Voltaire ajuda

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terça-feira, 1 de março de 2016

Primeiro de março de 2016

Mas sou mesmo um bicho errado, um bicho ruim. Descobri o ponto fraco dele e em menos de duas semanas já arranhei duas vezes o seu nervo exposto.
- Porque vocês vieram para essa cidade?
- Você sabe por que aqui enche de gente no fim de semana?
Mas vamos explicar direito.
Um jantar a luz de velas. Não é por romantismo, é porque a chuva levou a energia elétrica. A luz das velas acende o gosto humano de contar e de ouvir histórias. É atávico, não há como resistir.
E ela me conta, com o seu entusiasmo infantil, os primeiros anos de casamento e os primeiros anos na cidade. Antes da casa e antes do fusquinha vermelho.
Uma época heroica. Sair do serviço, sair da sala de aula e pegar o último ônibus. Parar em Nova Lima e pegar outro ônibus também em seu último horário. Chegar à cidade e ainda caminhar por cerca de quarenta minutos na escuridão e na terra até a casa dos pais dela. Fácil, não? Aquela coisa tipicamente brasileira.
Ela fez isso por anos, inclusive um pouco antes de meu nascimento. Ela sempre foi a mais forte de nós, sempre. Seu único defeito era o gosto por me contar histórias de doenças e de acidentes, mas isso foi culpa da educação vinda da única multinacional por meio da qual Deus fala a nós. Nietzsche explica. Mas isso é outra história.
Ela para sua narração e eu faço a pergunta sobre porque diabos eles decidiram se mudar para esta cidade. Lembrando que ela tinha um excelente emprego em Belo Horizonte e largou para ficar aqui.
Faço a pergunta e ela me da uma resposta linda, romântica. Mas não é isso que me interessa aqui e sim uma coisa que aconteceu no momento da minha pergunta. O milagre: um resmungo do outro lado da mesa.
Eu ouvi direito? Isso foi o que pareceu que foi: um resmungo?
Ele que nunca cede, ele que nunca pede desculpas, ele que nunca confessa suas falhas, aquele que me faz sempre questionar: “qual a diferença entre força de caráter e fanatismo?”. E aquela vez que descobrimos que ele estava limpando o filtro usando sal, em vez de açúcar? Eu e ela ficamos furiosos e o máximo que ele fez foi rir, como um adolescente de 14 anos pego numa falha com amigos da rua? E nem daquela vez ele cedeu e pediu desculpas!
Ele resmungou? Tudo bem que foi um resmungo baixo, mas graças à sempre acústica mágica eu consegui ouvir.
Então o que temos aqui: um nervo exposto em seu calcanhar. E eu aqui perdendo tempo rangendo os meus dentes em vez de procurar a agulha mais fina.
Mas eu paro. A gente se ama, a infelicidade da nossa família atinge igualmente a todos. Não sou tão ruim assim e eu sei que ele também sofre. Só o fato de ele olhar para mim deve produzir nele sofrimento. Eu sou mais uma das coisas que não saiu como ele queria. E o coitado queria tanta coisa dessa vida! Mas isso também é outra história.
E eu sei bem a minha parte nessa história: minha fraqueza e preguiça, minha falta de iniciativa e desorganização. De repente sorrio: lembro-me da história de Henry Miller e de seus pais: quando chegava visita em casa, os Millers trancavam o coitado do Henry, com máquina de escrever e tudo, no armário até a visita ir embora. Essa história esta no livro “Concebido com Maldade”, podem ir lá conferir antes de pensar em jogar pôquer comigo e fazer apostas. Sou uma enciclopédia ambulante de conhecimento inútil! Mas isso também é outra história.

Eu nunca fiz um tratamento completo com algum “médico de cabeça”. Sempre fiquei nas primeiras consultas. Eu não queria o tratamento, por raiva e orgulho, e os outros não queriam “a vergonha”.
Mas uma consulta nunca é nada. Tinha pelo menos algum diagnóstico...
Um simpático e eterno carimbo na testa, presente deste glorioso Departamento de Recursos Humanos. E não adiantava o silêncio depois da sala do doutor, a minha memória é ótima para essas coisas. E isso vocês com certeza já sabem.

Leio um trecho de Will Durant falando de William Shakespeare. Pouca coisa, apenas três páginas. Queria ler, pois fiquei pensando naquelas palavras uns dias.
Leio uma, leio duas, leio três vezes... Imagino-me em uma palestra. Aquela coisa comum: mesa retangular coberta de pano vermelho em um palco grande. Cercado de especialistas de Shakespeare e diante de uma plateia bem heterogenia quando a dinheiro e conhecimento do elisabetano. Eu estou ali lendo o trecho a que me referi. Mas minha leitura não é pelo Shakespeare apenas, é pelo Will Durant. Quase ninguém conhece o meu amado Will.
Mas isso não fantasias, vamos voltar da Lua para a Terra.
Lendo esse trecho de Will Durant sobre William Shakespeare. Leio uma, leio duas, leio três vezes...
Algumas lágrimas aparecem. São muitas, mas não chegam a escorrer. São lágrimas tímidas, pois tem gente estranha perto de mim e por mais emotivo que a gente seja, o pudor tem o seu direito.


Ruy Castro.
Ruy Castro.
Eis o nome que ainda não mencionei aqui, quando falei dos professores que me ensinaram a escrever.
Eu consigo ler um livro inteiro de Ruy Castro em uma tarde. O trem flui natural. E depois você quer repetir.
Vocês podem me achar uma verdadeira marmota, tudo bem, faz parte; mas se alguém vier aqui e ficar curioso a respeito dos nomes que menciono: tudo terá valido a pena.

Vocês reparam que eu repito palavras e frases não é? Eu sempre vou fazer isso aqui. O nosso mundo nem é mais poeira e cinza, o nosso mundo é apenas metade da sombra do pior lixo. Então eu tenho que repetir frases e palavras para que elas durem um pouquinho mais.
Eu estou falando sério.

Closer – Perto Demais ( I )
Morro de medo daquele personagem do Jude Law. Tenho medo desse personagem porque eu não o entendo. Em especial a sua cena final: quando ele vê interessado aquele muro estranho. Alguém, por favor, me explique essa cena do muro!
Pelo que sei de Freud e de seus companheiros de profissão, os loucos oficiais, se eu tenho medo do personagem do Jude Law porque não o entendo; o motivo deve ser um só: eu sou igualzinho ao personagem do Jude Law! Será que eu sou um monstro frio, manipulador e solitário? Eu não quero isso!

Closer – Perto Demais ( II )
Agora alguma coisa mais alegre: a cena da discussão entre os personagens de Clive Owen e de Julia Roberts. Aquela cena em que eles discutem a traição dela. Esta cena esta no YouTube e é bastante popular, tem muitas visualizações. Ousaria dizer que essa cena é principalmente popular entre os homens. Falo por mim: eu falaria 99% do que ele falou. Adoro aquela cena! Eu faria todas aquelas perguntas, só não acho que ofenderia a personagem da Julia Roberts no final. Eu acho que eu não a ofenderia, apenas sairia da casa tentando quebrar todos os vidros da porta.
Mas a questão que quero destacar aqui são as perguntas do personagem do Clife Owen. Por que saber os detalhes da traição? Por que eu quis ver o meu amor platônico da faculdade beijar meu colega de estágio naquela festa? A gente tem que ver, a gente tem que saber. Sentir a coisa. Toda dor, todo o milímetro da ferida abrindo-se no peito... Por Júpiter, como é inebriante! O grito que não sai e por isso é mais alto! Aaaahh!!!! Cada segundo respirando é uma vingança, pois você sabe que toda aquela dor mataria qualquer um com coração mais fraco e você é forte. Você é forte! E eles não! Aaaahh!!!! Aaaahh!!!! E sem mencionar o orgulho. O orgulho que toda vítima de injustiça é capaz de esfregar na cara de seus algozes. No meu caso: quando entrei na sala atrasado na semana seguinte e todo mundo olhou para mim.
(Não cheguei atrasado à sala de propósito, eu cheguei atrasado porque eu sempre estava atrasado. Mas como isso tira o aspecto heroico da coisa, não vou contar isso aqui.)
Nessa festa eu bati um recorde pessoal: bebi cerveja pra caramba. E olhe que eu estava de estômago vazio! Mas não vomitei e nem passei mal. Apenas meu estômago ficou meio ruim. Acho que meu medo de passar mal em meio à gente estranha me fez resistir durante toda a minha volta para casa. E voltei de ônibus, héin?

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