Voltaire ajuda

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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

14 de agosto de 2017.

Domingo, dia 6 de agosto de 2017. Foi um dia bom, gostoso. Eu ficava pensando no texto 5 de agosto de 2017. Em cada frase, em cada fala completa dos personagens e nas reações possíveis dos leitores em cada momento de suas leituras. Adorava pensar nessas coisas, orgulhoso que estava de ter escrito um texto bom. Um dos melhores que já escrevi. É raro eu ficar orgulhoso de mim assim. A felicidade só não era completa porque eu não tinha com quem compartilha-la e porque eu tinha me esquecido de fazer meu Iago destruir uma coisa importante: o chá. Naquele sábado perfeito eu fiz chá para ela duas vezes e achei aquilo a coisa mais linda e importante do mundo! Era para o meu Iago ter destruído isso também, mas esqueci. Fico confiando em minha memória e no instinto que na hora vai dar conta do recado e aí acontece isso na hora de digitar meus textos no computador. Tenho que andar com uma agenda ou algumas folhas de rascunhos para anotar tudo aquilo que me ocorre de criativo nas letras. Autores profissionais fazem isso, não? Tenho que ser mais profissional.
E por que eu escrevi 5 de agosto de 2017? Porque eu não queria morrer, se eu tivesse deixado para escrever aquele texto no dia seguinte um câncer espontâneo teria me levado. Se eu escrevi aquilo como vingança, para machucá-la? Pois é, aqui a coisa fica complicada. Queria machucá-la sim, mas mais importante que isso: queria que ela soubesse que eu era capaz disso. Avisar que sim, eu estava machucado e sim, eu também sabia machucar! O importante era avisar que em mim havia egoísmo, violência e obscenidade, e não apenas sensibilidade, delicadeza e uma carência infinita. Ela achava que eu era um fraco e eu tinha provado que sabia morder. Obviamente que ela não pensava isso, mas a minha dor tinha me tornado bastante cego. Mas era triste essa agressividade sim, pois não sou agressivo. Mas minha dor tinha colocado as coisas desse jeito: Lei de Talião pela metade, pois pelo menos ela tem com quem se consolar; ele; e eu tenho ninguém. Isso tudo parece adolescente e aborrecente a vocês? Bom, o que fazer? Não vou repetir um texto como aquele nunca mais.
Ah, eu quase me esqueci de um detalhe fundamental aqui. É óbvio que essa agressividade do texto era um reflexo torto do meu desejo por ela. Ora, se eu gostava dela e até achava que o que nós tínhamos se transformaria rapidamente em amor eterno, eu não deveria preocupar-me com o futuro: machucada, ela não iria se afastar de mim? Mas o texto 5 de agosto de 2017 era também um ultimato: olha é assim do lado de cá e pronto; agora é a sua vez garota. E eu também achava; e aqui mais uma vez o aborrecente e o carente reaparecem com força total; que como eu tinha me colocado tão completamente e tão verdadeiramente no texto que não havia possibilidade outra senão essa: ter dó de mim, pois se eu a machucava, também era verdade que eu estava me machucando ainda mais. Minha sinceridade visceral despertaria sorrisos cúmplices nos leitores e isso me salvaria no julgamento final do texto. É o que acho, mas é claro que não tenho controle sobre quem me lê.

Em 5 de agosto de 2017 eu consegui imitar Shakespeare de maneira digna e por um motivo improvável: eu brinquei com Shakespeare. E só pude fazer isso porque eu não tive medo do talento dele. Muita gente trata o Bardo Inglês como se ele fosse Deus e um Deus chato, aí realmente não da para brincar. E, principalmente, não da para se aproximar e criar. Eis todo o “segredo” do trem.

É difícil pensar em tudo e, estando apaixonado, não se pode esperar muita lucidez mesmo da gente. Bom, vamos ver o que o calendário pode nos dizer sobre esta última decepção amorosa minha.
Quando foi o sábado perfeito? Quando foi o forró vegetariano? E quando foi a sexta em que conversamos pessoalmente pela última vez? A matemática é implacável: três meses do primeiro ao último evento, sendo que o forró esta quase exatamente no meio deles. Três meses sem se ver! Três meses, p****! Três meses! Onde eu estava com a cabeça? Como podia achar que ela estava me dando esperanças? Como eu fui patético.
E o meu Otelo de 5 de agosto de 2017 estava correto, não teria sido uma boa ideia eu ter ido àquele forró vegetariano. Ela nunca gostou de mim para ser namorado e era óbvio que naquele forró eu iria ver coisas desagradáveis.

Mas eu gostava dela? O Amor... O Amor exige tanto da gente! Por exemplo, eu tenho certeza que ela e o cara do forró vão ficar juntos para todo o sempre. Como posso ter certeza disso? E isso não é uma maneira de fugir e desistir? E mais, se fosse amor verdadeiro eu não deveria aceitar ser apenas amigo e vê-la sorrindo para ele pelo resto de minha vida? Ah... Mas isso eu não consigo fazer. Sou orgulhoso demais. E meu afastamento não deixa de ser uma confissão de sentimento. Talvez não tão heroico, mas é alguma coisa.
Merda. Merda. Não sei amar. Alguém sabe? Alguém? Alguém me ensina? Já sei a parte da dor, falta saber viver a outra parte, a parte agradável do Amor.
Mas o que eu sentia por ela? Pergunta ferrada que não me deixa em paz. Temos deveres, mas também temos direitos. Ok, Amor exige sacrifícios e que a gente mande o nosso orgulho e o nosso egoísmo para a putaquepariu. Ok, ok, mas e a parte dos direitos? Qual o direito que eu teria se eu a amasse de verdade? De confessar meu amor? De dar um jeito de sempre ficar perto dela? Tem alguma coisa errada aqui. Algo me escapa. O que é? Não posso esperar que ela ficasse sempre ao meu lado. E confessar meu amor mudaria as coisas drasticamente. Hum, me parece que no Amor nós não temos direitos, mas apenas deveres. Amar verdadeiramente seria privilégio suficiente, não precisando de qualquer outra coisa a mais. Ah, me lembrei de algo: o espaço! Quando se ama se quer ficar perto, mas... Mas também quer que se fique livre! Então é só uma questão de saber se a pessoa amada esta feliz. Se eu sei que a pessoa amada esta feliz, não é covardia a gente se afastar. Não seria abandono.
OVÍDIO: - Mas se mais uma pessoa que a ama esta perto não seria ainda melhor para ela?
ERIC FROMM: - Quanto mais gente que nos ama nós tivermos por perto, melhor...
Ah, seus bando de fedazunha! Quem convidou vocês?

WESLEY SAFADÃO: - Aqui, eu acredito que você tem que dar um tempo sabe? Ficar ai mais na sua, cuidando de si. Esperar a poeira baixar... O mundo dá voltas! E foi muito inteligente de sua parte deixar em aberto, sem conclusão, um texto sobre o Amor. Nunca se pode mesmo dizer tudo sobre o Amor. É um desses assuntos inesgotáveis!
Por Júpiter, até o Wesley Safadão apareceu aqui para me dar conselhos!

Naquela noite no restaurante apareceu uma amiga dela. Meio francesa ou francesa mesmo. Acho que ela tentou bancar a cupido. Atitude inteligente: salva o coração do amigo apaixonado aqui ao mesmo tempo em que o manteria por perto... Mulheres! Sempre mais profissionais no mundo do Amor que nós, homens!
Mas não deu certo, eu tinha que sair. Estava machucado demais e não tinha onde dormir naquela noite em Belo Horizonte.
Devia ter ficado. Aquela francesa era deslumbrante e parecia mesmo muito inteligente. Conversar com ela e quem sabe ganhar pelo menos um beijinho! Merda! Sempre me acontece algo! Por que o Amor me odeia? O Amor credita que nada tenho a oferecer?

Naquela segunda-feira dia 7, decidi entrar em uma academia de ginástica e musculação. Eu quero ficar gostoso. Do jeito que eu sou franzino, eu tenho que pedir desculpas às mulheres. Devia ter feito isso há mais de 15 anos. Bom, o tempo meu sou eu mesmo quem faço.

Naquela noite no restaurante com ela, eu fui fotógrafo como nunca antes eu tinha sido. Fiz um truque de profissional!
Explico. Eu não estava conseguindo me abrir com ela, não conseguia sequer olhar para ela. Magoado, se ela entrasse em meus olhos a hemorragia interna ficaria ainda mais aguda em mim. As palavras, sempre sempre insuficientes, não saiam de minha boca. 
Então me lembrei da minha câmera fotográfica. Usei-a como máscara: coloquei a câmera em frente ao meu rosto e confessei meu amor. E tirei fotos das reações dela enquanto ouvia tudo. Falei de um jeito bobo para que ela sorrisse mesmo, mas sei que ela sabia que aquilo era sincero. O resultado final são oito das melhores fotos que já tirei em toda minha vida.
Por questões de privacidade, não quero atrapalhar o namoro dela com o senhor peeeeerfeição, não posso publicar as fotos em meu FaceBook. Mas por favor, quem estiver me lendo, acredite em mim: as fotos ficaram lindas. Acreditem! Por favor, acreditem!

Hoje é o dia que marquei para fazer um exame físico na academia. Tenho que fazer isso antes de “entrar” na academia, propriamente dita. Sou tímido e academia me inspira certo “ar de colégio”. Mas acho que ali ninguém vai se importar comigo. E não tem problema todo mundo ali ser atlético, eu estou no caminho e isto basta para mim. Não tenho pressa, mas vou ser bem militar no plano de exercícios que praticarei.

Falei em minha timidez. Naquele momento de desespero no ônibus lotação “3838 Rio Acima – Belo Horizonte”, naquela segunda dia 7 de agosto, eu estava morrendo de fome. Meu café da manhã tinha sido um pão com maionese quase três horas antes. Eu tinha perdido o ônibus das 8 e das 9 e tinha acabado de comer quase a 7 e meia. Atrás de mim havia uma mulher comendo uns salgadinhos. Olhei para ela umas cinco vezes, mas preferia desmaiar a parecer tão ridículo em pedir uns salgadinhos.

E eu tinha mais medo de desmaiar do que morrer. Tudo bem morrer, eu nunca tive medo de Deus, apesar do que a minha família e a Igreja me ensinaram, mas desmaiar era outra história. Se eu desmaiasse, eu iria acordar onde e como? Não queria desmaiar de jeito nenhum!

Naquela segunda eu vivi momentos de terror bem barra pesada e estava sozinho. Muito sozinho. Talvez alguém aconselhasse uma crença religiosa ou algo do tipo para aliviar momentos como esses no futuro. Pois é, eu não tenho religião e em casos assim eu tento ser otimista quanto ao futuro e tento pensar em coisas boas. É a alternativa que tenho. Nem sempre funciona. Naquele dia no ônibus lotação não funcionou. Não conseguia pensar em coisas boas. O que me salvou foi o fim da indecisão interna minha. Percebi que aquilo tudo não era frescura minha. Decidi que daria o sinal, desceria, acharia um lugar para comer algo e matar aquela fome lancinante e voltaria para Rio Acima para ir ao hospital público e etc. E foi o que fiz e foi o que aconteceu.
Mas mesmo uma crença em Deus não seria muito útil, pois se Deus existe é o Deus imaginado por Espinosa e pelos estoicos. Um Deus a qual não adianta muito orar pedindo ajuda. O máximo que você pode fazer é orar agradecendo, pois Ele já nos deu tudo que precisamos para ser feliz aqui: a nossa força de vontade e irmãos ao nosso redor. Claro que nem sempre somos fortes o suficiente e, num mundo governando por falsos valores, nem sempre podemos chamar estranhos de “irmãos” e nem mesmo nós mesmos nos comportamos de acordo com isso muitas vezes.


Espero não passar pelo que passei no ônibus lotação, mas isso não é algo que eu possa garantir. Aliás, nem sei o que aconteceu. Falei em “glicose fazendo drama” porque foi o que a médica plantonista falou para mim no hospital e mesmo ela não tem certeza. Só vou mandar as amostras de fezes e urina no dia 16 e sei lá quando os resultados virão e depois ainda tem que marcar no posto de saúde uma consulta com a clínica geral. O que dá um ou dois dias de espera. Mas mesmo assim tenho certeza que antes do fim do mês já estarei mais tranquilo. 

domingo, 13 de agosto de 2017

7 e 11 de agosto de 2017.

Deveria usar uma metáfora espiritual como “Maya tirou o seu véu sobre os meus olhos” ou “Moisés voltando para os hebreus depois de seus anos de formação no deserto”, mas sabem como é: sou apenas eu, o Aldrin! Foi apenas a minha glicose fazendo drama no ônibus lotação “3838 Rio Acima – Belo Horizonte”. Mas alguma coisa que começou em 1997 terminou nesta segunda-feira, dia sete de agosto de 2017. Se não é assim, assim vai ser; decidido pela medida da coisa que aconteceu: eu mesmo!

Ainda estão aí? O aforismo acima foi mesmo feito para prender a atenção. Agora que vocês decidiram continuar a ler, eu vou tentar ser mais exato. Mas é difícil, a coisa toda é grande e pequena ao mesmo tempo, dramática e simples: eu vejo as cores do mesmo jeito que antes e continuo basicamente ainda a mesma marmota de antes. Mas estou mais atento e concentrado. Compreendi a natureza da minha solidão e percebi, ao mesmo tempo, como eu sou igual às outras pessoas e não inferior e exilado. Mas o mais importante: eu venci sozinho uma situação difícil e estou usando isso como a rocha fundadora para aprender amar aquele homem que vejo todo dia no espelho. Se vou conseguir? Isso é um problema meu e acho que vou sim. Uma segunda-feira única de uma semana única.

Mas confesso que é decepcionante num momento seminal como esse, que realmente pode mudar tudo para sempre, você verificar que sua vida tem elementos de filme da “Sessão da Tarde” da Globo.
O médico de cabeça que procurei por causa da minha ansiedade, na sexta, depois de uma consulta de meia hora, me indicou um trem que só de pensar me causa arrepio, humilhação e mais ansiedade: agora que finalmente despertei, você quer que durma ou vire zumbi? Bom, você pode ser um doutor e eu mais um anônimo com defeito de fabricação falando as mesmas coisas que o senhor ouve o dia inteiro; mas eu tenho uma vantagem nesta situação que o senhor não tem: sou eu eu que estou mais perto de mim! Preciso de ajuda, mas eu já fui um jornalista especialista em toxicomania na faculdade então afaste de mim esse trem! Vamos procurar outros métodos, eu sei que isso é possível. Qual é a insinuação? Que eu vou me matar; que eu vou virar um mendigo? É isso? Me digam, é isso? É? Ainda vão me deixar livre para dizer que isso não vai acontecer?
Nesse mesmo dia da consulta, que me deixou chocado e triste como nunca eu estive em toda minha vida, eu voltei a pé para casa. Quase uma hora de caminhada sob o sol de meio dia. Durante todo o percurso eu sempre estive a ponto de ter que parar para me desmanchar em lágrimas, pois imaginava que agora teria que policiar todas as minhas atitudes e falas pois agora eu teria que desconfiar de mim mesmo e ficava imaginando o que as pessoas diziam de mim pelas minhas costas e pela primeira vez senti o peso de meus 34 anos em flashes internos e violentos; mas a luz do sol me esquentava e fazia de mim uma planta que, eu sei, nunca entregaria uma luta desse jeito. Muito obrigado, Sol! Mas muito obrigado, mesmo!
Quando cheguei à minha casa eu contei tudo para meu pai e perguntei a ele se ele acreditava que eu poderia morar e vencer em Belo Horizonte. Como tentei antes, anos atrás. A resposta de meu pai foi muito encorajadora, para minha surpresa, mas o seu estilo continua o de sempre: lógico e distante. Mas se a resposta de meu pai foi perfeita, ele se esqueceu de um detalhe importante para mim: ele não conseguiu olhar nos meus olhos enquanto dizia que acreditava no próprio filho. Valeu o esforço, pai! Eu sei que custou muito ao senhor gastar assim tão indignamente aquelas palavras todas. Ainda bem que eu não perguntei ao meu pai sobre amor! Minha mãe, por sua vez, ficou explodindo em nervos durante todo o dia. “Minha mãe é a emoção e meu pai é a razão, e eu sou o quê?” Não conseguia responder essa pergunta quando eu era criança, mas agora acho que sei a resposta. Albert Camus namorava o absurdo, eu danço com a angústia e apenas tenho que evitar que ela pise muito em meu pé durante esta minha festa.
Então que coisa mais barata e clichê nós temos aqui: ninguém acredita no herói! Há anos atrás era exatamente o contrário. Bom, paciência! Os filmes da “Sessão da Tarde” não terminam bem?

O ponto nefrálgico é que estou começando o jogo “do zero” e ao mesmo tempo eu não estou. Vou ter que administrar essas duas dimensões e heranças em minha caminhada. Como se faz isso? Mais dança para eu participar.

Decidi tentar voltar a Belo Horizonte por mim, mas também decidi voltar a Belo Horizonte por ela. Eu devo isso a ela!
Como explico? É coisa de homem. Difícil de explicar. Mesmo que a gente nunca seja amigos ou namorados no futuro, - já aceitei essa hipótese -, ela precisa saber que eu não sou fraco. Pelo menos isso ela precisa saber! Que eu não sou um “eterno filho”. Só isso. Só saber disso. Que esta passagem sua em minha vida não foi gratuita e que ela me inspirou coisas boas. Mandei uma mensagem de celular para ela falando sobre isso. Agradecendo a ela a inspiração. A gente terminou, mas pelo menos assim a gente terminou bem. Um bom futuro para todos nós, então!

Mandei essa mensagem de celular na terça-feira, ou seja: o dia seguinte àquela segunda-feira. Nesta terça eu fui corajoso como nunca.
Mas isso fica para a próxima postagem. Na próxima postagem, também, vou contar que no dia 6 de agosto eu descobri que sou escritor. Então além de ganhar dinheiro com fotos eu posso também fazer algum serviço como redator.

Vocês ainda estão aí? Se alguém aí estiver precisando escrever alguma coisa importante ou estiver precisando de uma sessão de fotos, tem profissional novo na praça. E eu cobro barato! Mas se a cliente for mulher linda, não pode me tratar bem. Sou carente e me apaixono fácil.
MARQUÊS DE SADE: - E na verdade, nem te tratar mal...

Ah, é... Esqueci! Vixe, então deixa pra lá! 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

5 de agosto de 2017 Post scriptum

Ars gratia artis ou o desesperado desejo de ser amado por todos e todas? Censurei uma parte do meu texto 5 de agosto de 2017. Não ia fazer, mas no último minuto resolvi. Ia deixa-lo como está e a razão estaria no “não irei apagá-lo, mas nunca mais escreverei algo assim”. Mas resolvi censurar uma parte dele. Belo Horizonte é “um ovo”, como diziam meus colegas da faculdade ao fazer referência ao fato de que a capital de Minas Gerais é efetivamente uma cidade do interior onde todo mundo se conhece.

Vai ter texto novo aqui em breve. Como sempre as palavras, frases e marcas interiores estão dançando entre si e se reproduzindo em meu interior. Aí é como sempre: eu sento em frente ao computador e o trem acontece. Espero que o texto seja bom.

sábado, 5 de agosto de 2017

5 de agosto de 2017.

Vontade de chorar, mas eu não choro. Vontade de vomitar, mas eu não vomito. Até para combinar com essa maldita e antiga história: eu fico no quase. Então escrevo para que pelo menos as palavras nasçam e eu tenha alguma coisa para mim!
Estou assim o dia inteiro. Sensação ruim. Estômago pesado. Desgosto. Desgosto. Desgosto profundo. Desgosto. Mágoa. Raiva.

É melhor que caminhar vazio.

Amanhã será um novo dia
certamente eu vou ser mais feliz.

All day, all day
When you look around
you wonder
Do you play to win?
Or are you just a bad loser?

E foi assim: eu telefonava, eu escrevia sempre a mesma coisa: “posso ir à reunião do (****censurado****)?” ou “eu tiro fotos e faço vídeos, se o (****censurado****) precisar...”. (****censurado****) é o grupo de apoio aos moradores em situação de risco social em vilas e favelas, grupo político onde ela milita há vários anos. E ela sempre me respondia a mesma coisa: “obrigada, mas ainda não”.
Eu queria fazer daquele sábado perfeito um mês perfeito, um ano perfeito... Aí na única vez que ela me convida para alguma coisa, eu não vou. Passo mal; sinto ansiedade e fico com raiva dela e dou um “gelo” por causa dessa coisa do (****censurado****) e do grupo de estudos marxista que ela não deixa eu participar. O convite era para um forró vegetariano. Adivinha o que ela me conta, toda inocente há apenas uns dois dias atrás? Que nesse forró vegetariano ela “conheceu um cara”.
Ah!


- A culpa é minha. Eu não podia falhar. Eu falhei, eu cometi um erro...

DESDÊMONA: - Você não errou, e isso te machuca. Ela não errou e isso também te machuca. Você não estava errado, e isso te machuca. Ela também não estava errada, e isso também te machuca. Acontece, aconteceu. Você sabe a verdade e o que fazer. É sinal de amadurecimento que você sinta mágoa e não raiva.

- Eu deveria ter ido àquele maldito forró vegetariano...

OTELO: - A vida é dura por muitos motivos, que o tempo seja indomável é apenas um deles. Quem te garante que se você tivesse ido ao forró teria sido melhor? Talvez você a visse dançando com ele, os dois se beijando... Como saber quais batalhas eu deveria ter perdido ou ganho para tornar-me o general vencedor que eu sou hoje? Não se lamente pelo passado, abrace o futuro.

- É difícil esquecer os sinais, todos aqueles detalhes do sábado perfeito...

IAGO: - Ela te deu esperanças, para o cara do forró ela deu muuuuito mais... HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ!

OTELO: - Chegou quem não foi convidado!

IAGO: - Para falar aquilo que você e Desdêmona não conseguem falar! Daquilo que vem das profundezas, daquilo que tem a cor, o cheiro por ser feito de sangue e entranhas! [Olhando dentro de meus olhos] A sabedoria de Otelo e a compaixão de Desdêmona são tão profundas quanto uma piscina infantil. Palavras que soam bonitas aos ouvidos, mas não atingem o peito. Agora é a vez de Iago!

- Fale.

IAGO: - Você quer?

DESDÊMONA: - Por que você o chama? Por que você quer ouvi-lo?

- A dor é real. Pelo menos isso vindo dela é real.

IAGO: - Um jogo não é a melhor e a mais divertida maneira de uma criança conhecer uma outra criança? Ah, os jogos! Os jogos! Muita sinceridade é insuportável, devemos agradecer aos jogos da sedução entre homens e mulheres! As mulheres... A fraqueza torna necessária a mentira e a dissimulação, o jogar a isca para conhecer o pescador... Ela te conheceu apenas ontem, na mesa do restaurante e não antes.

OTELO: - Pare! Isso é apenas preconceito contra as mulheres, rancor se passando por conhecimento da alma humana! Não deixe que Iago continue!

- Continue; Iago.

IAGO: - Bom, sabemos que ela estava “na seca” há muito tempo...

- E daí?

IAGO: - E daí que ela deve ter dado gooooostoooooso para ele! Na primeira vez, então? Imagine! Imagine!

- Imagino.

IAGO: - E como será que ela geme na hora? Héin? Como será que ela geme para ele? Com aquela cara docinha... Ela é (****censurado****), não é? Aquela cara docinha, aquela cara de professora, aquele jeito de professora, aquele cabelo de professora... De professora de interior. Aquela voz tão doce... Ah, ela gemendo! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! Para ele! Abraçada forte cada vez mais, umedecendo o ouvido dele de tão perto que a sua boca estava! Imagine! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ!

- Mais.

OTELO: - Você não precisa disto. Vai construir o que com tudo isso?

- Mais, Iago!

IAGO: - Apenas sigo ordens! O Otelo falou antes sobre o tempo. Hum, o tempo. Tempo, tempo...

- O que tem o tempo?

IAGO: - Quanto tempo demorou para ela abrir as pernas para ele? Héin? Três sorrisos, duas piadas, alguns minutos de mãos dadas e a calcinha já estava perdida... E o que você tirou dela? O que você ganhou com a história de vocês dois? Um beijo na bochecha depois de um show de dança na UFMG? HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ! Mais doce que o mel no deserto é este animal traiçoeiro chamado mulher querendo ser amiga depois! HÁHÁ HÁ! HÁHÁHÁ!HÁ! HÁ!HÁ! HÁ!

- Já pode parar, Iago. Já ouvi o suficiente. Já estou contaminado o suficiente, já posso fazer sozinho. Confundir prazer com dor e imaginar ele beijando a ponta daqueles seios pequenos, apertando forte e atravessando aquele quadril tão magro até ela dizer o que escreveu para mim naquela apostila: “T.Q.M Te Quiero Mucho”. E ela repetindo isso para ele, como naquelas cenas de sexo caricatas dos piores filmes de comédia: “Te quiero!, te quiero!, te quiero!...” E a cama e meu coração, depois, arrebentadas.

DESDÊMONA: - Não é jogo porque não há vencedores ou perdedores. Há aqui apenas pessoas livres. Encontros e desencontros, pois a vida é rica e variada e é esta a sua graça.

OTELO: - Derrota? Então encare como derrota. Esta vendo estas cicatrizes em meu braço direito? Derrotas são fundamentais, uma derrota bem compreendida é sinônimo de dez vitórias impossíveis e consecutivas. A derrota é uma cicatriz bonita e as dificuldades estimulam os fortes. E cada segundo é um renascimento.


- É tentador demais, em uma situação como essa, eu deixar de olhar-me no espelho. Olhar-me no espelho e sentir vergonha e raiva. E inveja. A pergunta de um bilhão de euros: que ele tem que eu não tenho? Mora sozinho; tem carro e um emprego de verdade. Com certeza. Óbvio. Não há como fugir do diagnóstico onipresente escrito em minha testa, como uma marca de Caim: eu sou uma aberração.

SEM-PERNAS: - Nem melhor e nem pior, diferente. E isso é tanto que você nem pode imaginar. Aprenda a gostar de si, aprenda a gostar de cada segundo que passa para assim o tempo também respeitar você. Aprenda a construir, além de apenas pensar e ler.

- Obrigado, Capitão da Areia. Não esperava ouvir palavras estimulantes vindas de você.

SEM-PERNAS [piscando os olhos]: - Digamos que um monstro sente o cheiro de outro monstro, o conhece e respeita.


- A solução é óbvia: lutar e engolir o orgulho. Continuar perto, o que mais é justo eu pedir?  E tentar evitar vomitar quando vê-la com ele.

DIANA: - Não consigo me lembrar se você me contou que teve febre alta depois do nosso primeiro beijo.

- Ela conhece muita gente interessante e eu preciso conhecer gente. Ela conhece muita gente e isso pode me ajudar na fotografia.

DIANA: - Pragmatismo que você não teve comigo. Será que com ela você vai ter?

- Vou colocar meu coração no freezer: ter apenas casos e se tiver uma namorada, traí-la até com a mãe dela!

DIANA: - A promessa que todo romântico machucado diz no dia seguinte e que nunca consegue cumprir. Bom dia, Aldrin.

- Bom dia, Diana. Ainda lendo Fernando Pessoa e trabalhando com engenharia aeronáutica em Padre Paraíso?

DIANA: - As escolas do Brasil nos ensinam física nuclear, mas as ruas só tem trabalho para vendedores de lojas e servidores públicos enjaulados em escritórios. Eu ainda sonho e isso é o voo que desejo. E o Fernando é companhia querida sempre presente.

- Eu te chamei, do fundo da minha memória, porque estou com medo que nossa história seja igual ao dessa história agora.

DIANA: - Ela não é, se isto te aflige. Mas é bom lembrar que amor é entrega gratuita e engolir muita situação que mata aos poucos nosso orgulho.

- Mas não totalmente...

DIANA: - Não totalmente. Sem orgulho você não é você.

- O que fazer na próxima semana?

DIANA: - Ir neste teatro que você quer na segunda, procurar os cursos de inglês e culinária. Você só precisa sair mais. Conhecer mais gente. Ei...

- O quê?

DIANA: - Ela é bonita, mas só quer sua amizade mesmo. E você reparou naquela conversa dela com aquela amiga: ela vai aceitar emprego na outra cidade. É inviável. Em todos esses anos de você tentando alguma coisa com ela. Nunca rolou porque não era para rolar mesmo. É inviável.

- É, a palavra exata para nós dois: inviável. Não há como ser mais racional que este diagnóstico.


DIANA: - Não há como ser.

domingo, 30 de julho de 2017

30 de julho de 2017.

Hum, escrevi besteira outra vez. O que posso fazer? Como diria o personagem de O Apanhador no Campo de Centeio, “mas naquela hora era verdade”! Mas eu devia ter sido mais diplomata em minhas palavras. Devia ter sido. Mas guardar essas coisas dentro da gente não faz bem.
Mas este blog de meia tigela ainda é o melhor lugar para eu lutar a minha Batalha de Vimy. Apenas preciso achar outras matérias primas para transformar em palavras aqui. Só isso.

E cadê a fotos? Eu não sou um fotógrafo?
- Você tira as fotos e a gente depois nunca mais as vê!
Pergunta para aquele casal esperando os primeiros filhos se eu demorei a entregar as fotos deles, pergunta! Mas eles me pagavam! Posso ser ruim da cabeça, mas eu sei o que o mundo acha mais importante que o amor. E o cara do time de futebol? As fotos ficaram em 20 reais e o cara não apareceu até hoje para buscar elas!
Merda! Mas é verdade: eu demoro a publicar as fotos. Todo mundo reclama. E como eu gosto de corresponder ao que de pior dizem de mim! A inércia interna torna fácil e eu acho que é vingança aos que me criticam. Burrice dos outros e burrice minha.

Esta tocando a versão estendida de “It´s my life”, do Talk Talk, de quase sete minutos.
Coisa gostosinha. Voltei a ser feliz. Vou apertar o “repeat” para ver se consigo alcançar o éter e o sublime.

Antigamente, até os anos de 1980, as aulas nos colégios tinham 50 minutos, pois este era o tempo máximo que crianças e adolescentes podiam manter a concentração numa mesma matéria e tal. Anos de 1980, ok? Oh, as aulas ainda tem 50 minutos de duração?! Mas que coisa, héin? Oh, oh!
Todo mundo andando na rua escutando música e navegando pela internet.
Pessoas que sentam em um restaurante, e antes de arrumar a própria cadeiras, conferem as conversas no Whatszap.
Pessoas que conversam com você, ao mesmo tempo em que mexem nos aplicativos do celular.
O brinquedo Handspinner que é basicamente algo que gira sem parar enquanto você olha e apenas olha. (Encontre um psiquiatra e pergunte que distúrbio mental tem como sintoma esta hipnose com alvos que giram sem parar. Guarde este nome, você vai ouvi-lo mais vezes nos jornais e revistas.).
E eu apenas observo tudo isso. Como se eu fosse um guarda de fronteira nessa área. Como se eu fosse.

Estou conseguindo dormir mais cedo. Há anos e anos que eu durmo só depois das 24 horas. Uma maneira depressiva e inconsciente de evitar que o próximo dia chegue mais cedo. Eu sei, é difícil de entender. Depois posso tentar explicar melhor.
Agora consigo dormir bem mais cedo. E acho bem mais gostoso. E mágico. E saudável. Até consigo ler antes de dormir e ler na cama é uma das melhores maneiras de estar em mais de um lugar ao mesmo tempo.

Por que você pediria para um esquerdista assistir a vídeos e ler textos do Luís Felipe Pondé sobre Thomas Snowell, dois nomes da direita?
- Por honestidade intelectual, para conhecer o pensamento oposto ao seu e aproveitar alguma coisa, mesmo que ali tenha pouca coisa a se aproveitar.
Sim, sim, mas eu encontrei outro motivo: pura e singela diversão. Isso mesmo: diversão. Sabia que o socialismo é hegemônico no Brasil e nos EUA? Que as universidades e as escolas estão dominadas? Que os filmes de Hollywood também? Que quem não é de esquerda no Brasil é minoria oprimida?
O discurso de vítima tem muito apelo, pois inspira solidariedade e vontade de lutar batalhas “impossíveis”. É o ouro de Moscou, meu povo! Cuidado!

Ah, a política! De repente lembro-me de um texto que escrevi. Não foi feito para ser publicado sendo originalmente uma troca de e-mails, mas como eu não sou um Lope de Vega ou um Rossini, quando a gente esta com pouca criatividade não pode ficar com esse tipo de frescura. Publico-o, pois ele é bonzinho.
“Meu esquerdismo é mais reativo e emocional, do que doutrinário ou partidário; como um jacobino órfão de sua Revolução Francesa.”
Que seja reativo e emocional sugere que meu esquerdismo é frágil (penso no comentário do irmão do Doutor Jivago sobre este, quando os dois se reencontram já adultos no filme de David Lean). Mas não considero assim, ao contrário. Estou tranquilo que não vou virar um conservador ou um reacionário. Se sempre uma metamorfose ambulante, mas tendo sempre como norte a justiça.

A diferença entre esquerda e direita é um problema fascinante, para qual não tenho respostas finais. Pensando muito sobre isso, cheguei a pensar que a grande bifurcação seja a questão do otimismo. A diferença, mais do que o papel do Estado ou do direito individual, seria uma questão de otimismo em relação ao progresso e em relação à condição humana. A esquerda seria, aqui, mais otimista e os direitistas, diante de propostas de mudanças radicais, seriam mais pessimistas. Mas isso não me pareceu suficiente. Muitos liberais e o pessoal da direita radical, em muitos momentos, também revelam um otimismo em relação ao futuro.

Na última vez que fui a Belo Horizonte, eu ajudei duas mulheres cegas a atravessar avenidas e a pegar os seus respectivos ônibus. Duas vezes, duas mulheres no mesmo dia. Tanto assim é um recorde que me faz lembrar meus tempos de colégio.

Notícias sobre violência nas casas vizinhas. Em menos de um mês foram mais de três casos e dois violentos até para os padrões brasileiros.
Pois é.

Vida é frágil e eu esquentando a cabeça por causa de uma garota que... Ah, deixa pra lá. Saí no lucro: ganhei uma dedicatória bonitinha em uma apostila. Mais do que isso não fiz por merecer. 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

28 de julho de 2017.

A última postagem, a do dia 20 de julho: que porcaria! Tento me consolar pensando que muita regularidade é ruim, sinal de que estamos virando máquina, jabuti e funcionário de escritório. Tento me consolar. Tento.

Olho para dentro da privada.
- Parece cólera, mas sem as dores abdominais!
Hipocondria, mania de morte e sofrimento com charminho. Charminho falso, claro. É um pedido de ajuda, indireto como tantos outros. Ajuda para quê e para quem? Foi a morte do Leonardo ao meu lado naquele jogo de vôlei? Foi a educação que recebi? São as minhas perguntas que me deixaram hipocondríaco e tal?
Como um bom vira-lata não fui ao médico, apesar daquela terça-feira bem feia. Não tomei remédio, tomei limonadas. 
E quantas limonadas! E é poético isso, pois o que mais tem aqui é pé de limão. A natureza quer me ajudar. O inconsciente quer me ajudar, pois até meus pesadelos nem são tão pesadelos assim, pois terminam com final feliz. É apenas o meu consciente que é frouxo e ignorante. 
Sei que os médicos de cabeça vão discordar e dizer que há esse conflito entre consciência e o inconsciente e blá blá. Para mim a própria arte e a civilização são evidências otimistas. A guerra e a fome parecem eternos, mas também são eternos as nossas tentativas de vencê-los. Enfim, deixe eu ser otimista aqui. 

Olho para o telefone. Eu deveria ligar para ela. Mas dizer o que? O que resta a dizer só pode ser enviado pelo olhar, pela boca apenas sairiam cansaços e frustrações. Até as mensagens de celular me saem forçadas e artificiais! Mas meus olhos ainda não estão tão envenenados. 
Porcaria de forró vegetariano. Deveria ter ido naquele dia, mas realmente não deu. Porcaria.

Quero ler. Qual o próximo livro? Dúvida gostosa! Penso, penso... Aí resolvo olha para o meu (***censurado***) sonhador e frustrado e a resposta vem rápida: Decamerão, de Giovanni Boccaccio. 
Uma das virtudes deste clássico medieval é a generosidade: celebra o escutar e o contar histórias. Um livro que ensina a amar os outros livros. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

20 de julho de 2017.

Perdi o meu boné. Dormi no ônibus lotação e, como a janela do banco de trás estava aberta e minha cabeça inclinada, lá se foi ele por caminhos misteriosos. Gostava do meu boné porque ele era discreto. Discreto por ser feio. Muito feio. Preciso de outro boné feio.

Recebi o meu presente de aniversário! Foi hoje! Valeu, Lúcio! É noiz! Sou um Voltaire de meia tigela, mas vou continuar a divulgar a sua luta. De maneira mais eficiente.
Ê correio, correio! Que demora, héin?

O filme é brasileiro e se chama “Sudeste”. A história é interessante, mas o que importa é que a Simone Spoladore esta nele. Simone é a atriz mais linda do mundo. Não sabiam? Então, estão sabendo agora.
Detalhe é que este filme só passa em um canal, o Arte1; que vive reprisando-o. Vive reprisando-o, como é tradição nos canais de TV por assinatura. Mas só passa o filme em horário ruim, pô! Como vou assistir?

Parece que eu arranjei um trabalho meio voluntário. Acho que vai ser bom. Também penso em voltar a estudar. Um curso de culinária básica, só para ser mais útil na cozinha. Anos atrás, quando fracassei em tentar morar sozinho, isso me fez uma falta tremenda. Em uma nova tentativa, eu estaria mais preparado.


Quero ir ao teatro. E quero ir a um show. E quero que os pés de ameixas aqui deixem de manha e amadureçam mais ameixas. 

domingo, 16 de julho de 2017

16 de julho de 2017.

A gente se mede pelos inimigos que enfrenta ou, numa fórmula mais diplomática, pelas batalhas que decide viver. Parece que foi Platão quem nos ensinou isso. Bom, aí é que esta: eu sou grande ou eu sou pequeno?

E sou ansioso. Sou ansioso então eu fico rangendo os meus dentes. Então fico rangendo os meus dentes e isso faz a minha cabeça doer. A dentista uma vez disse que neste ritmo aos 50 anos eu vou estar banguela. Fizeram para mim uma proteção para os dentes, uma coisa parecida com os que lutadores de boxe usam. Qual é o nome desse trem? Sei lá. Fizeram para mim. De vez enquanto uso.

Um convite de última hora. Ansiedade e pessimismo remexendo o lodo do meu rio interno: medo, medo, medo e medo. Onde eu arranjei tanto medo? Onde arranjei essa preferência em me torturar por fantasmas do futuro? Eu não fui a única criança a assistir as vídeocassetada do Faustão no domingo a noite. Eu não fui a única criança com uma mãe e uma avó materna que tinham tanta preferência e gosto por histórias macabras. E um pai que terminava tudo que dizia com um mortal “esta bom, mas e se”. Não sou o único que fica com sentimento de medo e ódio quando assiste aos programas policiais da Record e Bandeirantes.
As cordas da minha harpa interna ainda estão na garantia? Alô, PROCON: troco meu lirismo de meia tigela desses textos meus por sussurros em meu ouvido a dizer: vai dar tudo certo, vai dar tudo certo, vai dar tudo certo, vai dar tudo certo!
(A metáfora da harpa veio a mim pelas mãos de James Joyce em Dublinenses. Por alguma manha da memória, os dois trechos favoritos deste livro nunca se perderam dentro de mim. Sempre que preciso deles eles vem rapidinho ficar na ponta de minha língua a falar e na ponta de meus dedos a digitar, para serem derramados para fora. E olha que faz uns dez anos que li este livro.
Então, já que estamos aí. E é tão chique fazer citações! Me achando um Mario Sérgio Cortella ou um Leandro Karnal da vida! Só que sem a grana que eles recebem para fazer palestras e sem a plateia achando tudo inteligente e engraçado [um pouquinho mais engraçado, do que inteligente, devo confessar baixinho já que eu gosto desses dois...].
Então, já que estamos por aqui.
“Mas o meu corpo era uma harpa cujas cordas vibravam às suas palavras e gestos.”
E
“A fortuna que eu tinha
Impossível contar
E de um nome ilustre
Eu podia me orgulhar
Mas também sonhei
O que mais me agradou
Que teu amor por mim
Nunca mudou”
Dublinenses é um livro de contos de James Joyce. É um grande livro de Joyce e o elogio mais sedutor para quem nunca o leu é este: é um livro de James Joyce e é um livro normal. Recomendo muito. Podem ler sem medo. A única coisa que estranhei quando li este livro é que os contos pareciam terminar de forma abrupta, meio que no susto e choque. Meu conto favorito é o Um Caso Doloroso.)

Olhe o tamanho do último parêntese que usei no último aforismo. Me lembrei de uma professora da faculdade de jornalismo especialista em texto de revistas, a (***censurado***):
- Aldrin, este texto seu tem muitos parêntese e parênteses muitos longos. Isso é ruim, pois o texto fica “fechado”.
(risos)
Gostava dessa professora. E ela ficava muito mais bonita quando prendia o cabelo ao estilo “rabo de cavalo”.
E por falar em puxões de orelhas em textos e salas de aula. Agora desta vez estamos no colégio. Há mais de duas décadas. A professora:
- “Hoje em dia” é nome de jornal. Não usem ou evitem usar esta expressão nas redações.
Quando eu ouvia isso, eu tinha vontade de protestar aos gritos:
- As palavras são de todo mundo! Por causa de uns donos de jornal eu estou proibido de usar uma expressão? Isso é ridículo!
Mas eu nunca falei isso. Eu só comecei a falar o que eu penso muito, muito tempo depois.

Meus aforismos ficaram melhores e nascem mais rápidos depois que eu parei da dar títulos a eles.
Por quê?
Tem alguma coisa haver com liberdade, provavelmente. Mas liberdade em relação a quê?

GURU NANAK: - O que veio fazer aqui na Índia?
- Estou procurando.
GURU NANAK: - Procurando o quê?
- Não sei. Só sei que o que procuro eu poderia encontrar no bairro onde moro. Mas sabe como é; mergulhar no sagrado rio Ganges é mais cinematográfico.
GURU NANAK: - Ocidental muito engraçadinho! Se aquilo que procura sempre esteve no seu bairro, então ele esta invisível a você agora. Para deixar de ser invisível você precisa mudar. Aqui...
- O que?
GURU NANAK: - Quando você terminar a saída e o retorno necessário, não se esqueça de levar estes cartões postais.

Box Coleção Ditadura – Elio Gaspari.
Box Em Busca do Tempo Perdido – Marcel Proust.
Mas realmente eu não tenho um pingo de vergonha na cara. Imagino como eu seria com sapatos se fosse mulher!
SIMONE BEAVOIR: - Aldrin... Aldrin...
Desculpa, Simone. Sei que fui machista. Desculpa, isso não vai se repetir.
Folheando o quinto volume da grande obra de Gaspari:
“No governo do estado havia um novo personagem, Paulo Maluf, disposto a mostrar a que vinha, e seu secretário de Segurança argumentava: “O espancamento às vezes é uma atitude enérgica, mas não tem nada de exagerado”. [16]”
“16. Declaração do secretário de Segurança Octávio Gonzaga Jr., Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo, 18 de março de 1979.”
5. A DITADURA ACABADA – Elio Gaspari. (Editora Intrínseca, Rio de Janeiro, RJ, 2016, página 143).
Onde nós estamos em 2017? O Brasil mudou bastante, como podemos ver.
Sobre Proust não há o que dizer de surpreendente: uma das três mais importantes obras de ficção do século XX, lido e estudado no mundo todo desde que veio ao público pela primeira vez. Proust foi tão vitorioso e influente que sou capaz de achar que os sete romances que compõem Em Busca do Tempo Perdido não são tão revolucionários assim; porque, naturalmente, depois de Proust todo mundo começou a escrever como Proust. (Obviamente não é exatamente isso, mas o espírito do trem é esse, vocês me entendem?).

Aí eu aproveito que estou torrando dinheiro mesmo na livraria e compro um Paulo Mendes Campos bem baratinho. R$14,90. Leio algumas páginas e uma daquelas imagens categóricas minhas caem:
- Uai, eu acho que o Paulo Mendes Campos é o parente literário mais próximo que eu tenho?

Entre Franz Kafka e Paulo Mendes Campos existe uma marmota voadora de cabeça para baixo. Eu!

quinta-feira, 13 de julho de 2017

13 de julho de 2017.

Uma pausa nas minhas misérias para falar das misérias dos outros.
E Aécio Neves é ainda mais poderoso do que a gente poderia imaginar. Mas não é sobre ele que quero falar, pelo menos não diretamente.
Não lembro o dia, lembro que foi em uma segunda-feira bem no começinho de junho. Carlos Vianna e Eduardo Costa, dois dos principais jornalistas da radio Itatiaia, comentaram que a carreira política de Aécio Neves “acabara”. Os dois falaram isso. Foi no Jornal da Itatiaia. Menos de 48 horas depois Aécio teve uma ou duas vitórias. E era apenas o começo. E agora, no começo de julho, Aécio Neves esta livre leve e solto, ele sua irmã e aquele seu primo, e brilhando em seu poder.
O ponto aqui é que os jornalistas Eduardo Costa e Carlos Vianna não são como o autor deste texto: não são bobos. Por que eles se arriscaram e deram uma declaração como aquela? Mesmo porque, na história, são muito comuns políticos “mortos” “ressuscitarem”. Óbvio que eles sabiam que Aécio não estava acabado. Por que fazer uma declaração como aquela? Uma declaração tão boba assim?
Tenho um palpite. A coisa é freudiana. Carlos Vianna e Eduardo Costa sabem que a radio Itatiaia sempre apoiou Aécio Neves e seu grupo: o Antônio Anastasia e o PSDB mineiro e etc. Entrevistas em momentos estratégicos, declaração de mais de um minuto (em radio ou televisão, uma fala de mais de 30 segundos já é uma eternidade) e etc. A Itatiaia sempre foi parcial aqui.
Então eles sabiam que dificilmente teriam outra oportunidade. Então eles tentaram “dar as costas”, “superar o peso”, “vencer o passado”. Foi o desespero! Foi sim. Eu senti. Eu senti sim, não me enganei quanto a esta percepção.

Eu, assim como qualquer pessoa normal e de bem, considero o Laerte um gênio do Brasil. O meu personagem favorito dele era aquele Robson Crusoé que fica perdido no meio da metrópole gigante. Adorava as tirinhas daquele baixinho na Folha de S. Paulo. Quando a minha família assinava este jornal.
Se eu ficar famoso e tal, vou tentar pedir para o Laerte fazer para mim um desenho daquele Robson Crusoé.

Comprei um presente. Um cd de música que vou dar para uma pessoa famosa. Conheço o grupo musical, o UAKTI, mas não conheço o cd em questão. Então tive que comprar dois.
Sou uma pessoa de critérios razoáveis. Se o cd for ruim, eu ainda mando; só se o cd for muito ruim é que não mandarei.

“Música é vida interior e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão.”
Não sei por que, mas acabei de me lembrar desse lema que aquele político, o Arthur da Távola, apresentava sempre naquele seu programa de música clássica na TV.
Gostava daquele programa e simpatizava com esse cara. Gente sincera em seu entusiasmo sempre me comove, principalmente se o seu sonho tiver algo de “coisa vã neste mundo cinza e sangrento”. Apresentar um programa dedicado a música clássica no Brasil é justamente um sonho deste tipo. Um dia, em um sebo, encontrei um livro de contos escritos por ele: Leilão de Mim. Nem sabia que ele era um escritor. Comprei o livro. Gostei muito. Muito mesmo. Até do fato do livro ser repetitivo em forma e em conteúdo eu gostei.

Martin. Martin é meu amigo estadunidense. Não o vejo há anos e há anos que eu não troco palavras com ele. F*****!, ele é meu amigo e pronto!
Essas coisas são assim: gratuitas. Se decide e pronto. Nem se eu tivesse dentro de um prédio militar em 1970 mudaria de opinião. Nem se passar 90 anos o trem mudará. Decidi e fim. Decidi e pronto. É gratuito. Não tem motivo ou ciência. É gratuito. Tão vago quanto absoluto. Tão sólido quanto invisível, como um vento eterno.

Claro que é sorte minha nessa história com o Martin o fato dele estar longe e nunca ter pedido ajuda. A distância não seria problema, nessas situações, mas que ajuda eu poderia dar ao coitado? Eu sou uma marmota!
Assim longe e abstrato, posso facilmente pensar nele como alguém para qual eu sou amigo.
Então chegamos a uma daquelas conclusões amargas e maquiavélicas sobre política e vida: é fácil tratar os outros bem quando não se tem intimidade. Então lembramos, mais uma vez, daquelas obras de ficção científica sobre um futuro cheio de paz e vazio de calor humano.

Talvez essa minha solidão tenha essa raiz no fato d´eu não mudar ou mudar tão lentamente. O que eu vou contar? O que eu vou dizer? O que me interessa interessa aos outros? Os outros já sabem que não mudei e assim me conhecem, o que posso fazer diante disso? É uma velha pergunta que carrego: o que eu já tenho?
Quando eu era mais novo, com mais ou menos 15 anos, eu ainda andava pela rua com os olhos sempre mirados ao chão. Hoje ando de cabeça erguida e olho nos olhos dos outros. Mas faço isso protegido pelo meu silêncio. Uma palavra nunca esta sozinha e isso as vezes é perigoso para a nossa fragilidade.
(Na época do colégio eu tinha uma colega que reclamava que eu não olhava nos olhos dos outros para conversar. Então, quando ela conversava comigo, ela desviava os olhos teatralmente para me provocar. Rs rs Onde ela deve estar agora? Ela gostava de mim e como sempre acontece quando a gente gosta, a gente quer ficar perto e mudar, era por isso que ela ficava brava com o fato d´eu não olhar nos olhos dos outros na hora de conversar.)

“Não é pelo Temer, é pelas reformas que o Brasil precisa!”
Depois dessa, vale a pena sair de casa no domingo votar? Não importa se é Temer, Lula, Jader Barbalho ou Tom Cruise na presidência em Brasília; o que importa são os donos da economia e seus desejos. Mas não vou agradecer por ensinarem essa velha lição de maneira tão explícita.

Já falei mil vezes e vou falar de novo: Temer não cai sozinho, ele vai levar o jornalismo da Rede Bandeirantes de Televisão junto. O governismo deles é repugnante. Mas é saudável e didático em um ponto: quem não conhece a imprensa chapa-branca em um país totalitário pode ter um pequeno vislumbre de como ela é: o otimismo irresponsável, os números que interessam, os entrevistados úteis, trabalhadores com os uniformes limpinhos e etc.
No clássico Notícias do Planalto – A Imprensa e Fernando Collor, do Mario Sérgio Conti, eu fiquei admirado com o Saad que, de todos os donos da imprensa brasileira, parecia ser o mais lúcido diante do Fenômeno Collor. Roberto Marinho também era lúcido, mas foi mais discreto sobre a sua opinião pessoal. Mas naquela época e hoje, os negócios e o pragmatismo falam mais alto. Eles sabem exatamente o que fazem. E assim como na história de Adão e Eva: este saber entra em conflito com a inocência.

O melhor do Luís da Câmara Cascudo é que ele é brasileiro.
Depois de mais uma das minhas frases de efeito estapafúrdias, deixe-me tentar explicar. Seguinte: até hoje a minha formação intelectual foi por meio de mãos estrangeiras. Os autores mais importante em minha formação até agora foram os estrangeiros. Sequer latinos. Então encontro, finalmente, o Câmara Cascudo e ele é diferente. Mas aqui esta o ponto: diferente mesmo. O cara é diferente.
Vejam: tradutores podem ter alguma dificuldade para traduzir meus amados Rubem Alves, Ruy Castro, Contardo Calligaris, Paulo Prado, Joaquim Nabuco. Mas não seriam dificuldades que requereriam milagres. A questão é que Câmara Cascudo é diferente. O modo como ele cita outros autores, a oralidade dele misturada com a sua escrita, a informalidade misturada com a formalidade, a poesia misturada com rigor científico e etc. É uma diferença assim... É uma coisa assim como eu nunca tinha visto antes... É... É... diferente! Tipo; deve ter um Joaquim Nabuco versão estadunidense ou indiana, entendem? Mas Câmara Cascudo só tem um e é aqui, no Brasil.
(Não vou usar a metáfora da jabuticaba porque os jornalistas embaixadores da classe média alta e classe rica usaram a metáfora da jabuticaba para atacar a tomada brasileira de três pinos. A revista Veja e quase duas semanas depois do Bom Dia, Brasil, da Rede Globo; eu lembro, tenho boa memória para esses detalhes pequenos. A elite acha que era muito sacrifício em prol do combate aos acidentes domésticos com eletricidade reformar as tomadas da suas casinhas. Imagino como deve se comportar a elite brasileira quando o colégio pede ajuda para reformar a quadra poliesportiva ou a biblioteca. Elite de m***).
Ainda sobre Câmara Cascudo: a erudição dele causa assombro profundo em quem o lê. Eu disse assombro?, o cara toca o terror mesmo! O filho da mãe leu tudo, tudo, tudo, tudo! O domínio que ele tem do assunto que ama, - o folclore, a cultura popular brasileira -, é absoluta: ele conhece a rua e um livro alemão obscuro do século XVI. E detalhe: ele não faz hierarquia: a rua ajuda o livro e vice versa. É sabedoria como S maiúsculo! Uma tal formação eu só conheço paralelo em Shakespeare e em Leonardo da Vinci.
Existe um desenho alemão representando o momento do nascimento de Beethoven. É um desenho ao estilo realista, se não fosse por um detalhe: o recém-nascido e a mãe e o pai, estão acompanhados de duas mulheres. Quem são essas duas mulheres? Bem altas e vestidas com mantos, elas só podem ser gregas. Duas musas, duas graças. Como uma segura uma pequena harpa, é óbvio que são duas musas, duas graças representantes da Música. Uma coloca uma coroa de louros na cabeça do recém-nascido. Detalhe interessante é que a criança olha para a divindade e não para a própria mãe neste momento de coroação. Para a parte da divindade e não para a parte do humano, entenderam? Ou seja, a decisão já esta feita: sua vida pela música.
Tenho certeza que quando Luís da Câmara Cascudo nasceu algo parecido aconteceu.

Tivemos muita sorte.
Se naquele primeiro dia Deus tivesse criado Johann Sebastian Bach, o resto do universo não teria sido criado. Ele obviamente teria ficado satisfeito.
Nós tivemos muita, mas muita sorte.
Tivemos muita sorte.
Se naquele primeiro dia Deus tivesse criado a música, o resto do universo não teria sido criado. Ele obviamente teria ficado satisfeito.
Nós tivemos muita, mas muita sorte.

O que foi isso? As “vinte mil palavras contra o terror” (Massimo Conti) de Kruschev no XX Congresso do Partido? Os comunistas se dividindo e atrapalhando uma oportunidade de ouro na Guerra Civil Espanhola? Karl Popper fazendo a mais consagrada crítica à tradição política que tem como eixo Platão, Hegel e Marx em A Sociedade Aberta e seus Inimigos? Não, foi apenas Lula em 12 de junho de 2017.
Para quem sempre votou no Partido dos Trabalhadores e se considera esquerdista e simpático à escola de pensamento político anarquista, eu até que não falo muito aqui da Venezuela, Cuba, PT, Coréia do Norte e URSS. Por quê?
Prefiro não responder e repetir uma pergunta que é feita desde a primeira vez que um humano encontrou outro: o que é justiça?
Melhor enfrentar uma pergunta sem resposta num momento como esse.
(Fiquei muito tempo pensando no que escrever. Aí começo a escrever no dia 9 de julho, para só então publicar amanhã, dia 13 de julho. Aí acontece uma coisa dessas. Bom, continuemos com as minhas bobagens que amo.)

Em homenagem aos índios Krenak eu vou fazer uma reprodução do totem JONKYON. Roubado na década de 1930, com a complacência do antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI).
JIM MORRISON: - Se eu fosse você, não brincava com essa coisa de índio. Falo por experiência própria. É só brincadeira, é só amor, é só para você, é só um protesto político contra um crime que traumatizou aqueles índios, mas... Mas... Mas... Mas...
Em homenagem ao George Orwell eu ainda vou visitar a Espanha para unicamente tomar um café na cidade de Huesca. É por causa de uma piada que circulava entre os republicanos durante a Guerra Civil Espanhola, um momento triste que marcou este escritor que eu tanto amo.
(Eu tenho uma “amiga de FaceBook”, com o mesmo sobrenome que o meu. Ela é de origem espanhola e esta querendo, se já não foi, se mudar para a Espanha. Até pensei em brincar com ela que se a cidade de Huesca for perto da casa dela, eu faria questão de visitá-la. Na hora do almoço, óbvio. Como convém a uma visita sem noção. Mas essa minha “amiga de FaceBook é muito séria e eu tenho receio de conversar com ela sobre uma coisa assim.)


Quinta-feira e domingo. Vou tentar atualizar meu blog e meu FaceBook principalmente nesses dias. Vou tentar.

domingo, 2 de julho de 2017

2 de julho de 2017.

DESDÊMONA: - Se ela tivesse te dado um beijo você seria dela para sempre, é este o ponto?

- Sou romântico, não castrado.

DESDÊMONA: - A culpa deve ser minha! Falo javanês? Nem Otelo e nem você. Ninguém me escuta!

- O que foi?

DESDÊMONA: - Não foi isso que perguntei. Perguntei o que ela deveria ter feito naquele sábado. Ela, ela, não você, você! Me diga o que ela deveria ter feito no sábado que você mesmo disse que fora perfeito.

- Eu não sei! Eu não sei! Mil vezes eu não sei! Sei que aquele sábado era perfeito e agora não é mais!

DESDÊMONA: - E por que não é mais? Aniversário é para ser algo alegre, mas você esta se envenenando. E é há assim já faz mais de uma semana! Derramou tudo apenas no dia do seu aniversário. Você esta olhando para trás e ficando cego e amargo. E esta piorando a cada segundo. O que esta acontecendo em seu íntimo?

IAGO: - Damas da noite podem ajudar homens a aguentar os jogos das moças de família, sabiam? Ajuda a ter paciência. Apaga o fogo, equilibra a alma. Ajuda a gente a tratar bem as donzelas.

DESDÊMONA: - Quem convidou você para esta conversa, demônio?

IAGO: - Pergunta ao autor deste blog!

- Eu sei nada! E sei menos a cada segundo que passa. E não sei onde estou neste diálogo. A única coisa que sei é a raiva, o espinho e a minha carne que geme. Então eu apenas escrevo e escrevo e não sei como colocar um ponto final. Tenho nada, tenho nada, apenas este verbo: escrever e escrever.

IAGO: - Desdê você me empresta aquele seu bonito lenço bordado?

DESDÊMONA: - Cachorro!

IAGO: - Ora, vamos ser honestos! A garota acha que ele vai comer ela e depois vai pular pela janela e sair voando. Ela conhece ele há anos e se pensa assim é sinal que ela não é exatamente flor que se cheire.

DESDÊMONA: - Ela tem o direito de pensar e de sentir o que quiser e nós não temos como ter certeza de qual é o verdadeiro caso aqui. E mesmo que você esteja correto, é um receio legítimo e que provavelmente tem uma origem triste e...

IAGO: - Sim, sim, é a velha e velha história: a culpa é do ex!

DESDÊMONA: - A assombrar o presente e apagar todos os futuros sentimentais, sim! Se for este o caso, se for este o caso. Talvez não seja este o caso.

- Que outro caso seria?

DESDÊMONA: - Talvez ela queira amizade! Ser amiga!

IAGO: - Ah, claro! Amizade!

DESDÊMONA: - Isso é pouco? Me digam vocês dois se isso é pouco! É pouco amizade? Pergunto enquanto lembram quantos já nos disseram que amizade é mais generosa que o amor.

IAGO: - Senhoras e senhores, o espetáculo da honestidade feminina! Quer dizer que quando ele telefonou há meses atrás, depois de tantos anos de afastamento, era apenas para uma amizade a mais?

DESDÊMONA: - E qual seria o problema? Amizade, curiosidade? Nunca se conheceram direito mesmo. Começar do zero! Curiosidade, amizade.

 - Curiosidade sim. Sim, eu concordo! Eu sou mesmo uma atração de circo! Concordo!

IAGO: - HÁHÁ!HÁÁÁHÁ! HÁ!!

DESDÊMONA: - Não se faça de vítima, não se faça de inocente! Você foi atrás de outras garotas, antes dela. Você sabe, ela sabe. O que você acha que ela pensou? “Nossa, ele me ama tanto que me telefonou depois de tantos anos de agonia muda! Já não aguentava mais e aí teve que telefonar!” Ou: “Ele fracassou com todas, agora vai comigo”. Você se colocou no lugar dela? Você tentou se colocar no lugar dela? Você pelo menos sabe que pode se colocar no lugar dela?

ALEXANDER PORTNOY: - Todo mundo pega todo mundo hoje em dia, custava dar uns amassos pelo menos? Ia traumatizar? Ficaram quase dois dias juntos, pô!

DESDÊMONA: - Eu não acredito que você trouxe ELE para a nossa conversa! Eu simplesmente não acredito! Já não basta Iago venenoso? Agora ele também? Ele, ele!

- Os livros mais importantes são O Meu Pé de Laranja Lima e O Pequeno Príncipe. Mas é ele o personagem de ficção com a qual eu mais me identifico.

DESDÊMONA: - O personagem de ficção com a qual você mais se identifica é um pervertido egocêntrico?

IAGO: - Isso esta ficando cada vez melhor! Ela nunca ira te perdoar e você vai continuar onde sempre esteve, mas pelo menos um texto bom nasceu! Um brinde à metalinguagem! Um brinde ao sacrifício artístico!

ALEXANDER PORTNOY: - E aí, já bateu uma hoje? Já? E quantas vezes? Me preocupa, pois é sinal de velhice serem sempre as mesmas mulheres com as quais você tem sonhos eróticos. A roqueira mais velha com sorriso de luz, a sempre simpática magrinha de óculos, a bela mulata de lábios invencíveis, as duas ruivas que o inferno lhe deu de presente e esta...

- A última vez que bati uma foi pensando nela. A última vez...

FREUD: - O charuto é poderoso! Você sabe que não vai ser a sua última vez!

- A última vez que bati uma foi pensando nela. A última vez... A última vez! Isso não é romântico?

ALEXANDER PORTNOY: - Ah, mas com certeza! Muito romântico! Romântico demais! Apenas pergunto como você vai contar isso para ela!

IAGO: - Rá! Boa, boa...

ALEXANDER PORTNOY: - E não foi?

DESDÊMONA: - Este diálogo esta ficando non sense. Mais verdadeiro, mas mais non sense também. Vamos parar antes que o time do Monty Python suba ao palco.




REI MIDAS: - Dizem que você é inteligente...

- É o que dizem...

REI MIDAS: - Então deve saber que eu quase morri de fome quando eu quis que tudo que eu tocasse virasse ouro. Você sabe aonde eu quero chegar, não é? Se escrever sobre tudo aqui neste seu diário ...

- O que eu tenho; Midas? Nada, nada! Eu escrevo, eu peço, por favor, para me dizerem que eu existo; eu escrevo, eu explodo por dentro e por fora, eu escrevo, eu grito antes do fim, eu escrevo, eu deixo uma mensagem na parede suja do banheiro da rodoviária, eu escrevo, eu pergunto se há alguém a me responder...






- Quero entregar meu coração a ela ou ela é apenas o único motivo que encontrei forte o bastante para mudar a minha vida? Sei que apenas eu posso me salvar, mas...?
- Ela estava certa eu não ter me dado um beijo. Ela sabe. Todas sabem. As mulheres sempre sabem. Eu enjoo, sofro de tédio. Nada garantiria que eu iria continuar. De mãos dadas ou sem as mãos dadas, dividindo ou não o copo de Milk-shake cruzando o nosso olhar como nos filmes românticos, eu já não saberia por que telefonar de novo. Ficar por ali, pois depois de um ponto nada de bonito há para conhecer em mim. Tenho nada. Tenho nada. Absolutamente nada! Nada, nada, nada e nada!




- Não é a garota, Otelo. Sou eu. Estou mal, general.

OTELO: - O que passa?

- Um aperto na garganta. Uma ansiedade indefinida, um horizonte nublado e uma vontade de morrer. Mas não posso morrer num lugar que já esta morto. Eu só poderia cortar meus pulsos se estivesse em uma bonita praia do nordeste, aí seria algo! Aqui, não. Aqui tudo já esta morto. Eu mesmo já estou morto aqui. Teria que me mudar, sair daqui para poder pelo menos morrer. Nem morrer aqui é possível. Eu vejo alguns funcionários públicos daqui andando pela rua: eles fazem nada e ganham tudo, mas não os invejo. Realmente não os invejo. O tempo é precioso, não pode ser gastado em vão. E é tão fácil gastá-lo em vão! Todas as pessoas e todas as ocasiões levam a você gastar o tempo em vão! Eis os sonhos que me deram quando criança! Estou ficando sem saída. Sem alternativa. A minha bússola interna sumiu. Onde esta a minha bússola interna, Otelo?

OTELO: - A sua bússola sempre foi o seu coração. Quando libertei a Etiópia, tive que tomar as decisões mais difíceis e pedia aos deuses que eu fosse tão firme quanto as rochas gigantes do litoral africano. Anos e anos e o mar poderoso não destruía aquelas rochas. Fique firme.

- Firme e frio. Ficar frio, tratar os outros como objetos que se movem, falam e nos dão sustos as vezes? Crueldade! Uma dúvida! Eu sou um fantasma ou são as pessoas nas ruas é que são fantasmas?

OTELO: - Bom, pelo menos eu sei que sou um fantasma! (risos)

- (risos)

-  Eu precisava rir um pouco, obrigado. Meu humor é roleta russa. Na sexta terrível, penso que não morri porque o Windows Media Player tocou “Equinoxe V”, de Jean Michel Jarre, e “Brimful of Asha”, do CornerShop. Não é fabuloso ter os critérios que eu tenho?

OTELO: - Você precisa mudar.

HENRY DAVID THOREAU: - Todo dia é uma segunda chance. Feche os olhos e se concentre. Tudo tudo que você precisa você já tem.

- Com 34 anos eu já queimei todos os meus navios na praia. O único caminho é sair da areia e mergulhar na densa floresta em minha frente. Carregando o que tenho, sem perguntar se são virtudes ou vícios.


OTELO: - Você sabe o que acontece no final, o final é o retorno ao mar; então apenas rasgue a floresta para lembrar à ilha que você esteve ali.