Voltaire ajuda

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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

2 de novembro de 2015

QUEIJO: - Por Júpiter, quantas vezes seguidas vocês escutou “We can work it out”, dos Beatles? Só hoje?

AMOR: - Sei lá, acho que umas quatro vezes.

QUEIJO: - À semelhança da versão de Waldo de Los Rios para a abertura da ópera “Don Pasquale”, de Donizetti; e de algumas poucas mais que me esqueço, músicas que quando você ouve uma vez não consegue deixar de repetir e repetir e repetir.

AMOR: - Engraçado é que eu não sei o que a letra diz. Quando entrar na internet vou conferir. Quem sabe eu descubro alguma verdade oculta e importante sobre mim? O fato de ser fisgado por essa música meio milésimo do milésimo do milésimo do milésimo tão logo ela começa a tocar tenha justamente essa explicação.

QUEIJO: - Acho pouco provável.

AMOR: - Você é um queijo ricota, nada entende daquilo que faz um coração bater diferente.

QUEIJO: - Mas entendo de medicina de cabeça. Você não bate bem.

AMOR: - Depois de 30 anos você pode dizer algo como “isso é algo que sempre me acontece”. As pessoas olham pra minha cara e fazem uma avaliação psicológica como se estivessem no balcão do McDonalds. Outra coisa comum também é olhar pra minha cara e ver uma mulher adultera. E aí lá vem a chuva de primeiras pedras! Coisas toscas. Sou um guarda de fronteira, não me encham o saco.

[ ... ]

QUEIJO: - Cadê o dinheiro das fotos das igrejas? Há! Há! Há! Há! Trabalhar para parente é uma beleza, não é? Você nunca assiste o programa do Jô Soares, então deve ter sido místico o fato de você ter visto aquele trecho. O Jô falando que entre as infinitas definições de loucura, o único consenso seria que um louco não trabalha. Tudo pode ser, tudo é discutível e discutido. Eles, os médicos de cabeça, só tem certeza que um louco não trabalha. E você, bem, você não sabe tirar dinheiro dos outros.

AMOR: - Não sei se o empregado tira dinheiro do patrão ou apenas pega de volta. (risos) De qualquer forma eu já trabalhei muito, apenas não deu certo. Em três ocasiões, pelo menos, eu é que levei o cano. Não foi culpa minha.

QUEIJO: - Ah, finalmente! Você falou aquela palavrinha cara: “culpa”. Quantas desculpas esse seu coraçãozinho ferrado acha que o mundo lhe deve?

AMOR: - Vai se fuder.

QUEIJO: - Heh! E o prazer que você acredita é tão fácil, não é? Esta sempre na palma de sua mão!

AMOR: - Eu acredito em outros tipos de prazer, também.

QUEIJO: - Acredita mesmo? Acho que não.

[ ... ]

QUEIJO: - Falemos, então, da mulher ideal.

AMOR: - Isso é fácil: uma prostituta que goste de escutar.

QUEIJO: - Tantas experiências únicas, tantas leituras e reflexões; para você me dar uma definição ordinária e rasa como essa. Vamos chamar Sócrates e tirar as cascas. Talvez aí a gente descubra alguma coisa. Uma prostituta não faz sexo quando quer. Você quer uma companheira que faça sexo mesmo quando não queira?

AMOR: - Em um relacionamento a gente deve ceder as vezes e...

QUEIJO: - Vou repetir: você quer uma companheira que faça sexo quando não quer?

AMOR: - Não. Claro que não.

QUEIJO: - Pronto, ela acabou de deixar de ser prostituta. Viu como é fácil demolir? E que história é essa de “gostar de escutar”? Ela não pode falar?

AMOR: - Pode, é claro que ela pode falar.

QUEIJO: - Então é eu que não entendi.

AMOR: - É coisa simples: que seja gostoso na hora de fazer sexo e que seja gostoso na hora de conversar.

QUEIJO: - Gostoso para quem, cara pálida?

AMOR: - Para nós, óbvio.

QUEIJO: - “Para nós, óbvio”?

AMOR: - Para nós, óbvio.

QUEIJO: - Nããããoo... Nããããoo... Você fala em “nós”, mas a sombra onisciente a cobrir toda a conversa é um gigante “eu”. Eu, eu, eu e eu! Uma prostituta que tenha corpo e palavras gostosas para nos oferecer, pode parecer uma coisa terna e lasciva a imaginar, algo que produza um sorrisinho condescendente em quem estiver nos lendo; mas é apenas egoísmo. Estamos conversando sobre uma companheira ideal e você não pode parar de sonhar com o próprio umbigo!

AMOR: - Aquilo que é atingido primeiro e principalmente. Aquilo que é sempre machucado é sempre o assunto principal da conversa. Aquilo que virá sempre em primeiro lugar. A primeira coisa a ser presa, destruída, uniformizada e transformada em um fantasma com crachá. Aquilo que o instinto egoísta primeiro move e que é assim em todas as estrelas.

QUEIJO: - Engraçado que pensei em dizer agora: “Você é bruto e infantil, não havendo, portanto, motivo para que uma mulher não goste de você”; mas isso seria apenas mais frase de efeito para produzir mais sorrisinhos. É mais sério imaginar que palavras e pequenas frases sejam tudo que temos aqui.

AMOR: - Antes de a frase terminar, aquilo que a motivou não esta mais no mesmo lugar. Resta a frase. E a probabilidade que uma leitura, em algum tempo e lugar, recupere o sentido original dela.

QUEIJO: - Isso pode acontecer.

AMOR: - Isso acontece.

QUEIJO: - Deixa pra lá. Boa sorte com sua prostituta motivacional.

AMOR: - Boa sorte com a Verdade no fundo do mar, eu espero que algum peixe se importe.

[ ... ]

AMOR: - Não é engraçado que no auge da nossa última conversa, sobre amor e egoísmo, entrega e egoísmo, eu e egoísmo, vida e egoísmo, o egoísmo e o egoísmo, o computador comece a tocar Wagner? E não um Wagner qualquer: “Tristão e Isolda”!!!!

QUEIJO: - Tente não se afogar na maionese, por isso. Tente não voar muito alto, por isso. Não foi o sobrenatural, foi a ordem alfabética!

[ ... ]

QUEIJO: - Você esta todo molhado.

AMOR: - Com esse tempo poderia ser de outra forma? É o suor, esta muito quente. Acho que transpirar faz bem.

QUEIJO: - Estamos falando de coisas muito íntimas aqui. Muitas palavras e muita sinceridade. Não é imprudente?

AMOR: - Com esse tempo poderia ser de outra forma? É o suor, esta muito quente. Acho que transpirar faz bem.

[ ... ]

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