Voltaire ajuda

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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

6 de agosto de 2015

QUEIJO: - Hoje não conseguiu de novo.

AMOR: - Não... Acho que realmente nem queria...

QUEIJO: - Reza a sabedoria infinita: “A ordem dos tratores não altera o viaduto”. 
Querendo ou não, o fracasso veio do mesmo jeito. Se você precisa de ajuda, porque não pede?

AMOR: - Não. A vitória e a derrota ficam comigo, vieram de mim e comigo vão continuar.

[ ... ]

QUEIJO: - E ela?

AMOR: - Ela? Ela é gostosa.

QUEIJO: - Gostosa?

AMOR: - Gostosa, muito gostosa. Por ser magrinha ou por ser fofinha, por ser bela ou por ter um defeitinho que nos é impossível escapar...

QUEIJO: - E ... ?

AMOR: - “E”, o quê?

QUEIJO: - Além de ser gostosa, o que ela é?

AMOR: - Ricota, ela é gostosa e pronto e basta. E fim.

QUEIJO: - Mais nada? Me admira muito ouvir isso de você. Lembra-se do tempo em que se apaixonava a toda hora e imaginava as cenas mais quentes na cama e as cenas mais doces pelo resto do dia? Agora nem isso? É sério isso? Do romântico etéreo ao cínico egoísta! Da água passou direto e já se tornou um vinagre!

AMOR: - Ou não. Será que essa mudança é mesmo radical? O romântico não era apenas uma máscara e uma máscara muito mal feita para uma festa muito chata? Acredito que o egoísmo estava aqui o tempo todo. O egoísmo e o orgulho.

QUEIJO: - O tempo todo?

AMOR: - Sim, repare nesse orgulho em dar presentes e em sacrificar-se e em mostrar-se sofrendo  de amor! Só a plateia era real. Os gestos, o amor, o desejo e a história, nada disso eram reais. Não eram reais, mas eu queria que com os aplausos se tornassem reais. 

QUEIJO: - Entendo, é a necessidade de aprovação pelos outros. Você existe, mesmo que ninguém ainda tenha dito a você do jeito que você deseja. Tente lembrar-se disto com mais frequência.  E você exagerou.

AMOR: - Exagerei a onde?

QUEIJO: - Quando disse que a plateia era real.

AMOR: - E a plateia não era real?

QUEIJO: - Com essa sua solidão é idiota achar que a plateia era mesmo real. No mais, como sabia que eles estavam olhando para você no palco?

AMOR: - A moeda dança! Do orgulho direto para a insignificância!

QUEIJO: - Exagerando como sempre. Essa última coisa que você me disse lembra-me um momento mais razoável de sua parte. Uma coisa que você tinha descoberto e ficava dizendo para si mesmo as vezes quando estava na faculdade.

AMOR: - Que o mundo era grande, grande, grande, grande demais até diante dos meus problemas; até daqueles  mais invencíveis e impiedosos.

QUEIJO: - Mas?

AMOR: - Mas não adiantava muito ficar pensando nisso. Como alguém conseguiria se consolar com uma p**ra desta sem ser dono de um super barco para velejar por aí tempo todo?

[ ... ]

AMOR: - A solidão da trabalho. Se paga muito por isso e daí vem uma nobreza.

QUEIJO: - Mas só o solitário pode dizer que a solidão é nobre. Estar junto à alguém também da trabalho. Não se pode doar-se à alguém se você não tiver já dentro de si um enorme tesouro. Orgulhoso como você é, vai negar que não tem por aí um tesouro para ser doado?

AMOR: - Não é medo, não é tédio, é cansaço. Estou muito, muito cansado. E cansado assim, todas ficam só gostosas e pronto.

QUEIJO: - Aqueles vira-latas cheios de pulga parados em frente às aqueles fornos onde vários frangos são fritados ao mesmo tempo não parecem cansados.

AMOR: - Eles esperam que algum humano venha e dê-lhes algum pedaço. Eles acreditam.

QUEIJO: - E acreditar também da trabalho?

AMOR: - Acreditar também da trabalho.

QUEJO: - Se esta cansado então vá dormir!

AMOR: - Não precisa tanta pressa para que o próximo dia nasça.

QUEIJO: - Imagine tudo que pode fazer no próximo dia e anime-se com isso.

AMOR: - Nem sempre você entra na loja e compra alguma coisa, as vezes você apenas passa pela vitrine e fica satisfeito com o que viu.

QUEIJO: - Agora falo do ponto de vista biológico: vá dormir mais cedo, vai. Isso ajuda a acordar mais animado.

[ ... ]

QUEIJO: - Onde nós estamos?

AMOR: - Estamos em um caderno que eu usava em 1999. É bem bonito eu voltar a usar este caderno em 2015.

QUEIJO: - Uai, por quê? Você escrevia nele e depois o abandonou. 16 anos de abandono para ser mais exato.

AMOR: - Mas olha só o que eu fazia: cálculo de matemática, resumos dos ensaios do Bertrand Russell, textos sobre os livros “1984” e “Admirável Mundo Novo”, reflexões originais e descrições sobre experiências de eletrólise. Ah, como eu amava fazer experiências de eletrólise! Você lembra?

QUEIJO: - Claro que eu me lembro, eu sou você!

AMOR: - Eu ficava fazendo o dia inteiro. E olha como eu fazia as anotações direitinho: descrições, desenhos, anotava os números... Eu salvei a coleção “Os Cientistas” do meu pai!

[ ... ]

[ A coleção “Os Cientistas”, lançada pela Abril Cultural e pela FUNBEC (Fundação Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências) lançada na década de 1970 é a mais gloriosa coleção já lançada na história do Brasil.
Para os padrões de nosso país aquilo que aconteceu é praticamente um milagre, até uma pessoa religiosa estaria autorizada a usar o que aconteceu como prova da existência de Deus. Aqueles fascículos a preços populares? Aquele projeto? Sem precedente, absolutamente sem precedente. Não é considerar o nosso amado país uma desgraça sempre, mas sim fazer justiça. Aquilo foi um milagre.
Tenho um exemplar aqui e faço questão de citar os nomes aqui para uma possível canonização no futuro ou para dar nome a escolas públicas, sei lá:
(a parte científica)
Professora Myriam Krasilchik, 
professor Herman Lent, 
professor Simão Mathias, 
professor Arnaldo Nora Antunes 
e  professor Alberto Luiz da Rocha,
(a parte editorial)
Elifas Andreatto, 
Vera Malagola, 
Antônio Maria de Almeida Prado Filho, 
Nelson Corga, 
Satiko Arikita, 
Luís Gonçalves, 
Carlos Alberto Lozza, 
Antônio Silvio Lefèvre, 
Celia Soibelmann, 
Elizabeth di Cropani, 
Ary Coelho, Pedro Paulo Poppovic 
e Roberto Civita. 
https://oscientistas.wordpress.com/ ]

QUEIJO: - Canonização?

AMOR: - Os positivistas não tinham uma igreja onde os santos eram as pessoas que se destacavam na história, tipo professores, generais, políticos e etc.?

QUEIJO: - Ah, no Rio de Janeiro eles já concertaram a sede da Igreja Positivista? Até a primeira bandeira brasileira tinha sido queimada naquele incêndio. Lembro que você ficou bravo.

AMOR: - É mesmo, fiquei mais bravo com o descaso do que com o incêndio propriamente dito. Mas não acompanhei o que aconteceu depois. Devem ter consertado o prédio, mas muita coisa importante deve ter sido destruída.

[ ... ]

QUEIJO: - 16 anos depois você é um jornalista sem jornal, que chega atrasado a um serviço voluntário, que vende cartões postais, que não conseguiu sequer terminar de imprimir o próprio portfólio de fotos, mora onde não devia e basicamente continua tão solitário e perdido quanto era antes.

AMOR: - Perdido em meio a uma selva fechada  aonde nada posso enxergar, mas apenas tropeçar em minha coleção de desejos, sonhos e realizações incompletas.

QUEIJO: - Temos que ter cuidado para que esse diálogo nosso, um grito e um diário, uma garrafa e um mar, um riso e um protesto contra todos os médicos de cabeça; não caia na armadilha da autocondescendência.

AMOR: - Como é uma estrada que é certa? O que é satisfação sem desconfiança?

[ ... ]

AMOR: - Parece que vai haver um panelaço hoje a noite, durante algum pronunciamento do governo federal ou do Partido dos Trabalhadores. 

QUEIJO: - Perderam a eleição e agora ficam estragando as próprias panelas. Faz parte, é saudável. Melhor do que ficar nas sombras planejando algum golpe. Convém não esquecer o continente em que estamos.

AMOR: - Ei, você foi meio preconceituoso com a América Latina!

QUEIJO: - Vai estudar a história da Bolívia na primeira metade da década de 1990, vai.

[ ... ]

QUEIJO: - Não vai terminar de ler o livro do escritor Roberto Freire?

AMOR: - Não, não. Cansei. A leitura é pesada. Na verdade vai ser todo Nietzsche e depois todo o Campbell. Prioridades, foco.

QUEIJOS: - Sei... Nada de mais e mais planos morabolantes que te roubam tempo e confiança no futuro.(risos)

AMOR: - É preciso conhecer os limites e saber andar no meio deles.

QUEIJO: - Agora você disse uma verdade verdadeira!

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