Voltaire ajuda

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sexta-feira, 3 de junho de 2016

No dia 30 de maio de 2016 (dia 3 de junho de 2016)

Mais uma série de debates “Interseções”, na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. Na edição de 2016, “Diálogos com a Morte” (grifo meu). Auditório Baesse, de 30 de maio a primeiro de junho de 2016, sempre de 14 horas as 16 horas.
Três dias batendo um papo com a Morte, vendo garotas bonitas da UFMG e brincando com a sabedoria. Publicar aqui, agora, o que eu anotei nesses três dias. (o que anotei com adaptações que faço na hora de revisar)

É para não dizerem, depois, que eu fui à UFMG e não fiz uma “revolução”. Na Praça de Serviços, estou embaixo daquela lona de circo gigante que cobre um pequeno anfiteatro (aqueles teatros tipo Grécia Clássica, sabe?). Ninguém usando aquelas cadeiras e aquelas mesas que estavam ali no centro, bem ao lado do palco. Todo mundo lendo, escrevendo, consultando celulares ou notebooks usando o chão ou os seus próprios joelhos.
Aí eu, ignorando a minha condição de forasteiro maldito da UFMG, levantei-me e fui até o centro do anfiteatro e puxei uma cadeira e uma mesa. E comecei a escrever, com muito mais conforto. Eu, todo corajoso e destemido! Querendo ser humilde e lutando contra o meu orgulho que quer porque quer saber se tem alguém me olhando, admirado, pela minha atitude!
LÊNIN: - Pelas barbas de Marx e do materialismo dialético, mas quanta intrepidez e voluntarismo! Todo mundo deve ter olhado para você e pensado: “Oh, oh!, porque eu também não tive tão louca atitude?!”
EU: - Merci, merci ...
LÊNIN: - Eu estava sendo sarcástico, seu classe média!
( Na hora eu me lembrei de uma cena do filme “Homens de Preto” (Men in Black, Barry Sonnenfeld, 1997), a cena em que o personagem do Will Smith fica fazendo um teste para ingressar naquela organização secreta. Tem uma hora que ele e os concorrentes estão fazendo uma prova e o Will é o único que tem a iniciativa de pegar uma mesa e tal. )

Assim como muitos sonhos que temos abandonam a nossa memória antes mesmo que cheguemos à mesa do café da manhã, eu devo ser rápido e capturar e jogar palavras no papel antes que a imagem daquela mulher evapore de meus olhos.
No ônibus 5102, a caminho da UFMG.
Ela era muito alta. Devia ter uns 43 anos, por aí. Não muito mais velha que eu. Pele clara e toda cheia de pintinhas. Um vestido muito longo (nesses tempos vulgares, alguém lembra que um vestido longo também é perigoso?). Anel grande, pulseira, colares, ela estava toda enfeitada. Cabelos longos e lisos, de um vermelho escuro ou escuro com sombras vermelhas? Sem franja. Os traços de seu rosto não eram delicados. Difícil descrevê-los. Se eu tivesse que pedir ajuda de imagens comuns a todos, eu pediria que quem estivesse me lendo pensasse naquelas atletas da Europa Oriental durante a Guerra Fria, nas Olimpíadas, ao imaginar o rosto dela. Ou talvez os rostos daquelas irmãs mais velhas e altas, sempre solteironas, nos filmes de comedia, sacaram? Um rosto grande, duro, quase, - eu disse “quase” -, masculino.
Tantas palavras, tanto preâmbulo para dizer que aquela mulher era linda. Acontece que eu achei ela linda, mesmo ela não tendo nenhum dos traços que eu gosto em uma mulher. E isso é uma tremenda vantagem: não saber, nunca saber, de antemão, previamente, que algo pode ser belo para mim. Tremenda vantagem! Tremenda vantagem!
Esta mulher acabou sentando do meu lado no ônibus. Sentou ao meu lado e imediatamente me transformou em um pirralho de 14 anos que resistia com todas as forças para não virar o pescoço e fazer para ela aquela cara de criança que inesperadamente esta diante do seu ídolo. E na verdade eu só pensava em dizer: “Moça, ô moça, você é uma das mulheres mais lindas que eu já vi! Ok? Promete para mim que nunca, nunca vai se achar feia?”

Agora isso. Uma garota morena, quase negra. Baixinha e fofinha. Em sua camiseta cor de vinho podemos ler “fonoaudiologia” (ou será “filosofia”?). Ela esta a mais de dez metros de mim e caminha rapidamente. E ela usa um... Um... Um... A morena baixinha fofinha com camisa cor de vinho usa um... chapéu! Um chapéu! Ficou ótimo nela, mas... um chapéu??
Pronto, eis mais uma musa nascendo para os meus olhos... Testemunhem todos vocês com isso quanto o meu coração e minha imaginação são prostitutos! Eles querem ser fisgados, mas qual será a senha?
Apenas saberei na hora. Até lá, diante do feminino, estarei como que passeando distraído em um museu infinito até ser surpreendido por uma mão delicada que saia de um quadro e segure a minha mão nervosa.

Estou na UFMG, Universidade Federal de Minas Gerais. Contando com hoje, esta deve ser apenas a terceira vez que eu venho por aqui. As minhas impressões anteriores eram negativas por causa dos prédios. Muita escuridão, muito concreto (apesar dos cartazes e da pichação sempre coloridos) e uma sugestão de frieza no ambiente. Intimamente me perguntava se era possível ensinar e aprender algo em prédios como aqueles.
A unidade do Centro Universitário Newton Paiva em que me formei em Comunicação Social em 2006 era completamente diferente. A arquitetura era mais “humana”, mas havia ali um invencível “ar de colégio”. O que para mim foi fatal e até para outros colegas eu acredito que igualmente não ajudou. Vendo com olhos de 10 anos, eu lamento: a atmosfera de “colégio” poderia ajudar a aprender mais e melhor. Esse “ar de colégio” poderia ser traduzido em informalidade e intimidade, e assim dos professores e dos técnicos nós alunos poderíamos ter tirado muito mais. Acho que na UFMG eles devem ter muito mais um desejo de profissionalismo e formalidade, que afasta e intimida um pouco.

As anotações sobre a primeira palestra, “Filosofia e Morte”, já irão aparecer por aqui. Mas antes, mais uma musa. Eu caminhei por todo o prédio onde esta a faculdade de Filosofia (fizera o mesmo no prédio de Belas Artes). Andei, andei. Quem me via deveria pensar que eu era algum turista, devido a cara de bobo deslumbrado que eu tinha ao olhar tudo. Eu mal piscava os olhos. Mas foi só na legendária Fafich é que aconteceu o divino susto: muito branca, cabelo curtinho, traços faciais delicados e muitas tatuagens querendo sair de sua blusa. Com quarenta e poucos anos, ela saiu inesperadamente de alguma sala e por pouco não tromba em mim.
Azar o nosso. Se nossos narizes tivessem se trombado, obviamente que começaríamos a dançar e, voando, pousaríamos apenas quando chegássemos ao rio Eufrates.

Filosofia e Morte
A palestra foi legal, mas preciso puxar algumas orelhas. A palestra na verdade foi “A Morte em Montaigne” e “A Morte em David Hume”. Não foi muito geral, como podemos ver e que o título sugeriria. Os dois palestrantes até que falaram de maneira simples, um não acadêmico que não conhecesse filosofia só precisaria prestar muita atenção.
Lúcio Vaz (Filosofia – UFES)
A morte em Michel de Montaigne. Paganismo. Não ter medo de morrer. A “bela morte”. Homero e as tragédias gregas. Agostinho de Hipona chega e “tchau paganismo”. Inspirado em Montaigne: Que a morte nos encontre fazendo algo bonito e imperfeito, e que nós não nos abalemos nem pela Morte e nem pelas nossas vidas imperfeitas. Lúcio Vaz acredita em um Montaigne ateu, o que é uma opinião contrária ao que os acadêmicos pensam.

Lívia Guimarães (Filosofia – UFMG)
Esta mulher é uma professora e se parece com uma professora. Baixinha, magrinha, óculos e cabelos grisalhos. E uma voz que sugere fragilidade. Sempre sorrindo. Muito querida pelos alunos presentes que, como ela, não deixavam de sorrir a todo instante. Me deixei levar. Simpatizei com ela na hora.
E não tinha outro jeito. Além do sorriso, o seu amor por David Hume era contagiante. Simplesmente contagiante! David Hume! David Hume!
“Apenas deixo para trás os que também irão morrer.” David Hume desejou expressamente que a sua obra filosófica fosse conhecida paralelamente com os detalhes de sua vida pessoal. O que ele pensou e como ele escolheu viver. Cícero + Virgílio  = Hume gosta. [ Acho que o filósofo romano Cícero é mais profundo que o Reali e Antiseri disseram em suas História da Filosofia (Editora Paulus, 1990). Tenho que lembrar de prestar a atenção nesse Cícero.]


E fim das anotações do primeiro dia. Esperam que tenham gostado, pois temos mais dois dias.

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