Voltaire ajuda

Voltaire ajuda

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

17 de agosto de 2015

AMOR: - Os juízes lá nos federal da vida aumentaram o próprio salário um tantão assim por cento!

QUEIJO: - E quem não faria o mesmo? Eles podiam, então fizeram.

AMOR: - Mas tem aquela citação do apóstolo Paulo que o Mario Sérgio Cortella gosta de fazer em suas palestras e que cabe bem aqui: nem tudo que posso eu devo fazer. Os juízes podiam lembrar que o Brasil é um país pobre e que estamos passando por um momento particularmente ruim em nossa economia e podiam ser mais justos.

QUEIJO: - O Brasil sempre foi pobre e sempre passou por momentos particularmente ruins em sua economia, se for pensar desse jeito os juízes não poderiam nunca conhecer o Japão nas férias ou ter canais Telecine em HD em casa para relaxar depois do trabalho. E vamos parar de criticar o judiciário, estamos no Brasil. Repórter aqui tem medo até de chamar juiz pelo nome.

AMOR: - Os repórteres aqui estão é levando tiro de borracha!

QUEIJO: - Precisava fazer manifestação de noite em dia útil? A novela da Globo esta tão ruim assim? Além do mais o Carlos Vianna, na Itatiaia, lembrou que aqueles manifestantes descumpriram o acordo com a polícia quanto ao transito.

AMOR: - E se um repórter policial criticar muito a polícia vai telefonar para quem para conseguir informações? No domingo só tem programa de auditório na televisão e a tarde as tevês públicas passam documentários sobre animais na África. Em vez de ver girafas copulando os paulistas iluminados querem encher a avenida paulista de gente e assim salvar o Brasil!

QUEIJO: - A expressão facial do Marco Antônio Villa na TV Cultura criticando a Folha de S. Paulo por ter escrito que não eram um milhão e sim 200 mil naquele protesto em abril  de 2015 foi inesquecível, não foi?

AMOR: - Ele é um historiador e já imaginava escrever algo bonito para sobre o que tinha acontecido e sobre como aquilo teria sido importante no futuro  e blá blá blá... Tem que perdoar ele. Até gosto dele, acho-o romântico naquele seu samba de uma nota só.

QUEIJO: - Teve outra dessas manifestações neste domingo. E o que fica é que as passagens de ônibus aumentaram de preço e a polícia continua com uma imagem ruim em meio à população.

[ ... ]

AMOR: - O prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, é um socialista exótico.

QUEIJO: - O nome do partido não é “Partido Socialista Brasileiro” e sim “PSB”, uma diferença sutil e metafísica que vale para todos os partidos do Brasil.

AMOR: - O Atlético mineiro empata com um dos piores times do campeonato e não pode reclamar de estar na vice-liderança, “patinando” enquanto os outros que disputam a liderança sobem na tabela. A Polícia Militar cobre manifestações há mais de 50 anos, já deve saber como se comportar.

QUEIJO: - Mas você não pode reclamar que outros reclamem, pois você é outro que não consegue resolver os próprios problemas. E alguns são bem pequenos e bobos.

AMOR: - Disse o Mestre: a gente se mede pelos antagonismos que decidimos vencer.

QUEIJO: - A sua estatura é mediana, um metro e setenta e uns quebrados. A propósito: os manifestantes que gritaram contra o aumento de passagem no transporte público na quarta-feira passada ainda tiveram que engolir na Itatiaia que “manifestantes entraram em confronto com a polícia”.

AMOR: - É, o belorizontino tem um quê de “lemingue da Disney” e vira e mexe fica com instintos suicidas. Aécio Neves e radio Itatiaia, um amor realmente sem regras. Julieta e Romeu que se cuidem!

QUEIJO: - Acharam até um homem que passou mal e acabou morrendo naquele transido complicado de dia de semana útil e que estava ainda mais complicado por causa de uma manifestação contra o aumento da passagem.

AMOR: - Quem procura, acha; e nenhum automóvel precisa passar pela desconhecida Praça da Liberdade no domingo? Foi a indignação seletiva que fez a opinião que defende manifestação apenas na Praça de Estação se calar durante junho de 2013. Eu escuto radio há muito tempo.

[ Nota: o “Mestre” citado aqui é Platão. Era um costume muito muito antigo chamá-lo por esse termo em respeito a sua influência (em todo ocidente, incluindo na religião cristã) e até por uma questão prática e estilística de não se repetir muito uma mesma palavra em um texto. Mas esse é um costume abandonado e se você usar “Mestre” em um texto como sinônimo para Platão, vão dizer que você é um platônico, que recebe dinheiro para isso e que também tem uma empreiteira e tal. O pessoal anda muito nervoso no Brasil.]

[ ... ]

QUEIJO: - Era para este texto ter sido publicado na quinta-feira.

AMOR: - Era.

QUEIJO: - E?

AMOR: - Acho que vai acabar sendo publicado no domingo.

QUEIJO: - Você não toma jeito mesmo.

[ ... ]

AMOR: - A luz do quarto “queimou” e consegui trocar a lâmpada. Sem problema, apesar do meu medo de altura.

QUEIJO: - Parabéns, realmente foi um feito notável. Apesar de que sua macheza fica comprometida pelo tamanho da escada que você usou.

[ ... ]

AMOR: - A grande imprensa nesta segunda só fala da manifestação de domingo contra a corrupção durante o governo do PT. Sobre as manifestações durante a semana contra o aumento de passagem não houve tanta cobertura.

QUEIJO: - Trabalhar no domingo é desagradável e nem todo mundo precisa andar de ônibus. E no domingo houve muito mais gente e o risco físico de estar ao lado do povo era bem menor para os repórteres. Seja razoável, Amor.

AMOR: - Estão falando o tempo todo que no domingo havia “rico e pobre”, todos juntos contra Dilma e a corrupção!

QUEIJO: - Você é mesmo uma criança, não entende o sacrifício que é para o jornalismo brasileiro colocar “rico” e “pobre” numa mesma frase curta como você ouviu hoje de manhã na Itatiaia?

AMOR: - Porque nós brasileiros somos um povo violento, não é?

QUEIJO: - É e pare de ouvir a Itatiaia, você não reclama quando o Eduardo Costa fica excitado e fala sobre a fidelidade dos ouvintes?

AMOR: - Fidelidade canina! Eu não sou cachorro, não!

QUEIJO: - O Amor encontra Waldick Soriano, provavelmente um dos grandes momentos de todas essas nossas conversas.

[ ... ]

AMOR: - Eis o final do trabalho: o tempo gasto, o esforço, a chatice infinita e a recompensa que não recompensa a mim.

QUEIJO: - É uma questão de identidade e do conflito entre indivíduo e sua tribo.

[ O paralelo entre o segundo segredo que a raposa conta ao Pequeno Príncipe e a teoria da Mais-Valia de Marx.]

AMOR: - O que sou? O que devo fazer? E o que devo receber?

QUEIJO: - Eu não sei onde você vai encontrar as respostas a essas perguntas, mas provavelmente você vai ter dificuldade de encontrá-las em uma cidade que é capital e às 15 horas de sábado na sua principal avenida o vazio de gente da medo.

AMOR: - Uma recompensa de um milhão de dólares seria uma boa.

QUEIJO:  - Um milhão de dólares não são o que eram há alguns anos e você não pode escapar do espelho mais importante: a sua memória.

AMOR: - Posso lamentar muito bem ter me vendido, se estou em um café parisiense!

QUEIJO: - Café? Úlcera é úlcera, estando no Triângulo Mineiro ou em Mônaco. O mesmo vale para a culpa. Você fala de dinheiro, deve lembrar-se que a culpa sabe o que é juros.

AMOR: - No final a gente volta para o início da conversa: a importância do tempo. Tempo, tempo. Gastar o tempo em fazer algo valioso para mim. Mesmo que a recompensa seja pobre, mas não tão insignificante a ponto de levar-me à indigência. É isso, não é? Basicamente é isso, não é?

QUEIJO: - Sim. É exatamente isso.

AMOR: - Hum...

QUEIJO: - O que foi agora?

AMOR: - Hum...

QUEIJO: - Qual é o problema?

AMOR: - É que essa história de ter o necessário para manter-se vivo, mesmo com toda dignidade, como o sacrifício por excelência do privilégio de realizar um trabalho que seja justo para você; me soa meio animalesco. Animalesco e bem materialista!

QUEIJO: - Você acha que teria que ter algo mais?

AMOR: - É...

QUEIJO: - O que mais?

AMOR: - Não sei...

QUEIJO: - Uma boa aposentadoria, histórias engraçadas para os netos, algum diploma na parede ou algum elogio de um funcionário mais novo, missa aos domingos, a mentira e a literatura.

AMOR: - E?

QUEIJO: - Não entendeu? Os animais não têm isso.

AMOR: - Os animais não precisam disso.

QUEIJO: - Achei que ia gostar do “a mentira e a literatura”.

AMOR: - O Queijo encontra Anatole France, provavelmente um dos grandes momentos de todas essas nossas conversas.

[ ... ]

[ À esquerda temos a expansão. O fotógrafo é fofinho e não pode esconder em sua face o orgulho. Expansão. Em suas mãos a sua mais famosa foto, a mais conhecida da luta entre Ali e Liston. Sei quem é Ali, mas não sei quem é o Liston porque ele esta de costas para mim, estendido no chão e com as pernas em uma posição que me sugere que ele foi derrubado recentemente. Não preciso muito mais do que “assim foi justo, apenas o necessário para te vencer”, como sendo as palavras para descrever Ali e toda a sua expressão corporal  na imagem. O nome do fotógrafo é Neil Leifer e ao olhá-lo não consigo parar de pensar em como seria joia tê-lo como amigo.

No meio é a beleza que se transformou em seriedade e por isso é bela e por isso a escolhi. A atriz Emmy Rossum esta em um palco, participando de alguma entrevista coletiva misturada com evento promocional. É o que imagino. Atrás dela vemos um pedaço daquilo que parece ser um super mega hiper telão. Aposto que para uma tela tão grande os organizadores devem ter escolhido um monte de coisas pequenas para exibir. Isso desanima, mas não é desânimo que a Emmy expressa. É seriedade mesmo. Sozinha, sentada na cadeira, usando um longo vestido e cruzando as pernas. Ela é bonita, mas é a sua expressão atenta e séria que me capturou e antes de ir para a próxima imagem, apenas desejo mais uma vez que ela não tenha precisado responder a muitas perguntas bobas.


À direita temos uma mulher pintada por um tal de Felix Vallotton. Ou seria Vallotton Felix? Não, deve ser mesmo “Felix Vallotton”. Não é porque não sei quem é ele e quem é a mulher pintada que vou sair por aí espalhando ignorâncias. Ignorâncias é o que mais temos espalhados por aí, vocês não sabem? Ignorâncias de todos os tipos, tamanhos, cores, cheiros e diplomas. E vindo de quem a gente menos espera e das situações mais improváveis. Um exemplo: de quem finge que entende de sentir, de pensar, de escrever, de descrever, de arte e que gosta de um quadro só por causa de um fundo cinza e que nada tem a dizer de uma mulher que parece ser uma burguesa espanhola só por causa de seu leque e que como é idosa e séria deve ser extremamente rigorosa e religiosa do tipo que manda as filhas para o convento e implica com os vizinhos por qualquer coisa boba. Ufa! Ou não. Ela pode ser uma das pessoas mais joias que já passaram por este planeta, do tipo que é caridosa, adora rir e de provocar risadas nos outros, já quebrou um violão na cabeça do espião do rei em um restaurante e adora promover umas festas que nem posso contar pro Marquês de Sade o que ali rola. Ou não. Bom, o importante é se vocês conhecem alguém que escreve assim fujam dele! Ou?]

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Olá, tudo jóia?
Escreva um comentário e participe.