Voltaire ajuda

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terça-feira, 16 de agosto de 2016

16 de agosto de 2016.

Outro Banheiro
A memória e a vaidade de fazer literatura me deram uma rasteira aqui: não é na radio comunitária que há uma caixa d’água bem acima da privada e da pia, ancoradas por duas toras de madeira. O teto do banheiro da radio é bem arrumadinho. Me enganei e me enganei feio.

Bad Einstein
O que aconteceu semana passada? O que aconteceu ontem? O que aconteceu esta manhã?
Nada, nada, nada, nada.
Parece que nunca estiveram lá e aqui, parece que nunca existiram e que eu realmente nasci há dez segundos. Tempo é relativo, é mágico.
Se fosse “apenas” uma questão de não ter algo que valesse a pena relatar pela falta de drama e/ou de aspectos pitorescos dos fatos, vá lá, mas é mesmo uma impressão forte de falta de significado e de ausência.
Como não quero morrer por medo do inferno, uma vez que não acredito em inferno, tenho pelo menos o consolo de ter uma pequena brisa de vontade poderosa aqui em mim.
Querer viver por causa de uma brisa, que f***do e que bonito também.


Salve, salve, tarefa pequena
Preparar o meu programa de radio que vai ser amanhã. Ponto. Uma tarefa. Uma simples tarefa. Fazendo isso todas as outras coisas importantes serão feitas também, como quando os instrumentos começam a tocar de maneira harmônica ao executar uma sinfonia. É o que dizem.
Uma tarefa simples, mas que seja suficiente para a sua consciência perder-se e não ser capaz de encher o saco. E o coração também não encher o saco. Se perder assim. Deve ser algo disso que consiste no segredo da organização de uma fábrica no começo do século XX, das torcidas nos jogos de futebol e no trabalho de meditação de um monge. Uma ordem, uma tarefa simples e deixar-se levar. Mandar a consciência, mandar o “eu” para longe, muito longe. Ser a multidão, ser a massa.
Se parar, você pensa mais do que duas vezes e o coração, também na hora, trás todo aquele enxame de desejos e sonhos. Você fica mais humano, mas também mais Hamlet paralisado.
Já imaginou qual seria o tamanho do terror de cansar de ser você mesmo e de descobrir que você só pode ser você e só? Não arrepia isso? De Alcatraz e do labirinto do Minotauro, pelo menos alguns conseguiram fugir.

Corpo e espírito
Estou ruim de estômago, o que, obviamente, faz tudo que eu escreva aqui seja mais marmota que a minha média. E lembrem-se vocês que minha media de marmotices é generosa.
Mas vamos colocar alguma dignidade neste aforismo sobre a relação entre o corpo físico e aquela parte, digamos, não física. Se não me falha a memória, este exemplo se encontra em Bertrand Russell.
Um homem qualquer. Perdeu uma das pernas em algum acidente qualquer. É muito comum nestes casos que o homem sinta a perna amputada coçando ou mesmo doendo. Obviamente essas sensações são ilusórias, uma vez que a perna, como foi dito, foi atingida pelo acidente de tal forma que precisou ser amputada. Aí vem a pergunta: e onde estava a origem da sensação quando ele ainda tinha a perna?

Rede Globo nas Olimpíadas
Os repórteres da Globo saem dos escritórios da emissora com a seguinte ordem: “Não voltem para cá sem ao menos com imagens de dois atletas olímpicos chorando”? O que fizeram com o Zanetti e a Fabiana Muller; por Júpiter, que trem tosco!

O medo do silêncio
Não assisti a abertura da Olimpíada Rio 2016, mas um pedacinho eu assisti e eu tenho na memória dezenas de outras cerimônias semelhantes que assisti pela televisão.
Chama sempre a atenção o pânico que o “silêncio” provoca. “Silêncio”, aqui, é modo de dizer o som ambiente da cerimônia. Os narradores não podem calar a boca mais de um minuto senão o patrão os demite e a audiência brasileira para de entender o trem e muda de canal? É isso?
Outra coisa tosca. Impede a gente de sentir o clima. Até os narradores não conseguem sentir o clima.
E por falar em clima...

ÍLIADA – Homero.
Interrompi a leitura por causa do Jack London, mas dei uma lida aqui e outra ali. Mais ou menos umas 10 páginas.
Ainda não terminei London. Até para ler um livro que eu quero, eu complico e desobedeço ao celebro.
Detalhes, detalhes. Deixem-me ser feliz. Até para um galho torto a brisa deixa o seu beijo.
Só queria dizer aqui algumas coisas sobre a “Ilíada” que eu já entendi:
Os personagens são extremamente religiosos,
Os Deuses respondem prontamente às orações (mas não exatamente como se espera, mas não se espera muita exatidão por parte dos Deuses),
Os Deuses são humanos,
E assim como nas peças de Shakespeare a coisa é atávica: em poucas páginas você se deixa levar pela atmosfera da Ilíada e você mesmo torna-se um pagão autêntico, um personagem do livro. Daí que a gente entende como a Igreja Católica não conseguiu varrer todos os ritos pagãos, por mais que eles tentassem por mais de 2 mil anos e ainda tentam: é que aquele passado ainda esta bem próximo e ainda tem um profundo apelo em nós.
E como a mensagem de Cristo ainda é bem estranha e inédita para o nosso tempo.

"Ovos de dragões"
É mesmo uma dialética doida. Na maior parte da minha vida eu tinha vergonha de mim, apesar de não ter motivos para ter vergonha de mim. Agora hoje, escrevo sobre como é ser esta marmota que sou. Fiz tudo ao contrário. (risos)
Bom, mas o mundo nunca mentiu para mim; porque eu mentiria para o mundo? 

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