Voltaire ajuda

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

10 de dezembro de 2015

Sábado passado, 5 de dezembro de 2015, fiz minha primeira entrevista no meu programa na radio comunitária “Super Nova FM”. 

Foi com uma professora de Direito Penal. Quase três anos depois de começar na radio e quase 10 anos após eu me formar em jornalismo (o nome do curso era “Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo”)! Eu não tinha conseguido dormir na noite anterior, de tanta ansiedade e também por causa de um mal estar que depois se confirmou ser uma gripe. Foi uma das piores noites que já tive, um pesadelo. Tentava, mas não conseguia dormir. Não sei se me espantava mais com o desconforto físico ou com a irracionalidade da situação. Uma noite tão ruim quanto a noite da dor de dente.

Mesmo assim a entrevista foi maravilhosa. Os ouvintes telefonaram e fizeram perguntas. 70% da entrevista fora puro improviso e como em muitas coisas da vida, ela foi uma dança: o mérito é meu, mas também é da professora. Ela depois me disse que se sentiu a vontade e até esqueceu que estava em uma entrevista. Ela gostou muito e até me indicou um colega para participar do meu programa. 

Ainda não entrei em contato com ele, porque eu estava preocupado com outros colegas locutores que fazem um programa sobre Direito na radio. Embora o programa deles seja menos teórico e mais prático. Resolvi esse dilema e vou procurar quem a professora me indicou.

O cara é do Direito Econômico. Faço a menor ideia do que seja isso. Considerando o excelente resultado da primeira entrevista, não preciso ficar com preocupações exageradas. Apenas aquela medida certa para o frio na barriga.

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O Governo Dilma Rousseff vai realmente acabar? Quero que ela continue, para que possa melhorar. Não pelo PT e seu projeto, pois as futuras eleições para mim são misteriosas mesmo. Falo pelo Brasil. O pessoal fala em derrubá-la, ora, o governo seguinte seria obrigatoriamente de coalizão e assim sendo dependeria da boa vontade de todos, incluindo políticos de oposição, grandes empresários e grande imprensa. Não é mais saudável construir essa coalizão ainda em dezembro de 2015? O PT não vai sair vencedor nas próximas eleições e mesmo que saia, não seriam vitórias grandes e seria um Partido dos Trabalhadores diferente. Eu espero que sim. Todos terão que mudar, todos os políticos terão que mudar.

QUEIJO: - Vota na Dilma duas vezes por raiva da oposição e agora nessa crise toda você pensa em um Brasil politicamente diferente e melhor? Sendo bravo ou Pollyanna, o senso crítico fica abalado do mesmo jeito. Tudo pode continuar na mesma: um país de prostituição infantil, um país que não lê, um país que fica de joelhos para pernilongos e um país que também fica de joelhos para ratos de terno e gravata.

AMOR: - Não, as coisas mudam sim.

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AMOR: - Será que dói o coração da imprensa transformar estudantes adolescentes em vilões? Os estudantes de São Paulo realmente estão fazendo o poder tremer. Futuras lideranças políticas vão sair dali. Não há idade para sentir o sabor do poder. Gritar um refrão e dezenas repetirem, sentir alvo de olhares brilhantes e ansiosos, ter a sensação de construir algo mais duradouro e impessoal do que tudo aquilo que tinha feito antes em suas próprias vidas... Ah, a política!

QUEIJO: - Não sei se o coração dói, não imagino como é o caráter do jornalista brasileiro e dos empresários do setor. Lembro-me da posição deles quanto às cotas raciais, dos direitos trabalhistas para empregadas domésticas, do “Caso Escola Base” e, mais recentemente, dos seus dedos melindrosos diante da lambança da Samarco/ Vale/ BHP. De qualquer forma, deve dar trabalho filmar passeatas de helicóptero por medo das ruas, repetir numa mesma reportagem a palavra “engarrafamento” mil vezes e ter que procurar sinais de destruição em escolas ocupadas por estudantes.

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AMOR: - A polícia do Rio de Janeiro erra e um carro com jovens inocentes é atingido por 111 tiros. Cinco futuros são agora cinco cadáveres e o Brasil vai ter que pedir desculpas para cinco famílias. Se não me engano 111 é o mesmo número de criminosos assassinados no Massacre do Carandiru.

QUEIJO: - Devem ter mentido o número de tiros por causa dessa simbologia e tal, mas com certeza foram muitos tiros. O fato de serem negros e humildes só piora a situação. É fundamental que a polícia tenha uma boa imagem.

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AMOR: - Foi acidente o rompimento da barragem da Samarco/ Vale/ BHP em Mariana, Minas Gerais? Foi um acidente absolutamente evitável que atingiu mortalmente o Rio Doce e o litoral do Espírito Santo?   

QUEIJO: - Mas que raios de perguntas são essas? Passou as últimas semanas em Saturno?

AMOR: - É que estou chocado com um detalhe neste caso todo: tem documento tal? Temos. Tem outro documento? Temos. Tem autorização pra isso? Temos. Tem autorização para aquilo? Temos. Eles têm todos os documentos, tem todas as autorizações, do IGAM ao raio que o parta! Tudo tudo tudo certinho nos paspéis!

QUEIJO: - Grande espanto esse seu! Gente poderosa ter os papéis que precisam! Eu, héin? Nasceu agora?

AMOR: - É que esse exército de papéis dizendo que tudo ia bem e carimbados por todo mundo, me parece sugerir que o culpado pela barragem ter se rompido foi de um ataque interestelar feito por marcianos!

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QUEIJO: - Não foi para a cidade comprar aquelas edições de luxo das fábulas de Esopo e da “Odisséia”, de Homero? Quase duzentos paus de uma vez só? Aquelas edições da Cosac Naify? O que aconteceu? Bateu a cabeça? Ficou com medo de 2016? Tomou jeito?

AMOR: - É uma velha sensação minha: aquela mistura de cansaço e amadurecimento. Mas no caso do Esopo a desculpa é irrespondível: há fábulas ali que são inéditas em língua portuguesa.

QUEIJO: - Irrespondível uma ova, estamos falando de Evangelhos Apócrifos de Judas ou de Maria Madalena? Ora, aposto que essas fábulas esquecidas de Esopo assim o foram porque elas não eram grande coisa mesmo. Um pouco mais que pura curiosidade para acadêmicos, eu garanto.

AMOR: - O tempo é o melhor juiz, houve razão para aquelas fábulas não terem sido lembradas por todos esses séculos como as outras? Elas não vão mudar o que sabemos hoje sobre o coração da Grécia?

QUEIJO: - Essencialmente acredito que não.

AMOR: - Mas eu sou desejos e o máximo que posso fazer é construir máscaras diferentes para cobrir quando sucumbo a um deles. Antes de comprar essas edições de luxo, vou ler as edições que eu tenho. Quando eu terminar, vou lá à cidade e compro.

QUEIJO: - E se não encontrar os livros?

AMOR: - Me consolarei bebendo cerveja.

QUEIJO: - Comprando impulsivamente algum outro título?

AMOR: - Talvez eu compre uma caixa de som para o computador, estou começando a ter certeza que o fone de ouvido esta me deixando surdo.

QUEIJO: - Você é mesmo uma marmota.

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AMOR: - Pare e ouça...

QUEIJO: - Cigarra tornando tudo mais bonito...

AMOR: - Tchaikóvsky e Bach iam amar ouvir isso. Aliás, eles amavam mesmo. Eram artistas e sabiam aquilo que é belo e de valor.

QUEIJO: - São cigarras, anus, saracuras...

AMOR: - Não posso ficar surdo!

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QUEIJO: - Conta a história da aranha armadeira ( Phoneutria nigriventer ), ela chegou ao fim ontem e tem momento de filme de terror.

AMOR: - Era madrugada e eu fui dormir. Pela primeira vez em meses eu ia ler na cama antes de dormir. Gosto disso porque parece que a cama é uma nave espacial que pode me levar para qualquer lugar do tempo, do espaço, da beleza e da sabedoria. Acendi o abajur e...

QUEIJO: - Quando olhou para o teto...

AMOR: - Ela estava lá, ao lado da lâmpada apagada. A iluminação do quanto escuro apenas pelo abajur dava uma atmosfera toda especial á perigosa visitante noturna. Uma armadeira Phoneutria nigriventer ) .

QUEIJO: - Como sabe que era uma armadeira Phoneutria nigriventer ), ela não estava com as suas quatro patas dianteiras fazendo o seu inconfundível gesto de dissuasão?  

AMOR: - E de onde ela estava eu não podia conferir se essas quatro patas eram negras com listras brancas, outra forma de reconhecer uma armadeira Phoneutria nigriventer )

QUEIJO: - Então como pode ter certeza?

AMOR: - É que as quatro patas estavam em uma posição de atenção, juntas em duplas. Isso não é muito comum. Dava para notar que aquelas quatro patas eram diferentes. Era sim uma armadeira Phoneutria nigriventer ).

QUEIJO: - A ajuda foi atrapalhada e ela escapou. E você dormiu em um quarto onde foi borrifado veneno. Para um hipocondríaco dormir em um quarto naquele estado... que raios de hipocondríaco é você?

AMOR: - Acho que eu queria me matar mesmo.

QUEIJO: - Ontem a noite tinha uma armadeira Phoneutria nigriventer ) perto da cama e você a matou com facilidade. Acredita que seja a mesma que apareceu no teto? Seria mais de uma semana entre uma aparição e outra.

AMOR: - Acredito, até porque transformaria a morte dela em algo com lirismo. Compensaria e consolaria.

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AMOR: - Só pararam de usar chumbo na fabricação de combustíveis quando aqueles estudos com crianças sul-africanas demonstrou que o seu desenvolvimento mental esta sendo prejudicado, lá na década de 1960, mais ou menos 40 anos depois do início da fabricação industrial. O fato do Aedes aegypti conseguir agora atacar a formação do crânio das crianças em gestação vai conseguir convencer o povo brasileiro a limpar suas casas? Temos quatro doenças sendo transmitas por esse mosquito. Vamos conseguir limpar as nossas casas?  

QUEIJO: - A falta de educação vence aqui também. A esperança vai ser mesmo uma vacina. É mais fácil vacinar do que prestar a atenção e limpar a casa sempre.

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