Voltaire ajuda

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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

4 de novembro de 2015

QUEIJO: - E quando você deu de presente flores a uma mulher? A primeira e única vez.

AMOR: - Foi na época da faculdade. No comecinho. Eu tinha assistido ao filme “Lavoura Arcaica” e fiquei muito impressionado. Eu saía da faculdade e ia ao cinema. Fiz isso três dias seguidos. Só parei quando o dinheiro acabou. O filme bateu e bateu forte. Era eu. Era eu e a vida. Era eu e destino. E meu pai também. Cismei que queria o cartaz do meu filme.

QUEIJO: - O cartaz do filme? Não tinha como ser mais aborrecente?

AMOR: - Era para colocar na parede do quarto. Todo mundo tem cartaz no quarto: mulher pelada, jogador de futebol favorito e etc. Essas coisas normais. Eu queria também. No meu quarto sempre teve coisas que os outros tinham colocado. Queria alguma coisa com minha cara.

QUEIJO: - E você foi lá ao cinema pedir um cartaz?

AMOR: - Fui. É uma das coisas boas que herdei dos homens de minha família: a cara de pau. Eles me deram um cartaz que tinham a mais.

QUEIJO: - Mas... Havia dois cartazes pendurados no cinema...

AMOR: - Eles me deram o que eu não queria: o que tinham os prêmios e as indicações que o filme recebeu. Eu queria era outro, eu queria o que tinha cenas do filme. Não falei na hora por educação.

QUEIJO: - Você queria voltar e trocar o cartaz. Coisa de aborrecente mesmo.

AMOR: - Mas fiquei com vergonha e como ele ia ao centro, perto do cinema, pedi que fosse em meu lugar. Era primeira vez que lhe pedia algo parecido. E não é que ele foi?

QUEIJO: - Mas não foi o cartaz que deram a ele...

AMOR: - Não, não foi mesmo. Foi um kit exclusivo, um trem que eu nem imaginava que existia. Acho que era algo que os cinemas que passaram o filme receberam. Era uma espécie de saquinho artesanal, feito de uns fios. Sei lá que fios de plantas eram aqueles. Dentro do saquinho havia um livrinho, de capa dura e lilás

QUEIJO: - Roxo.

AMOR: - Como?

QUEIJO: - Roxo, a capa dura era roxa. Não era lilás.

AMOR: - Cala a boca, além de ricota você é um dalmático. A cor era lilás.

QUEIJO: - Dalnico, não daltico.

AMOR: - É quase a mesma coisa. Difícil a gente se concentrar e você atrapalha? A cor era lilás. Eu sei. É difícil ver um trem lilás por aí, mas eu sei reconhecer um quando vejo.

QUEIJO: - Blá, blá, blá... Ande logo, essa história esta chata.

AMOR: - Dentro do livrinho tinha de tudo um pouco

QUEIJO: - “De tudo um pouco”? Que coisa clichê, que expressão gasta. Vai acabar virando redator de telejornal da Bandeirantes.

AMOR: - Qual é o seu problema hoje? Chegou àquela época do mês, é? Se continuar assim eu pego a goiabada. Oportuno lembrar que eu sou o mais forte de nós dois. Eu decido o caminho a seguir, você apenas serve para evitar que um piano caia sobre a nossa cabeça e que o trem da história não nos atropele.

QUEIJO: - Me desculpe.  Por favor, continue.

AMOR: - No livrinho tinha ficha técnica do filme “Lavoura Arcaica”, depoimento de atrizes e atores, do diretor, do diretor de fotografia e uns textos cabeça. Uma delícia. Para quem tinha sido tão completamente conquistado como eu fui, aquilo era uma delícia e um sonho. Ainda mais pela exclusividade

QUEIJO: - E como você ficou contente...

AMOR: - Eu queria agradecer àquela mulher que tinha dado o kit a ele. Pensei que um buquê de flores e um cartão seriam adequados. Nunca tinha feito, seria minha primeira vez. Era bonito, romântico; mas apenas o susto que ela levaria me bastaria.

QUEIJO: - Apenas o susto? Só isso? Você é uma criança mesmo.

AMOR: - Aí eu fui entregar. Não lembro o que escrevi no cartão. Tenho quase certeza que usei algum cartão do Garfield. Ah, lembrei-me de uma coisa gostosa: as flores tinham que ser rosas e tinham que ser três. O gostoso era o drama: qual cor repetir e qual cor destacar? Paz ou paixão? Demorei a decidir.

QUEIJO: - É o que acontece quando você repete de ano no colégio e depois vai para o supletivo. Quase três anos consecutivos estudando literatura romântica.

AMOR: - E sem ler sequer um livro que eles me mandaram ler. Já contei aqui aquela vez que em 1997 eu fiz prova de recuperação de Desenho Geométrico no colégio, sem régua e compasso? Usei aquele apontador pequeno em forma circular para...

QUEIJO: - Cala a boca. Continua a história.

AMOR: - A mulher estava no local, mas na hora bateu uma vergonha em mim e não entreguei para ela e sim para a secretária que me devolveu um sorriso cúmplice. Ter atingido assim a secretária foi legal. Mas eu queria sair dali o mais rápido possível.

QUEIJO: - Porque gosta de fazer drama e também porque estava com a cabeça raspada, barba grande e fedendo como um gambá por ter subido toda a Rua da Bahia sob o sol forte.

AMOR: - Ah, o susto da secretária!

QUEIJO: - Devia fazer muito tempo que ela não via alguém entregando flores. Deixe as secretárias em paz. Continue o que começamos ontem.

[ Um exemplar do jornal

AMOR: - PARA TUDO!

QUEIJO: - O que foi?

AMOR: - É o David Bowie cantando “Live  on Mars”!

QUEIJO: - Por Júpiter...

[ Um exemplar...

AMOR: - PARA TUDO!

QUEIJO: - E desta vez é o que?

AMOR: - L7 e “Pretend We´re Dead”!

QUEIJO: - Mas o horário…

AMOR: - “Cumon, cumon, cumon…”

QUEIJO: - E os compromissos?

AMOR: - “Cumon, cumon, cumon…”

QUEIJO: - Você nem conhece a letra!

AMOR: - “Cumon, cumon, cumon…”

[ Um exemplar de um jornal feito por alunos...

AMOR: - FOOTLOOSE!!!!

QUEIJO: - “So haaarrd...”

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