Voltaire ajuda

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domingo, 6 de setembro de 2015

A História da Tampa da Privada

A HISTÓRIA DA TAMPA DA PRIVADA

QUEIJO: - Não me enrole, Amor: conte a história da tampa da privada.

AMOR: - Não sei se estou com a disposição de espírito e suficientemente virtuoso quando ao uso das palavras. Sabe?, para poder usar a ambiguidade e a mentira quando necessário.

QUEIJO: - Incrível como você consegue esquentar a cabeça por tudo. Seja simples.

AMOR: - Foi há alguns anos atrás. Ela já tinha feito a cirurgia contra o câncer e estava quase voltando para casa. Foram dias difíceis. Dor, sem dormir, aquela coisa toda.

QUEIJO: - Aham, sei. Todo mundo sabe como são essas coisas. Continua.

AMOR: - Eu tinha voltado antes dela quando por telefone soube que na semana seguinte eu me mudaria para o apertamento.

QUEIJO: - HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! Coitadinho, imagino a tempestade em você!

AMOR: - Eu não daria conta de cuidar de um cachorro, quanto mais morar sozinho. O ódio, a mágoa e o rancor. A vergonha de mim e o ódio dirigido a eles. A minha fraqueza e a displicência deles.

QUEIJO: - A sua memória é seletiva, como a de qualquer pessoa. E você não é exatamente a pessoa mais fácil de conversar, eles podem dizer. E podem dizer isso com razão.

AMOR: - Não saberia ser um simples caixa de padaria, cuidar de uma planta ou de um cachorro. Lembrei que quis fazer curso técnico quando ainda estava no colégio e eles não deixaram.

QUEIJO: - Adiantou nada ser um adolescente maduro nesse canto da cabeça, quando se sabe como você chegou ao fim da faculdade. Aliás, aproveite e conta a história da agência do INSS. Da pergunta que a atendente fez a você e de como você olhou para trás, onde todos aqueles idosos pobres estavam sentados e tristes a esperar que o Estado lembrasse a diferença entre direito e favor. Quer que eu repita a pergunta que ela fez a você?

AMOR: - Não precisa me lembrar, eu lembro. Lembro também das pessoas que chegam a uma cidade com um centavo no bolso e a partir daí construíram um império.

QUEIJO: - Adiantou nada gostar de ler biografias também, como se vê. Pelo sacrifício que foi pagar o colégio em que você estudou e até mesmo pelo seu desempenho nas provas, era óbvio que a sua trajetória seria essa: universidade federal e depois concurso público. E feliz para sempre! Mas você os decepcionou. E nem o carro e nem os netos, também. Traição completa.

AMOR: - Nem tão completa.

QUEIJO: - É mesmo, tem a história da biblioteca da família. Conta aí.

AMOR: - Não estava presente quando ela nos visitou. Dos mais de 150 livros que eu tenho me contaram que apenas um chamou a atenção da visita familiar: “Eu, Cristiane F., Drogada e Prostituída”.

QUEIJO: - HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! Eles devem achar um milagre que você, do jeito que é, ainda não tenha caído nos braços da cocaína ou do álcool.

AMOR: - O que revela ignorância e insensibilidade, pois há infinitas formas de suicídio silencioso e infinitas formas de sabotar o próprio corpo. Eu podia contar como consegui, sem ajuda, parar de coçar os dedos do pé! Eu coçava até sangrar. Consegui parar sem ajuda. É uma vitória, não é? Eu posso me orgulhar disso, não é?

QUEIJO: - A ovelha negra da família não é assim tão negra!

AMOR: - Isso foi meio racista.

QUEIJO: - O termo “negro” esta em um sentido ambíguo aqui uma vez que a ideia de ser a ovelha negra não te desagrada tanto, mas se você faz apenas a leitura negativa da palavra “negra”eu peço desculpas. Peço desculpas se feri os seus sentimentos vermelhinhos.

AMOR: - Sentimentos negros, eu sou anarquista. Os socialistas são uns burocratas com chave da penitenciária. Não sabem lidar com a liberdade e em geral são uns burros, e vivem apanhando de gente ainda mais ignorante que eles.

QUEIJO: - E os neoliberais são uns covardes que usam terno e gravata, e que diante de uma criança pobre eles dão planilhas do Excel em vez de remédios. E fazem isso sem perceber a diferença. Mas vamos voltar à história da tampa da privada. Mas antes uma perguntinha: porque você não pede emprego em uma padaria? Você receberia algum treinamento antes, isso é óbvio. E para você todo trabalho é digno. Então, por que não pede?

AMOR: - Porque eu não quero.

QUEIJO: - Hum, entendo. Certo, continue.

AMOR: - Teria menos de uma semana para me mudar. Raiva, mágoa, rancor. Vergonha, muita vergonha de mim pela minha completa falta de preparo. Era difícil segurar o choro. E também eu mão conseguia parar de pensar em todas as coisas que poderiam dar errado. Eu poderia me engasgar e morrer sufocado. Eu seria assassinado. Eu fracassaria e fracassaria. A lista de coisas que eu pensava que poderiam dar errado era imensa e eu não parava de pensar nelas. O bairro em que o apertamento ficava era pobre e abandonado. O fato de ali ter dois ou três funerárias em um mesmo quarteirão era outra coisa que me deixava em pânico.

QUEIJO: - Desculpe, mas o detalhe das funerárias é muito engraçado mesmo. E esqueceu pelo menos de uma que fica na avenida, lá embaixo.

AMOR: - A caminhada para o posto de saúde era de mais meia hora e eram subidas e uma volta enorme. Perto do clube dos oficiais tinha um bar onde havia uma máquina caça níquel. Para quem eu pediria ajuda?

QUEIJO: - Vamos mudar de assunto, eu quero chegar aos quarenta.  Vamos voltar ao bebê grande. Conte o dia da mudança. Os milhares de leitoras e de leitores querem saber quando é que vai aparecer a tal da tampa da privada.

AMOR: - A raiva e a vergonha eram tanta que eu ficava com vontade de me rasgar em mil pedaços. De morrer. Morrer seria melhor que aquilo. Como eu deixei que chegasse àquele ponto? Como eu deixei? Lembrei-me de um dos artigos do Gustavo Ioschpe no FolhaTeen (suplemento dedicado aos jovens da Folha de S. Paulo. Minha família assinou o jornal entre 1995 a 2002. Tenho todos os artigos do Ioschpe na Folha.) que tratava justamente de pessoas que se tornam jovens adultos e não sabem nem trocar um botijão de gás e coisas do tipo. Eu lembro deste artigo eu entendi esse artigo na época, eu me alertei! Isso poderia acontecer com todo mundo, com todo mundo, menos comigo, menos comigo! Como eu deixei? Como eu pude deixar isso acontecer? Como deixaram isso acontecer? Era dilacerante. Era dilacerante. Era dilacerante.

QUEIJO: - E tudo isso em frente a...

AMOR: - Em frente a ele.

QUEIJO: - Que nunca...

AMOR: - Mentiu, se desculpou, nunca ficava doente ou sofria um acidente quando eu era uma criança, que nunca deixou de cumprir aquilo que ele identificou como o seu dever.

QUEIJO: - Apesar de...

AMOR: - Não ser exatamente um exemplo de sucesso.

QUEIJO: - O que você identificava como sendo mais uma traição a trespassar o seu pobre peito de bebê e ajudou você a ser esse super sucesso  que é. Conte logo a parte da tampa da privada. Não esta vendo que já chegamos à página quatro do Word? As chances de alguém ainda estar aqui embaixo neste texto diminuem a cada segundo.

AMOR: - O dia da mudança. Alguns dias antes a  vó tinha ido lá e pago para dedetizarem contra os cupins. Ela pagou caro.

QUEIJO: - E adiantou nada, só serviu para deixar um cheiro insuportável.

AMOR: - Só há graça em ser hipocondríaco quando se sabe que não há motivo. Aquele cheiro era forte e puro veneno. 

QUEIJO: - Continua...

AMOR: - Estávamos arrumando as coisas. Ele tinha até comprado uma televisão e telefone.

QUEIJO: - A última televisão de tubo que deve ter sido vendida em Belo Horizonte. (risos) Mas ele não tinha como saber. Continue; esta chegando o grande momento.

AMOR: - Numa hora eu peguei a tampa da privada e resolvi montar.

QUEIJO:- Conte direito: juntar a tapa e o assento, para depois parafusar na privada propriamente dita.

AMOR: - Sim, juntar as duas peças e depois colocar na privada.

QUEIJO: - Certo. Então você foi juntar as duas peças.

AMOR: - Eu não consegui.

QUEIJO: - Desculpe, não ouvi. O que?

AMOR: - Eu não consegui.

QUEIJO: - Não conseguiu o quê?

AMOR: - Juntar as duas peças.

QUEIJO: - Você sabe o nome verdadeiro de Platão?

AMOR: - Sei.

QUEIJO: - Quando você consome a grande imprensa, você sabe diferenciar aquilo que é informação daquilo que é corrente para escravidão?

AMOR: - Sei.

QUEIJO: - Quando lê e ouve os formadores de opinião da grande imprensa, você sabe a respeito do cheiro de sangue que as palavras podem ter e que “fascismo educadinho” que não assusta imediatamente ainda é fascismo do mesmo jeito?

AMOR: - Sei.

QUEIJO: - Você sabe quem teve a ideia e ajudou a criar um jornal comunitário quando ainda era estagiário na faculdade?

AMOR: - Sei.

QUEIJO: - E quem antes de dar o primeiro beijinho na boca já tinha lido “1984” e assistido todos os episódios da série “Xingu”?

AMOR: - Sei.

QUEIJO: - E quem, ainda criança, entendeu a diferença entre amor que é Deus e as regrinhas feitas pelos homens só para a coesão social?

AMOR: - Eu lembro até onde eu estava e para o que estava olhando quando descobri isso.

QUEIJO: - Quantas vezes foi idiota em nome dos bons costumes? Quantas vezes você mente por mês?

AMOR: - A quantidade média, apenas o suficiente para eu ser colocado entre os mais inúteis homens de bem e ser elogiado por algum cretino qualquer.

QUEIJO: - Você sabe o valor da vida? O valor da verdade, justiça e beleza?

AMOR: - Sei.

QUEIJO: - O único livro necessário em uma ilha deserta?

AMOR: - “Ah! Você veio. Você vai sofrer, eu parecerei morto e não será verdade.”

QUEIJO: - O que esta disposto a fazer com tudo aquilo que sabe?

AMOR: - ...

QUEIJO: - É, aquele aforismo de Nietzsche esta correto. Aqui...

AMOR: - Sim?

QUEIJO: - Conte o que aconteceu depois. Falta pouco para o auge e o fim.

AMOR: - Não conseguia juntar as peças. Eu tentava e tentava. Era demais, era humilhação demais. A gota d’água, a famosa gota d’água. Fiquei com raiva e quebrei as peças. Não podia ficar ali mais, fui chorar em outro lugar.

QUEIJO: - O auge esta quase, quase... Mais um pouco...

AMOR: - Quando eu voltei ao apertamento...

QUEIJO: - Rufem os tambores! É agora, é agora!

AMOR: - Quando eu voltei ao apertamento ele me contou que as peças estavam com defeito, mas como eu tinha quebrado em meu acesso de raiva, não poderia ir à loja pedir a troca.

QUEIJO: - HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!! HÁ! HÁ HÁ! HÁHÁHÁHÁ!!!!

AMOR: - Não sei quantos muros eu tenho em mim.

QUEIJO: - Não se preocupe com isso, apenas os destrua um por um.

AMOR: - Quanto tempo isso leva? Quanto tempo eu vou levar?

QUEIJO: - Você é muita coisa, mas formiga na fábrica é que não é. Não me preocuparia com o tempo.

AMOR: - O tempo só exige que a gente exista.

QUEIJO: - Isso não é pouca coisa. Vamos parar de conversar.

AMOR: - É uma boa história. Acho que foi contada de maneira adequada. Alguma beleza e humor compensam todos os pecados imperdoáveis que nos levam ao inferno aqui. Pois entre a verdade, a justiça e a beleza; é justamente esta última que ainda esta de pé em nosso mundo  e é a que vai trazer as outras duas de volta à tona.

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