Voltaire ajuda

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terça-feira, 20 de setembro de 2016

20 de setembro de 2016.

Improviso
Feijão e o Sonho – Orígenes Lessa.
A Terceira Margem do Rio – João Guimarães Rosa.
O Grande Inquisidor – Fiódor Dostoievski.
Lidos sem preparo prévio, lidos em um só gole e tomada de ar, lidos sem avisos de prudência. De quantos golpes de Muhammad Ali no nariz você precisa para ser levado à lona e depois levantar já sendo outra pessoa? Em verdade vos digo: é violento, injusto e  inútil queimar livros, mas a gente consegue entender os fascistas. Livros são perigosos mesmos e, felizmente, são inúteis alertas a este respeito.

Nota: Mas o livro de Orígenes Lessa, um dos cinco livros de minha vida, eu li mais de uma vez. Essa confissão estraga o aforismo, mas eu tinha que confessar.

9 Olhares
As pessoas falam que para começar a viver melhor, com alto astral e tudo, a primeira coisa a fazer é arrumar o ambiente. O lugar em que você vive, trabalha e etc. Para todos falarem isso é porque deve ser verdade, deve haver algum estudo psicológico com homens e macacos que confirme isso. Comecei e mudei um pouco a minha jaula. Ela ficou mais limpa e vazia e me fez mesmo me sentir melhor. Até ajudou a organizar as minhas leituras.
E fiz uma coisa que todos os adolescentes e aborrecentes fazem: enchi a parede de imagens para me inspirar e motivar-me. Mas nada de mulher pelada ou de jogadores de futebol: eu usei foi filósofos e artistas amados, além de alguns desenhos bonitos em geral. Tudo pego na internet e impresso em minha impressora caseira. Esta uma pobreza miserável, porque coloquei tudo em plásticos e depois usei fita adesiva. Ficou tosco e sincero e bonito.
Na verdade só colei os filósofos, as outras imagens eu só imprimi. Então em minha frente, quando escrevo, estou sendo vigiado e abençoado pelo Voltaire, Nietzsche, Bertrand Russell, Joseph Campbell e pelo casal Ariel e Will Durant (o desenho do casal foi um verdadeiro achado, muito bonito e emocionante). Os autores de não-ficção que mais amo. Rubem Alves e George Orwell ficaram com ciúmes, naturalmente, mas eu os coloquei na família dos artistas e assim vão ficar em outra parede. E como não canso de repetir: é a arte que vai mais longe e é apenas por ela que temos a salvação.
Curiosamente, sem que tivesse esta intenção, a posição e as capas de alguns livros que coloquei em meu quarto fazem que outros olhos também me vigiem e me abençoem. Um desses olhares é do filósofo luso-holandês Espinosa (capa da edição de 1979 da coleção “Os Pensadores”, da Abril Cultural), os outros olhares são de dois índios brasileiros da tribo dos Borun do Watu (capa do livro de Geralda Chaves Soares “Os Borun do Watu – Os Índios do Rio Doce”, Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva [Cedefes], 1992). A expressão do olhar de Espinosa denota seriedade e calma, além de um pouco de altivez. Os dois índios olham para mim com curiosidade viva e uma cumplicidade divertida.
Assim como a criança que fui, também as esses olhares todos eu não posso decepcionar. Não posso! Não posso!

Você acabou de ouvir uma história, então agora seja uma estrela
O que deve acontecer quando ouvimos a história do mundo.
Nas palavras de Nietzsche:
“A história natural, enquanto história da guerra e do triunfo da força ético-espiritual em luta contra o medo, presunção, inércia, supertição, loucura, deveria ser narrada de maneira tal que cada um que a ouvisse fosse irresistivelmente levado ao empenho por saúde e florescimento espiritual e físico, ao feliz sentimento de ser herdeiro e prosseguidor do humano, e a uma cada vez mais nobre necessidade de empreendimento.” (Opiniões e Sentenças Diversas, 1879) Um livro de ciência nos deve falar sobre Doença de Chagas e do Diagrama de Linus Pauling, mas também nos deve provocar um orgulho de ser um humano e uma sede capaz de devorar galáxias inteiras.
Nietzsche elogia os livros ingleses que tratam da história natural e lamenta a qualidade dos livros alemães que tratam do mesmo tema. Não é coisa simples escrever estes livros, os autores tem que ser muito talentosos.


Aqui no Brasil, em 2016, os nossos livros didáticos não fazem seus leitores (jovens alunos ou qualquer outro público) explodirem como uma estrela super nova ao serem lidos. Na verdade nossas escolas ainda estão tendo dificuldade de ensinar adolescentes a ler e interpretar textos e a efetuar operações elementares de matemática, além de outros problemas dolorosos e numerosos demais para serem aqui colocados aqui agora. A educação formal no Brasil é muito ruim e isso ajuda a impedir o Brasil de ser um país poderoso. Precisaríamos de vários governos consecutivos pensando e agindo mais ou menos do mesmo jeito na educação por uns 8 ou 12 anos, pelo menos. Infelizmente isso seria um milagre. É comum, para exemplificar, que um parque infantil fique abandonado apenas por ter sido feito por um prefeito que não esta mais no poder. 

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