Voltaire ajuda

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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

30 de novembro de 2015.

QUEIJO: - Ia perguntar por que não consegue dormir em um horário melhor? A resposta esta à sua frente: o que você acabou de fazer à sua manhã.

AMOR: - Uma tentação puxa uma outra tentação, a memória experiente é traída, uma repetição consegue esconder-se por trás de uma máscara inocente e de efemeridade a efemeridade: o tempo é perdido.
Ou quase.

AMOR: - Ou quase. Essas poucas dezenas de minutos podem ser alargados pelo entusiasmo. A volta por cima. A poeira sacudida. Um sonho pode ganhar depois de ser derrotado.

[ ... ]

“Não existe racismo no Brasil, ou pelo menos não temos o suficiente para sermos considerados um país racista. Como pode haver racismo em um país tão miscigenado?”

AMOR: - Que doce subestimar a criatividade do brasileiro!

QUEIJO: - Que idiota esquecer que a imaginação e a coragem podem ser usadas de muitas maneiras!

AMOR: - O que as pessoas esquecem aqui?

QUEIJO: - Um racista europeu ou estadunidense pode, com relativa facilidade, evitar muito o contato com pessoas negras ou morenas. Esses encontros podem ser em menos número e ter um desfecho muito mais grave. Aqui é muito diferente. No Brasil o racista não consegue evitar o contato com o negro e com pessoas morenas. O racista brasileiro vai ter que diluir o seu racismo por vários caminhos, alguns mais visíveis que outros: é contratar um negro com salário igual e tratá-lo mal, é um sujeito manter relações com uma mulher negra e tratá-la mal e etc.

AMOR: - Pode ser o caso de um patrão idiota e pode ser um caso de um machista. Não se veria aqui traços de racismo.

QUEIJO: - Nós temos tantos machistas no Brasil!

AMOR: - E também temos tantos patrões idiotas por aqui!

QUEIJO: - Sim.

AMOR: - E como a justiça vai pescar o racismo naquilo que à primeira vista parece ser outro tipo de violência? Formalizar isso em lei? “Vai se caracterizar racismo se o sujeito agir assim e assim e pronto.” Parece limitado qualquer formalização. Não deve ser fácil criar leis para combater o racismo no Brasil.

QUEIJO: - Não é fácil, é difícil.

AMOR: - Muitas pessoas não gostam das cotas raciais nas universidades. Elas dizem que é “criar racismo para combater o racismo”.

QUEIJO: - Fazer sacrifícios nunca foi algo popular, é mais gostoso fazer seminários para discutir maneiras de combater o racismo. E confortavelmente ficar nisso.

AMOR: - Em alguns seminários longos é servido um lanche. Pão com mortadela, suco de caixinha de uva quente porque foi mal guardado e um cafezinho. E às vezes biscoito recheado.

QUEIJO: - Só às vezes um biscoito recheado.

AMOR: - Os que não gostam das cotas raciais também falam que no Brasil nunca tivemos leis raciais depois da abolição da escravidão. O que responder-lhes?

QUEIJO: - Responder com Issac Newton, a luz britânica, e sua “Lei da Inércia”. Depois da escravidão os racistas não sentiram necessidade de criar leis raciais no Brasil, que problema eles teriam com os negros?

AMOR: - Pelo mesmo motivo que não foi preciso ser mais específico naquele parágrafo da Constituição Federal. Aquele parágrafo! (Parágrafo terceiro do Artigo 226.) Lembrando o julgamento do STF que tratou da dignidade jurídica para as uniões homoafetivas? O parágrafo constitucional em questão era ambíguo demais.

QUEIJO: - Pegaria mal ser muito específico naquele parágrafo.

 AMOR: - Constituição é constituição... Tem que ser bonita...

 QUEIJO: - Os legisladores que eram conservadores estavam tranquilos. O Brasil é o maior país católico do mundo, somos profundamente religiosos e nossa religiosidade não é exatamente a do tipo liberal.

AMOR: - Em se tratando de amor a Deus, não somos parecido “os filhos das flores”, os hippies!

 QUEIJO: - Sim. Aqueles religiosos sabiam que aquela causa dos homoafetivos jamais chegaria ao Supremo Tribunal, ou se chegasse, que a decisão seria aquela.

AMOR: - E eles estavam certos!

QUEIJO: - Certos em 1990, 1991, 1992...

AMOR: - As ocasiões que leis que promoviam uma maior igualdade de gênero eram solenemente ignoradas no Congresso Nacional! Em várias e em várias ocasiões.

QUEIJO: - A maneira firme...

AMOR: - Mas discreta!

QUEIJO: - De dizer “não”.

AMOR: - E o que aconteceu?

QUEIJO: - Aconteceu que 2011 não é 1990.

AMOR: - A história muda e a vez chega.

QUEIJO: - Se a gente sempre continuar.

AMOR: - Se a gente sempre continuar.

[ ... ]

QUEIJO: - Bem feito, mas bem feito mesmo! Teve uma recaída depois de mais de um ano e agora quem o bloqueou no FaceBook foi sua psicóloga fofinha que usa os óculos do Bono Vox. Bem feito!

AMOR: - Achei que meu comentário no blog dela era educado e simpático. Mas ela deve ter visto minha manifestação como uma tentativa de aproximação. Como isso seria ruim para mim, ela me bloqueou no FaceBook. Ela quis me ajudar se afastando.

QUEIJO: - Se vingue dizendo que acha a irmã dela mais bonita e gostosa. Não é verdade?

AMOR: - É verdade, mas não ia adiantar muito; e eu ia aparecer àquela raposa que desdenha as uvas.

QUEIJO: - E um pouco pervertido também. E na verdade isso também não significaria muito. Olha, você tem que lembrar dos momentos bons, entender o que aconteceu e pronto.

AMOR: - Apagar as fotos que ela me mandou foi fácil, fiz no dia que brigamos feio pela primeira vez. Apagar as mensagens de celular foi mais difícil... Precisei de muito mais tempo e de muito mais coragem.

QUEIJO: - Ah, quando um carente recebe tanta atenção...!

AMOR: - Era tão meigo... Que vaca desgraçada!

QUEIJO: - Você teve coragem de pedir o telefone e de telefonar, disse para ela que ira visitá-la. Gostou de alguém e teve coragem. Isso foi muito. Foi alguma coisa. Segue adiante.

AMOR: - Aquela mudança de humor. Não sei se era preguiça, medo de seguir; mas eu perdi a confiança. Ela parecia doida, brava. Ela podia responder qualquer coisa. A gente conversava por horas e agora tinha medo de conversar. Tento racionalizar e mesmo me colocando como o único culpado daquilo tudo, é difícil compreender o momento e o motivo de tudo ter acabado.

QUEIJO: - Ela deve ter se cansado de você. Você não mudou. E mesmo hoje a pergunta mais dolorosa que ela poderia te fazer é sobre as suas novidades. Ela podia ter quem quisesse, era uma profissional competente e mesmo assim tinha aquela insegurança toda. Ora e ia ser justamente você o companheiro que ia dar o empurrão e o apoio para que ela desabrochasse?

AMOR: - Mas conversando direito...

QUEIJO: - Pois vocês conversaram muito, demais até. Ela deve ter feito com você o mesmo que fez com outros, mas com você a coisa não progrediu. Ela percebeu que você não tinha mais a oferecer e que não poderia te melhorar. Você era uma das sementes que o “homem que plantava árvores” não selecionaria. Lembra-se do vídeo que ela te mandou?

AMOR: - Lembro. E da pergunta sobre a música “Radio Blá”, do Lobão, que ela não me respondeu.

QUEIJO: - Você não era um bom paciente para ela.

AMOR: - Aquela dor de dente me deixou louco, isso durou dias. Nunca tinha deixado de dormir por causa de uma dor. Aquele dia no dentista, em Belo Horizonte, eu só sobrevivi porque eu e ela ficamos trocando mensagens de celular o dia inteiro.

QUEIJO: - Olha, isso é realmente lindo de se contar; mas em seguida ela poderia ter perguntar por que você não fez hoje o que tinha planejado.

AMOR: - O meu maldito ritmo.

QUEIJO: - Foi tudo apenas um desencontro que demorou um pouco a descobrir a si mesmo como um desencontro.

AMOR: - Este diálogo ficou legal. Acho que com isso temos um fim. Alguma coisa eu consegui. Estou satisfeito.

[ ... ]

AMOR: - Estou desenhando o meu cartão de fotógrafo. Amanhã mando imprimir e também compro as sementes.

QUEIJO: - Um fotógrafo que mexe com hortas e jardins. Como tem tudo para dar errado...

AMOR: - Pode dar certo! Oh!, dialética doce!

QUEIJO: - Você leu muitas biografias quando criança, isso foi outra coisa que te afetou.

[ ... ]

QUEIJO: - Você precisa de amigos. Quem tem amigos tem tudo. Não viu o presidente do “Mercado Central”, lá em Belo Horizonte, José Agostinho de Oliveira Quadros, chamando os deputados e a Polícia Federal de “invasores”? Ele fez porque pode.

AMOR: - Com direito a dedo em riste! Mas o que mais gostei foi de um dos seguranças do “Mercado”. Ele estava levando o maior puxão de orelha do deputado Ludívio Carvalho. O segurança ficou parado, impedindo a passagem, e olhando para todos os lados, menos para o Laudívio. Achei aquilo fabuloso!

QUEIJO: - Em muitas ocasiões a troca de olhares é mesmo um sinal de agressão.

AMOR: - A história de falta de higiene na hora de guardar os animais no “Mercado Central” é uma das histórias mais tradicionais de Belo Horizonte. Coisas de décadas e décadas. No Brasil de Dilma Rousseff podemos ter banqueiros presos, mas aqui em Minas Gerais mexer com mineradoras e mexer no “Mercado Central”?

QUEIJO: - Os comerciantes do “Mercado Central” são tão arrogantes que nem se preveniram, mesmo sabendo que a Câmara de Deputados estava investigando e mesmo depois de o último sábado haver tido uma manifestação de defensores dos direitos dos animais bem na porta do “Mercado”.

AMOR: - Alguém esqueceu de dar um telefonema.

[ ... ]

[ “Torna possível a reforma das instituições sem usar de violência e, portanto, o uso da razão na formulação de novas instituições e no reajustamento das antigas. Não pode, porém, fornecer razão. A questão do padrão moral e intelectual de seus cidadãos é em amplo grau um problema pessoal (A ideia de que esse problema pode ser atacado, por sua vez, por um controle institucional eugênico e educacional é errônea, creio; e certas razões para essa crença serão dadas abaixo.) É inteiramente errado censurar a democracia pelos defeitos políticos de um estado democrático. Devemos antes censurar-nos a nós mesmos, isto é, aos cidadãos do estado democrático.”

A SOCIEDADE ABERTA E SEUS INIMIGOS – Sir Karl Raimund Popper. Tradução de Milton Amado. ]

QUEIJO: - Não leu esse livro ainda por quê?

AMOR: - Fiz um ajuste nas minhas leituras. Prioridade e ordem.

QUEIJO: - Marmota.

AMOR: - Mais do que pelo assunto, é pelo estilo que tenho prazer ao folhear este livro de Popper. Uma delícia, um manjar! Não há outra metáfora a ser aqui usada senão aquela que lembre cheiros e sabores. E você o abre e encontra um trecho como este que citei.

QUEIJO: - Lembrando que dos 4 gigantes do século passado, - Heidegger, Wittgenstein, Bertrand Russell e Popper -, é justamente Popper que ainda não teve toda a atenção merecida. Dica do Bryan Magee.

AMOR: - Grande Bryan Magee!

[ ... ]



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