sei exatamente qual é este preço, mas por motivo de heroísmo infantil espero que ele seja alto. Mas isso nunca é algo que a gente saiba a priori, é sempre algo que você sabe a posteriori: ou seja, depois que faz merda e o demônio aparece para levar a tua alma. E para piorar essa merda feita não é nem a merda mais importante e sim algo bem anterior e que você nem percebe. Tipo bola de neve, vocês entendem? Você nunca vende sua alma de uma vez só, é aos poucos e a atitude errada primordial é sempre algo bem bem bem beeeem bobinho.
- Mande essas fotos no máximo de tarde. Preciso mandar elas para a Vale.
A questão do patrocínio e tal. Não vou entrar em detalhes.
Ora bolas, já não basta eu tirar as fotos de graça elas vão ser mandadas para ajudar a trazer os abutres da Vale a Rio Acima? Nem por um jantar com a bela atriz Johann Carlo! Não mesmo! Os abutres já estão sobrevoando e irão pousar, eu sei, mas não vai ser com algum “sim” de minha parte. Sei que sou um fã marmota do Lúcio Flávio Pinto, mas ainda tenho um pouco de amor próprio.

A Fofinha de Vermelho
Não sei se é falta de opção, não sei se é saudade ou se é apenas “canteiros”, do Fagner; mas o fato é que agora fiquei pensando na minha antiga fofinha-psicóloga-ruiva-que-gostava-de-usar-aqueles-óculos-preto-gigante-tipo-Bono-Vox-e-que-me-deu-o-mais-dolorido-pé-na-bunda-que-já-levei.
Já faz uns dois anos que tudo quase-começou e terminou-terminou. Bom, espero que ela esteja bem. Mas o que isso adianta? Bom, de qualquer forma pelo menos isso. Que ela esteja bem.

Entrevista: Milton Almeida dos Santos
O MUNDO NÃO EXISTE – Avesso às teorias que exaltam a globalização da sociedade moderna, o laureado geógrafo baiano alerta para o que chama de corrupção do saber Por Dorrit Harazim (Veja, 16 de novembro de 1994)
Milton Santos é um orgulho para o Brasil. O certo seria eu transcrever a entrevista inteira, mas eu tenho medo da assessoria jurídica da Veja e uma simples transcrição não teria efeito didático sobre mim. É melhor eu esquematizar tudo que foi dito e misturar com observações minhas.
Apenas cito um trecho de Dorrit Harazim, pois ela é um dos principais nomes da história do jornalismo brasileiro no século XX e seu texto é valoroso.
“Sobretudo, mistura em aula o que chama de “fofocas da Geografia” com citações de um “pessoal alfabetizado”, como Schumpeter, Durkheim, Voltaire, Vico, Ricardo, Descartes e muito Marx. Ensina que, de forma intrusa, o geógrafo deveria ser também um pouco filósofo e despeja vinhetas de conhecimentos que soam inúteis para o currículo, mas lhe dão enorme prazer. Exemplo: “Vocês sabiam que a língua suaílie, por ter uma construção semelhante ao alemão, permite a criação de novos vocábulos para designar todo tipo de modernidade sem recorrer a anglicismos?” Não, não sabiam.”
Notas minhas:

- Parece que as aulas de Geografia do Milton Santos seria uma mistura engajada e ainda mais inteligente de Leandro Karnal, Mario Sérgio Cortella e Clóvis de Barros Filho. Com a vantagem de que Milton, ao contrário dos citados, não tem a obrigação de arrancar sempre meia dúzia de sorrisos.

- Dos autores citados o único totalmente desconhecido para mim é esse tal de Schumpeter. Schumpeter, Schumpeter... Schumpeter, meu filho, quem és tu????

- Milton Santos é brasileiro e ganhou o mais celebrado prêmio da geografia mundial: o Vautrin Lud. É; essas coisas acontecem.

- Geografia por buscar reunir e sintetizar o máximo possível; economia, cultura e etc.; acaba sendo assim uma parenta próxima da Filosofia que também busca a grande síntese. O chato é que as respostas lineares da Geografia não agradam o nosso mundo apressado e esquematizado tão porcamente.

- Geografia ganhou muito ao querer ser ciência, mas errou ao achar que para isso era necessário virar as costas para a poesia e a filosofia. Agora é o momento de pedir desculpas a essas duas.

- O coração é a região. E qual é o conceito de região hoje? O conceito errado: região como algo estável. Região não é algo estável.

- Produção é algo específico de determinado lugar. Você não produz a mesma coisa, da mesma maneira, e tem a mesma receptividade indiferente do lugar em que esta. Não, não! A vista na janela e o chão que pisa é alguma coisa. É preciso pensar nos territórios brasileiros para pensar no Brasil como um todo. Getúlio, Golbery conseguiram esse detalhe, pelo menos; e não muitos outros políticos brasileiros.

- O ponto de partida é sempre local, então cuidado para não se perder neste bonitinho e ilusório conceito de “aldeia global”. O ponto de partida é sempre local.

- Valores locais, certo? Ainda sabemos que é isso? Se não sabemos vamos continuar como estamos: achando que cidadão é sinônimo de “consumidor” e “usuário”. Nós queremos ser cidadãos ativos, certo?

- Cidadania doente é igual a essas migrações desesperadas. E aí os vizinhos viram inimigos nesta guerra que é o consumir por consumir. E os símbolos nascem antes da hora e sem o seu  conteúdo comunitário e espiritual, apesar de toda a sua rápida difusão além das fronteiras.

- Milton Santos ao falar da Bahia e da urbanização louca do Brasil a partir dos anos de 1950 mistura ternura e crítica violenta. Uau, eu queria fazer isso sem o risco de soar hipócrita e estéril. Devia citar a resposta dele para servir de modelo, mas não vou.

- Na Europa as pessoas consomem, mas criticam também. No Brasil a classe média aceita sem criticar; e não estamos falando de reclamar de preços e/ou do mau atendimento. Estamos falando de cuidar das economias, da poupança da família. De criticar produtos que surgem impostos à comunidade local. Frequentemente na timeline do FaceBook aparecem mensagens dizendo para a gente incentivar e comprar produtos de produtores locais.
O pessoal compra qualquer coisa só pelo preço e utilidade e acaba diminuindo o seu valor como cidadão e consumidor também. Tem que pesar em longo prazo e se dar algum respeito.

- Os Estados Unidos é a regra e não a exceção nesta história complicada de consumidor-cidadão por causa da defesa que conseguem fazer do poder do local. O patriotismo a legislação que coloca o estadunidense e o lugar em que vivem em primeiro lugar.
Quem mandava nas nossas pequenas cidades no passado? O cara da fazenda, lá longe. Lá longe, entenderam? Compromisso compromisso mesmo não havia.

- Mas existem flores. Parece que a tolerância pelo saber mais complexo, multidisciplinar esta aumentando. É bom, muito bom isso. Nada de mundo tão fragmentado e de silêncios entre as suas partes.

- A classe média enriqueceu, mas os pobres não acompanharam e daí que as cidades ficam sendo feitas apenas para uma parte de seus moradores. Quer construir um viaduto e as desapropriações são violentas e com indenizações baratas para quem morava nas casas precárias. Centros de compras e empregos longe da periferia. Subsídios para as montadoras de automóveis e transporte público péssimo, depois vem com aquela conversa mole que pobre comprando carro zero é o paraíso e tal. Todo mundo parado no congestionamento respirando diesel é paraíso?

- A esquerda fala muita besteira, mas não podemos relaxar: o abandono social é real e esta crescendo. Não podemos relaxar mesmo quando a oferta de emprego cresce e tudo parece legal. Não, não, o caminho é longo para o Brasil.

- O campo é mais frágil que a cidade, daí que uma cidade interiorana pode virar facilmente uma produtora de laranja. Todo mundo plantando laranja com tecnologia de fora e tal. Na cidade isso não acontece, não é assim. Há mais diversidade, há mais resistência ao nivelamento imposto pelo capital novo. Acaba que há mais futuro nas cidades do que no campo.
Agora é interessante imaginar que há mais futuro nas cidades do que no campo, quando o agronegócio brasileiro bate recordes de lucro impressionando mundo inteiro e dizendo a plenos pulmões que “o futuro do Brasil esta no campo”. O modelo de campo deles, a ideia deles de ocupação do campo. Ninguém fala “o futuro do Brasil esta no campo” dando as mãos para o pequeno produtor rural, não é?

- Não é para ter pobres, mas a existência deles acaba sendo um drama criador de mudanças: o pobre é menos acomodado quanto à ideia predominante de cidadão-consumidor e é mais fiel ao seu passado autóctone, ao contrário da classe média que sofre, mas vive melhor economicamente falando e acaba relaxando quanto a sua própria dignidade. Não é para a classe média apenas sonhar em ter duas geladeiras, é para ela sonhar em ter duas geladeiras visto que a sua família vai crescer em um mundo mais justo por ter valores melhores. Não é comprar por comprar duas geladeiras, pô!

- Muito cuidado com as estatísticas! Não são “apenas” os critérios usados que podem ficar engessados no tempo e espaço, mas toda a filosofia do trem: misturar todos os dados em um super-gráfico mais confunde do que esclarece. É bem menos do que uma ilustração. Precisamos de estatística, claro, mas é tão sedutor ficar apenas nos números!

- Você tem muito dinheiro, mas é pobre; basta para isso não participar das tecnologias que fazem o mundo atual. Não é “obrigatório” ter internet, mas é que não basta o dinheiro. Tem que participar. Não participar da caminhada da sociedade é também ser pobre.

- O acadêmico tem mesmo que sair na televisão e no radio e na internet e etc.; mas tem que continuar sendo acadêmico! Entenderam? Continuar sendo acadêmico! O sujeito se ofusca com os holofotes e acaba se transformando em um empregado informal da televisão! Pode isso? Não pode. Assim como não pode uma ala das ciências sociais orientar a sua pesquisa pela popularidade.

- Minha presença num lugar me dá características que seriam outras se eu mudasse de lugar. Pelo fato de ocupar um espaço e não outro; é nesse lugar que exerço meu quinhão de história geral. É isso que a geografia deve buscar entender para superar sua danação e ultrapassar seu dualismo e sua ambiguidade. – Milton Santos.

Nobreza esquecida, mas que esta lá
Quantas vezes fiquei bravo com o meu pai por ter me dado o nome de Aldrin, em vez de um nome mais simples como Paulo ou Matheus?
E quando eu era criança era ainda pior porque “bicho do mato” como eu era, a minha dicção era péssima. Aí juntava tudo: maldade de criança, nome difícil, timidez, aspereza de bicho do mato, dicção ruim, vergonha, raiva dos pais:
- Aldrin!
- Ândriu?
- Não, Aldrin!
- Íldran?
- Aldrin! Aldrin! 
- Andrei?
E aí eu me calava e ficava no canto sozinho, sob os risos dos outros. Como se eu precisasse de motivo para querer ficar isolado no canto.
Por outro lado, me lembrei do detalhe fundamental aqui. Quanta gente rica ou de classe média alta que vocês conhecem que se chama Carlos ou Bianca? E quantos Uéslei ou Aldrin vocês conhecem?
Pois é, era este o detalhe. Era esta a intenção dos pais.
Sacaram?
Ser, logo de cara, único. Bom, pelo menos isso.

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