Voltaire ajuda

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domingo, 25 de junho de 2017

25 de junho de 2017.

HANS KELSEN: - Essa ideia de “Diretas-Já” é inconstitucional. Eu sinto muito, mas lei é lei.
AMOR: - Mas seu Kelsen, faz algum sentido falar que algo é ou não é constitucional no Brasil; um país em que a Constituição é violada com emendas a cada dois meses em média?
HANS KELSEN: - Como diria um dos maiores gênios do futebol brasileiro de todos os tempos e que infelizmente me escapa o nome: “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Uma coisa é um governo federal que troca diálogo por medidas provisórias e coisas do tipo. Uma coisa é deputado federal inútil que acha que vai ficar “imortal” ao colocar mais um parágrafo à constituição. Uma coisa é isso, outra coisa é desrespeitar o espírito das leis. Quando a lei é desrespeitada, mesmo com a melhor das intenções, a tempestade sangrenta surge. E não demora muito a ela despontar ao horizonte.
[Tenho que conferir. É que muitos textos deste blog ficam semanas dentro de mim e eu me esqueço de publicar. Parece que houve a aprovação de uma emenda ou coisa do tipo sobre as “diretas-já”. Tenho que conferir. De qualquer forma, parece que não fez muita diferença. Como era a citação de Marx: a tragédia (anos de 1980) e depois a farsa (2017)? De qualquer forma, o diálogo acima ainda mantém algum vigor.]

Fui vítima de um truque tão antigo quanto o próprio mundo. O autor é alguém querido, alguém que eu quero muito bem, o que justifica o efeito tremendo que o golpe teve em mim.
É; eu vou ter que fazer mesmo um pequeno jornal pessoal meu. Mas como sou hipocondríaco jurídico, o jornalzinho vai ser tão inofensivo quanto desesperado e humanista. Livros, filmes, música, essas coisas. Se eu cismar de falar mal de alguma pessoa poderosa, vai ter que ser de maneira tão indireta que nem advogados viciados em dinheiro seriam capazes de me pegar. Vai ser um jornalsinho de resenhas mesmo.
Ah, vai ser difícil mudar o mundo com um jornalzinho de resenha de filmes em cartaz e de livros que só eu leio; mas tento me consolar pensando que o jornalismo cultural feito pela grande imprensa é uma porcaria imensa que então qualquer pequeno oásis realmente autoral faz muita diferença.
Já tenho o nome do jornal e as cores dele. Só falta o resto. O resto absoluto.

Já escrevi algo sobre isso aqui: a memória é misteriosa e mágica. Há quantos anos eu não relia Minhas Mulheres e Meus Homens, de Mario Prata? As minhas histórias favoritas continuam ainda mais favoritas depois de mais de uma década e eu descubro, surpreso, que meus aforismos deste blog foram tremendamente influenciados pelo Mario Prata. Impressionante! 
Falo o tempo todo da minha dívida para com Nietzsche, Joseph Campbell, Rubem Alves, Will Durant, Lúcio Flávio Pinto, mas é aquela coisa: como estou em atividade, é difícil eu ter um distanciamento crítico para saber exatamente de onde vêm todas as minhas influencias.
É Mario Prata, você acabou de entrar oficialmente no mais marmota dos clubes: o meu panteão. Mais um pobre Virgílio a guiar esse Dante de cabeça para baixo pelos caminhos do humano.

Da série segredos que nem aos médico de cabeça a gente conta.
O LOBO DE WALL STREET (The Wolf of Wall Street, Martin Scorsese, 2013)
Minha cena favorita? A da prostituta barata. Aquela que esta sentada na mesa, enquanto um cara em pé faz sexo com ela. O modo como ela olha para os executivos da sala: com genuína perplexidade. A expressão da prostituta barata diante daqueles homens acaba comigo. É minha cena favorita de um dos meus filmes favoritos.
Por que eu gosto dessa cena, Freud? Pura estética, apenas pelo humor ou há algo mais? Mas o que é este algo mais? Olhar dela, o olhar dela! Aquele olhar dela, aquele olhar dela! Ah!
CLUBE DA LUTA (Fight Club, David Fincher, 1999)
Minha cena favorita? A da mulher velha-esquelética-câncer-terminal, pedindo, por favor, para algum homem daquele grupo de apoio a doentes ir à casa dela fazer sexo com ela. Ela apela, ela repete, ela começa a chorar, conta que comprou filmes eróticos para ajudar e outros objetos eróticos com a mesma finalidade. Tem esta cena breve no YouTube. Toda vez que eu assisto essa cena eu sou partido ao meio. E eu assisto a esta cena muitas vezes.
Por quê?

FREUD: - Eu acho que você já sabe muito mais do que deixa transparecer. 

quinta-feira, 22 de junho de 2017

22 de junho de 2017.

- Foi o mais bonito sábado da minha vida!
HOMER SIMPSON: - Foi o mais bonito sábado da sua vida até hoje.
- Foi o melhor sábado da minha vida!
HOMER SIMPSON: - Foi o melhor sábado da sua vida até hoje.

Não consigo parar de pensar no sábado passado. E parece Deus ou o artista em sua obra criada: onipresente e invisível. Até as cores e os cheiros estão diferentes nesses últimos dias.
E como a objetividade é inútil nessas coisas: tudo pode significar um sim ou um não. Aquele gesto, aquela palavra dita, aquele engano, tudo, tudo pode ser sim ou não. O coração é poderoso e suporta tudo, tudo menos o talvez. Num momento a fé sorri para o sim e noutra sente a presença do não; mas o talvez é o tabu em sentido estrito. E estou neste balanço constante em meu peito.
E agora, o que fazer? Eu não sei. No último telefonema eu fiquei muito tempo calado, sem saber o que dizer. Foi adoravelmente aborrecente. Como leitor de Nietzsche e de Saint-Exupéry, eu deveria mesmo era seguir o coração/o mais profundo instinto.

Junho, o mês de meu aniversário. Meu presente será comprar mais livros do Lúcio Flávio Pinto, o mais importante jornalista brasileiro. Mandarei um e-mail e farei um pedido. Fiz isso em 2008, quando ganhei meu primeiro salário no serviço em Sabará. Quero e vou comprar todos os livros dele, mas como minha fonte de renda é irregular eu tenho que fazer isso aos poucos. Aos poucos, mas já no ano que vem comprarei todos que faltam.
Até penso pedir ao Lúcio dois livros que não são de autoria dele, mas que imagino deva ser mais fácil a ele encontrar do que eu (o Rio de Raivas, de Haroldo Maranhão e Tesouro Descoberto no Máximo Rio Amazonas, do Padre João Daniel; sobre a qual Lúcio escreveu recentemente em sua página na internet: https://lucioflaviopinto.wordpress.com/2017/06/19/a-historia-na-chapa-quente-235/). Mas acho que já seria muito abuso. Lúcio tem humor, mas descobrir que tem um fã tão marmota como eu deve deixar ele um pouco aborrecido.
Lúcio inspirou-se, de maneira amazonida e tropical, no Isidore Feinstein Stone; poderia eu fazer algo do tipo em relação ao Lúcio? Ah... Nem um tabloide cultural eu fiz! Mas...

O poder corrompe, um chuveiro quente corrompe ainda mais. Como não sou bom em matemática, não sei se estou realmente economizando ao usar o chuveiro no lugar de Freud e Jung.

Depois de Camus, Emil Cioran (Sobre a França). Olha na companhia de que tipo de francês eu ando. Mais um pouco e eu vou abrir um bar para que meus clientes, entre uma coxinha de catupiry e uma água ardente, decifrem o propósito da existência.
Camus e Cioran. Camus em O Homem Revoltado é difícil de ler, por causa da erudição muito concentrada: em quatro frases ele atravessava séculos e escolas de pensamento com uma facilidade de moleque. A gente fica tonto ao tentar acompanhar.
Com Cioran é diferente. Cioran é anti Machado de Assis: é adjetivo demais no texto. Muito, mas muitos adjetivos! As imagens, como os aforismo de Nietzsche, são atraentes à nossa reflexão; mas Cioran enjoa rápido como um bolo doce demais e que não é nutritivo. As imagens de Nietzsche, por outro lado, são nutritivas e não enjoam (é uma questão de paladar, naturalmente, mas pelo menos é fato objetivo que Nietzsche muda de opinião o tempo todo, então de tédio os seus leitores não sofrem).
E Cioran enjoa seus leitores muito rápido. O livrinho tinha menos de 120 páginas, mas quando cheguei à página 80 eu pensei em desistir. Acabei terminando o livro sem prazer. Sem prazer mesmo. Fiquei triste e aborrecido. Pretendo me entregar aos braços do Albert Camus por toda a vida, mas o Cioran eu já vi o suficiente.

Ah, é chato falar mal de um autor aqui. Paciência! 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

14 de junho de 2017.

Eu falo muito de literatura e de filosofia por aqui. Parece algo esquisito ou “alienígena”, mas foram os livros que me salvaram.
Falo de filosofia e arte com essa informalidade de adolescente cheio de hormônios na cabeça, pois nenhuma formalidade, por mais didática e científica, seria capaz de conter a selvageria do rio que comanda tudo aqui.
Os livros me salvaram e ainda me salvam do mundo e de mim mesmo. É que pés são pisados enquanto dançamos e aprendemos com os nossos demônios e anjos, e uma formação humanista ajuda aqui como um Merthiolate seguido de Band-Aid.

E o TSE acabou absolvendo a Chapa Dilma-Temer.
Acho que a lição mais importante aqui nada tem haver com Dilma, Temer, empreiteiras querendo “ajudar” campanhas políticas e etc. É uma dessas lições fundamentais e que infelizmente temos que nos lembrar porque sempre a esquecemos, por preguiça e pela força do cotidiano. A lição é que justiça não é vingança. No caso aqui isso se transforma em: não se deve entrar com um processo se você estiver com o coração sujo. O senador Aécio Neves disse que entrou com o processo no TSE para “encher o saco”, em uma gravação divulgada por toda imprensa; e acabou prejudicando o próprio TSE, o PSDB, o PT, o PMDB, a economia e o Brasil inteiro que por semanas ficou tenso e falando sobre esse julgamento do TSE. O senador Aécio Neves é mesmo um bobo.
O PSDB entrou, ou vai entrar, com um recurso na justiça contra essa decisão do TSE. Isso vai “aguar” a decisão de origem venenosa do Aécio Neves, porque dessa vez a decisão tucana é técnica e blábláblá. E também serve para mostrar que o PSDB é independente do Governo Temer, apesar de ter decidido continuar a apoiar o Governo do Temer. Muito inteligente do ponto de vista da guerra de propaganda essa decisão do PSDB, mas vai servir de motivo para que mais gente acuse o PSDB de estar virando um “PMDB da vida”. Ou seja: de gostar de poder pelo poder.
Falei que o julgamento do TSE sobre a Chapa Dilma-Temer deixou o Brasil inteiro na expectativa e isso é verdade. Foram semanas de especulações, palpites, conversas de bastidores e tal no Brasil inteiro. Agora compare como a grande imprensa estava dois dias depois do resultado do TSE. Nada, nada!
- Se pacifica Brasil, se pacifica!

Se eu fosse editor chefe de algum órgão da imprensa, eu mandaria todos os textos repetirem o nome por extenso dos partidos políticos. Não teria essa história de no começo do texto/fala ter “o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira)” e depois, ao longo do texto/fala, “PSDB” e “PSDB”. Não, não! Repetiria o nome dos partidos por extenso sempre. Sigla-nome, sigla-nome. Seria correto do ponto de vista da gramática e ajudaria a evidenciar que entre PT, PSDB, PSOL, PCB, PPS, PEN, PP, DEM, PSB, PR e etc. não há muitas diferenças assim.
Até sou favorável a ter no Brasil muitos partidos, mas fico triste quando percebo que eles são iguais nos defeitos e que as suas qualidades não são assim ricas e nem variadas. A ideia de ter muitos partidos se justifica quando sonhamos com a possibilidade de termos muitas alternativas para um futuro feliz para o Brasil. Serem muitos os caminhos, vocês me entendem? Se existem muitas maneiras de destruir um país, deve haver, igualmente, muitas maneiras de se salvar um país. Sei lá. Acho isso.

O que uma filósofa e um filósofo mais amam? Essa é fácil: a verdade. E em segundo lugar? Certezas? Não. Colegas professores e alunos achando que você a última cocada do pacote? Também não. Um livro seu lançado com capa dura? Também não. Difícil, não é? O filósofo de cabeça para baixo aqui ajuda. O que os filósofos mais amam depois da verdade é a nota de rodapé.
As notas de rodapé! A metáfora veio a mim depois de ver na televisão uma propaganda do filme “Chocolate” (Chocolat, Lasse Hallström, 2000). Aquele filme com a Juliette Binoche e Johnny Depp. Assistiram? Recomendo. Esta só um pouquinho abaixo da média. Vamos lá, é uma comédia romântica. Só o sorriso da Binoche vale as duas horas nunca mais recuperadas para assistir ao filme.
Onde eu estava? Além de estar sempre de cabeça para baixo o filósofo aqui é disperso e dislexo. Falei do filme é porque é para vocês imaginarem uma criança, vadia e cigana, entrando frequentemente para roubar um bombom da loja mais chique e grã fina daquela cidade do filme. Imaginaram a cena? Agora vem a metáfora.
Sempre vou à prateleira ler as notas de rodapé de A Sociedade Aberta e seus Inimigos, de Karl Popper.
Agora quem, quem, termina de ler todas as notas de um livro antes de ler o próprio livro?

Em vez de prestar atenção ao meu programa de radio e no programa dos meus colegas locutores a quem ajudo atendendo telefone e preparando músicas, eu fico é vendo vídeos do YouTube. Trailers de filmes e vídeos promocionais da Canon, a marca da minha câmera fotográfica.
Eu já devo ter visto todos os vídeos em que a atriz Katherine Waterston esta de cabelo curtinho. Tem umas cenas de Alien Covenant em que ela esta de boné e outras em que ela esta com uma camiseta regata bem justa e segurando uma arma; e aí eu quase tenho um ataque cardíaco.
(O pessoal jogou mesmo a toalha: os trailers tem agora média de três minutos e querem contar toda a história dos filmes. Nem tentam disfarçar. Criativo e misterioso apenas os trailers de documentários, o que é estranho e pode ser sinal de esperança. Outro detalhe: além dos trailers longos que contam a história dos filmes, ainda tem outros vídeos promocionais, tipo entrevistas com atores e tal, de modo que quase temos mais ou menos 10 minutos de filme revelados antes do mesmo ir aos cinemas.)

Você sabia que havia cidadãos estadunidenses presos na Coréia do Norte? Fiquei sabendo ontem e acho que o mundo inteiro também.
Desconfio que estejam preparando uma guerra e devagarzinho, devagarzinho estão tornando essa ideia mais palatável ao grande publico, para que este não fique muito chocado quando a guerra acontecer.

O problema é que guerra é guerra e o EUA nem salvaram o Afeganistão ainda. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

3,4,5,6 de junho de 2017

Um documentário sobre a Amy Winehouse, cantora e compositora britânica de grande talento e de vida breve e trágica. O documentário é famoso e premiado [ “Amy” (Amy, Asif Kapadia, 2015) ]. Passou hoje de tarde na televisão.
Queria destacar um ponto: temos fotos e cenas de tudo. Um registro de seu talento quando era ainda era uma adolescente, um registro de sua primeira gravação quando ela era ainda uma promessa e um registro, feito por amigos em um carro em movimento, de cartazes nas ruas londrinas anunciando o seu primeiro disco. Tudo, tudo, registrado. Tudo, tudo!
“E daí?”, as leitoas e os leitores poderiam perguntar aqui. E daí que isso é século XXI e não século XX. É importante notar isso. É século XXI essa “coisa” de querer registrar tudo e depois guardar todo esse material sem saber exatamente por que. Estavam todos prevendo que Amy seria mundialmente famosa e por isso registraram aquela cena na cozinha, aquela foto triste, aquele momento de assinatura de contrato? Muita coisa é registrada e disso, muita coisa é guardada e muita coisa também é apagada. Qual é o critério? O que bastaria para que a maioria do material exibido pelo documentário de Asif Kapadia sobre a Amy fosse ser deletado: dois discos com poucas vendas e alguns shows com poucas pessoas na plateia?
Tudo muito frágil.
- A carreira de Amy poderiam seguir o seu caminho e que diferença ter mais ou menos registros de tudo?
Não é isso que eu estou falando, é que nós gravamos e apagamos os registros no nosso século XXI de uma maneira meio cega de critérios. Não sei explicar direito. Tudo muito frágil. Gravamos e apagamos, gravamos e apagamos.
Aposto que a maioria diria que a vida dos historiadores do século XXII será mais fácil do que seus irmãos de disciplina dos séculos XX e XX, mas eu acho que poderá é ser mais difícil e pelo mesmo motivo: os nossos arquivos digitais. Essa bagunça de nossos arquivos digitais.
- Quando drama! Todos os historiadores sabem que tem que tentar montar um quebra-cabeça louco na hora de tentar decifrar o passado da humanidade. Fiquemos, por exemplo, no exemplo que iniciou esta questão: que a Amy do documentário não é a Amy de verdade qualquer historiador iniciante saberia de antemão. Qual é o risco exatamente?
- Um vídeo caseiro digital ser considerado mais completo que a Pedra de Roseta.
- Um talvez não, mas talvez milhões de vídeos digitais... O poder da quantidade...
- O poder da quantidade!

Já esta todo mundo dizendo que o julgamento da Chapa Dilma-Temer será adiado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) por causa de algum pedido de vista por parte de algum juiz de lá; então eu também quero fazer parte deste círculo vicioso e também apostar que alguém pedirá vista e este julgamento que já dura “um milhão de anos” vai ainda demorar mais.
Falei em círculo vicioso, pois é óbvio que quem vai pedir vista lê jornais e ouve radio. Vai ter gente de saia preta lavando as mãos e gente de saia preta, mais consciencioso, se sentindo um verdadeiro bobo.
Alguns juízes foram para o TSE recentemente, o que é uma justificativa bastante adequada para o adiamento.
Temer completará o mandato, pois seria muito “anarquismo” ter a queda de Dilma e Temer em tão pouco tempo. Todos os políticos são “iguais”, entende? Em linguagem jurídica: precedentes. E mais: tirando Temer, quem entraria? Quem iria querer entrar?
Vamos prender a respiração até 2018 e “começar do zero” lá. Um “novo Brasil após o furacão” e blá blá blá. Mas a memória de uns, não é a memória de outros; e o veneno da mágoa vai estar lá em 2018 também.

Onde esta a máquina do tempo quando a gente precisa dela? Ir para o futuro, ler os autores certos e voltar para 2017 e dizer as coisas mais inteligentes. Parece bom, mas será que os meus contemporâneos iriam reconhecer o valor das minhas declarações?
Seria interessante responder: a Operação Lava-Jato esta agonizando ou não? As vezes acho que ela esta e as vezes acho que ela não esta. Sei que já são muitos anos e tem gente poderosa na cadeia e tal; mas também sei que já são muitos anos e as leis e o povo brasileiro continua os mesmos.

A semana passada foi maravilhosa. Quero que ela se metamorfoseie nas próximas semanas que virão. Próximas semanas e meses.

Lendo pela milésima vez trechos de Confissões de um Filósofo, de Bryan Magee. O livro de não ficção que mais li na vida. Parece sopro divino, sexo e uma deliciosa pizza gigante meia quatro queijos e meia champignon; tudo misturado e sempre. Ao alcance das mãos. Fácil, fácil. E não há tédio, pois o livro muda junto comigo.
Mas desta vez os trechos que li e reli estavam no final, o que não é comum quando folheio e releio este livro. E aí eu “viajei na maionese” (amo essa expressão popular, um tanto esquecida hoje em dia) e muito.
“As pessoas não morrem, elas ficam encantadas.” – Citação atribuída a Guimarães Rosa.
Seria estas palavras um resumo da segunda parte de O Ser e o Tempo, que Heidegger ficou de escrever e não escreveu? Seria estas palavras de Guimarães Rosa a resposta final às perguntas de Kant, e responder a Kant é a tarefa da filosofia, e que Schopenhauer tanto procurou?
Caminhar e encantar-se, caminhar e encantar-se, caminhar e encantar-se e caminhar e encantar-se; - eis o que os nossos eus podem fazer na existência.
Viajei muito na maionese?

Depois de políticos de esquerda e de direita, temos os políticos empresários e que se exibem pela mídia de maneira mais “nova” e “direta”. Tipo o prefeito de São Paulo, o Dória e o Kalil aqui em Belo Horizonte. Mais uma maneira de unir e pacificar o povo, uma vez que essas discussões entre esquerda e direita nos últimos tempos mais assustam vê nos deixam com raiva do que qualquer outra coisa.
- Oba, oba!
Hum, hum, sei, sei. Um bom político-administrador talvez arrume o buraco na minha rua mais rápido, mas o “fim” das discussões entre direita e esquerda não pode ser o fim das ideias e valores: questões como “porque esta penitenciaria nova antes de uma escola nova” ou “porque aumento de salário para políticos antes de construir um hospital”, continuarão. Devem continuar. As discussões entre esquerda e direita vão continuar.

Até mesmo porque é humano e saudável conversar sobre política. Então desconfiem quando ouvirem essa conversa “bonitinha” de “fim das discussões entre direita e esquerda”. Isso é ruim, isso não é democrático e justo. Isso é ruim. E de direita, aliás.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

29 de maio de 2017.

QUEIJO: - Você pode resistir ao chamado que vem do meio das pernas, mas não ao chamado que vem do coração. Não pode evitar se apaixonar inesperadamente. A fidelidade é antinatural.
AMOR: - Tanto quanto a Grande Pirâmide de Quéops. E seu queijo ricota, você esquecestes a lição de Vinícius? Cada relacionamento verdadeiro será infinito.
QUEIJO: - Diante da falta de confiança em cada novo relacionamento e diante de uma traição, isso dificilmente servirá de consolo.
AMOR: - Mas você procura consolo ou procura a verdade?

E a Samarco venceu: a mineradora voltará a funcionar em Mariana. Nem precisou mudar de nome, como o jornalista Eduardo Costa uma vez disse na radio Itatiaia quando a maior tragédia ambiental não tinha completado um mês e tudo parecia contra a mineradora. Mas segura dos 15 mil empregos que tem nas mãos diante de uma cidade sem alternativas, peitou os tribunais, enrolou o máximo que pode, fez meia dúzia de reformas “mixurucas” em prol do meio ambiente, pagou um “tiquinho” das inúmeras multas impostas e etc. e tal.
E o Ministério Público de Minas Gerais esta se sentindo como a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo sentiu logo após os ataques do PCC.
Provavelmente o resto das multas será paga de maneira “indireta”, ao longo de anos, por meio de benefícios aos seus funcionários pobres, algumas creches para os filhos dos funcionários e moradores da região; e outras migalhas que parecem reluzir como “ouro”. Mas não são ouro.

Ei ei, computador computador! Eu ligo e depois reinicio, reinicio, reinicio e reinicio até o computador de 2007 “pegar no tranco”!
Não sei até quando eu e o computador conseguiremos resistir. O plano é comprar um computador novo apenas no ano que vem. Vou sentir falta do Windows XP, que não para poucos entendidos foi o melhor sistema operacional que a Microsoft já criou.

Qual é a verdadeira vantagem de escolher o Bem em vez do Mal? É a mais pura aborrecência: você rema contra a maré das multidões, contra as leis injustas (a maioria, como ensina o anarquismo?), contra o azar, a preguiça, o universo, contra tudo e contra todos. Você escolhe o Bem por grito, por raiva e protesto. No século XXI você só pode ser uma pessoa boa com sangue fervendo e olhos crispados? Parece que sim.
Não faz muito sentido, faz?

Minha fama de ateu malvado iria para o brejo se vissem como eu escuto “Santa Clara Clareou”, de Jorge Ben e “Sweet Lord”, de George Harrison, sozinho em meu quarto.
Não sou ateu, eu sou agnóstico, eu não tenho certeza se Deus existe ou não. É que a primeira frase lá em cima perderia o seu efeito poético se eu escrevesse “agnóstico” em vez de “ateu”. Entendem? Me perdoam? Primeiro o lirismo, depois o resto. Primeiro a beleza, depois a verdade. Estou errado ou certo, Anatole France?
Acho que já escrevi algo parecido aqui neste blog. Vou conferir. Morro de medo de me repetir. Limpar esgotos, assinar a revista Veja ou trabalhar com jornalismo policial ou jornalismo de colunismo social; tudo bem; mas ser um artista e se repetir? Nunca! Cruz credo!

Tédio. Tédio é algo terrível, devora e desrespeita o tempo e o tempo é um dos tesouros mais preciosos do humano. Graças a minha incompetência formidável, a minha vida de fotógrafo não é tediosa. Dá-lhe, dá-lhe fotos e fotos desfocadas! Espero em breve usar motivos melhores para que minha vida de fotógrafo fuja do tédio.

“Pescador de ilusões” (The Fisher King, Terry Gilliam, 1991).
Eu amo este filme. Simplesmente amo. Por Júpiter, como eu amo este filme! Mais que “Cinema Paradiso” (Cinema Paradiso, Giuseppe Tornatore, 1988)? Talvez, talvez.
Uma vez este filme de Gilliam passou na tevê e eu estava com uma vontade tremenda de ir ao banheiro, sentindo uma daquelas dor de barriga de te partir ao meio mesmo; mas eu consegui me conter. Por amor. O amor pode tudo.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

26 de maio de 2017.

- Os corpos besuntados dos bailarinos negros é uma referência à escravidão ou é apenas um truque copiados das competições de halterofilismo? Eu conheço o halterofilismo e não sabia que os escravos negros tinham seus corpos besuntados para disfarçar as feridas dos meses e meses de transporte precário nos navios negreiros. Eu acredito que assim como eu, a Mallu Magalhães deve conhecer mais o halterofilismo e como mostrar mais atraente um corpo já atlético, do que detalhes técnicos do tráfico de escravos. Que a equipe dela seja composta, digamos, para efeito de "exercício mental", por mil pessoas não muda muita coisa: a história da escravidão negra ainda é bastante ignorada.

- O detalhe da "hipersexualização" na crítica de João Vieira é tão grosseiramente moralista que é difícil tentar ser equilibrado ao comentar aqui. Ora, se quis fazer um clipe sensual. Como se faz um clipe sensual? Bom, deve ter mil maneiras de se fazer um clipe sensual com bailarinos negros, sem ofender alguém mas acreditar que a ofensa foi proposital é demais.

Estamos no Brasil em 2017 e queremos reformar como o negro é retratado no Brasil. João Vieira quer, eu quero e até a Mallu Magalhães também deve querer, mas é natural que neste longo caminho erros aconteçam. E enganos também.
Acredito na salvação pela arte, uma das poucas coisas em que realmente eu acredito. Na arte livre. Não sou ingênuo, mas para atacar uma obra de arte eu realmente sou reticente. É que qualquer erro na dose a criatividade recua e a criatividade demora tempo demais para se recuperar. E aí todo mundo sofre. Todo mundo.
Até por uma questão de etiqueta, de educação, devo presumir que Mallu Magalhães não teve a intensão de machucar. No máximo fez um clipe de mau gosto. Naturalmente que um clipe musical de mau gosto não é pouca coisa, mas realmente acho que o pessoal exagerou. 
Mas talvez eu esteja enganado e o "trem da história" esta passando mais rápido do que eu possa perceber. As coisas mudam. Perder o "trem da história" é ruim, mas ser um chato implicante também.
Acho que inconscientemente eu devo estar pressentindo algo de minha falta de atenção, pois escrever este texto foi bem cansativo para mim.
E também me lembro que eu fiquei meio assustado quando vi, anos atrás, uma criança européia defendendo de maneira bem sofisticada o ateísmo. Eu realmente fiquei assustado com aquilo.
Não quero perder o "trem da história". 
http://virgula.uol.com.br/musica/voce-nao-presta-7-estereotipos-racistas-reforcados-por-mallu-magalhaes-em-clipe/#img=1&galleryId=1079011 

Meu computador esta dando sinais de que quer se aposentar. Ele é de 2007. Bravo computador! Foi o segundo computador da família e foi com ele que conhecemos a internet e o mundo da computação mesmo. Tenho que lembrar aqui de contar algumas histórias do primeiro computador e da internet daquele tempo. Salas de bate-papo do UOL, Icq, barulho da conexão, disquetes e a placa de fax modem que queimava o tempo todo e etc.

Fernando Pimentel, governador de Minas Gerais, foi ontem, em uma cerimônia com industriais e falou de bilhões e milhões para ajudar a indústria de Minas e tal.
Quem tem esse dinheiro, Governador? Você não quer vender um monte de prédios do Governo ou alugar eles por causa da crise? Enquanto isso a Santa Casa fecha centenas de leitos e o Governo de Minas não paga-lhe o que deve. 
É tão básico! Por favor, Governador; fique com a boca calada.
Com certeza, se fôssemos espanhóis e estivéssemos em Barcelona em 1991, diríamos e ouviríamos coisas do tipo: "Mas essa Olimpíada é um luxo agressivo! Temos tantas coisas básicas ainda a resolver e esses políticos nos inventam uma coisa dessas!" Ocorre que o básico em Barcelona em 1991 não é tão básico quanto o básico no Brasil de 2017 ou no Rio de Janeiro de 2013.
E por falar em Rio de Janeiro: quantos milhões e milhões o Governo Federal já deu para este estado? Como brasileiro eu amo o Rio, mas tudo tem limite e eu acho que é hora do povo fluminense tomar uma atitude firme.

Eu escrevi "um beijo" e ela me respondeu "um abraço". Isso pode ser nada, mas também pode ser um universo inteiro. A porcaria de um universo inteiro.

Não existe um "sindicato único pelos negros" e um "sindicato único pelo feminismo", o que é bom para a liberdade; mas complica pois sempre haverá militantes pelos negros e pelas mulheres a nos dizerem diante de uma situação polêmica: "é mesmo, o pessoal tava bem intencionado mas exagerou"; e "polícia, processo, não pode ceder mais, não é para isso se repetir!". 
Daí que a gente repete o velho apelo pelo diálogo e empatia. E a calma. 


quarta-feira, 24 de maio de 2017

24 de maio de 2017.

A geladeira esta fazendo tanto barulho que, eu seguindo o princípio de A Navalha de Ockhan, apenas posso pensar que ela fora possuído por algum espírito da floresta. 

O protesto em Brasília não teve muita gente, mas teve muita violência: depredações e até salas pegando fogo. A violência nas manifestação, sabemos, é ruim como toda violência, e não vai fazer Brasília sentir compaixão pelo Brasil. Lamentável.
Independente de Temer completar o mandato ou não, o veneno para a próxima liderança do Executivo será grande. A economia estará bem melhor, eu sei, mas o veneno estará lá. A democracia esta sofrendo. A Dilma era fraca, mas era para ela ter recebido ajuda e continuado. Por outro lado, Temer teve ajuda e boa vontade e estamos desse jeito. Mas é melhor ajudar do que derrubar, mas acreditar nisso diante de figuras como Dilma ou Temer é realmente complicado. 

Estou lendo meu primeiro livro sobre povos indígenas. Quando eu tinha uns 10 anos, fiquei o dia inteiro, nas férias, assistindo aquela antiga série Xingu que meu pai e eu gravamos na fita VHS. Lembram? Passava na Rede Manchete os episódios. Mas ficou apenas nisso, meu precoce engajamento intelectual quanto aos índios.
Durante os anos da faculdade, fui para o Mato Grosso participar da comemoração pelos 50 anos de casado de um tio-avô. Minha mãe falou assim para mim:
- Quando eu era mais nova, fui a Mato-Grosso e vi alguns índios. Eles eram altos, forte e bonitos. 
Quando cheguei na rodoviária eu vi os únicos índios que eu veria em toda essa viagem: baixinhos, gordos, com bermudão, chinelão e camisa do Flamengo. Pensei que eu estava dentro de uma piada do Casseta&Planeta, de tão perfeitamente sem graça que era todo o episódio. 
É realmente doloroso, como brasileiro, ler alguma coisa sobre índios. E não importa se você é ativista ou não, dói do mesmo jeito. É óbvio que é melhor ser um ativista e tal, mas dói do mesmo jeito. Me entendem? 

terça-feira, 23 de maio de 2017

23 de maio de 2017.

Quantas vezes o prefeito João Dória já deu entrevistas ao Brasil Urgente, da Rede Bandeirantes de Televisão, nas últimas semanas? 2018 mesmo, héin? Impressionante! Mas a estratégia é inteligente sim: se Dória vencer a Cracolândia ele chega a Brasília em 2018. Muita gente ainda torce o nariz para o Bolsonaro, que como é de um partido pequeno vai ter que se complicar para conseguir apoio de um monte de partidos pequenos. Dória já é de um partido grande.

Mas a Bandeirantes não morre de amores apenas pelo Dória, também gosta do Temer. “Não é pelo Temer, é pelas reformas que o Brasil precisa!”; “A quem interessa um Congresso e um Brasil paralisado pela oposição?”; “Logo agora que a economia esta começando a respirar desde a maior crise desde os tempos da pedra lascada, vocês querem botar fogo em tudo? Olhe a responsabilidade para com o país! Olhe como a bolsa de valores sofreu na última semana!”; “A gravação foi editada e esses delatores são uns bundões!”; é a mensagem subliminar (e nem tão subliminar, em se tratando de jornalismo daquela emissora) transmitida desde a semana passada pelo Jornal da Band.
Rodrigo Maia vai segurar os pedidos de impeachment o máximo que puder e as manifestações ainda estão bem fracas. A gente esta chocado, mas também cansado. Temer tem experiência e sabe o que faz, já deve ter até um plano Z. rs rs O cara é muito forte. Agora, um pedido de impeachment da OAB nacional tem um peso danando tem.

Não era um maribondo qualquer que estava sendo devorado por aquela aranha. Era o maribondo que fez uma casinha de argila naquela corda fina que fica na cortina. Qual o nome daquele trem? Esqueci. A parte mais frágil da cortina inteira e o maribondo inventa de fazer uma casa para ele justamente ali! Ele fez e se trancou lá. Por meses. Sei lá, vai ver ele gostou de algum documentário do Discovery sobre ursos polares e cismou de hibernar também. Aí quando ele sai do casulo cai na teia da aranha, ele  é devorado. E é sempre bom lembrar que o veneno da aranha é para paralisar, ou seja: o cara é devorado... Entenderam, não é?
Como todo animal humano,  igual a quem me lê agora, sou instintivamente hábil em criar símbolos e significados. Eu estava triste e tinha que dar um jeito de me consolar. Imaginei que a aranha que devorava o maribondo era também o maribondo que devorava a aranha, que não havia morte ou nascimento e que a vida era na realidade um rio que ninguém sabia de onde vinha e nem para onde vai. E pronto. Pensamento meio oriental e meio filme “Contato” (Contact, Robert Zemeckis, 1997), aquele com a Jodie Foster. 

Memória afetiva é algo poderoso. Poderoso demais. Da até um frio na espinha se pensar direito nisso.
Eu simplesmente não consigo encontrar uma versão de “O Molvavia”, de Smetana, que me agrade. Simplesmente porque todas são diferentes do registro que meu pai botava para tocar naquele disco de vinil que a gente escutava quando eu era criança.
Sempre acho que tocam esta música de Smetana muito rápido. Ela tem que ser tocada mais lentamente, mas parece que quanto mais afamado é um maestro, mais ele sofre de ejaculação precoce na hora de reger a orquestra.
Smetana foi internado em um hospício injustamente. Se viesse parar aqui, nos dias de hoje, ele ia pedir para ser internado! Olhe o que estão fazendo com a música dele, ô Caracas!


segunda-feira, 22 de maio de 2017

22 de maio de 2017.

Carlos Vianna, jornalista da radio Itatiaia, criticou hoje um protesto marcado para esta quarta-feira na capital Brasília. “Quem tem tempo para viajar até Brasília numa quarta-feira?”, ele questionou. É um questionamento interessante. Fiquei pensando muito nisso. Existe dia certo da semana para mudar o Brasil ou pelo menos manifestar o que pensamos e sentimos sobre o que acontece em nosso país?
Os manifestantes vão perder pelo menos dois dias de serviço, no mínimo. O desemprego no Brasil é enorme atualmente e muitos patrões vão fechar a cara se um empregado fizer um pedido de folga com esta justificativa. Contra a Dilma e o Partido dos Trabalhadores, houve muitas manifestações no domingo de manhã e outras que foram de domingo de manhã e até domingo a tarde, com tempo para os manifestantes voltarem para casa, prepararem o jantar e assistir ao Faustão e ao Fantástico, da Rede Globo junto com suas famílias. Ou outros programas de tevê. A alternativa aqui, mais popular, é filmes. Assistir filmes. É uma opção razoável só haver manifestações para mudar o Brasil no domingo? É bom recordar que a imprensa disse que estas manifestações de domingo ajudaram a derrubar a Dilma e o PT, embora seja bom relevar: do jeito que as coisas estavam até o bater das asas de uma borboleta no Tibet derrubaria Dilma e o PT.
Repito: é uma opção razoável só haver manifestações para mudar o Brasil no domingo? É uma questão complicada. Veja o detalhe das ambulâncias e da Polícia Militar. No domingo, quando tinha as manifestações contra Dilma e o PT, com certeza havia ambulâncias precisando andar pelas ruas cheias de gente. A gente não via isso pela tevê, mas eu sei que no domingo existem acidentes acontecendo e pessoas doentes precisando de ajuda. A Polícia Militar pode ter mais dificuldade para manter a ordem numa manifestação em um dia útil, do que no fim de semana, é verdade; mas para isto existe planejamento: até mesmo para ter bastante gente, os organizadores avisam todo mundo que o protesto vai acontecer. O pessoal se prepara. 
Ou deveria. Lembro-me de uma vez que o grupo musical U2 fez um show em São Paulo, o pessoal não prestou muita atenção e o congestionamento foi colossal, até para os padrões de São Paulo. Eu lembro, foi sinistro o trem. Acho que não havia muitos fãs de U2 trabalhando na prefeitura de São Paulo naquele ano.

Se você ler o livro de memórias de algum importante jornalista político aposentado, com certeza você vai encontrar trechos como: “apresentei fulano para o ministro”, “o secretário me perguntou, totalmente fora do contexto da conversa, sobre uma terrível dúvida que ele tinha”, “telefonei para o Presidente”, “a prefeita confidenciou-me alguns segredos de alguns desafetos políticos” e etc. Coisa natural, esperada. Nada demais, qualquer jornalista político tem histórias interessantes para contar e nem todas ele pode contar na época em que trabalhava e tal.
O que é muito difícil encontrar em algum livro de memórias de algum jornalista político é que o mesmo tenha participado de alguma manifestação pela diminuição do preço da passagem de ônibus, junto com o povão.
No meio da semana. Tipo, por exemplo, numa terça-feira.

O silêncio da casa as vezes cria algum problema com a privacidade. Se bem que não há demônios que sejam desconhecidos por nós por aqui.
- Aí chamamos um fotógrafo e...
- Fotógrafo? Porque vocês não chamaram o Aldrin?
- Ah, o Aldrin não sabe trabalhar.
Ah, ah! Sem mágoa e raiva, pois sei o que você sente quando olha para ela, olha para mim e olha para o que você esperava e o que você fez pela sua própria vida.
Como vocês podem ver, nem sempre quando falamos a verdade os anjos nos acompanham.

São muitos os questionamentos críticos feitos à Lava-Jato, a grande investigação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. A Lava-Jato e as investigações “filhas” dela. Muitos desses questionamentos são de natureza técnica, feita por pessoas que não são contrárias às investigações.
Será que a Polícia Federal e sua Lava-Jato saíram do controle? O diacho é que o Brasil é um país tão complicado, mas tão complicado que é difícil saber a diferença entre o caos completo e a linha reta e dura da justiça.

Ler um livro e resumir este mesmo livro para terceiros são coisas distintas. Bom, parabéns a mim: descobri a América! Tomemos como exemplo o último livro que li: O Homem Revoltado, de Albert Camus. Meu primeiro Camus, aliás.
Livro curto, mas denso e complicado. Precisarei ler várias vezes e até mesmo destrinchar parágrafo por parágrafo. O bichinho é nervoso assim.
Agora, alguma coisa eu entendi nesta primeira leitura. Agora; o que você diria se eu lhe dissesse que o livro é um elogio ao serviço voluntário em creches, na alfabetização de adultos, na praia protegendo filhotes de tartaruga e outras coisas do tipo? Que o livro é uma crítica às revoluções por meio da violência? Que o livro alerta sobre o lado assassino das doutrinas e utopias políticas mais bonitinhas e inofensivas?
Fica parecendo mesmo que o livro não é lá grande coisa. Ou pelo menos nada tem de super fantástico.

Nada substitui uma leitura em primeira mão. Então vão lá!

domingo, 21 de maio de 2017

21 de maio de 2017.

Consegui atualizar o meu Digital Photo Professional, o programa que uso para editar fotos. Coisa boa, pois a versão que eu tinha é de 2013. Não sei se atualizei tudo que podia, mas as mudanças que consegui me agradaram bastante.

E foi relativamente fácil, até usei um programa que descompacta arquivos. Achei que nunca saberia usar um desses programas que descompacta arquivos. Mas foi só preciso um pouco de coragem e intuição para mexer no trem. É bom lembrar que os bobos sempre são maioria no mundo, de modo que essas coisas sofisticadas tem que ser feitas para nós também. Essa coisa de descompactar arquivos é meio “mágica”.

As mudanças foram que agora eu tenho mais estilos prontos de imagens e o filtro para tirar fotos em HDR (High Dinamic Range). Os estilos prontos de imagens são legais, mas eu perco uns 6 segundos para “abrir a janela” onde estão os novos estilos e testá-los. Uns seis segundos para testar cada um dos seis, todas as vezes é bastante tempo. Se eles estivem no mesmo lugar dos antigos estilos prontos, me pouparia bastante tempo. Os estilos são: Nostalgia, Clear, Twilight, Emerald, Autumn Hules, P-Studio e P-Snapshot. Cada estilo pronto é útil, a partir deles a gente pode fazer modificações na fotografia. Assim como com o filtro HDR.

O filtro HDR é famoso. Lembro-me que muitas vezes eu via fotografias na internet e parecia-me que havia uma semelhança anormal entre todas aquelas fotografias. Eu associava essa semelhança a algum programa de computador, provavelmente o todo-poderoso-e-popular PhotoShop, que a fotógrafa ou fotógrafo com certeza usou. Mas era principalmente esse filtro HDR.
Seria interessante explicar o que ele faz. Bom, digamos que ele mostre detalhes onde tem sombra e onde tem claridade demais na foto, mas faz isso de uma maneira “forçada”: a fotografia fica parecendo um desenho, com muito relevo e um “misterioso véu rubro”.
Desculpem-me o “misterioso véu rubro”, mas é que eu não sei explicar essa mudança de saturação que o filtro HDR produz na foto, e é coisa importante para mim pois é justamente para mim o seu pior defeito. A questão do relevo para mim não é problema, adoro relevo nas fotos desde que li uma pequena biografia de Michelângelo há muito tempo.
Comecei usando muito o filtro HDR, mas depois parei e só uso ele de vez enquanto. Gostei disso, pois fiquei com medo de ficar “viciado” nesse filtro para fotografias. Para ser sincero, esse filtro HDR só é bom mesmo para mim para ajudar depois que eu decido que determinada fotografia vai ficar em preto e branco, e mesmo assim só as vezes.

Fiquei mais de um mês sem editar fotos. Tive meu frequente momento de “perda de gás”. Difícil lutar contra isso. Falta de concentração, perda de vontade; fortes inimigos!

Vou mandar imprimir mais cartões de fotógrafo. Preciso mais de serviços. O casal que estava esperando os filhos gostou das fotos minhas, não sou um profissional tão imprestável assim.

Um interessante dilema: a calça cheia de urina atrapalha a publicação de uma foto cheia de beleza e humanidade? Não dá para publicar aquela foto dos dois simpáticos bêbados, apesar do pedido de um deles. É que o amigo dele, como eu disse, estava em um estado degradante. E adeus aos sorrisos e olhares brilhantes, apesar de tudo. Mas se eu fosse um jornalista em serviço e se fosse durante uma tragédia natural tipo enchente ou vulcão com feridos? É real, aconteceu e não era apenas eu que estava vendo. As pessoas tiram fotos de mendigos e mendigos são pessoas em estado degradante. É... Um interessante dilema.
Mas decidi não publicar a foto. Fiz uma entrevista com um alcoólatra, na época da faculdade, e ele me disse depois que foi essa entrevista que o fez vencer o vício. Isso é com certeza a única coisa que preste que eu realizei em toda a minha vida, mas não posso esperar que uma foto tenha um efeito semelhante caso ela causasse alguma polêmica.

Já foi dito que apesar de tudo, e bota muito “tudo” aqui, o Brasil e os Estados Unidos tem muita coisa em comum. Assim como eles nós somos um povo violento e temos uma história violenta. E barris explosivos “sociais” esperando só a sua vez, também existem lá e aqui; de modo que é sempre útil encontrar formas para pacificar as coisas. De várias maneiras, inclusive as bobas e alienantes. Seria o caso dos filmes de Hollywood que contam e recontam o passado estadunidense de maneira maniqueísta e gloriosa? Talvez, pois a arte é algo que sempre vai ultrapassar classificações sociológicas e políticas: um filme alienante pode fazer sim um líder desabrochar na plateia do cinema.
No Brasil, por sermos um país muito pobre, em vez de filmes temos novelas da Globo. Recentemente temos a “Novo Mundo”, uma novela que conta os primeiros anos do reinado de Dom Pedro Primeiro. Como bom crítico de tevê eu só assisti uns 20 minutos e já acho suficiente para fazer julgamentos absolutos: mulheres com decotes suculentos, a personagem feminina da Princesa Leopoldina é a personagem principal (o seu sacrifício é maior e ela não perde o sorriso e a fé), o Dom Pedro é a caricatura-modelo de um político brasileiro (malandro, mas sempre com bom coração), um negro alfabetizado que trabalha como jornalista libertário, direitos para o povo indígena, liberdade para os escravos, paralelos manhosos com a política atual (o príncipe que sofre um “golpe” dentro da lei...) e etc. Não me levem a mal, eu admiro o conteúdo engajado da novela e realmente acho que pode funcionar. A questão é que também pode não funcionar. Mas a fé é importante, então vamos acreditar; como a Princesa Leopoldina também acredita.

domingo, 2 de abril de 2017

Um instante para Kant.

UM INSTANTE PARA KANT
Uma “amiga de FaceBook” pediu ajuda sobre um livro de Kant. O livro em questão eu não li, mas apaixonado por filosofia desde 1999 eu acumulei bastante material. E isso inclui muita coisa sobre Kant e o livro em questão.

O problema é que a “amiga de FaceBook” pediu ajuda muito em cima da hora, mas acho que da tempo. Não deu para “pedir ajuda” a História da Filosofia, de Reale e Antiseri; pois as suas mais de cem páginas dedicadas ao filósofo alemão priorizam as suas três críticas e acaba assim “espalhando” a análise da A Razão dentro dos Limites da Simples Razão em vários subcapítulos que pelos títulos eu não conseguia perceber se eram úteis à questão aqui. Vai mesmo História da Filosofia, de Will Durant, que tem um ótimo subcapítulo sobre o livro em questão e História da Filosofia, de Bryan Magee, que resume Kant de maneira rápida e completa.

Publico o que vou mandar por e-mail à essa “amiga de FaceBook”, pois é útil. Kant, ao lado de Platão e Aristóteles, forma o grande trio da filosofia.

Para o ensaio A Religião dentro dos Limites da Simples Razão
HISTORIA DA FILOSOFIA – Will Durant (Abril Cultural, São Paulo, SP, 2000)
- Sobre o ensaio A Religião dentro dos Limites da Simples Razão: Com todo o respeito às três Críticas, este é talvez o texto mais corajoso de Kant.

- A religião não deve ter como base a lógica da razão teórica, mas sim a prática do senso moral. Ou seja: as religiões devem ser julgadas pelo que elas acrescentam de valor á moralidade da sociedade. Pelo que elas podem ajudar as pessoas a se comportarem bem, pelo modo como podem ajudar as pessoas a se desenvolverem.
Por outro lado, as religiões não podem ser juízes de um código moral.

- Um líder religioso é muito importante, mas não pode substituir um presidente ou um rei. Isso aconteceu várias vezes durante a história e o resultado foram mil seitas e mil guerras religiosas.

- Testemunhos de milagres devem ser respeitados, mas não se pode confiar no testemunho dos envolvidos. Aqui a paixão domina e não podemos nos esquecer disso. Entendemos que uma pessoa deseje orar pedindo ajuda, mas temos que ter cabeça fria para compreender que uma oração não consegue ir contra as leis naturais que fazem parte da experiência.

Para um resumo da filosofia de Kant
HISTÓRIA DA FILOSOFIA – Bryan Magee (Edições Loyola, São Paulo, SP, 1999)
- Qual o limite do conhecimento humano? Antes de Kant este limite não estava bem esclarecido. A maioria dos filósofos acreditava que não havia mesmo um limite. Tudo que existia era possível que fosse conhecido pelo homem.
Kant diz que não é bem assim. O nosso corpo, nossos cinco sentidos, nosso celebro, tudo isso impõe limites ao que podemos conhecer. Podemos conhecer muito menos de tudo aquilo que existe, muito menos.

- Então podemos dividir a realidade total em aquilo que os humanos podem conhecer e aquilo que nunca poderemos conhecer, justamente por sermos humanos. Ocorre que a diferença entre esses dois mundos não era o que se pensava antes. Eles são ainda mais radicalmente diferentes do que se pensava. A coisa em si não é a representação desta mesma coisa, e apenas a representação desta mesma coisa é que temos algum acesso.

- O mundo dos fenômenos é o “nosso mundo”, é onde vemos as estrelas e sentimos o calor de uma xícara de café. Aqui temos as experiências que nos são possíveis.
O mundo numênico é o mundo das “coisas em si”, e não nos é acessível.

- O nosso mundo, o mundo dos fenômenos, não é um mundo louco. Há ordem aqui: leis matemáticas, leis da física... Qual é a estrutura de nossa experiência? Como podemos ter acesso à experiência de ver uma estrela de sentir o cheiro de uma rosa? Como é a “rede humana” pela qual podemos “pescar” aquilo que afinal podemos conhecer?
Esta “rede” é o espaço-tempo, a causalidade, as famosas categorias do entendimento identificadas por Kant. O que não se encaixa nessas categorias não nos é possível conhecer, é como se não existisse. Mas é claro que podem existir. Apenas não temos como saber. Como Deus e as almas imortais.

- Então neste nosso mundo podemos conhecer. Temos a ciência a nos ajudar. Mas neste nosso mundo existe um objeto material especial, algo meio complicado: nós mesmos. O nosso corpo é um objeto material. Como é possível o livre-arbítrio em um mundo que obedece as leis científicas?

- Kant acreditava que sim, temos livre-arbítrio. E isso era algo que podia ser demonstrado de uma maneira direta: pela ausência de uma pessoa que realmente acredite no determinismo aplicado a seres humanos.
Quem realmente acredita que não é livre? Se não existe livre-arbítrio, como uma pessoa poderia reclamar de um ladrão ou como poderia se arrepender de uma atitude triste ou ficar feliz diante de uma atitude generosa? Simplesmente não teria opção, agiu porque tinha que agir assim e pronto.
Mas não é assim. Sabemos intimamente que não é assim, sabemos intimamente que temos sim livre-arbítrio.

- Mas o livre-arbítrio não é contraditório com as leis deste nosso mundo fenomenológico, as leis científicas? É que a origem de nossos atos livres não é desse mundo dos fenômenos e sim no mundo numênico, aquela parte da realidade total que não temos acesso.
Mas como é possível o mundo numênico se manifeste por meio de nossas escolhas livres aqui no mundo humano dos fenômenos? É uma questão que Kant tentou responder mas não conseguiu muito e ainda esta em aberto. O seu grande seguidor Arthur Schopenhauer fez grandes avanços nesta área.

- Somos humanos e vimos que nossas decisões tem uma origem que transcende a experiência possível. Isso pode sugerir certa anarquia na moralidade, mas não é bem assim. Moralidade é para pessoas racionais e mais, a moralidade não é algo determinado por gostos individuais. Há uma universalidade aqui, há uma racionalidade aqui que impera a todos. E também intimamente acreditamos nisso, ou então não faria sentido querer convencer alguém por meio de argumentos. Uma razão que seja válida tem que ser universalmente válida.
Assim como na ciência existem leis que são universais, na moralidade também tem leis cuja aplicação é universal. Se é certo para mim, tem que ser certo para qualquer outra pessoa na mesma posição.
Estamos prontos para compreender o famoso imperativo categórico de Kant: “Age apenas segundo máximas que tu também queres que sejam leis universais”.

terça-feira, 21 de março de 2017

21 de março de 2017.

O Fotógrafo Evandro Teixeira
Assisti a um episódio da série Homo Brasilis dedicado a este fotógrafo celebrado no Canal Arte1.
O fotógrafo Evandro Teixeira é uma mistura de Gandhi e Espinosa: é impossível não gostar desse sujeito. Se não bastasse a humildade ser do tamanho de seu talento, ele ainda tem aquele sotaque nordestino que soa como açúcar aos ouvidos.
Dito isso, deixo manifestar um pouco a minha inveja sempre assanhada: mas precisava mostrar tantas câmeras Leica? Precisava, Evandro, precisava?
Nota: o documentário, bem feito, tem muito senso de humor por parte dos realizadores, o que não é comum. Não é mesmo.

Um momento inteligente
Então finalmente aquela borboleta saiu do seu imobilismo e começou a voar. Mas não adiantou muito, pois ela continuava fora do alcance de minha mão. Se ela continuasse assim, no dia seguinte eu iria vê-la morta pelas patas de alguma aranha e sua teia. E não faltavam ali aracnídeos candidatos. Em determinado momento ela começou a rodear a lâmpada acesa. “Mas ela gosta de luz, como mariposas e tal?”, pensei. Ela entrou na cozinha pela manhã, a procura de escuridão? Enfim, sei lá. Ocorreu-me de desligar a luz e não deu outra: a borboleta começou a voar mais baixo, imediatamente. Peguei um copo e rapidamente consegui prendê-la, levei-a para fora e a soltei. Era uma dessas borboletas que tem as asas transparentes. Gosto dessas, assim como gostos das gigantes de asas azuis e que também são comuns por aqui.

Radio
Mais um programa e mais uma vez feito no improviso. Nada de músicas com introdução antes.
Eu realmente perdi o gás.
A última vez que fiz um programa direito eu apresentei uma música do Chuck Berry e ele estava vivo, com 89 anos. Fora a primeira e única vez que toquei uma música dele. Lembro-me do susto que levei ao descobrir que ele estava vivo.

Reflexões de um ex-noveleiro
A última novela que assisti de verdade foi “Éramos Seis”, no SBT. Depois foi apenas pedaços de capítulos e o que vejo nos comerciais e algumas cenas no YouTube. Pouca coisa. A narrativa é muito lenta, muito teatral no sentido pejorativo do termo “teatral”.  Tentei assistir ‘Presença de Anita”, quando reprisaram uma vez, mas não consegui passar do primeiro bloco do primeiro capítulo. Mesmo assim algumas coisas eu sei:
- Casais com muita diferença de idade não costumam dar certo.

- É mais fácil ver uma mulher seduzir e agarrar um homem e levá-lo para cama do que o contrário, por um motivo óbvio: fazer o contrario sem parecer um estupro exigiria muita muita sensibilidade e técnica por parte dos diretores. E há uma vantagem adicional ao mostrar mulheres predadoras, que é o de agradas a maioria do público das novelas que costumam mser mesmo feminino.

- Às vezes da um desespero ver algumas de ação, como cenas de acidentes de carro. Eles repetem a cena de 20 ângulos diferentes, como se dissessem aos espectadores: “seus estúpidos, vocês entenderam que o que estão assistindo é um acidente de carro?” Mas há aqui um motivo que a gente esquece: dificilmente os espectadores estão exclusivamente assistindo a novela, sendo mais comum que estejam assistindo enquanto cozinham, vão ao banheiro, jantam, arrumam a sala, atendam uma visita e etc. Daí que muitas vezes realmente a narrativa seja lenta por necessidade.

- Se você assiste a todos os comerciais de uma novela nova você sabe tudo que vai acontecer, mesmo considerando as reviravoltas no final. E ultimamente piorou: os comerciais da Globo estão mais didáticos, com um narrador explicando a psicologia dos personagens principais e o enredo da trama. Isso diminui o mistério, mas acalma os espectadores como acontece em muitos trailers de filmes no cinema.  


- Não assisto novela há muito tempo, mas que da uma saudade de “Pantanal”, “Rei do Gado”, “Carrossel” (a primeira versão, naturalmente; sou o Cirilo desde aquela época em constante procura da minha Maria Joaquina) e “Tieta”; dá. E muita. Nossos atores brasileiros são muito bons. Eles são. Não podemos dizer o mesmo dos roteiristas e diretores. Por exemplo, o final de Eta Mundo Bom não terminou com a fala final do conto Cândido, de Voltaire, em que obviamente foi inspirado livremente. A fala de Cândido ao professor Pangloss: - Esta tudo muito bem, professor; mas vamos cuidar de nosso jardim. Seria fácil fazer essa referência mais explícita a Voltaire e depois, no VideoShow, eles poderiam fazer uma auto-reportagem-homenagem, como é o costume desse programa, explicando como aquela novela das seis é inteligente, filosófica e etc. Seria tão fácil, mas eles não fizeram. Devem ter tremido.

segunda-feira, 20 de março de 2017

20 de março de 2017.

Mudanças
Não tenho dados objetivos, números aqui, mas basta dizer que estou editando minhas fotos cinco vezes mais rápido do que antigamente. E eu ainda demoro muito, o que da ideia de quanto tempo eu demorava antes! A gente tem mesmo que ser cruel na hora de escolher que foto editar e que foto descartar e se concentrar mesmo em apenas cinco ou meia dúzia de ferramentas do programa de edição de imagens.

Carne e Carro
Se eu fosse um comprador estrangeiro eu não ficaria muito preocupado com essa história de carnes estragadas e envenenadas descoberta pela Polícia Federal, pois é óbvio que deve haver uma diferença tremenda entre os produtos vendidos para o mercado interno brasileiro e o que é exportado daqui. Por exemplo: não é possível que no EUA e na Europa as montadoras de carro façam um recall por mês, como praticamente acontece no Brasil.
 Os compradores estrangeiros de carne vão fazer cara feia mais é para comprar mais barato e vão usar essa crise como desculpa para isso.

Previdência
Festival de Baixarias – A reforma da Previdência se transforma em bate-boca e toma um caminho mais difícil no Congresso Matéria sem autoria indicada (Veja, 14 de fevereiro de 1996)
Notas minhas:

- Uai, uma reforma da Previdência em 1996? A Previdência deve ter sofrido algumas alterações ao longo dos anos. Pode parecer óbvio isso, mas é que em 2017, onde estamos, temos a impressão que o Governo Temer quer fazer a maior e a única das reformas.

- Ei, onde foi parar o Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho da CUT? Lembro muito dele. Ele era poderoso, não?

- Vicentinho e Euler Ribeiro discutiram feio. “Palhaço” de um lado, “vagabundo” do outro. Não sei quem estava com a razão, mas desse jeito os dois deviam estar errados. Não lembro desse Euler Ribeiro. A matéria tem uma foto, mas não consigo me lembrar. Ele era do PMDB e o relator da proposta da reforma. Seria interessante entrevistá-lo hoje para saber a opinião dele sobre o futuro da Previdência.

- Outros que discutiram feio naquela semana de fevereiro de 1996: Luiz Carlos Santos, Reinhold Stephanes e Roberto Freire. Roberto Freire esta poderoso e no palco público até hoje. Stephanes eu lembro um pouco, mas não sei onde ele foi parar em 2017. Esse Luiz Carlos Santos eu não me lembro, mas ele é o autor da fala que eu achei mais curiosa: Tirem esse maluco daqui. Tirem daqui, por favor. Cala a boca, cala a boca. Você não estava aqui ontem. (Isso me lembra uma das falas favoritas do filósofo fofinho Mario Sérgio Cortellla: Os ausentes nunca tem razão.)

domingo, 19 de março de 2017

19 de março de 2017.

Preço
Eu, assim como quem esta me lendo, tenho preço. Não sei exatamente qual é este preço, mas por motivo de heroísmo infantil espero que ele seja alto. Mas isso nunca é algo que a gente saiba a priori, é sempre algo que você sabe a posteriori: ou seja, depois que faz merda e o demônio aparece para levar a tua alma. E para piorar essa merda feita não é nem a merda mais importante e sim algo bem anterior e que você nem percebe. Tipo bola de neve, vocês entendem? Você nunca vende sua alma de uma vez só, é aos poucos e a atitude errada primordial é sempre algo bem bem bem beeeem bobinho.
- Mande essas fotos no máximo de tarde. Preciso mandar elas para a Vale.
A questão do patrocínio e tal. Não vou entrar em detalhes.
Ora bolas, já não basta eu tirar as fotos de graça elas vão ser mandadas para ajudar a trazer os abutres da Vale a Rio Acima? Nem por um jantar com a bela atriz Johann Carlo! Não mesmo! Os abutres já estão sobrevoando e irão pousar, eu sei, mas não vai ser com algum “sim” de minha parte. Sei que sou um fã marmota do Lúcio Flávio Pinto, mas ainda tenho um pouco de amor próprio.

A Fofinha de Vermelho
Não sei se é falta de opção, não sei se é saudade ou se é apenas “canteiros”, do Fagner; mas o fato é que agora fiquei pensando na minha antiga fofinha-psicóloga-ruiva-que-gostava-de-usar-aqueles-óculos-preto-gigante-tipo-Bono-Vox-e-que-me-deu-o-mais-dolorido-pé-na-bunda-que-já-levei.
Já faz uns dois anos que tudo quase-começou e terminou-terminou. Bom, espero que ela esteja bem. Mas o que isso adianta? Bom, de qualquer forma pelo menos isso. Que ela esteja bem.

Entrevista: Milton Almeida dos Santos
O MUNDO NÃO EXISTE – Avesso às teorias que exaltam a globalização da sociedade moderna, o laureado geógrafo baiano alerta para o que chama de corrupção do saber Por Dorrit Harazim (Veja, 16 de novembro de 1994)
Milton Santos é um orgulho para o Brasil. O certo seria eu transcrever a entrevista inteira, mas eu tenho medo da assessoria jurídica da Veja e uma simples transcrição não teria efeito didático sobre mim. É melhor eu esquematizar tudo que foi dito e misturar com observações minhas.
Apenas cito um trecho de Dorrit Harazim, pois ela é um dos principais nomes da história do jornalismo brasileiro no século XX e seu texto é valoroso.
“Sobretudo, mistura em aula o que chama de “fofocas da Geografia” com citações de um “pessoal alfabetizado”, como Schumpeter, Durkheim, Voltaire, Vico, Ricardo, Descartes e muito Marx. Ensina que, de forma intrusa, o geógrafo deveria ser também um pouco filósofo e despeja vinhetas de conhecimentos que soam inúteis para o currículo, mas lhe dão enorme prazer. Exemplo: “Vocês sabiam que a língua suaílie, por ter uma construção semelhante ao alemão, permite a criação de novos vocábulos para designar todo tipo de modernidade sem recorrer a anglicismos?” Não, não sabiam.”
Notas minhas:

- Parece que as aulas de Geografia do Milton Santos seria uma mistura engajada e ainda mais inteligente de Leandro Karnal, Mario Sérgio Cortella e Clóvis de Barros Filho. Com a vantagem de que Milton, ao contrário dos citados, não tem a obrigação de arrancar sempre meia dúzia de sorrisos.

- Dos autores citados o único totalmente desconhecido para mim é esse tal de Schumpeter. Schumpeter, Schumpeter... Schumpeter, meu filho, quem és tu????

- Milton Santos é brasileiro e ganhou o mais celebrado prêmio da geografia mundial: o Vautrin Lud. É; essas coisas acontecem.

- Geografia por buscar reunir e sintetizar o máximo possível; economia, cultura e etc.; acaba sendo assim uma parenta próxima da Filosofia que também busca a grande síntese. O chato é que as respostas lineares da Geografia não agradam o nosso mundo apressado e esquematizado tão porcamente.

- Geografia ganhou muito ao querer ser ciência, mas errou ao achar que para isso era necessário virar as costas para a poesia e a filosofia. Agora é o momento de pedir desculpas a essas duas.

- O coração é a região. E qual é o conceito de região hoje? O conceito errado: região como algo estável. Região não é algo estável.

- Produção é algo específico de determinado lugar. Você não produz a mesma coisa, da mesma maneira, e tem a mesma receptividade indiferente do lugar em que esta. Não, não! A vista na janela e o chão que pisa é alguma coisa. É preciso pensar nos territórios brasileiros para pensar no Brasil como um todo. Getúlio, Golbery conseguiram esse detalhe, pelo menos; e não muitos outros políticos brasileiros.

- O ponto de partida é sempre local, então cuidado para não se perder neste bonitinho e ilusório conceito de “aldeia global”. O ponto de partida é sempre local.

- Valores locais, certo? Ainda sabemos que é isso? Se não sabemos vamos continuar como estamos: achando que cidadão é sinônimo de “consumidor” e “usuário”. Nós queremos ser cidadãos ativos, certo?

- Cidadania doente é igual a essas migrações desesperadas. E aí os vizinhos viram inimigos nesta guerra que é o consumir por consumir. E os símbolos nascem antes da hora e sem o seu  conteúdo comunitário e espiritual, apesar de toda a sua rápida difusão além das fronteiras.

- Milton Santos ao falar da Bahia e da urbanização louca do Brasil a partir dos anos de 1950 mistura ternura e crítica violenta. Uau, eu queria fazer isso sem o risco de soar hipócrita e estéril. Devia citar a resposta dele para servir de modelo, mas não vou.

- Na Europa as pessoas consomem, mas criticam também. No Brasil a classe média aceita sem criticar; e não estamos falando de reclamar de preços e/ou do mau atendimento. Estamos falando de cuidar das economias, da poupança da família. De criticar produtos que surgem impostos à comunidade local. Frequentemente na timeline do FaceBook aparecem mensagens dizendo para a gente incentivar e comprar produtos de produtores locais.
O pessoal compra qualquer coisa só pelo preço e utilidade e acaba diminuindo o seu valor como cidadão e consumidor também. Tem que pesar em longo prazo e se dar algum respeito.

- Os Estados Unidos é a regra e não a exceção nesta história complicada de consumidor-cidadão por causa da defesa que conseguem fazer do poder do local. O patriotismo a legislação que coloca o estadunidense e o lugar em que vivem em primeiro lugar.
Quem mandava nas nossas pequenas cidades no passado? O cara da fazenda, lá longe. Lá longe, entenderam? Compromisso compromisso mesmo não havia.

- Mas existem flores. Parece que a tolerância pelo saber mais complexo, multidisciplinar esta aumentando. É bom, muito bom isso. Nada de mundo tão fragmentado e de silêncios entre as suas partes.

- A classe média enriqueceu, mas os pobres não acompanharam e daí que as cidades ficam sendo feitas apenas para uma parte de seus moradores. Quer construir um viaduto e as desapropriações são violentas e com indenizações baratas para quem morava nas casas precárias. Centros de compras e empregos longe da periferia. Subsídios para as montadoras de automóveis e transporte público péssimo, depois vem com aquela conversa mole que pobre comprando carro zero é o paraíso e tal. Todo mundo parado no congestionamento respirando diesel é paraíso?

- A esquerda fala muita besteira, mas não podemos relaxar: o abandono social é real e esta crescendo. Não podemos relaxar mesmo quando a oferta de emprego cresce e tudo parece legal. Não, não, o caminho é longo para o Brasil.

- O campo é mais frágil que a cidade, daí que uma cidade interiorana pode virar facilmente uma produtora de laranja. Todo mundo plantando laranja com tecnologia de fora e tal. Na cidade isso não acontece, não é assim. Há mais diversidade, há mais resistência ao nivelamento imposto pelo capital novo. Acaba que há mais futuro nas cidades do que no campo.
Agora é interessante imaginar que há mais futuro nas cidades do que no campo, quando o agronegócio brasileiro bate recordes de lucro impressionando mundo inteiro e dizendo a plenos pulmões que “o futuro do Brasil esta no campo”. O modelo de campo deles, a ideia deles de ocupação do campo. Ninguém fala “o futuro do Brasil esta no campo” dando as mãos para o pequeno produtor rural, não é?

- Não é para ter pobres, mas a existência deles acaba sendo um drama criador de mudanças: o pobre é menos acomodado quanto à ideia predominante de cidadão-consumidor e é mais fiel ao seu passado autóctone, ao contrário da classe média que sofre, mas vive melhor economicamente falando e acaba relaxando quanto a sua própria dignidade. Não é para a classe média apenas sonhar em ter duas geladeiras, é para ela sonhar em ter duas geladeiras visto que a sua família vai crescer em um mundo mais justo por ter valores melhores. Não é comprar por comprar duas geladeiras, pô!

- Muito cuidado com as estatísticas! Não são “apenas” os critérios usados que podem ficar engessados no tempo e espaço, mas toda a filosofia do trem: misturar todos os dados em um super-gráfico mais confunde do que esclarece. É bem menos do que uma ilustração. Precisamos de estatística, claro, mas é tão sedutor ficar apenas nos números!

- Você tem muito dinheiro, mas é pobre; basta para isso não participar das tecnologias que fazem o mundo atual. Não é “obrigatório” ter internet, mas é que não basta o dinheiro. Tem que participar. Não participar da caminhada da sociedade é também ser pobre.

- O acadêmico tem mesmo que sair na televisão e no radio e na internet e etc.; mas tem que continuar sendo acadêmico! Entenderam? Continuar sendo acadêmico! O sujeito se ofusca com os holofotes e acaba se transformando em um empregado informal da televisão! Pode isso? Não pode. Assim como não pode uma ala das ciências sociais orientar a sua pesquisa pela popularidade.

- Minha presença num lugar me dá características que seriam outras se eu mudasse de lugar. Pelo fato de ocupar um espaço e não outro; é nesse lugar que exerço meu quinhão de história geral. É isso que a geografia deve buscar entender para superar sua danação e ultrapassar seu dualismo e sua ambiguidade. – Milton Santos.

Nobreza esquecida, mas que esta lá
Quantas vezes fiquei bravo com o meu pai por ter me dado o nome de Aldrin, em vez de um nome mais simples como Paulo ou Matheus?
E quando eu era criança era ainda pior porque “bicho do mato” como eu era, a minha dicção era péssima. Aí juntava tudo: maldade de criança, nome difícil, timidez, aspereza de bicho do mato, dicção ruim, vergonha, raiva dos pais:
- Aldrin!
- Ândriu?
- Não, Aldrin!
- Íldran?
- Aldrin! Aldrin! 
- Andrei?
E aí eu me calava e ficava no canto sozinho, sob os risos dos outros. Como se eu precisasse de motivo para querer ficar isolado no canto.
Por outro lado, me lembrei do detalhe fundamental aqui. Quanta gente rica ou de classe média alta que vocês conhecem que se chama Carlos ou Bianca? E quantos Uéslei ou Aldrin vocês conhecem?
Pois é, era este o detalhe. Era esta a intenção dos pais.
Sacaram?
Ser, logo de cara, único. Bom, pelo menos isso.