Voltaire ajuda

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quarta-feira, 23 de março de 2016

23 de março de 2016.

(Em um corredor qualquer. Não importa. Qualquer porcaria de lugar pode virar um corredor quando se tem pressa. Desdêmona e Amor estão conversando. Otelo e Iago estão por perto.)

AMOR: - Eu não gosto dela!

DESDÊMONA: - Então já pode parar de pensar que não gosta dela.

AMOR: - Eu devo estar gostando dessa agonia toda...

OTELO: - Claro, se não já teria resolvido isso tudo. Já fui feito cativo diversas vezes em batalhas na África, mas nenhuma prisão se compara a uma indecisão diante de tantas opções e de um desejo poderoso disfarçado de prêmio.

DESDÊMONA (para Otelo): - Meu bolo de chocolate amargo com cobertura de cerejas, a amiga dele não é um prêmio. Ela é uma pessoa. Uma pessoa que ele precisa conhecer mais, se aproximar mais. Apenas.

OTELO: - (para Desdêmona): - Meu sorvete de creme com cobertura de groselha, como sempre o seu bom senso ilumina a discussão.

IAGO: - Batatinha quando nasce
              Esparrama a rama pelo chão
              Com medo de se arriscar
              Só podemos acabar em “não”.

             Batatinha quando nasce
             Esparrama a rama pelo chão
             Complicar o que é simples
             Receita para ser um bundão!
  
             Batatinha quando...

DESDÊMONA, OTELO, AMOR: - Já chega, Iago!

IAGO: - Foi mal, aí. Empolguei-me no decassílabo sáfico e na redondilha menor.

(Em uma loja que concerta relógios analógicos antigos e que tem também, por motivos obscuros, dezenas e dezenas de álbuns de fotografias de várias pessoas espalhados em armários. Amor e Iago estão na loja, olhando os relógios velhos na parede e os álbuns com as memórias de outros.)

AMOR: - Para quem eu escrevo? Nietzsche, de mãos dadas a Emerson, me conta sobre escrever pensando em meu futuro. Assim, diz ele, bem velhinho eu ainda vou gostar de mim. Parece coisa boba, mas essa linha afetiva não é coisa fácil de construir ou de ser ver por aí.

OTELO: - Eu fecho os meus olhos e meus primeiros anos me veem fácil. As brincadeiras com outras crianças e o cheiro de instantes antes de minha mãe servir o nosso almoço. O meu irmão e minha irmã! Meu pai nunca me carregou em seus braços, mas as histórias que me contavam sobre o guerreiro lendário que ele foi, embalavam os meus sonhos de criança e os planos de jovem. A primeira vez que vesti o uniforme do glorioso exército de Veneza. Ah...! (Otelo coloca os braços em “x” em seu peito. Fecha os olhos, abaixa o rosto e sorri.) Dores? Sim! Mas glórias também, muitas glórias! A linha afetiva ligando a nossa caminhada por este lado da terra, somos nós que construímos. Não é interpretação, é coragem para assumir o seu passado. Não é interpretação, é capacidade ou não de assumir o que aconteceu. Você é capaz? Assim o presente se forma em meio aos seus dedos e o futuro, um desenho cada dia mais nítido em seu horizonte.

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