Voltaire ajuda

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domingo, 29 de janeiro de 2017

29 de janeiro de 2017.

Caranguejo
Não acredito nessa coisa de signo, mas é que o perfil do canceriano, com aquela mistura de ternura pura e egoística manipulação, sempre me pareceu atraente. E uma das virtudes de nós cancerianos, pelo menos é o que dizem, é a de possuir uma memória tremenda. E isso eu tenho. Parcial, como toda memória, mas tremenda mesmo assim.
- Eu liguei para casa dele e foi o pai que atendeu. Aí ele me disse: “Por que você não tenta o celulite dele?” rs rs rs ...
Não sou fofoqueiro, não me levem a mal, é que eu não pude deixar de escutar esta fala. Fala esta que tem mais de dez anos e que por causa de uma coincidência eu estou lembrando. Lembrando da fala e de quem a disse. E de tuuuudo mais.
Ah! Que loucura eu tinha por ela! E que inveja eu tinha dos caras que tinham o quadril abraçados por aquelas coxas! Ela gostava de caras mais novos e nas fantasias minhas eu era mais novo e era toda aquela coisa freudiana de “eu vou ser a sua primeira e você vai levar o gosto da minha fenda molhada por tooooda a sua vida!” Ah! Ah!
Mas é deprimente depois de tantas lágrimas, noites em claro e vexames históricos eu ter transformado a coitada em um par de coxas em minhas memórias. Sou a raposa desdenhando o cacho de uvas intocável a mim? Vingança por eu ter me sentido sempre um verme diante da “deusa”? Mas vai ver ela sempre foi uma saia jeans e pernas para mim e eu nunca gostei dela de verdade. Vai ver nem paixão louca era.
DESDÊMONA: - Você não queria ser mais um e acabou sendo menos que um. Devia ter realmente tentado. Apenas tentado. Tanta fantasia e você acabou esquecendo que ambos eram apenas humanos.
OTELO: - O medo, o orgulho, o sentimento de inferioridade, a confusão de sentimentos... Praticamente cometestes todos os erros do livro do Amor!
IAGO: - “A eterna anatomia feminina”, como Will Durant escreveu uma vez! Por que a prostituição é a profissão mais antiga e popular? Teria poupado mais tempo e lágrimas a você. Naquela época e ainda hoje. Considere isso.
OTELO: - Cale-se, verme imprestável! Seus conselhos fedem como um aterro sanitário!

Palavras recicladas
Escrever esta mais difícil agora. Escrevo, apago, escrevo, apago, escrevo, apago, escrevo, apago... Há um prazer na dor de apagar um texto imenso e que demorara tanto para amadurecer...
Dane-se! Não existe este de “apagar”, pois todas as palavras que já convoquei na vida ainda vivem em mim. E até as palavras que ainda não chamei para a festa na página em branco já fizeram de mim o seu lar.

Ilha da Fantasia
Um sonho é viver em uma grande ilha deserta. E ficar dando e dando a volta nela, com areia e água do mar entrando nos dedos de meu pé por ficar o tempo todo percorrendo as suas praias.
Mas já não é este o meu mundo? Já não é isso que eu faço todos os dias?

Paladar
O meu equipamento fotográfico é barato, eu sou tímido e não dirijo. E escolhi ser fotógrafo no auge do “todo mundo pensa que é fotógrafo”, embora eu não reclame muito do fato do mercado estar assim tão saturado. Eu sei que liberdade não é algo ameno e que venha a nós de graça. Tanto é verdade que para mim a câmara mais importante da história não é aquela Leica de 1925 e sim as Brownies do Georg Eastman. É da natureza da fotografia ter esta popularidade louca. Sempre foi assim, então não adianta resmungar e sim afiar as nossasgarras.
Bom, mas onde eu tava? Ah, sim: a minha única boia neste mar revolto de fotógrafos é o bom gosto. Eu tenho um pouco de bom gosto. Tenho que continuar apurando este bom gosto. Os ilustradores de livros, como Maxfield Parrish e Edmund Dulac, os impressionistas, os renascentistas e fotógrafos que me encantam pelas suas fotos e pelo seu profissionalismo e etc, etc... Na verdade a busca por professores é tanta que eu nem saberia dizer quais são as influências favoritas minhas. Não tenho tempo e minha “obra” não esta ainda madura o suficiente para que alguma genealogia em mim seja valiosa para alguém. Então o máximo é dizer o que faço: busco, vejo e inspiro, busco, vejo e inspiro, busco, vejo e inspiro, busco, vejo e inspiro; e deixo que todas aquelas imagens trabalhem em mim de uma maneira que não consigo controlar ou mesmo perceber.

Futuro Oco
A humildade de Cristo e a sabedoria oriental me parecem dizer a mesma coisa: vencer, superar o ego.
Mas depois da vitória sobre o nosso ego, quem em nós vai comemorar? E como seria a festa dessa vitória?
Lembro-me de tantas obras de ficção científica sobre o futuro retratando a humanidade como uma massa de mulheres e homens apáticos, presos a remédios, incapazes de fazer o mal e de também fazer o bem; de sentir dor, mas também de sentir o prazer. São referências demais a um cenário assim para que eu possa ignorar dizendo ser “coincidência”.
Nietzsche estava certo ao considerar Cristo e Buda parentes próximos e um perigo para o desenvolvimento da humanidade? Estamos em 2017 e muitas dessas obras de ficção falam de um futuro próximo. O Profeta Bigodudo estava certo?
O fim de todas as florestas e o fim de todas as individualidades é o que nos espera amanhã?

Como nasce um clássico
Farei 34 anos em 2017 e assim como quase todos de minha geração a minha infância; e, portanto, toda a minha vida; foi marcada pelo seriado Chaves & Chapolin Colorado. Chaves é para mim um clássico da cultura, uma obra que desde a primeira vez até a última vez que eu a contemplar manterá o mesmo status e força. Um ponto cardeal, uma mina de riquezas que nem a eternidade poderá consumir.
Mas isso é para mim e quem sou eu? Eu sou ninguém, ora! Mas e se eu fosse um crítico trabalhando na imprensa? E se eu fosse um acadêmico respeitado?
Entenderam agora como nasce um clássico?

Papelada
Eu viro um Indiana Jones toda vez que mexo em minha papelada não por causa dos perigos, mas por causa das surpresas fascinantes. As porcarias que guardo são valiosas, apesar da minha desorganização e o tempo tornarem todas virtualmente inúteis.
Estou procurando o último currículo que fiz. É que tenho que escrever um currículo agora. Meu currículo é uma porcaria e praticamente tem nada. Nem eu mesmo me contrataria. Acontece que os currículos antigos têm datas exatas e eu agora lembro-me de nada.
Achei! Agora vou escrever um currículo novo.

Novela pelas ondas do radio
Imprimi o meu currículo e entreguei e depois fiquei pensando porque ele para de ter coisas a contar depois de 2013. Aí eu lembrei, mas já era tarde eu já o tinha entregado; que desde 2013 eu sou voluntário e tenho um programa semanal na radio comunitária aqui de Rio Acima. Três anos e eu esqueço de colocar no currículo!
MARCONNI: - Isso que é amor pelo radio, o mio babbino caro!
TESLA: - Cala sua boca, seu ladrãozinho adolescente!
MARCONNI: - Enfia o dedo na tomada, ô Tesla! Só me processou quando ficou pobre e esquecido. E o tribunal em Nova York te dá ganho de causa sobre a invenção do radio só depois que você tá morto! Quá! Quá! Quá! Quá!
PADRE LANDELL DE MOURA: - Que o Altíssimo tenha piedade dessas duas almas sebosas. Aldrin...
- Fala, seu Landell!
PADRE LANDELL DE MOURA: - No seu próximo programa de radio...
- Sim, padre.
PADRE LANDELL DE MOURA: - Toca Alice in Chains, toca!

Pensa como homem ou como uma mulher?
Fazendo várias coisas ao mesmo tempo. Ironia machista sobre o meu resultado daquele teste psicológico sobre celebro masculino e celebro feminino no FaceBook, ou apenas uma maneira de usar a minha falta de concentração a meu favor? Ou talvez seja apenas uma maneira de livrar-me do tédio crônico que eu sempre tive?

Editorial sem título
A internet voltou. É bom publicar este texto que estou escrevendo há quase um mês. A data “29 de janeiro” é enganosa e se refere apenas à data da sua publicação. Como já aconteceu outras vezes neste blog. Eu nem sei nomear os aforismos, quanto mais o texto em conjunto!
Que coisa bizarra isso: sei escrever o “coração do trem”, só não sei colocar os títulos. Meus textos são melhores quando nascem sem título. Isso tem nome? Ou até isso não tem nome?

É preciso lembrar
“Brasil é um país sem memória.”

Esta declaração foi a primeira interpretação sobre o Brasil que me ensinaram, a primeira. Concordo com ela desde o início e à minha maneira precária e tosca, luto para que isso mude. 

sábado, 14 de janeiro de 2017

14 de janeiro de 2017

As orelhas da Fabiana Murer
O rostinho em perfil de Geneviève Bujold
E a Kalki Koechin
Escolheu Deus para desenhar o melhor pincel.
O PEDREIRO POETA

Presente e Mudanças
Livros doados para a biblioteca comunitária. Estou fazendo uma seleção. De repetente um encontro dramático: eu simplesmente não consigo parar de olhar para um livro. Pego-o o tempo todo, folhe-o-o e leio algumas frases aleatoriamente. Faça isso uma, duas, três... Por todo o longo tempo que fiquei ali organizando os livros. Tenho vontade de morrer, de vomitar, de queimar o livro, meu peito fica encolhido e sinto aquela famosa "dor sem dor". 

Síndrome de Peter Pan - Dan Kiley.
Com 33 anos, morando com os pais e no currículo uma série de frustrações profissionais e afetivas; este livro deve ter sido escrito exclusivamente para mim. É óbvio, não? Sou doente, sou uma criança e pronto. 
Mas sem tanto drama, pois uma das grandes mensagens do último século é justamente que somos todos doentes. Eu, quem esta me lendo, todo mundo é doente de alguma forma. Ou você acha que passaria incólume por um encontro fortuito com algum terapeuta, psicólogo ou psiquiatra? A felicidade, o desejo de mais e mais, quem consegue se olhar no espelho e se dizer "feliz"? Mais um pouco e isso sera considerado crime. 
Mas eu sou um solitário e ficar pensando que todo mundo é doente não consola muito, nem é capaz de fazer nascer em mim um sorriso irônico. O caso, o meu estado de espírito; eu tenho que me "curar" e o resto do mundo que cuide de si.
Então vamos entender a "doença" e a "cura". Pelo que já li do livro de Kiley tudo pode ser resumido em dois pontos:
- Assumir responsabilidades
- Deixar-se tocar pelo mundo

Eu sei que estou fazendo drama, que não sou exatamente um "Peter Pan" e que livros como esses são assim estruturalmente genéricos e tal justamente para assim atrair "leitores que se sentem inseguros e culpados"; mas decidi que quero lê-lo. E como gosto de um "excesso de abstração", o livro de Kiley terá companhia de alguns "livros irmãos". 
Passagens - Crises previsíveis da vida adulta; Gail Sheehy.
A Consciência de Zeno; Italo Svevo.
Os três livros tratam do mesmo tema, por assim dizer.

Um brinde aos doentes!
Esta última doação de livros pode acabar sendo mesmo um presente para eu mudar alguma coisa em mim.

Wagner
Não é qualquer filho da p* que, apesar de tudo, consegue nos fazer ficar de joelhos diante de sua obra artística. 
É incrível, eu não estou conseguindo parar de ouvir A Morte de Siegfried e sua Marcha Fúnebre. O modo "replay" nunca ficou tanto tempo acionado.

Livros, músicas, filmes... É sempre claro para mim que esta minha formação humanista é a minha bússola neste mar que é o viver. Mar nem sempre sereno e feliz.

domingo, 8 de janeiro de 2017

8 de janeiro de 2017.

Luís da Câmara Cascudo

Comecei a ler a Antologia do Folclore Brasileiro, o livro mais antigo dos que comprei deste autor. É uma seleção de relatos de brasileiros e estrangeiros sobre o nosso folclore. 

Apesar disso, de ser basicamente uma seleção de trechos de outros autores, tem muito da personalidade de Cascudo no livro. Primeira coisa: o danado adora fazer citações em língua estrangeira. Ele pode, é um Mestre; mas a Editora Global poderia fazer as traduções em notas de rodapé. Como a Martins Fontes e a Abril Cultural fazem nos livros que tenho dessas editoras. Uma pena, pois além de facilitar a vida de leitores tornariam os livros ainda mais bonitos que já são por causa das capas: coloridas e com cores vivas. Outra coisa: Cascudo conversa com os leitores, em uma mistura bem única de formalidade e informalidade. Essa característica encanta e deve dar vontade em todos que o leem de imitá-lo. 

Como eu escrevi, Antologia do Folclore Brasileiro é uma seleção de relatos de brasileiros e estrangeiros sobre o nosso folclore. Chama atenção algumas coisas incômodas aos leitores do século XXI:

“Estas mulheres são muito alvas e altas, com o cabelo muito comprido, entrançado e enrolado, na cabeça.” 
(Adivinha quem o frei Gaspar de Carvajal (1504 - ?) esta descrevendo, adivinha? É, elas mesmo: as amazonas. Alvas, senhor Gaspar? O primeiro relato dessas guerreiras míticas em terras brasileiras. Apesar de tudo, emocionei-me quando encontrei esta frase histórica. Política a parte, não podemos perder a ternura.)

“... vêm uns feiticeiros de mui longes terras, fingindo trazer santidade e ao tempo de sua vinda lhes mandam limpar os caminhos...”
“... com grandes tremores em seu corpo, que parecem demoninhadas (como decerto o são), deitando-se em terra, e escumando pelas bocas...”
(A gente entende a posição do Padre Manuel da Nóbrega (1517-1570), é uma religião encarando a outra pela primeira vez em uma cerimônia não muito amena, mas não da para negar a aspereza das palavras.) 

“Têm uma outra opinião idiota: estando sobre água, seja do mar ou dos rios, indo contra seus inimigos, se forem surpreendidos por uma tempestade ou furacão, como tantas vezes ocorre, creem que a origem é a...”
(“Idiota” é você, André Thevet (1502-1590/1592?). 

Já os relatos selecionados de José de Anchieta, Jean de Léry, Gabriel Soares de Sousa, Fernão Cardim e Anthony Knivet (que vida teve este inglês, quanta tragédia e desejo de liberdade! A minúscula biografia escrita para apresentá-lo, que Luís da Câmara Cascudo fez, impressionou-me.), são mais doces e adoráveis.
A leitura continua.

O Domingo
Tirei fotos da posse da prefeita Dorinha e dos vereadores aqui de Rio Acima, era esse o compromisso importante sobre a qual eu tinha escrito na postagem anterior. Deu tudo certo e as fotos que tirei me deixaram contentes. Estão entre as melhores que já tirei e, como um “pai coruja” não paro de olhar para elas. Foi a minha primeira vez com o flash externo e ele não aprontou para cima de mim. Para quem não sabe, a luz do flash é para os fotógrafos o que a língua portuguesa é para os alunos do ensino médio: um cavalo bravo.
Arredondando, eu tirei umas 300 fotos e aproveitei 60, o que da uma média de uma foto que presta em meio a cinco imprestáveis. É uma média razoável, apesar de obviamente o julgamento do que é uma “foto razoável” aqui é bem parcial. Fui convidado para o evento e me falaram que vou receber pelas fotos. Ainda não recebi e é isso que me impede de publicá-las na internet. Quero saber a opinião dos outros, embora os meus contatos sempre sejam muitos lacônicos quanto as minhas fotos. 
Acho que finalmente estou tirando fotos melhores, encontrando um estilo pessoal. 
Tive que usar “traje passeio completo”. O único terno aqui de casa é o que o meu pai usou em seu casamento, os outros vieram de um bazar feito com material de alguns alemães religiosos que visitaram Rio Acima. Eu escolhi uma camisa laranja e uma calça branca, o que me fez parecer um vilão do filme Scarface. Sobre o sapato é melhor nem comentar. Mas tudo isso é folclore pessoal de um domingo que vivi e foi feliz.