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sexta-feira, 1 de julho de 2016

30 de junho e 1 de julho de 2016

30 de junho, meu aniversário, 33 anos.
A idade de Cristo. Estou o dia inteiro sem coçar o nariz e a “minha Escandinávia” (a maioria usa a expressão “Países Baixos” para humoristicamente referir-se ao saco escrotal, mas eu resolvi inovar).

Apesar da precariedade financeira e espiritual de minha posição, eu posso ver algumas coisas com certa clareza e isso me da algum orgulho. Algumas fotos e algumas palavras, apenas isso. Aceito toda a padronização sacra a qual eu devo me submeter como todo resto também faz; desde que eu possa dar o meu pequeno testemunho. Isso o cosmo e o tempo tem que me deixar fazer.

Nesta madrugada eu acordei. Não sei por quê. Calor, algum medo querendo deixar de ser oculto, pernilongo fêmea, eu não sei. Mas acordei.
Aproveitei para ir ao banheiro “fazer o número um” (urinar) e beber água. Acabei descobrindo uma cigarra grande (quase três pontas de dedos da mão de cumprimento, se minha memória não me falhou) em meu quarto.
Ter encontrado essa cigarra me encheu de alegria. Ter que aguentar a sua música seria um incômodo que eu amaria enfrentar. A maioria das cruzes que temos que carregar são encomendas de outras pessoas que não se importam conosco, além de serem chatas e mortais para a nossa saúde. Aguentar uma cigarra tocando a sua música em meu quarto seria o tipo de cruz legal.

O HOMEM REVOLTADO – Albert Camus.
Hölderlin + O Nascimento de Empédocles = Valorizar todos os enigmas da terra séria e doente, aqui nesta noite sagrada.

A ILÍADA – Homero.
O livro não é o que imaginamos. A velha história: nos contaram tudo errado e precisamos experimentar por nós mesmos. Ah, escola e imprensa! Ah, imprensa e escola, alguma coisa vocês fazem direito? Até nas questões eruditas nós temos que experimentar por nós mesmos.
Homero conta um pedacinho da Guerra de Tróia um pedacinho, mas ao mesmo tempo ele faz mais. Ele conta o antes e o depois, e aí a gente pode sentir o gosto do seu mundo. A Grécia de Homero.

A TRADUÇÃO É UMA FEMME FATALE
A busca pela tradução ideal tem o seu charme.

No meio de sua introdução para Ilíada (Companhia das Letras e Penguin, São Paulo, SP, 2014), um livro de bolso barato, o premiado helenista lusitano Frederico Lourenço (1963) escreve:

“Aos leitores que gostariam de ter lido na Odisséia “Atena com olhos de coruja” (glaukôpis Athéne) em vez de “Atena de olhos esverdeados”, lembro que não há dados concretos oferecidos pela linguística grega que nos permitam aproximar etimologicamente o som inicial de glaukôpis do substantivo glaux (coruja), ainda mais levando em conta que não só a palavra para coruja em Homero não é glaux como a ligação entre Atena e a coruja é ateniense e posterior à época homérica.”

O livro, como objeto físico, é uma obra de arte. Poderia ficar apenas na estante, que os nossos olhos se dariam por satisfeitos. Detalhes dourados, gravuras em páginas separadas, papel e fonte com cores diferenciadas, tirando a capa de papel mostra-se a capa interna de um roxo vigoroso de dar água na boa... A Editora Cosac Naif sabia fazer livros.
Folheando apenas por folhear, prazer por prazer. Mesmo porque cronologicamente devo ler a Ilíada primeiro, antes desta edição de luxo da Odisséia (Cosac Naif, 2014, São Paulo, SP). Eis que bem no início, pelas mãos do jovem helenista Christian Werner (não consegui descobrir sua idade, mas pela sua aparência eu diria que ele tem uns 30 anos) eu acabo encontrando sem querer:

“E a ele respondeu a deusa, Atena olhos-de-coruja:”

Oh, Christian! Oh, Christian Werner!
OBS: Claro que cada tradutor tem os seus métodos e igualmente todos vendem “os seus peixes”, mas a pouca idade de Werner e o fato de Lourenço ter ganho prêmios como tradutor... rs rs Mas isso tudo é uma coisa curiosa. A busca pela tradução ideal é mesmo fascinante.

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