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terça-feira, 22 de março de 2016

22 de março de 2016.

(O mesmo cenário de sempre: um palco de teatro cujo único cenário é o interior de quem esta em cena. Os autores são muitos, mas há apenas um ator. Era para ter sido colocado espelhos na plateia, mas isso só acontece quando alguém ri e compreende aqui. Não foi informado o tempo de duração da apresentação, a única coisa que se sabe é que ele é insuficiente e se repete.)

(Desdêmona e Amor estão conversando sobre como este último pode começar a ter alguma vergonha na cara e tomar jeito. Não vou falar que ambos estão no quarto do Amor, pois até o rir de si mesmo tem limite para quem escreveu esta frase. Otelo e Iago também estão presentes, mas não no quarto, e sim no corredor e observando. )

DESDÊMONA: - Mas que bagunça! Porque você nunca conseguiu arrumar isso aqui? Consegue por um ou dois dias, mas depois tudo volta a ficar bagunçado. Você sabe que isso é espelho, né? Interno e externo? Se não consegue arrumar onde mora, como pode querer que os outros acreditem que você pode mudar para melhor? Evoluir? E essas roupas? Quando foi a última vez que você comprou camisetas novas? Você não pode encontrar essa sua amiga com essas mesmas camisetas. Aposto que você já repetiu as camisetas quando foi encontrar com ela. Você nunca pensou nisso, não é? Mas nós mulheres reparamos. É para fazer ela se sentir única e não parte de um compromisso qualquer. Os homens sempre tem uma meia dúzia de camisetas favoritas e as usam até que as camisetas possam andar sozinhas. Outra coisa que temos que mudar por aqui é... É...

(Desdêmona, que estava andando pelo quarto, para. Paralisada, como se escutasse alguém chamando por ela baixinho. Ela olha ao redor do quarto e sua expressão, antes concentrada, torna-se espantada e cada vez mais espantada. Desdêmona ergue os braços e abre as palmas das mãos, como a gente faz em meio a um assalto. Mas o choque não é por um assalto.)

DESDÊMONA: - Mas que cheiro é esse neste quarto? Aaaahh!!!! Não é possível!!!! Não-é-possível- Não-é-possível- Não-é-possível!!!!

AMOR: - Hã... Bem...

(Amor faz careta de quem não tem como explicar, enquanto coça a cabeça igualzinho ao Magro da dupla o Gordo e o Magro. Alguns instantes depois, Otelo entra no quarto e se dirige a Desdêmona.)

OTELO: - Meu pedacinho de palha italiana, meu raio de luar. Meu queijo minas e meu rouxinol. Eu tinha que ter te avisado. Perdoe-me, perdoe-me! (Otelo ajoelhado beija a mão direita de Desdêmona, que sorri compreensiva). O caso é mais grave que você pode imaginar, temos que fazer esse marmota amadurecer e encontrar a sua princesa encantada!

(Desdêmona susurra).

DESDÊMONA: - Encantada ou retardada...

(Amor de aproxima do casal).

AMOR: - Oi, oi? Como é?

DESDÊMONA: - Nada não! Aqui, vamos olhar outra parte do armário? Agora vamos tratar das calças...

(Desdêmona se dirige ao armário, depois de despedir-se de Otelo. O mouro se dirige à porta do quarto e passa por Iago que se aproxima do Amor.)

IAGO: - Não me leve a mal, mas essa sua voz feminina mais parece uma aborrecente enjoada. E ela não vai parar de falar? É o Fidel Castro fazendo discur

(Iago sussurrou, mas devia ter sussurrado mais. Desdêmona, como bom ser feminino que é, tem um radar calibrado para sussurros, segredos e outras coisas a fins. Desdêmona fala ao Amor.)

DESDÊMONA: - Espere um pouco, querido.

IAGO: - Ei, ei! Nem vem! Ei, vo...

(Desdêmona avança em direção a Iago, que da um ou dois passos recuando. Ele levanta os dois braços, ensaiando alguma forma de defesa. Um jiu-jítsu básico depois.)

(Iago esta deitado no chão. Em pé, ao seu lado, Otelo.)

OTELO: - Achei que tinha aprendido alguma coisa da ultima vez.

IAGO: - Nas sábias palavras de DuckMan: “Mas nós burros temos uma paciência!”...

OTELO: - Agradeça pela saúde do seu pescoço.

IAGO: - Mas onde afinal Desdêmona aprendeu jiu-jítsu?

OTELO: - Aprende-se muito em 413 anos de vida e de espera.

(Desdêmona e Amor continuam.)

DESDÊMONA: - Calças! É possível comprar calças que sejam do seu tamanho. Para isso existe nas lojas de roupas aquilo que a gente chama de “provador”.

AMOR: - Eu...

DESDÊMONA: - Você sabe o que é um provador?

AMOR: - Eu sei...

DESDÊMONA: - As cabines, os espelhos...

AMOR: - Eu sei... Eu sei!

DESDÊMONA: - Oh, fechou a cara. Qui bunitim! (Aperta as bochechas do Amor, que bravo, se afasta.) Não fique bravo de verdade, pois eu desapareço. É o que fazemos quando nos tratam mal: a gente desaparece. As vezes continuamos perto, mas desaparecemos porque não continuamos as mesmas e as vezes os homens nem reparam que mudamos. Não reparam mesmo. E uma das maneiras de nos tratar mal é ficar com medo. E aí não fala por medo. Como pode ficar tanto tempo sem falar? Tem medo do que? Você tem que falar. E tem que se encontrar de novo. Olhos nos olhos. Custa caro ensinar o nosso olhar  a mentir, a maioria não consegue. E mesmo que consiga, nem sempre funciona. Olhos nos olhos. Aí você vai saber o que precisa. Marque alguma coisa. Qualquer coisa. Ao vivo. Pode ser alguma coisa besta, não importa, ela já te conhece. Qua...

(Iago entra no quarto. “Entra” é força de expressão, ele coloca uma das pernas enquanto segura com as duas mãos a porta entreaberta.)

IAGO: - Opa, opa, posso interromper já interrompendo? É que esta última foi boa. Muito boa. “Coisa boba... Tudo bem... Ela já te conhece...” Boa, boa!

(Otelo empurra Iago, que assim acaba de entrar no quarto ao cair perto do “pé esquerdo” da cama.)

DESDÊMONA (para Iago): - Você gosta mesmo de apanhar. És um caso perdido! (Para o Amor) Mas você não, o Amor nunca é perdido. Amanhã continuamos as lições.

AMOR: - Já terminamos por hoje? Foi tão rápido! Não é justo!

DESDÊMONA: - Rápido? Você viu velhos problemas que nunca resolveu e acha que a lição foi curta?

(Otelo se aproxima. Os quatro estão juntos. Desdêmona e Otelo, de mãos dadas. Iago sentado no chão e o Amor na cama. Otelo se dirige ao Amor.)

OTELO: - Confie em meu caldo de doce de figo, a minha Desdêmona sempre sabe o que faz. Amanhã tem mais e muito mais. Comece a praticar as lições de hoje. Vai, vai!

(As cortinas nunca fecham. São os músicos que cuidam dos intervalos.)


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