Voltaire ajuda

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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Pela Minha África.

Aconteceu ontem e hoje só tenho alguns reflexos rápidos do que aconteceu. Mesmo assim vou tentar contar da melhor maneira possível. Sou um prosador de meia tigela, mas também sei que não é uma sensação tão indescritível assim e, principalmente, eu sei o quão patético é essa história de um ser humano dizer para outro ser humano: “só quem viveu aquilo para saber” ou ainda “você não é assim, não conseguirá saber”. Basta ser um humano para saber, entender e sentir, basta ser um humano para sentir compaixão. Estou enganado? Neste mundo em que as pessoas precisam de testes vocacionais para saber o que fazer da suas próprias vidas profissionais, é provável que eu esteja errado mesmo. Vai ver esquecemos mesmo o que é conversar. Em 2016, não sabemos conversar. Formidável.

Dane-se, vamos do mesmo jeito. Era de tarde e eu estava no centro de Rio Acima. Nada havia para eu fazer e não havia alguém para conversar. Eu também não queria. Visto de fora eu era um sujeito sentado na calçada. Como se diz: “no meio fio”. Parado e olhando para “o infinito”. Divagando, divagando... A calmaria era interrompida regularmente e alguém poderia pensar que eu rapidamente começava a coçar a cabeça porque mil piolhos me atacaram ao mesmo tempo. Antes fosse os mil piolhos, mas era o mundo que me atacava. A sensação do terror e do vazio total.

O mundo e as memórias malditas me atacavam, mas o resultado era o vazio. Assim, é como se você estivesse com os braços e as pernas amarradas. Impotência total. E o vazio. Vazio em cima, vazio embaixo, vazio à esquerda e vazio à direita. Vazio no espaço e vazio também no tempo: como se você fosse um recém-nascido que acabou de ser colocado no meio da selva. Nada sabe do que fazer para sobreviver.

Havia racionalidade, havia algumas reflexões racionais ali, mas elas eram desesperadas e não conseguiam seguir uma linha organizada. Eu não conseguia encontrar uma ideia sequer que me parecesse útil e boa para que eu saísse daquela sensação/situação ruim. Eu sabia que muitas daquelas ideias eram boas e úteis para os outros, mas para mim não serviam: pode-se ser um egocêntrico quando se esta sozinho no universo?

E eu continuava com os braços e pernas amarradas, me afogando no vazio. Se eu finalmente morresse eu poderia cuspir na cara do demônio e dizer a ele que não tinha medo do inferno eterno. Disso eu já não conseguia ter medo (incrível!). O problema de pensar em cometer (*** censurado ***) tantas vezes é que numa hora “eu fico sério” (como diz uma canção). Brincadeirinha, pessoal. Estou aqui, não estou? Eu estou. Teimosia estranha, teimosia estranha. O orgulho e o egoísmo que me atrapalham são os mesmos que conseguem me salvar.

Onde eu estava? Me perco sempre. Ah! Aí eu me lembrei da história do “1997-2007”, a minha “década perdida”. Então vejamos, vamos fazer uma experiência mental como o Einstein gostava de fazer: digamos que eu não tivesse os meus 33 anos e se eu fosse um sujeito normal de 23 anos: o que eu estaria fazendo? De diferente? O que era para eu fazer? A vida burguesa, simples e nobre: namoro, trabalho, amigos. Perfeito, invejável e longe. Namorada e amigos são ruins pelo mesmo motivo: exigem cuidados e exigem entrega. Eu não quero me entregar e eu não quero cuidar. Não consigo nem cuidar de mim, quanto mais dos outros. Aliás, como eu ainda consigo me olhar no espelho? Ou o caminho da salvação esta mais perto de mim do que eu imagino ou eu estou viciado em agonia. Pois a verdade é que eu ainda consigo me olhar no espelho. Teimosia estranha, teimosia estranha.

“O meu portfólio de fotos esta muito grande. Quem vai ver 200 fotos? Tenho que conseguir a proeza de resumir. Transformar aquelas “duzentas e tantas” em “50 e tantas” ou ainda menos. Já tentei fazer isso e não consegui, vou tentar de novo: deve ser possível fazer isso. Aí me sobra dinheiro para a terra vegetal e o frete. Aí eu imprimo o portfólio e saio por aí oferecendo o meu serviço. Nem me importo em não conseguir, me atrai a experiência humana de ter esse tipo de conversa. Vou me sentir um George Orwell, um Jack London no meio da miséria, lutando para sobreviver. Bom, pelo menos a situação é miserável. E eu não vou entrar em pânico se me contratarem e eu não conseguir fazer o que me pedem. O que de pior pode acontecer? Estou no Brasil, o que mais há aqui é serviço mal feito. E nos países desenvolvidos também tem gente ganhando dinheiro e fazendo serviços mal feitos. Não tenho que sentir culpa. Sou bonzinho, um bom moço, mas se acontecer eu não preciso me deprimir por isso. É cada um por si. Bebês na selva também.”

A ideia acima é que me tirou da sensação ruim. Parece a vocês um bom motivo? Parece-me sim. De qualquer forma, saí daquela sensação toda.

Agora alegria: uma ideia minha que parece original! Não deve ser original, como aquele trecho do Eclesiastes sobre “nada de novo sob o sol” nos fala, mas eu não consigo me lembrar de onde eu poderia ter copiado isso. Dane-se. La vai o trem: estamos mesmo longe do misticismo da Índia? Aquela coisa toda oriental de “se libertar do “eu””? Trabalho, religião, amigos, casamentos, torcidas organizadas do Glorioso Atlético Mineiro, serviços voluntários no Vale do Jequitinhonha, Forças Armadas e artes: tudo isso não é para a gente esquecer o nosso “eu”?
- Eu sou insuportável.
- Boa, boa, esse jogo de palavras foi ótima.

Nota Pequena: Se é que eu sou “orgulhoso”. Quem fala que eu sou “orgulhoso” é o meu pai; e eu sempre achei tosco que um homem que nunca pede desculpas e que nunca admite que erre reclame que o seu filho único, que quer impressioná-lo, seja “orgulhoso”. Principalmente sendo o meu pai um homem tão racional e compreensível para tudo.
Eu não devia tentar impressionar. Não devia tentar conseguir elogios dos outros, dessa maneira. Que coisa inédita, o texto de hoje esta chegando ao fim com eu descobrindo que eu estou errado! E que ninguém me entende! Eu devia me ajoelhar diante do mundo e pedir “O mundo anda tão complicado”, música da Legião Urbana, no programa do “Fantástico”, da Rede Globo, em vez de criar tanto “caso” e ser tão “aborrecente”.
- Te faltou porrada antes quando você estava crescendo, te falta sexo hoje para você esquecer, essa angústia de sua alma é apenas luxo de ocioso.
Vão todos a merda! Vou virar burguês, sem problema. Não me importo em virar burguês, mas aqui, apenas entre nós, eu então vou tentar mostrar como se faz uma Revolução Francesa. Pelo menos isso! Se é que tentar fazer isso vale a pena. Não sei. Talvez eu tente mesmo. Não sei. Esperanças estranhas, esperanças estranhas. Não sei.


Então de repente pensei que seria interessante fazer uns trabalhos humanitários na África e aí depois de tudo o Nelson Mandela me chamaria de “o anjo selvagem da África”. Temos uns problemas aqui, uns problemas de tempo e espaço; mas nada muito dramático. E é uma imagem bonita para terminar. 

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