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domingo, 21 de agosto de 2016

Na Cama com Thomas Mann e Outros Escritos

Na Cama com Thomas Mann
Demorei tanto para registrar aqui que eu e meu pai estamos nos relacionando melhor, que a coisa voltou um pouco a ser como antes.
Falei ao meu pai que eu vou ao Leroy Merlin, em Belo Horizonte, comprar terra vegetal, adubo e essas coisas. Para a nossa horta, entendem?

Meu pai quase teve um infarto. Não chegou a gritar comigo, mas ficou bem nervoso. “Aqui em Rio Acima tem, vai trazer esses sacos como?, você não tem dinheiro para pagar o frete, o cara da moto me custou 20 reais” e blá e blá... Ele realmente queria me colocar no caminho certo, mais uma vez. Enquanto eu tento lembrar uma ocasião em que eu e meu pai não nos decepcionamos um com outro em todos esses anos, eu vou tentar me explicar.

Sem dúvida meu pai não tem culpa d´eu ser tão imaturo, mas meu pai tem culpa se o cara da loja aqui em Rio Acima não saber se aqueles sacos de terra vegetal em sua loja tem ph6? É que ph6 é a media de acidez para uma terra vegetal ser boa para muitas sementes diferentes. Bonito, não é?, eu li isso na internet.

Nova Lima é mais desenvolvida que Rio Acima e é mais perto que Belo Horizonte, mas o problema aqui é o ônibus. A caminho de Nova Lima o ônibus lotação passa por um trecho perigoso. Curva fechada, pista dupla, ribanceira alta e motoristas brasileiros, - o pacote completo. Sei que a maioria das pessoas não tem o direito de escolher como vai morrer, por inúmeros motivos; mas eu posso tentar, não é? Quem esta me lendo esta rindo? Rindo de que? Você acha que vai morrer como o personagem principal de “Morte em Veneza”, diante daquilo que acha bonito? Ou então que vai morrer calmamente em sua cama, totalmente cercado de pessoas que te amam? Ou durante algum ato heroico? Não me digam que me falta humildade, eu falei em tentar: sou tão impotente quanto quem esta me lendo nesta área e eu ainda tenho a desvantagem de não ter os mesmos consolos que vocês.

Desculpem-me se falei coisas feias para quem esta me lendo:  é que nesta minha necessidade de desabafar, acabo sendo um pouco ríspido às vezes.
Além do mais eu nunca fui ao Leroy Merlin, parece que o trem ali é grande e “cheio de coisas”. Deve ser gostoso passear ali e “se perder”. Só costumo fazer algo parecido quando estou no hipercentro de Belo Horizonte, por algum motivo qualquer, ou quando vou a um shopping, também por algum motivo qualquer.


THOMAS MANN: - “Morte em Veneza”, é? É? Primeiro que, para variar, você comprou e ainda não leu. O máximo que fez foi assistir um trecho do filme de Visconti no YouTube. E não foi por causa da literatura, foi por causa da música de Mahler.

AMOR: - O Adagietto da “Sinfonia N. 5”! Mas não achei a música tão bonita assim. Preciso ouvi-la de novo, para um melhor julgamento. Comprei o livro porque era barato mesmo e eu ainda não tinha algum romance seu em minha biblioteca.

THOMAS MANN: - E foi quando você, sem querer, passou uma cantada na vendedora do sebo! Tão bonitinho aquilo! E a “censura oficial” ainda pode te acusar de ser um homoafetivo, um velho tarado, se alguém tiver a curiosidade de conferir como termina o filme... Não se lembra do crítico literário da revista “Veja” dizendo que eu tomava banhos gelados todas as manhãs para conter os meus impulsos homoafetivos? Quando se trata de sexo, a maioria das pessoas se comporta com excepcional imaturidade.

AMOR: - Não é “crítico” da revista “Veja”, é “resenhista”. Escrevem “apenas” resenhas. A maneira que encontraram de “lavar as mãos” diante da responsabilidade. Ele destacou tanto essa informação dos banhos gelados no texto sobre você que a insinuação dele a mim era clara: você era um homoafetivo enrustido, eis a chave para decifrar a sua obra toda. Que coisa doente!

THOMAS MANN: - Apenas um pobre coitado, condenado a tentar atacar mortos muito mais vivos que ele. Vamos continuar. Não paremos a nossa caravana.

AMOR: - E homoafetivo, eu? Me acusar disso? A “censura oficial” faz o que faz todo dia com o jogador de futebol Neymar e com o juiz da Polícia Federal Sérgio Moro e eu que sou homoafetivo? A “censura oficial” que vá a merda!

Estou sendo perfeccionista quanto à construção da horta? Isso para disfarçar minha falta de iniciativa na hora de construir a mesma? Não é saudável ser tomado frequentemente por pensamentos mórbidos desde de criança?
Hum, hum.
Hum, hum.

Patriotismo e o Camundongo
Não consegui torcer pelo Brasil nesta Olimpíada Rio 2016 porque a televisão estava com o volume ligado. Eu tinha que ter assistido aos jogos com a televisão no mudo.
Esses locutores $#@##!&! Nem me conhecem e querem me animar? Nem me conhecem e querem que eu sorria e grite com eles? Algum sorriso naquela televisão sabe que eu existo? Vai todo mundo pra putaquepariu! A Indústria Cultural me vende livros e músicas baratas, mas também me trata como um camundongo de laboratório.

Um Mistério Ortopédico
O dedo... o dedo... Qual é o nome? “Mindinho”? O menor dedo? Enfim, o dedo menor de meu pé esquerdo tem a unha deformada. E é interessante porque a unha e o dedo ficaram deformados porque eu acho que eu o quebrei e não tratei.

Nós tínhamos trago o sofá velho do apertamento de Belo Horizonte. Velho e todo manchado de suor. Aquela porcaria que tinha mais cupins que madeira, só serviu para que eu batesse meu pé nele. Três vezes por dia, era a nossa media.
Doía muito. Mas muito mesmo.

E teve um dia que doeu além da conta. Eu não quis ir ao hospital, não me lembro porque. Costumo ser um hipocondríaco responsável na maioria das vezes. Realmente não lembro porque não quis ir ao hospital.

Enfim, eu não fui ao hospital. A cor da pele não mudava, então pensei que não era tão serio assim. Eu conseguia andar, também. O máximo que fiz foi usar meia. Meia, calor, vasos dilatados, sistema imunológico, alô?, entenderam?

Aí depois de um tempo a unha começou a nascer deformada e ficar alaranjada. O dedo ficou deformado. Sempre que tenho que ir à Belo Horizonte eu passo em frente à loja do “Doutor Scholl” e fico morrendo de vontade de perguntar:
- Quebrar o dedo faz a unha da gente ficar diferente?

Algum dia eu crio coragem de entrar nessa loja. Vai ver eles dão balas Chita de graça. Amo balas Chita. Ainda vou fazer um poema sobre as balas Chita.

Consciência
O que é a consciência? Pergunta boa, pois talvez seja isso que nos diferencia de uma ameba. E é importante diferenciar-nos de uma ameba quando vemos o que fizemos com aquela criança síria da ambulância, na semana que passou.

O que é a consciência? A consciência é sobretudo algo que escapa. Imagine que nós somos iguais àqueles bonecos de ventríloquo. É, aqueles bonecos de madeira ligados à fios e tal. Pois bem, imagine que nós, sendo aqueles bonecos, conseguimos olhar para cima. Olhar para cima para ver quem esta segurando os fios e nos manipulando. Mas ai! Justamente neste instante quem segura os fios pega um espelho e o que vemos é apenas a nossa imagem refletida olhando para cima. Ponto, fim da história.
E não, não adianta trazer a mais sofisticada radiografia do celebro que vocês conseguirem. Trazer a mais sofisticada radiografia para decifrar a consciência só mostra que não entenderam a imagem do cachorro tentando alcançar o próprio rabo.
A consciência escapa.

(Inspirado em um ensaio do Bertrand Russell, onde ele reclama do René Descartes e do seu “Penso, logo existo”. Não sei se consegui resumir e reapresentar o que Russell queria dizer. Não sei se entendi o que Russell queria dizer. E não sei se Russell esta correto em sua crítica a Descartes. Mas sei que amo Russell. E sei que por causa disso vocês todos tem que gostar do Russell. E também sei que se Russell não gosta do Descartes, eu sei que Descartes tem que ir à merda!)

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