Voltaire ajuda

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segunda-feira, 14 de março de 2016

14 de março de 2016.

A ternura e erotismo,
O desejo e dúvida,
A fúria e súplica.

Acordo cedo demais, quase madrugada. Acordo pensando nela. O pau duro e a cabeça em tempestade. Antes que a cabeça de cima interrompesse completamente a de baixo, eu apenas precisava abrir as minhas mãos para cobrir as suas coxas finas. Eu deslizava rápido para acabar com um vestido curto e no final, bastava fechar forte a palma das minhas mãos para poder ter completamente para mim o seu pequenino...

IAGO: - Bumbum! (risos)

AMOR: - Mas é difícil escrever “bumbum” sem provocar sorrisos e risos mesmo, e isso estraga o clima das palavras.

IAGO: - Não se o clima for forte o suficiente. Não é o caso, mas foi boa a sua tentativa.

OTELO: - Se expressar salva e alivia sempre, mas existem armadilhas aqui. Pegar algumas indiretas, alguns desejos, “terceiras intenções” e “segredos de liquidificador”, angústias e fantasias, misturar tudo e transformar em algum diálogo ou aforismo original e engraçado e algumas vezes bonito e inteligente, dá trabalho. Se você errar a medida, alguém pode ficar triste. Não esquente a cabeça de quem precisa se concentrar em aprender sobre ordem e que fica mais bonito voando livre.

IAGO: - Mas ninguém quer aqui roubar a atenção dos livros da regra ou prender pássaros, quer? Quer apenas voar junto, quer apenas confessar, não é? Qual mal há nisso?

OTELO: - A interpretação é livre, o risco: grande.

AMOR: - O que eu tenho?

IAGO: - O que você tem?

AMOR: - Palavras e imagens aqui e não lá.

IAGO: - Palavras e imagens aí e não .

AMOR: - Foda-se! Foda-se!

IAGO: - Não é o lema que se aprende na internet? Um revigorante “foda-se” é tudo que a gente precisa!

OTELO: - As vezes, as vezes é tudo o que a gente precisa.

AMOR: - Foda-se! Foda-se! Foda-se tudo!

[    Ars gratia artis.    ]

IAGO: - Por outra lado ... Algumas coisas realmente não precisam ser ditas. Essa coisa de dizer que o rosto dela lembra as das mulheres do John William Waterhouse é de uma soberba cafonice! (gargalhadas) Você devia ter vergonha em ter pensado nisso.

AMOR: - Não sei escrever muito bem. Descrever os traços faciais de alguém é um desafio poderoso para qualquer um. Eu acho que essa referência era boa, seria discreta e completa.

OTELO: - É discreta e completa. Eu gostei dela. Nos quadros mais famosos de Waterhouse vê-se claramente que ele repete os traços faciais de suas mulheres. 
Delinear-se claramente um estilo em suas criações femininas.

AMOR: - O rosto longo e oval, o perfil anguloso, o queixo...

IAGO: - Um queixo que pede uma mordida, uma dessas mordidas que no serviço, na manhã seguinte, gera pensamentos inconfessáveis entre as colegas dela mais contidas nesses assuntos...

OTELO: - Cale a sua boca, vilão!

AMOR: - É, Iago, fique quieto!

IAGO: - Ah, mas é ótimo! Otelo, tudo bem, preso que é de seu código moral cheio de regras retas e dúvidas que esperam. Agora você pedindo para eu me conter? Você me chamou aqui para quê? Héin, héin, pode me dizer? Não pode! Não pode me dizer!

AMOR: - Não posso.

IAGO: - Não pode!

OTELO: - Isso é maduro, isso é prudência! Precisamos lembrar-nos do terremoto que sempre ruge ao nascimento de qualquer frase.

AMOR: - No criador e no leitor.

OTELO: - No escritor e nos leitores.

IAGO: - Nas leitoras...

AMOR: - Fique quieto, Iago!

OTELO: - Vilão...

IAGO: - Mas eu usei o plural, o plural! Mas tudo bem. Reverencio aqui a indireta e a etiqueta de vocês dois. Como disse a minha versão oficial: “o que vocês sabem, vocês sabem...”

OTELO: - Se você precisa de ajuda para calar-se, sabe que sou um homem de ação...

AMOR: - E eu nunca li a peça de vocês no colégio...

IAGO: - E também não leu quando trabalhava no projeto “Shakespeare e as Crianças”, o melhor trabalho que você já teve. Eis mais uma prova de que seu coração é imaturo e não sabe cuidar...

OTELO: - Ele leu oito peças do William, seu amor ao “Bardo Inglês” e ao projeto era sincero. Não precisa saber mais do que isso: eu sou bom, você é mal e a peça que leva meu nome fala das dificuldades de amar.

IAGO: - Brincadeiras, brincadeiras! Vocês dois podem brincar de elogiar-se e de dançar na metalinguagem, quem se importa e quem lê? E eu aqui, no escuro, o que vê melhor e fala mais sincero!

OTELO: - Vagabundo, destile o seu veneno em outros ouvidos! Qual é o sabor de minha espada? Você vai me dizer!

AMOR: - Mas existe alguma coisa verdadeira na fala de Iago? O mais fundo é o mais verdadeiro aqui? A força é a sinceridade?

OTELO: - Você esta apenas confuso, normal e esperado nesse assunto. Nunca tenha medo de ser sincero, se você sabe que manteve seu coração limpo.

[    As vezes me sinto    ]
[    Como uma mola encolhida    ]

AMOR: - As vezes fico com raiva e fico com vontade de rasgar-me em mil pedaços. Ou de apenas gritar como o Alexander Portnoy. Essas coisas do amor... Colocar em risco a amizade e apostar tudo? Nunca dar à carne o que ela pede? É ela ou não? O que eu quero? O que eu sinto? O que eu tenho? O que posso oferecer a ela? Tantas dúvidas! É muita coisa! É muita coisa! E eu sempre acho que vou continuar o mesmo!

OTELO: - Saber sentir é difícil, mais difícil ainda se dentro de nós os sentimentos encontram um Oceano Pacífico para poder viajar e fazer o que quiser.

IAGO: - Eu posso ajudar...

AMOR: - Você não tinha ido embora?

IAGO: - É mais fácil você me tirar do palco do que o pobre Otelo. O mouro precisa levantar uma espada, você precisa apenas piscar os olhos. A questão é se...

AMOR: - Apenas fale, por favor.

IAGO: - Você citou um nome: Alexander Portnoy. Quem é ele?

AMOR: - O personagem de ficção com a qual eu mais me identifico.

IAGO: - Sim, sim, sabemos disso. Interessante mesmo. Você vai broxar em Jerusalém, levar um chute no peito dado por uma guerrilheira israelense e ter uma amiga namorada na forma de uma ex... Hum, deixa pra lá... Vou fica apenas no: assanhada, engraçada e sem noção. Viram como sou político?

OTELO: - O gosto que você tem por ser grosseiro! Enerva-me!

AMOR: - O melhor daquela personagem era que ela era alegre. Não precisava ser assanhada assim. Trocava a sua ninfomania pela sua alegria e vontade de sempre dizer: “vai dar certo, estou aqui e a gente vai conseguir, juntos!”

OTELO: - É sábio procurar pessoas com uma áurea positiva.

IAGO: - Hum, hum, sei, sei. Palmas, palmas! Também gosto de alegria, o problema é quando algo atrapalha. Tipo uma coceira. E eu estou com uma coceira bem aqui agora... O que será? O que será? Com aqueles cabelos sempre longos e sempre soltos, como será que sua pele se comportaria se a gente levantar todos aqueles fios e nossa unha arranhar uma linha das suas costas até a nuca?

OTELO: - Ele faz bem o seu trabalho, isso não podemos negar!

AMOR: - Não podemos...

OTELO: - Não vamos perder o foco naquilo que apenas pode acrescentar ao nosso encontro. Portnoy sofria de solidão, não sabia reprimir os seus impulsos e isso lhe causava problemas. O seu mundo era constantemente tomado de pensamento e de emoções pesados e conflituosos. Faltava-lhe paz e harmonia interior. Não soube interpretar positivamente o seu passado e herança, também.

AMOR: - E ele tinha como olhar para seu passado e dali tirar coisas boas? Dizem que a memória é traiçoeira...

IAGO: - A memória é sempre traiçoeira!

OTELO: - O passado é sempre o mesmo, mas a memória não pode abraçar tudo em suas viagens que faz por lá. Então a questão é calibrar a memória para que seu radar capte aquilo que pode ajudar. Mas isso não é tudo. Não é apenas achar o que interessa, achar aquilo que no passado podemos transformar em ouro no presente. Apenas isso seria ser parcial, ser incompleto.

AMOR: - O que falta?

OTELO: - Falta aceitar o passado. Isso é muito difícil.

IAGO: - Isso é muito fácil! Aceitar nossos vícios e problemas? Quer coisa mais fácil e cômoda?

AMOR: - Isso é verdade. Eu sou muito cansado e acomodado. É fácil aceitar um julgamento negativo, lavar as mãos e empurrar com a barriga o resto da vida. Quantos defeitos em mim já são eternos? Quantos anos eu tenho? Eu sou um latino-americano, tenho que lembrar-me disso sempre! Já sei, eu vou fazer uma média das idades em que Glauber Rocha e Ernest Hemingway...

OTELO: - Pare! Não continue! Não escute Iago, ele não passa de um verme infernal! Eu falo de compreender plenamente aquilo que ajudou a sermos o que somos hoje. Aceitar o passado no todo: aquilo que ajudou e ajuda a sermos o que somos. Mas nós nunca nos acabamos, nós continuamos.

AMOR: - E harmonia e paz interior? E aprender a gostar de quem eu vejo no espelho?

OTELO: - Eu vou te ensinar.

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