Voltaire ajuda

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domingo, 12 de fevereiro de 2017

12 de fevereiro de 2017.

Fotógrafo vida loka
Então sim, vamos tirar fotos do casal na cachoeira. A distância era de aproximadamente um metro e meio até onde eu tinha que ir para estar do outro lado. Atravessar o rio em uma parte bem curta em que ele era praticamente um riachinho. Bastava pular algumas pedras.
Minha coordenação motora é uma lástima e minha intimidade com cachoeiras é mínima. Amarelei e amarelei feio, acabei apelando: “vou pisar na água mesmo que é mais firme e ponto!”
A – A profundidade era maior que eu pensava.
B – Com todas aquelas pedras no fundo e um tênis velho, acabei escorregando do mesmo jeito.
E tinha gente na cachoeira naquela hora. Perto de mim duas sereias de biquíni que ficaram preocupadas com o meu estado. Preocupadas e perplexas diante de um fotógrafo molhado e que resmungava alto enquanto subia para o outro lado fazer o seu trabalho:
- Ô, National Geographic! Ô, National Geographic! Ô, National Geographic! Ô, National Geographic! …
Escorreguei mais ou menos e apenas minha calça ficou toda molhada. Minha câmera não caiu na água, mas sofreu um respingo considerável, um “fio grosso” na diagonal de água que também atingiu o flash externo. Mas não estragou. Pobre “Margarida 2.0”, já pegou tanta poeira e chuva! É uma guerreira. Pelo menos ela é.
Agora enquanto escrevo isso é que me ocorreu: devia ter guardado a câmera na bolsa e jogado a mesma do outro lado do rio e só após isso é que eu faria a “travessia heroica”. Imagino quantos erros elementares eu ainda irei cometer. Mas era a minha primeira vez fazendo um serviço fotográfico como aquele, na posse da prefeita e dos vereadores eu era apenas mais um e tinha o conforto e a liberdade do anonimato. Ali era só eu  eu e era bem mais sério. Eu tinha que agradar e estava com a ansiedade apertando o meu pescoço.

Cronologia
A minha mãe tem 14 anos e meu pai 3000, mas eu não sei quantos anos eu tenho.
Minha mãe tem 14 anos, mas ela não é exatamente uma menina. A ingenuidade, a capacidade de falar a coisa errada na hora errada e para a pessoa errada, os planos malucos, o romantismo e o entusiasmo, tudo isso sim; mas ela não é exatamente uma menina. Há nela, ao mesmo tempo, algo que percebe plenamente a tragédia que também existe no ato de viver.
Quando nós três estávamos em casa com dengue teve uma hora, três ou quatro dias após tudo começar, em uma manhã, que minha mãe entrou no meu quarto, pegou uma cadeira e com lágrimas de tristeza nos olhos e sorriso reconfortante nos lábios explicou tudo que eu deveria fazer caso ela morresse. Os documentos e etc., com aquela imparcialidade e didática de quem foi professora a vida inteira. Assim, sem mais nem menos. A coisa toda não durou uns dez minutos e logo logo ela saíra do mesmo modo surpreendente que entrara. Eu não fiquei assustado, pois já estou acostumado com a falta de cerimônia dela para falar desses assuntos “amenos”. Sempre foi assim. Um dia conto aqui sobre as histórias que minha mãe e minha avó materna costumam contar durante lanches ou almoços.
Eu sei que eu deveria ignorar aquelas lágrimas de minha mãe e apenas focar em seu sorriso forçado que tentava me reconfortar, mas eu não consigo: para mim a “cena”, a “coisa”, tem que ser completa. Ou tudo, ou nunca. “Fome de infinito”; me entendem? Mas isso é outra coisa que depois eu conto aqui. Mas onde eu estava? Bom, chega de minha mãe por hoje.
Agora meu pai. Depois de 3 mil aniversários um homem conhece todas as teorias e todas as técnicas, mas acaba, também, ficando com tédio e cansado. E depois de 3 mil anos se ele finalmente decide algo, com certeza não vai mudar assim tão facilmente. Sem desculpas, sem enganos, apenas o adequado aqui nesta condição: a perfeição!
Uma das tarefas as quais meu pai se propôs foi me ensinar que a vida é dura e implacável. Mas pobre pai, a vida não colaborou com ele! Classe media media meeeedia não é exatamente a pobreza e nunca tive doente de verdade, pelo menos a ponto de ter que ficar internado em hospital. Como então ele poderia, sozinho, me ensinar que a vida é dura e implacável? Com os seus julgamentos. Meu pai me julga do mesmo modo, desde que eu era uma criança. Um constância que por toda a minha vida sentirei profundo espanto. E a sinceridade dele? Meu pai não mente; como minha mãe bem sabe nesses mais de 30 anos de casamento e de “este jantar esta bom, você gostou? Foi tão difícil fazê-lo com poucos ingredientes e com o gás querendo acabar a cada instante!” Ah, este amor pela verdade e sinceridade! Quanto de sua empatia ele se viu forçado a abandonar para ser assim? Mas ele decidiu amar assim a verdade  ou ele não teve escolha? Minha mãe também consegue ser grossa várias vezes, mas não é por falta de empatia em relação ao interlocutor, mas apenas por falta de técnica com as palavras.
Agora vem mais um detalhe espetacular (muita coisa em meu pai realmente me impressiona): todo esse lado dele de juiz implacável e sobre-humano é apenas... quando ele fala. É! É isso mesmo: só quando ele fala. Calado, meu pai é comigo o pai mais amoroso, “coruja” que vocês podem imaginar. As caronas que ele me deu e ainda me da hoje, o curso de desenho animado que ele me pagou quando eu era criança! Mas quando ele abria a boca... Oh, desigualdade: ele falhou na parte mais fácil ou eu sou mesmo um ingrato sensível demais?
Eu sei que minha mãe tem 14 anos e que meu pai de 3000 anos, mas eu não sei quantos anos eu tenho.

Vejam só!
“No último fim de semana eu dormi fora de casa.”
“Fiz uma trabalho de fotografia ao cobrir a posse da prefeita e dos vereadores em primeiro de janeiro e até hoje não me pagaram.”
Quem vê o que esta aí em cima deve até pensar que eu estou virando adulto e virando gente.
Mas eu tenho direito de me sentir otimista, não? Adulto, sim senhor!

“Foto.Doc: Rui Mendes”
Acabei de assistir no Canal Arte1. Um minidocumentário de apenas meia hora dedicado a alguma fotógrafa ou fotógrafo.
Olhem só para este homem: aparência desleixada, gestos bruscos e caóticos, o modo de falar, uma postura que seria mais adequada em um churrasco entre amigos dez minutos após abrir o isopor...
Agora olhem as fotos que ele tirou.
As fotos!
Agora olhem o conteúdo de tudo que ele falou em apenas meia hora.
Uma aula magna!
Vai reprisar a noite e no sábado de madrugada. Vou assistir. Vou procurar na internet. E toda vez que o Arte1 reprisar, e eu tenho certeza que eles vão reprisar porque eles vivem reprisando os trem, vou assistir também. Essa coisa de repetir nos canais de TV por assinatura é como o Canal Futura com o filme Medianeras: reprisa sempre e eu sou sempre cúmplice por assistir de novo e de novo.
Eu quero ser um Rui Mendes!

Atualização: os ¨&¨¨&@!!**¨%&# do Arte1 não reprisaram na madrugada de sábado para domingo, como eles tinham programado. Bando de almas sebosas! Ainda bem que assisti a reprise na sexta à noite. 

Debutando
Agora vamos explicar esta história de dormir fora de casa neste último fim de semana. Uma sobrinha minha comemorou os seus 15 anos e meu primo me convidou a tirar as fotos da festa que houve. E com direito a pagamento!
Eu fui. Foi em um clube onde meu primo trabalha e todos ali eram amigos dele, o que incluiu o DJ da festa. Todo mundo me tratou bem, nadei na piscina, comi pra caramba e uma prima me deu uma carona junto com o namorado dela porque o clube é muito longe de Belo Horizonte. Foi bem legal, bem “coisa de gente normal”. Espero não ter deixado uma “impressão de alienígena” nos outros.
Na hora de dormir eu acabei tendo que ir ao dormitório coletivo masculino e não em um dos chalés. O dormitório estava cheio dos amigos de minha sobrinha. Mais de 40 adolescentes!
Acho que havia alguns que eram vizinhos da minha sobrinha, mas não tenho certeza. A maioria era mesmo do colégio dela. Pela aparência dava para perceber que eles eram de origem humilde, o que tornou ironicamente doce ouvir o lamento de um: “pô, agora só sobrou roupa de favelado na mochila para eu vestir!” O problema de ter roupa para nadar, o baile, a dança, a manhã seguinte e ir embora.
Antes do baile eles fizeram uma bagunça tremenda para vestir uma roupa adequada. Um ferro de passar roupa apareceu do nada, enquanto um garoto zoava o outro por este ter trago xampu e condicionador para os cabelos.
Fui esperto por ter conseguido ficar com o lado debaixo do beliche, mas fiquei um pouco preocupado porque o “beliche” não era exatamente um “beliche”: se o pirralho lá de cima tivesse um sono muito agitado eu poderia perder meu pobre nariz. Mas foi mais fácil do que parece, estou fazendo drama porque fica bem na hora de escrever aqui. Quer dizer, mais ou menos, é que também fica bem na fita dizer que foi moleza vencer todo aquele desconforto.

Aranha nova
Uma notícia boa: apareceu uma aranha grande de teia na varanda. Não sei o nome científico dela, é aquela magrela que gosta de guardar comida em uma espécie de reservatório que fica perto dela. É a primeira vez em mais de quinze anos que temos uma aranha grande de teia de volta ao teto da varanda. Lamento apenas que seja esta aranha grande e magrela de cor sóbria e não aquelas aranhas grandes e gordinhas com cores mais vivas. E cujo nome científico eu também não sei. Depois de mais de quinze anos! É realmente uma boa notícia.
(Quinze anos é muito tempo. Quedi os cientistas a explicar? Por exemplo: o mato ao redor da casa continua o mesmo. O mesmo. O que mudou nos últimos tempos foi o clima, o calor infernal o ano inteiro aqui em Rio Acima. O problema é que, apesar de amar as aranhas (nos dois sentidos) eu não sou especialista nelas (nos dois sentidos), me parece que calor e umidade não são inimigos dos aracnídeos. Por que elas sumiram por tantos anos?)

Gente famosa
Aposto com vocês que era mesmo aquele ator do filme Medianeras que eu vi naquele restaurante chique do edifício Maletta, em Belo Horizonte. Foi quando eu fui com uma amiga visitar a exposição do russo Kandinski, na Praça da Liberdade. Janeiro de 2016, para ser exato. E lá na fila da exposição, sem sobre de dúvida, era o jogador Tostão quem eu agora via. Muita gente famosa em um mesmo dia.
Era a segunda vez que via o ex-jogador do Cruzeiro Esporte Clube. A primeira eu era um adolescente e ainda estava no Colégio Santo Agostinho. Tostão fora lá participar de uma palestra. É que nas aulas de português costumávamos estudar as crônicas que o grande centroavante do futebol brasileiro escrevia para a Folha de S. Paulo. A coisa cresceu e o colégio resolveu promover um evento no auditório. Lembro nada da palestra, das crônicas do Tostão e daquelas aulas de português especificamente. A única coisa que me ficou naquele dia aconteceu na plateia e não no palco. Um pai de aluno, na hora de fazer perguntas ao Tostão, fez uma ode tão longa e barroca ao jogador do Cruzeiro que o mesmo até ficou sem graça e agradecido. Isso foi legal e é a única coisa que eu me lembro. O cara falou uns 5 minutos antes de fazer a pergunta, é verdade. Também quero ser elogiado de maneira extravagante por cinco minutos seguidos na hora de alguém me fazer perguntas.

Natureza Humana
Não há uma única aranha, por menor e insignificante que seja que eu ao precisar matá-la não me deixe triste e não me obrigue a fazer uma breve e silenciosa oração pedindo-lhe perdão. É sério, às vezes eu até me agacho e fecho os olhos e tudo; como se eu fosse um índio mesmo antes de ir a uma caçada (a única diferença é que eu faço depois e os índios fazem antes). Pernilongos e moscas, por outro lado eu... Bom, deixa pra lá, pode ter algum psiquiatra forense me lendo. Alguém do CSI Miami, também. Com o gosto do público medíocre como esta, tenho que sempre ter em mente que eu posso fazer sucesso a qualquer instante.

“A condição humana”
Desde que eu descobri a filosofia ainda na adolescência, não há expressão de seu mundo que eu ache mais fascinante e rico de significado que “condição humana”.
O que é a condição humana?
Qual será o futuro da condição humana?
E etc. E etc.
Reali & Antiseri (1de2)
Agora a hora de puxar algumas orelhas nobres.
Eu nunca terminei de ler os três volumes da História da Filosofia de Reali e Antiseri (Paulus, São Paulo, 1990), mas foi por pouco. Eu conheço a obra, li o primeiro volume, mais da metade do segundo e do terceiro volume eu esqueci quantas mordidas ali eu dei. É que antes de terminar o livro eu já tinha começado a ler os filósofos em primeira mão.
Bom, tem um trecho do livro que sempre me deixou bravo. Muito muito bravo. Tem haver com a parcialidade não científica e histórica dos autores diante do cristianismo. Segue o trecho:
“Um erro de fundo dos gregos, para usar as palavras de C. Moeller, esteve no fato de que “procuraram no homem o que só podiam encontrar em Deus. Foi grande o seu erro, mas trata-se do erro das almas nobres”.”
Nobre mais estúpida, não é Moeller? Ora Reali, Antiseri e Moeller, peguem essa sua simpática dicotomia e enfiem no seu #%%%!
Acreditar no humano, sim senhor! O coração humano é um pouquinho mais profundo que o céu estrelado é verdade, mas este pouquinho é muito para mim. E se Deus existe não ficaria aborrecido comigo. Estas pessoas que acreditam que Deus existe e que a comunidade humana é um pouco mais que um zoológico especial para Ele me deixam puto da vida.
O humano em primeiro lugar. O humano em primeiro lugar. Isso acaba sendo ateu e agnóstico na prática e na teoria na maioria das vezes, mas o divino nunca fica aborrecido com isso. Como eu falei: não estamos em um zoológico especial, parados e olhando para cima.

Reali e Antiseri (2de2)
Vamos aproveitar que estamos aqui e puxar mais um pouco as orelhas do Reali e Antiseri em sua História da Filosofia de Reali e Antiseri (Paulus, São Paulo, 1990).
Reali e Antiseri não gostam da dialética no capítulo dedicado a Marx, mas na hora de dizer que até o ateu mais hidrófobo é totalmente cristão sem saber e admitir eles usam e abusam do ideal dialético (o horizonte cristão impossível de superar e de criticar sem obedecer a este mesmo horizonte). Ora bolas, dialética boa é aquela que ajuda o nosso lado é?
Aproveito para apontar outra incoerência. É mais um erro que uma incoerência, na verdade. Nos comentários finais e críticos sobre David Hume; ali Reali e Antiseri não tão indiretamente assim dizem simplesmente que a causalidade é verdade absoluta e pronto! Para uma História da Filosofia este é o tipo de parcialidade que não deve acontecer. Do ponto de vista técnico, eles foram mais agressivo ao agir deste modo com Hume do que ao comentar Lênin, Gramsci e Marx.
A crítica de David Hume à ideia de causalidade talvez seja a opinião mais polêmica da história da filosofia. Mais que a “morte de Deus”, de Hegel e Nietzsche.
Bom, eu sou leitor de Nietzsche e para uma incoerência me incomodar o trem tem que ser muito feio. Então vou deixar estes dois pontos pra lá.
(OBS: a primeira mulher a merecer atenção no livro de mais de 2 mil páginas é... é... É, ela mesma: a Hannah. Ou seja: século XX!!!!)

Querendo ser arranhado e mordido
Estou entrando na página onze do Microsoft Word. Isso vai ficar grande no blog. E aí? Vou publicar assim mesmo. Quero nem saber!
Escutando Marcos Viana e a sua música tema para a novela Pantanal, no modo aleatório do Windows Media Player. Alguém aí do outro lado do monitor lembra da novela Pantanal? 1990? Eu lembro bastante. E levado pela música excepcionalmente gostosa em seu instrumental sou levado a especular:

- Meu gosto pelas mulheres bravas começou ali, com aquela mulher-onça interpretada pela atriz Cristiana Oliveira?