Voltaire ajuda

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domingo, 27 de março de 2016

quarta-feira, 23 de março de 2016

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23 de março de 2016.

(Em um corredor qualquer. Não importa. Qualquer porcaria de lugar pode virar um corredor quando se tem pressa. Desdêmona e Amor estão conversando. Otelo e Iago estão por perto.)

AMOR: - Eu não gosto dela!

DESDÊMONA: - Então já pode parar de pensar que não gosta dela.

AMOR: - Eu devo estar gostando dessa agonia toda...

OTELO: - Claro, se não já teria resolvido isso tudo. Já fui feito cativo diversas vezes em batalhas na África, mas nenhuma prisão se compara a uma indecisão diante de tantas opções e de um desejo poderoso disfarçado de prêmio.

DESDÊMONA (para Otelo): - Meu bolo de chocolate amargo com cobertura de cerejas, a amiga dele não é um prêmio. Ela é uma pessoa. Uma pessoa que ele precisa conhecer mais, se aproximar mais. Apenas.

OTELO: - (para Desdêmona): - Meu sorvete de creme com cobertura de groselha, como sempre o seu bom senso ilumina a discussão.

IAGO: - Batatinha quando nasce
              Esparrama a rama pelo chão
              Com medo de se arriscar
              Só podemos acabar em “não”.

             Batatinha quando nasce
             Esparrama a rama pelo chão
             Complicar o que é simples
             Receita para ser um bundão!
  
             Batatinha quando...

DESDÊMONA, OTELO, AMOR: - Já chega, Iago!

IAGO: - Foi mal, aí. Empolguei-me no decassílabo sáfico e na redondilha menor.

(Em uma loja que concerta relógios analógicos antigos e que tem também, por motivos obscuros, dezenas e dezenas de álbuns de fotografias de várias pessoas espalhados em armários. Amor e Iago estão na loja, olhando os relógios velhos na parede e os álbuns com as memórias de outros.)

AMOR: - Para quem eu escrevo? Nietzsche, de mãos dadas a Emerson, me conta sobre escrever pensando em meu futuro. Assim, diz ele, bem velhinho eu ainda vou gostar de mim. Parece coisa boba, mas essa linha afetiva não é coisa fácil de construir ou de ser ver por aí.

OTELO: - Eu fecho os meus olhos e meus primeiros anos me veem fácil. As brincadeiras com outras crianças e o cheiro de instantes antes de minha mãe servir o nosso almoço. O meu irmão e minha irmã! Meu pai nunca me carregou em seus braços, mas as histórias que me contavam sobre o guerreiro lendário que ele foi, embalavam os meus sonhos de criança e os planos de jovem. A primeira vez que vesti o uniforme do glorioso exército de Veneza. Ah...! (Otelo coloca os braços em “x” em seu peito. Fecha os olhos, abaixa o rosto e sorri.) Dores? Sim! Mas glórias também, muitas glórias! A linha afetiva ligando a nossa caminhada por este lado da terra, somos nós que construímos. Não é interpretação, é coragem para assumir o seu passado. Não é interpretação, é capacidade ou não de assumir o que aconteceu. Você é capaz? Assim o presente se forma em meio aos seus dedos e o futuro, um desenho cada dia mais nítido em seu horizonte.

terça-feira, 22 de março de 2016

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22 de março de 2016.

(O mesmo cenário de sempre: um palco de teatro cujo único cenário é o interior de quem esta em cena. Os autores são muitos, mas há apenas um ator. Era para ter sido colocado espelhos na plateia, mas isso só acontece quando alguém ri e compreende aqui. Não foi informado o tempo de duração da apresentação, a única coisa que se sabe é que ele é insuficiente e se repete.)

(Desdêmona e Amor estão conversando sobre como este último pode começar a ter alguma vergonha na cara e tomar jeito. Não vou falar que ambos estão no quarto do Amor, pois até o rir de si mesmo tem limite para quem escreveu esta frase. Otelo e Iago também estão presentes, mas não no quarto, e sim no corredor e observando. )

DESDÊMONA: - Mas que bagunça! Porque você nunca conseguiu arrumar isso aqui? Consegue por um ou dois dias, mas depois tudo volta a ficar bagunçado. Você sabe que isso é espelho, né? Interno e externo? Se não consegue arrumar onde mora, como pode querer que os outros acreditem que você pode mudar para melhor? Evoluir? E essas roupas? Quando foi a última vez que você comprou camisetas novas? Você não pode encontrar essa sua amiga com essas mesmas camisetas. Aposto que você já repetiu as camisetas quando foi encontrar com ela. Você nunca pensou nisso, não é? Mas nós mulheres reparamos. É para fazer ela se sentir única e não parte de um compromisso qualquer. Os homens sempre tem uma meia dúzia de camisetas favoritas e as usam até que as camisetas possam andar sozinhas. Outra coisa que temos que mudar por aqui é... É...

(Desdêmona, que estava andando pelo quarto, para. Paralisada, como se escutasse alguém chamando por ela baixinho. Ela olha ao redor do quarto e sua expressão, antes concentrada, torna-se espantada e cada vez mais espantada. Desdêmona ergue os braços e abre as palmas das mãos, como a gente faz em meio a um assalto. Mas o choque não é por um assalto.)

DESDÊMONA: - Mas que cheiro é esse neste quarto? Aaaahh!!!! Não é possível!!!! Não-é-possível- Não-é-possível- Não-é-possível!!!!

AMOR: - Hã... Bem...

(Amor faz careta de quem não tem como explicar, enquanto coça a cabeça igualzinho ao Magro da dupla o Gordo e o Magro. Alguns instantes depois, Otelo entra no quarto e se dirige a Desdêmona.)

OTELO: - Meu pedacinho de palha italiana, meu raio de luar. Meu queijo minas e meu rouxinol. Eu tinha que ter te avisado. Perdoe-me, perdoe-me! (Otelo ajoelhado beija a mão direita de Desdêmona, que sorri compreensiva). O caso é mais grave que você pode imaginar, temos que fazer esse marmota amadurecer e encontrar a sua princesa encantada!

(Desdêmona susurra).

DESDÊMONA: - Encantada ou retardada...

(Amor de aproxima do casal).

AMOR: - Oi, oi? Como é?

DESDÊMONA: - Nada não! Aqui, vamos olhar outra parte do armário? Agora vamos tratar das calças...

(Desdêmona se dirige ao armário, depois de despedir-se de Otelo. O mouro se dirige à porta do quarto e passa por Iago que se aproxima do Amor.)

IAGO: - Não me leve a mal, mas essa sua voz feminina mais parece uma aborrecente enjoada. E ela não vai parar de falar? É o Fidel Castro fazendo discur

(Iago sussurrou, mas devia ter sussurrado mais. Desdêmona, como bom ser feminino que é, tem um radar calibrado para sussurros, segredos e outras coisas a fins. Desdêmona fala ao Amor.)

DESDÊMONA: - Espere um pouco, querido.

IAGO: - Ei, ei! Nem vem! Ei, vo...

(Desdêmona avança em direção a Iago, que da um ou dois passos recuando. Ele levanta os dois braços, ensaiando alguma forma de defesa. Um jiu-jítsu básico depois.)

(Iago esta deitado no chão. Em pé, ao seu lado, Otelo.)

OTELO: - Achei que tinha aprendido alguma coisa da ultima vez.

IAGO: - Nas sábias palavras de DuckMan: “Mas nós burros temos uma paciência!”...

OTELO: - Agradeça pela saúde do seu pescoço.

IAGO: - Mas onde afinal Desdêmona aprendeu jiu-jítsu?

OTELO: - Aprende-se muito em 413 anos de vida e de espera.

(Desdêmona e Amor continuam.)

DESDÊMONA: - Calças! É possível comprar calças que sejam do seu tamanho. Para isso existe nas lojas de roupas aquilo que a gente chama de “provador”.

AMOR: - Eu...

DESDÊMONA: - Você sabe o que é um provador?

AMOR: - Eu sei...

DESDÊMONA: - As cabines, os espelhos...

AMOR: - Eu sei... Eu sei!

DESDÊMONA: - Oh, fechou a cara. Qui bunitim! (Aperta as bochechas do Amor, que bravo, se afasta.) Não fique bravo de verdade, pois eu desapareço. É o que fazemos quando nos tratam mal: a gente desaparece. As vezes continuamos perto, mas desaparecemos porque não continuamos as mesmas e as vezes os homens nem reparam que mudamos. Não reparam mesmo. E uma das maneiras de nos tratar mal é ficar com medo. E aí não fala por medo. Como pode ficar tanto tempo sem falar? Tem medo do que? Você tem que falar. E tem que se encontrar de novo. Olhos nos olhos. Custa caro ensinar o nosso olhar  a mentir, a maioria não consegue. E mesmo que consiga, nem sempre funciona. Olhos nos olhos. Aí você vai saber o que precisa. Marque alguma coisa. Qualquer coisa. Ao vivo. Pode ser alguma coisa besta, não importa, ela já te conhece. Qua...

(Iago entra no quarto. “Entra” é força de expressão, ele coloca uma das pernas enquanto segura com as duas mãos a porta entreaberta.)

IAGO: - Opa, opa, posso interromper já interrompendo? É que esta última foi boa. Muito boa. “Coisa boba... Tudo bem... Ela já te conhece...” Boa, boa!

(Otelo empurra Iago, que assim acaba de entrar no quarto ao cair perto do “pé esquerdo” da cama.)

DESDÊMONA (para Iago): - Você gosta mesmo de apanhar. És um caso perdido! (Para o Amor) Mas você não, o Amor nunca é perdido. Amanhã continuamos as lições.

AMOR: - Já terminamos por hoje? Foi tão rápido! Não é justo!

DESDÊMONA: - Rápido? Você viu velhos problemas que nunca resolveu e acha que a lição foi curta?

(Otelo se aproxima. Os quatro estão juntos. Desdêmona e Otelo, de mãos dadas. Iago sentado no chão e o Amor na cama. Otelo se dirige ao Amor.)

OTELO: - Confie em meu caldo de doce de figo, a minha Desdêmona sempre sabe o que faz. Amanhã tem mais e muito mais. Comece a praticar as lições de hoje. Vai, vai!

(As cortinas nunca fecham. São os músicos que cuidam dos intervalos.)


segunda-feira, 21 de março de 2016

21 de março de 2016 (post scriptum).

Olha como ficou a diagramação da postagem anterior. Ficou uma porcaria! Não da mesmo para escrever direto do blog. A não ser que seja um texto pequeno ou sem colagens. Tentaremos dar um jeito nisso. 

21 de março de 2016

Escrevendo diretamente no blog. Quase nunca quando faço isso fica bom o texto, mas se eu quero publicar hoje vai ter que ser assim. Rossini e Voltaire, deem uma força aí! Escrever, escrever, furiosamente e desesperadamente para eu me conhecer.

"FeedBurner43"
Um recorde neste blog feito "para todos e até para mim". 

Preparando um texto para ser lido em meu programa na radio. Pequenas apresentações antes da cada música. Musicas, por sua vez, selecionadas segundo um critério meio doido. Tão doido que tenha até dificuldade de resumir aqui, hoje. Era para eu fazer isso sempre, mas nunca consigo. Apesar de meu programa ser duas vezes por semana, nunca conseguir planejar com antecedência dois meses seguidos. Acho que nem um mês, mas não tenho certeza. Acho que um mês seguido eu consegui sim. 

REM -Imitation of life.
Gosto da música e do videoclip. Só não gosto da cena em que a mulher do cara o trai com o jardineiro. Aquilo sempre bate ruim em mim. 


[    "This sugarcane
This lemonade
This hurricane, I'm not afraid

C'mon, c'mon no one can see me cry"    ]

CAUBY PEIXOTO - Chão de Estrelas. (letra de Orestes Barbosa, um dos maiores poetas do Brasil.)

"Ferida nacional" ou "feriado nacional"? rs rs Pobre Orestes Barbosa! Encontrei as duas versões na internet. 

[    "Nossas roupas comuns dependuradas na corda qual bandeiras agitadas

Parecia um estranho festival
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que no morro mal vestido
É sempre feriado nacional"    ]


FASTBALL - The Way.
Uma música gostosinha que, quase 10 anos depois, resolvo conhecer a sua letra. Situação curiosa que deve ser explicada por essa época nossa de pop-rapidez-superficialidade-e-etc. 

[    "You can see their shadows wandering of somewhere
They won´t make it home but they really don´t care."    ]

Essa coisa de ser "uma banda de um sucesso só"... Me parece crueldade. Imagine uma criança pobre, que nasceu em uma favela e em uma família complicada. Imagine que essa criança seja talentosa no futebol e antes dos 20, ela já esteja na Europa ganhando milhões e sendo chamado de "Deus' por todo mundo. Imagine a cabeça do coitado! E um grupo musical que do nada, ganha tudo e depois volta ao nada? Essas "montanhas russas" da vida sempre me pareceram muito cruéis. A pessoa fica doida e muitas vezes as pessoas ao redor pioram a situação. 

AMOR: - E aí, Miguel? Tudo joia?
MIGUEL DE CERVANTES SAAVEDRA: - É noiz!
AMOR: - Me fale sobre como foi escrever As Engenhosas Aventuras do Fidalgo Dom Quixote de La Mancha!
MIGUEL DE CERVANTES SAAVEDRA: - Não.
AMOR: - "Não"?
MIGUEL DE CERVANTES SAAVEDRA: - Não! 
AMOR: - M-ma-mais ... 
MIGUEL DE CERVANTES SAAVEDRA: - É que estou cansado de falar do meu "Dom Quixote". Não me leve a mal, amo também o "Cavalheiro da Triste Figura". Ocorre que eu também escrevi outras coisas. Seria tão bacana que todos que gostaram de Dom Quixote, continuassem perto de mim ao ler Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda!

domingo, 20 de março de 2016

20 de março de 2016.

SIN CITY e TAXI DRIVER

Palavras duras e líricas, visão aguda, metáforas sempre surpreendentes e a aquele poder de nos fazer identificar com o personagem facilmente: poucas coisas são tão charmosas quanto uma boa narração em off nos filmes. Todo mundo gosta, eu também. Como leitor de Nietzsche eu não posso esquentar a minha cabeça (e muito menos as dos outros) por causa de incoerências. Mas... Como personagens que tem uma educação formal deficiente e tão pouca leitura, podem se expressar de forma tão magnífica?

- Mas o vocabulário empregado é sempre simples...
- Mais ou menos, mais ou menos quanto ao universo desse vocabulário ser pequeno. Mesmo assim, a questão é a capacidade de, depois de ver, poder se expressar.

(Narração em off aqui é em primeira pessoa, feita pelo personagem central. Não me refiro a uma narração em terceira pessoa.)

( (Adoraria ter minha vida narrada pelos heróis de Sin City e realmente não sei por que isso não é possível. Deve ser porque não tenho uma Eva Green me perseguindo para me fazer seu escravo, enquanto tenho que salvar uma Jéssica Alba. ) )

A REGRA DE CLAUDIO ABRAMO

Na faculdade de jornalismo eu aprendi muito lendo livros que professores nunca me mandaram ler. Livros que poderiam ser chamados de “memórias de jornalistas experientes”. Jornalista bom, quando resolve recordar, faz o trem pegar fogo. De cara eu me lembro de uma dica útil: pode andar a vontade na favela se tiver crianças na rua, mas se você se distrair e perceber que a criançada desapareceu da vista: é melhor procurar um carro para se esconder embaixo.

De todos os livros que li aquele que me deixou mais surtado foi “A Regra do Jogo”, de Claudio Abramo (pai). Tão alucinado fiquei que copiei a mão inúmeros trechos do livro. Acho que 20% do livro eu copiei a mão. Ia página por página pescando as partes que eu gostava mais. Tanto esforço me deixa feliz, pois parece mesmo que eu sou capaz de amar. Isso mesmo que você entendeu: amar é verbo no sentido mais escravo-construindo-Queópis-levando-chicotadas-embaixo-de-sol-do-decerto-ao-meio-dia-todos-os-dias.

Mas eu estou contando tudo isso porque eu recentemente li partes dessa minha seleção. Partes que tratavam sobre a véspera do Golpe de 1964. Complicado resumir, o importante é alguns poucos pontos.
- João Goulard caiu porque era um fraco irresponsável, provocava demais e não sabia sequer o que acontecia na sala ao lado da sua. Inúmeros membros do seu governo as vésperas do Golpe pareciam que tinham acabado de voltar do Festival de Woodstock. Faziam a menos ideia do que estava acontecendo e daquilo que poderia acontecer. Não era o caso de ser profeta ou evitar traições, isso tudo é difícil mesmo, era apenas uma questão de se manter concentrado. Bom, sabemos que Dilma é fraca e que a sua equipe é formada por uns tontos. Ok, mas é preciso saber os quão responsáveis eles conseguem ainda ser. Mas pedir ajuda, ceder, delegar poderes à oposição ainda da tempo?

SE DILMA CAIR E TEMER SUBIR

Tem duas coisas que me preocupam em um governo de transição. A primeira é as mudanças importantes não acontecerem e usarem a desculpa de “temos que arrumar primeiro a casa que o Partido dos Trabalhadores bagunçou, depois cuidamos dessas reformas que são complicadas, entende?”.

Outra coisa que pode acontecer de ruim em um governo de transição é que, além de fazer hora com a nossa cara quanto às reformas, é o Temer e sua turma jogar para torcida e fazer mudanças demagógicas. Além de caro, esse tipo de coisa anestesia a indignação das multidões que acabariam saindo das ruas.

Ficar de olho.

[ ...]

OTELO: - Um momento: e nós? Um general do norte da África, para ser um amigo positivo e sábio? Não vou aparecer?

IAGO: - E eu, que estou aqui para abrir as gaiolas invisíveis? Não vou aparecer?

DESDÊMONA: - E eu para bancar a irmã mais velha e compreensível que você nunca teve?

IAGO: Desdêmona? Desdêmona??!!?? Há! Há!Há! Há! Há! Há!HáHá!Há Há! Há!Há! Há! Como se o autor desse blog estivesse maduro o suficiente para dar forma e substância à sua voz femi

(Desdêmona se aproxima de Iago e dá-lhe um chute em seus... “Países Baixos”.)

OTELO: - Essa até eu senti.

AMOR: - Depois dessa, quando ele conseguir falar, vai se comportar melhor.

DESDÊMONA: - Não é revelador que a primeira atitude de uma voz feminina a aparecer aqui seja algo violento?

OTELO: - Cof! Cof! ...

FREUD: - Chamou? Chamou?

AMOR: - Por favor, podem fechar as cortinas?

sexta-feira, 18 de março de 2016

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18 de março de 2016.

Eu ia escrever um texto sobre política no dia 15 de março, para ele ser publicado no mesmo dia neste blog. Atraso três dias e veja o que acontece: pedido de prisão escrito às pressas (não é possível que doutores com todo aquele salário e latim não saibam a diferença entre Hegel e Engels) contra o ex-presidente Lula,
o mesmo Lula comete o grande erro de querer ser Ministro de Estado (assume assim a sua culpa, pois se for exclusivamente perseguição política: o correto era ele se expor ao risco de prisão para revelar a natureza verdadeira de seus algozes),
o juiz Sérgio Moro libera para imprensa os grampos que havia pedido e que não havia pedido (essa coisa do horário dos grampos, tão grave por mostrar que a turma da Polícia Federal mandou a imparcialidade para o brejo mesmo!),
as multidões contra o Governo Dilma voltaram para rua e com elas as multidões a favor do Governo Dilma. O mesmo Governo Dilma que esta cada vez mais fraco.
Esqueci  de mencionar a delação premiada de Delcídio do Amaral, senador do Partido dos Trabalhadores (e um desses sujeitos que esta a tanto tempo em Brasília, que conhece todo mundo),  que atingiu integrantes importantes do Governo Dilma e estrelas da oposição, embora a grande imprensa tenha citado mais o Aloísio Mercadante e protegido o Aécio Neves. Essa parcialidade da grande imprensa é outra coisa que complica a situação.
No FaceBook um lema, revelador quanto ao espírito da maioria das pessoas diante de tudo, esta se tornando popular: “Um governo que não da para defender e uma oposição que não da para confiar”.

IAGO: - Você só precisa andar nas ruas para saber a diferença que faz um Lula ou um Sérgio Moro. Quase nada, o Brasil ainda vai precisar de muito tempo para realmente deixar de ser um país pobre.

AMOR: - A epidemia de cólera, eu lembro bem do comercial na televisão...

OTELO: - Há menos de 25 anos, às portas do terceiro milênio? Uma prova definitiva de que ainda somos um país essencialmente pobre.

IAGO: - Sim, sim, sim, mas e daí? Vamos falar de coisas mais próximas. É mais interessante, mesmo porque corrupção e economia ferrada não é novidade para nós brasileiros. Tanto é verdade que o que temos nas ruas são militantes defendendo fantasmas traidores e uma classe média que devia ir ao psiquiatra em vez de estar nas ruas. Povão, povão mesmo, continua da casa ao trabalho.

OTELO: - Preso ao seu egoísmo e a uma fé forte, mas confusa.

AMOR: - Nós brasileiro também temos valores maravilhosos, mas somos violentos e a nossa história é quase insuportável de tão dramática. Ela pesa tantos em nossas costas! Não era a toa que os que eram contra as cotas raciais repetiam tanto que esse “papo de dívida histórica” era um engano. Para eles o passado não era mesmo fácil de aceitar. Somos um povo sofrido, muito sofrido. Isso tudo acaba desanimando a maioria a querer sair de casa para protestar, o que deixa a rua livre para os socialistas profissionais e os fascistas de black-tie. Mas a situação hoje é grave, Iago. O judiciário brasileiro esta flertando com o arbítrio. Isso coloca a democracia brasileira em risco.

IAGO: - Sombras de uma ditadura? Acho difícil, temos bastantes democratas e muita gente poderosa se acostumou a lucrar em uma democracia. E essa democracia representativa cheia de problemas, a violência policial na periferia, alguém poderia dizer que temos uma ditadura homeopática ou mesmo uma democracia homeopática! Pequenas gotas, apenas pequenas gotas. E o judiciário, por mim, continua o mesmo: em seu mundo à parte. Aliás, mundo à parte é o que mais temos no Brasil.

OTELO: - O mesmo Iago de sempre: uma visão aguda que se deixa perverter pelo gosto de provocar e machucar.

[ ... ]

AMOR: - Estou tão cansado!

OTELO: - Durma mais cedo.

IAGO: - Desista mais...

AMOR: - Vou mesmo fazer o workshop de fotografia.

IAGO: - Você já fez Senac. Esse curso, além de caro, é no fim do mundo. Domingo a tarde? Desde quando você é Indiana Jones? Já borrou as calças, Mestre da Ansiedade?

AMOR: - Não é no “fim do mundo”, é apenas mais um bairro que eu não conheço. E qualquer coisa existe taxi.

IAGO: - Esse pessoal sabe que você não tem nem flash externo? Que você nunca viu o Photoshop ou o Lightroom? Você vai é passar vergonha!

OTELO: - O mais importante não são as aulas e sim os contatos. Você vai conhecer outros fotógrafos e isso vai ser tudo. Projetos malucos, coletivos idealistas, uma grana justa: tudo pode acontecer quando se conhece gente com interesses parecidos.

IAGO: - Vai ter modelo gostosa tirando a roupa pela glória da arte?

OTELO: - Não, mas vamos ter um Iago perdendo um braço. Cale a sua boca, cachorro!

IAGO: - Sei, sei... Para assistir aulinhas que ela não vai, a sua amiguinha te convida, mas para ir a festas em que ela usa vestidos curtos como a gente vê nas redes sociais: naaaada ainda...

AMOR: - O convite foi para me ajudar, ela acredita que o workshop vai ser bom para mim. Ela é livre para me convidar para o que quiser, quando ela quiser. Tenho que estar agradecido pelo carinho e atenção.

IAGO: - Huum... Sei... Tanta sinceridade que me arde os olhos!

OTELO: - Vilão... Afaste este seu cálice de veneno...

AMOR: - Mas às vezes me pego pensando se realmente gosto dela. Se gostasse de verdade, já a teria procurado ela no serviço ou algo do tipo. Certo? Mas tenho até dificuldade para puxar papo com ela pela internet, acho que não tenho realmente coisas em comum com ela. Estou confuso, continuo confuso.

OTELO: - Mas como você deve se sentir? O que você deve fazer? Por acaso se existe algum manual para as coisas do coração, que me apresentem! Você esta indo bem. Esquece que é tão gostoso quando esta com ela? Que gostaria que aqueles encontros durassem mais que o próprio tempo? Estudando muito, ela esta com pouco tempo livre. Tenha calma.

IAGO: - Ela é uma mulher, seus idiotas! Já sabe tudo que você esta pensando, sempre esta um passo ou dois à sua frente. E com a experiência ferrada que você tem, jamais saberia quando estaria sendo enrolado em “banho Maria” e quando realmente...

AMOR: - “Friendzone”.

IAGO: - O que?

AMOR: - “Friendzone”. Não se diz “sendo enrolado por uma garota” ou “uma garota te colocou em “banho Maria””. A expressão mais usada agora é “friendzone”. A “zona do amigo”, em inglês. É mais moderno e atual.

OTELO: - A amizade é sempre uma coisa positiva, que facilita a nossa caminhada pela vida. Essa expressão, além de estrangeira, ataca injustamente a amizade.

IAGO: - Filologia de botequim! Mas é interessante que se tenha mencionado em suas conversas a palavra “zona”. Comer muitas garotas, além de gostoso, tem a vantagem da proteção: fazendo todas ficarem iguais, é mais difícil uma conseguir te machucar.

[    “Eu preciso acreditar que sou feliz    ]
[    Mas persigo os teus mistérios como um cão    ]
[    E tudo parece tão claro    ]
[    E tudo parece perfeito    ]
[    Mas quando acordo e me vejo    ]
[    O espelho diz que “não”.”    ]

OTELO: - Errado. Não é possível evitar a dor aqui, como em qualquer ocasião. E transformar todas as garotas em iguais assim, só vai tornar você um fantasma do sentir.

AMOR: - Estou cansado, não quero mais conversar hoje.

OTELO: - Foi bom que a gente tenha se encontrado novamente. É sempre bom. Devagar, mas sem parar. Seja discreto e corajoso.

segunda-feira, 14 de março de 2016

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14 de março de 2016.

A ternura e erotismo,
O desejo e dúvida,
A fúria e súplica.

Acordo cedo demais, quase madrugada. Acordo pensando nela. O pau duro e a cabeça em tempestade. Antes que a cabeça de cima interrompesse completamente a de baixo, eu apenas precisava abrir as minhas mãos para cobrir as suas coxas finas. Eu deslizava rápido para acabar com um vestido curto e no final, bastava fechar forte a palma das minhas mãos para poder ter completamente para mim o seu pequenino...

IAGO: - Bumbum! (risos)

AMOR: - Mas é difícil escrever “bumbum” sem provocar sorrisos e risos mesmo, e isso estraga o clima das palavras.

IAGO: - Não se o clima for forte o suficiente. Não é o caso, mas foi boa a sua tentativa.

OTELO: - Se expressar salva e alivia sempre, mas existem armadilhas aqui. Pegar algumas indiretas, alguns desejos, “terceiras intenções” e “segredos de liquidificador”, angústias e fantasias, misturar tudo e transformar em algum diálogo ou aforismo original e engraçado e algumas vezes bonito e inteligente, dá trabalho. Se você errar a medida, alguém pode ficar triste. Não esquente a cabeça de quem precisa se concentrar em aprender sobre ordem e que fica mais bonito voando livre.

IAGO: - Mas ninguém quer aqui roubar a atenção dos livros da regra ou prender pássaros, quer? Quer apenas voar junto, quer apenas confessar, não é? Qual mal há nisso?

OTELO: - A interpretação é livre, o risco: grande.

AMOR: - O que eu tenho?

IAGO: - O que você tem?

AMOR: - Palavras e imagens aqui e não lá.

IAGO: - Palavras e imagens aí e não .

AMOR: - Foda-se! Foda-se!

IAGO: - Não é o lema que se aprende na internet? Um revigorante “foda-se” é tudo que a gente precisa!

OTELO: - As vezes, as vezes é tudo o que a gente precisa.

AMOR: - Foda-se! Foda-se! Foda-se tudo!

[    Ars gratia artis.    ]

IAGO: - Por outra lado ... Algumas coisas realmente não precisam ser ditas. Essa coisa de dizer que o rosto dela lembra as das mulheres do John William Waterhouse é de uma soberba cafonice! (gargalhadas) Você devia ter vergonha em ter pensado nisso.

AMOR: - Não sei escrever muito bem. Descrever os traços faciais de alguém é um desafio poderoso para qualquer um. Eu acho que essa referência era boa, seria discreta e completa.

OTELO: - É discreta e completa. Eu gostei dela. Nos quadros mais famosos de Waterhouse vê-se claramente que ele repete os traços faciais de suas mulheres. 
Delinear-se claramente um estilo em suas criações femininas.

AMOR: - O rosto longo e oval, o perfil anguloso, o queixo...

IAGO: - Um queixo que pede uma mordida, uma dessas mordidas que no serviço, na manhã seguinte, gera pensamentos inconfessáveis entre as colegas dela mais contidas nesses assuntos...

OTELO: - Cale a sua boca, vilão!

AMOR: - É, Iago, fique quieto!

IAGO: - Ah, mas é ótimo! Otelo, tudo bem, preso que é de seu código moral cheio de regras retas e dúvidas que esperam. Agora você pedindo para eu me conter? Você me chamou aqui para quê? Héin, héin, pode me dizer? Não pode! Não pode me dizer!

AMOR: - Não posso.

IAGO: - Não pode!

OTELO: - Isso é maduro, isso é prudência! Precisamos lembrar-nos do terremoto que sempre ruge ao nascimento de qualquer frase.

AMOR: - No criador e no leitor.

OTELO: - No escritor e nos leitores.

IAGO: - Nas leitoras...

AMOR: - Fique quieto, Iago!

OTELO: - Vilão...

IAGO: - Mas eu usei o plural, o plural! Mas tudo bem. Reverencio aqui a indireta e a etiqueta de vocês dois. Como disse a minha versão oficial: “o que vocês sabem, vocês sabem...”

OTELO: - Se você precisa de ajuda para calar-se, sabe que sou um homem de ação...

AMOR: - E eu nunca li a peça de vocês no colégio...

IAGO: - E também não leu quando trabalhava no projeto “Shakespeare e as Crianças”, o melhor trabalho que você já teve. Eis mais uma prova de que seu coração é imaturo e não sabe cuidar...

OTELO: - Ele leu oito peças do William, seu amor ao “Bardo Inglês” e ao projeto era sincero. Não precisa saber mais do que isso: eu sou bom, você é mal e a peça que leva meu nome fala das dificuldades de amar.

IAGO: - Brincadeiras, brincadeiras! Vocês dois podem brincar de elogiar-se e de dançar na metalinguagem, quem se importa e quem lê? E eu aqui, no escuro, o que vê melhor e fala mais sincero!

OTELO: - Vagabundo, destile o seu veneno em outros ouvidos! Qual é o sabor de minha espada? Você vai me dizer!

AMOR: - Mas existe alguma coisa verdadeira na fala de Iago? O mais fundo é o mais verdadeiro aqui? A força é a sinceridade?

OTELO: - Você esta apenas confuso, normal e esperado nesse assunto. Nunca tenha medo de ser sincero, se você sabe que manteve seu coração limpo.

[    As vezes me sinto    ]
[    Como uma mola encolhida    ]

AMOR: - As vezes fico com raiva e fico com vontade de rasgar-me em mil pedaços. Ou de apenas gritar como o Alexander Portnoy. Essas coisas do amor... Colocar em risco a amizade e apostar tudo? Nunca dar à carne o que ela pede? É ela ou não? O que eu quero? O que eu sinto? O que eu tenho? O que posso oferecer a ela? Tantas dúvidas! É muita coisa! É muita coisa! E eu sempre acho que vou continuar o mesmo!

OTELO: - Saber sentir é difícil, mais difícil ainda se dentro de nós os sentimentos encontram um Oceano Pacífico para poder viajar e fazer o que quiser.

IAGO: - Eu posso ajudar...

AMOR: - Você não tinha ido embora?

IAGO: - É mais fácil você me tirar do palco do que o pobre Otelo. O mouro precisa levantar uma espada, você precisa apenas piscar os olhos. A questão é se...

AMOR: - Apenas fale, por favor.

IAGO: - Você citou um nome: Alexander Portnoy. Quem é ele?

AMOR: - O personagem de ficção com a qual eu mais me identifico.

IAGO: - Sim, sim, sabemos disso. Interessante mesmo. Você vai broxar em Jerusalém, levar um chute no peito dado por uma guerrilheira israelense e ter uma amiga namorada na forma de uma ex... Hum, deixa pra lá... Vou fica apenas no: assanhada, engraçada e sem noção. Viram como sou político?

OTELO: - O gosto que você tem por ser grosseiro! Enerva-me!

AMOR: - O melhor daquela personagem era que ela era alegre. Não precisava ser assanhada assim. Trocava a sua ninfomania pela sua alegria e vontade de sempre dizer: “vai dar certo, estou aqui e a gente vai conseguir, juntos!”

OTELO: - É sábio procurar pessoas com uma áurea positiva.

IAGO: - Hum, hum, sei, sei. Palmas, palmas! Também gosto de alegria, o problema é quando algo atrapalha. Tipo uma coceira. E eu estou com uma coceira bem aqui agora... O que será? O que será? Com aqueles cabelos sempre longos e sempre soltos, como será que sua pele se comportaria se a gente levantar todos aqueles fios e nossa unha arranhar uma linha das suas costas até a nuca?

OTELO: - Ele faz bem o seu trabalho, isso não podemos negar!

AMOR: - Não podemos...

OTELO: - Não vamos perder o foco naquilo que apenas pode acrescentar ao nosso encontro. Portnoy sofria de solidão, não sabia reprimir os seus impulsos e isso lhe causava problemas. O seu mundo era constantemente tomado de pensamento e de emoções pesados e conflituosos. Faltava-lhe paz e harmonia interior. Não soube interpretar positivamente o seu passado e herança, também.

AMOR: - E ele tinha como olhar para seu passado e dali tirar coisas boas? Dizem que a memória é traiçoeira...

IAGO: - A memória é sempre traiçoeira!

OTELO: - O passado é sempre o mesmo, mas a memória não pode abraçar tudo em suas viagens que faz por lá. Então a questão é calibrar a memória para que seu radar capte aquilo que pode ajudar. Mas isso não é tudo. Não é apenas achar o que interessa, achar aquilo que no passado podemos transformar em ouro no presente. Apenas isso seria ser parcial, ser incompleto.

AMOR: - O que falta?

OTELO: - Falta aceitar o passado. Isso é muito difícil.

IAGO: - Isso é muito fácil! Aceitar nossos vícios e problemas? Quer coisa mais fácil e cômoda?

AMOR: - Isso é verdade. Eu sou muito cansado e acomodado. É fácil aceitar um julgamento negativo, lavar as mãos e empurrar com a barriga o resto da vida. Quantos defeitos em mim já são eternos? Quantos anos eu tenho? Eu sou um latino-americano, tenho que lembrar-me disso sempre! Já sei, eu vou fazer uma média das idades em que Glauber Rocha e Ernest Hemingway...

OTELO: - Pare! Não continue! Não escute Iago, ele não passa de um verme infernal! Eu falo de compreender plenamente aquilo que ajudou a sermos o que somos hoje. Aceitar o passado no todo: aquilo que ajudou e ajuda a sermos o que somos. Mas nós nunca nos acabamos, nós continuamos.

AMOR: - E harmonia e paz interior? E aprender a gostar de quem eu vejo no espelho?

OTELO: - Eu vou te ensinar.

sexta-feira, 11 de março de 2016

38 Gif (amor rápido)


11 de março de 2016

Sem ideia de como começar a escrever aqui. Vou à janela para ver se o resto do universo pode me ajudar. E o resto do universo me respondeu na forma de dois beija-flores fazendo a dança voadora do acasalamento. Ai, que lindo! Vou ver mais uma vez uma foto que ela me mandou. O quadril, um pouquinho da barriguinha aparecendo por causa da camiseta um pouquinho levantada, a calça jeans com as alças para cinto convidando os meus dedos a puxarem o seu quadril fino para mais perto de mim... Mas como eu sou egoísta e ingênuo, ela me mandou essa foto há um tempão! Ela já deve ter mudado de ideia a um tempão também. Ah, a liberdade dos outros! Como respeitar e aceitar a liberdade dos outros da trabalho! Veja o Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, afirmando que a rua é de todos e ao mesmo tempo garantindo que o próximo domingo é apenas daqueles que não gostam da Dilma e do Partido dos Trabalhadores. Eu desconfio das intenções da minha amiga e nosso Geraldo desconfia da passividade do paulistano. Ser prudente é bom, mas aqui neste caso é um bocado triste também.

Protesto contra Dilma e o Partido dos Trabalhadores é no próximo domingo. Será que o Reinaldo Azevedo vai querer ir à manifestação usando o metrô, novamente? Tomara que ele não encontre outra vez aquela fotógrafa paparazzi comunista sem noção. Foi no começo de 2015 e eu já escrevi sobre isso aqui no blog. Deu o maior “barraco” o trem no metrô (perdão pelo trocadilho). Resolvi ser maduro e não perguntar mais porque o Portal Imprensa cedeu ao Reinaldo Azevedo e tirou do seu site a matéria em que eles escreveram sobre o caso. Perguntei várias vezes no FaceBook e eles nunca me responderam. Até fiz o printscreem do site e tudo. Mas eu entendo, eles são muito vulneráveis.

Problemas na educação nossa.
- Palmadinhas são sempre desagradáveis e dá-las em nossos próprios filhos é algo que corta o nosso coração, mas pelo menos as suas cicatrizes são visíveis e...
- E ... ?
- E você não sabe as vantagens que as cicatrizes que podemos ver tem sobre as cicatrizes que não podemos ver?
- Eu sei.
- Então?
- Então você esta se esquecendo de que não é possível produzir cicatrizes visíveis sem, também, produzir as invisíveis. E você sabe quais são os problemas das cicatrizes que não podemos ver?

Algum dia, se acaso eu encontrar uma militante feminista, eu a desafiarei a me dizer o nome de uma, - só uma! -, comédia romântica em que o personagem masculino não faça o papel de imaturo e de bobo. Ah, eu vou perguntar mesmo!

É um filme de terror, apenas um filme de terror. E tem uma cena bem nojenta, como esperado em filmes de terror. Ocorre que eu acho essa cena meio excitante, não muito, mas um pouco excitante. Não vou descrever essa cena, pois me deu uma vergonha aqui na última hora. O importante é que isso tudo me fez pensar que o sexo é algo agressivo também. Agressivo e poderoso.
Lembro de uma antiga propaganda da MTV Brasil, bem bem antiga. Coisa de 10 anos ou mais. Era uma dessas propagandas em que eles mostram vários programas do canal de TV juntos. Tipo as novidades de férias ou de fim de ano, entenderam? Aí mostra a parte de um programa dedicado ao sexo. Era um trecho de um comentário feito por uma das apresentadoras. Coisa muito rápida. As palavras exatas me escapam, mas “espírito da coisa” eu guardei bem e era assim:
- Cama, mesa e banho. Aquela coisa básica, didática. Cama, mesa e banho, sabe como é? Namoradinho virgem, fazer a cama, a mesa e banho...
Era mais ou menos isso. Entenderam, sentiram? Isso não é agressivo e poderoso?
- Não importa quantas você for comer, você vai lembrar-se de mim para sempre! Podem ser mulheres baixinhas, altinhas, branquinhas ou pretinhas, magrinhas ou fofinhas, você vai se lembrar! Como uma “tatuagem” naquele lugar.
Isso não é poder?
Estou escrevendo tudo isso e pareço-me com aquele personagem do filme The Wall. O cara leva o pé na bunda da amada e fica preso em seu apartamento, com pesadelos de culpa e medo  diante do poder feminino e tal. Conhecem o filme? A cena de animação entre as duas flores? Bonita e forte cena em que uma das flores entra na outra? A música, o movimento, na hora você leva um susto danado e aquilo bate fundo em você.
Poder, baby, poder. É sempre disso que se trata.

Não gosto quando se aproximam muito e ao mesmo tempo tenho uma necessidade tremenda de aceitação. De qualquer forma, não quero que as leitoras fiquem bravas comigo. Acho que elas devem estar me achando meio machista. Deixe-me ver se lembro de alguma história mais agradável... Ah, lembrei! Estava na faculdade e fazia uma reportagem sobre o Golpe Militar de 1964. Fui à sede do PCB (ou PC do B, não lembro. Confundo os dois.), entrevistar uma famosa militante, que tinha sido presa e torturada pelas Forças Armadas enquanto era uma estudante. Enquanto eu a esperava, conversei com a secretária que recebia as visitas. Ela gostou dos panfletos sobre direitos das mulheres que eu carregava. É que no mesmo dia, um pouco antes, eu tinha ido a uma secretaria do governo que trata de direitos humanos e eu tinha pegado todos os panfletos que consegui: direitos humanos em geral, negros, homossexuais e etc. Um monte! A secretária comunista viu e gostou daqueles que tratavam sobre os direitos da mulher. Deixei que ela ficasse com esses panfletos. Pois pois, eu lembro só de uma parte desses panfletos. Uma parte que falava sobre violência contra a mulher. Entre os vários tipos de violência que uma mulher costuma sofrer, havia uma que eu nunca tinha imaginado:
“Forçar a sua parceira a ouvir histórias suas com outras mulheres.”
Agora isso parece algo óbvio, uma tortura psicológica repugnante e tal. Mas em todos esses anos desde que eu estive com a secretária, eu nunca vi alguém mencionar esse tipo de violência contra a mulher. Na TV, jornal, radio ou FaceBook.

Guerra de propaganda é coisa séria, a gente tem que ser inteligente e astuto. Querem apostar quanto que desta vez vamos ter um recorde de fotografias e de entrevistas com manifestantes negros, nessa manifestação de domingo contra Dilma e o Partido dos Trabalhadores? É que ficou uma crítica bem popular a gente lembrar o quão branquela e riquinha é esse tipo de manifestação, parece que o pessoal saiu da Disney e foi direto para a Avenida Paulista no domingo. Parece mesmo aquele pessoal de consultório particular de dentista e aquele pessoal que gosta de brigar com caixa de supermercado:
- Mas minha senhora...!
- Cala a boca, não fale comigo! Chame o gerente e chame agora! Você esta me roubando! Eu não admito, não a-di-mi-to!
Eu sei que é maldade escrever uma coisa dessas, com o Brasil tenso deste jeito; mas caramba: que heroizinhos nos arranjamos, hein?

Eu escrevi que queria muito vê-la e ela não me respondeu que queria me ver. Ela não é obrigada a escrever do jeito que eu quero, estando apaixonada ou não por mim. Ah, a liberdade dos outros! Sempre sempre essa liberdade dos outros! Por outro lado, eu trocaria aquela resposta dela, educada e bonitinha, por uma resposta de franqueza rasga-peito?
- Olha, eu já estou querendo a muito te dizer...
- Calma, calma!  Deixe eu primeiro pegar meus CDs do The Smiths, Maria Bethânia cantando Gonzaguinha e deixa eu pegar também “Mentiras” da Adriana Calcanhoto!
- Vai ser melhor...
- Ainda não, caramba! Deixe eu pegar o vinho barato martela cabeça.
- Acho que a gente já sabe que...
- Porque você sempre fala essas coisas nessas horas?
- E porque você nunca me ouve? Eu tenho que repetir tudo...
- Você o que?
- Por que você... Mas o que afinal você esta fazendo agora?

- Liquidificador, é a minha batida de manga, leite e segredos.