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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Na Cama com Bertrand Russell

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BERTRAND RUSSELL: - Me chamou para conversar e o que vejo é um adolescente tardio arrastando asinhas para uma amiga e tremendo de agonia por ver-se no meio de um drama: ela vem de um longo longo relacionamento e hoje esta se divertindo, andando com sua beleza em meio ao carnaval. Eu falei em carnaval? Ah, o carnaval...!

AMOR: - Cala a boca, Bertie!

BERTRAND RUSSELL: - Não grite e não faça essa cara de cachorro molhado na chuva. Já é feio e com essa com cara de cachorro molhado fica ainda pior. E só em minha família sou chamado de “Bertie”. Para você é “Lorde Russell”. A propósito, eu me enganei.

AMOR: - Se enganou em relação a que?

BERTRAND RUSSELL: - Em relação a sua amiga.

AMOR: - Co-co-como assim?!?

BERTRAND RUSSELL: - Olhe a tremedeira, olhe o drama rapaz! Vocês latinos são mesmo exagerados, não? É que eu falei que ela esta andando com toda a sua beleza e sex appeal no meio do carnaval. Mas ela não anda, ela desfila...

AMOR: - Grrrrrr ...

BERTRAND RUSSELL: - Além de liberdade, o amor precisa de confiança. Da para demonstrar pelo menos um pingo de confiança em si mesmo? A propósito, me chamou aqui por quê?

AMOR: - Estou querendo comprar “Russell em 90 minutos” e “LogicoMix”, mas não tenho muito dinheiro. Queria ouvir a sua opinião.

BERTRAND RUSSELL: - Minha opinião?

AMOR: - É, é, a sua opinião.

BERTRAND RUSSELL: - Como autor da mais original contribuição à lógica desde Aristóteles, a minha opinião é que você na maioria das vezes é um otário.

AMOR: - A opinião sobre os livros!

BERTRAND RUSSELL: - Ah, bom! Você não explica... “Russell em 90 minutos” é um livrinho cheio de fofocas sexuais a respeito da minha vida amorosa atribulada e como resumo de minha obra filosófica, o livrinho é uma merda. “LoxicoMix” pode ter um texto interessante, mas os desenhos são sem graça e a estrutura narrativa da história também. Nem se valessem a metade valeria a pena comprá-los.

AMOR: - Mas “Russell em 90 minutos” tem aquele final que eu queria copiar e publicar no FaceBook para meus amigos lerem. Aquela sua resposta rápida durante a palestra! E eu teria que ter o livro para escrever as palavras exatamente e...

BERTRAND RUSSELL: - Mas você é mesmo uma marmota. Você quer que seus amigos comprem “Russell em 90 minutos”? Se esquece que sobre mim é este um dos poucos livros que há por aí?

AMOR: - Não quero que comprem este livro, mas eu quero que eles conheçam você e gostem de você!

BERTRAND RUSSELL: - Obrigado, meu fã brasileiro. Sei que você curte minhas ideias desde os 15 anos e sei que nos sebos de Belo Horizonte você comprou quase todos os meus ensaios. Eu sei e agradeço o seu carinho. Vamos fazer o seguinte. Vamos tentar repetir aquele trecho de memória. Não vai ficar igual, mas quem ler pode acabar achando-me interessante. Não era essa a ideia?

AMOR: - Era e é.

BERTRAND RUSSELL: - Então vamos lá...

AMOR: - Você estava dando uma palestra em Nova York...

BERTRAND RUSSELL: - Era mesmo em Nova York?

AMOR: - Vamos logo...

BERTRAND RUSSELL: - Uma palestra em Nova York para o grande público. Eu falava sobre a matemática, um dos meus maiores amores. Falava como ela era importante e um pouco sobre a sua estrutura.

AMOR: - De como a matemática funcionava.

BERTRAND RUSSELL: - De como a matemática funcionava e funciona. Não é uma coisa simples. A matemática, como no amor, temos a liberdade onde a criatividade pode respirar e criar, mas ela também tem regras. Algumas coisas você não deve fazer.

AMOR: - Durante um raciocínio, você tem que ser sério, tem que ser rigoroso, tem que estar completamente concentrado. Não é a “perfeição”, mas você não deve se descuidar.

BERTRAND RUSSELL: - Muito bem. É assim mesmo. Todas aquelas linhas, equações longas, os sinais...

AMOR: - É agora...

BERTRAND RUSSELL: - É agora...

AMOR: - Se no meio daquelas páginas, se no meio de um raciocínio, de uma argumentação matemática, entre um número e um símbolo, se você se distrair...

BERTRAND RUSSELL: - E um erro for colocado no meio do trabalho matemático...
AMOR: - Qualquer absurdo pode acabar sendo demonstrado!

BERTRAND RUSSELL: - Nunca se sabe, as possibilidades são infinitas! Qualquer absurdo pode dali sair!

AMOR: - Se distraiu na matemática...

BERTRAND RUSSELL: - Cabum! Qualquer bobagem!

AMOR: - Foi então que no fundo da plateia daquela palestra em Nova York...

BERTRAND RUSSELL: - “Se dois mais dois é igual a cinco, então eu e o Papa somos a mesma pessoa. Prove isso!”

AMOR: - Ah...!

BERTRAND RUSSELL: - Calma meu fã, calma... Essa parte do “Russell em 90 minutos” você sabe de cor de tanto ler este livro nas livrarias. Podemos usar aspas aqui, sem medo.

[ “Sem titubear, Russell respondeu: “Se dois mais dois é igual a cinco, temos que quatro é igual a cinco. Subtraindo três de cada lado, temos que dois é igual a um. Você e o Papa são dois, logo você e o Papa são um”.” ]

AMOR: - ♥♥♥♥ !!

BERTRAND RUSSELL: - “Todas todas que provaram
                                              Não conseguem esquecer
                                              Sou foda
                                              Eu sou sinistro"

AMOR: - Menos, Bertie, menos. 

( Bertrand Russell e o Amor se despedem. Alguns minutos depois Russell retorna com uma expressão divertida.)

AMOR: - Ih... Essa não...

BERTRAND RUSSELL: - Quase me esqueci...

AMOR: - Que que foi agora?

BERTRAND RUSSELL: - “Ela tá tããão na suua...”

AMOR: - Grrrrr...! Vai pro inferno, Russell! Não é justo você rir disso!

BERTRAND RUSSELL: - Mas é engraçado esse seu drama, essa sua novela em tentar ser um cavalheiro maduro enquanto internamente você esta explodindo em confusão adolescente.

AMOR: - Que as suas duzentas ex-esposas entrem na justiça ao mesmo tempo!

BERTRAND RUSSELL: - Ih, ficou bravo...

AMOR: - Vai trabalhar e repetir o que o Frege já tinha descoberto, vai!

BERTRAND RUSSELL: - Aí não, aí pegou pesado. Aí não gostei. Bateu uma mágoa aqui... E eu dediquei o livro ao Frege, que era desconhecido no mundo inteiro. Ele só ficou famoso depois que eu reconheci o pioneirismo dele.

AMOR: - Grrrr ...

BERTRAND RUSSELL: - Se eu falar que acredito e torço por você, melhora?

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