Voltaire ajuda

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segunda-feira, 25 de maio de 2015

A outra bolha.

Elenco jovem do filme AS PATRICINHAS DE BEVERLY HILLS (Estúdios Paramount, 1995).

Ela não conhece a vida porque tem 20 anos e nunca andou de ônibus. E você, porque já foi assaltado a mão armada, conhece a vida? Indiretamente muitos confessam que apenas não se suicidam porque são uns covardes, dado que se esta declarando expressamente aqui que o mundo e a vida são exclusivamente uma desgraça. Mas vamos começar pelo começo, como diria Aristóteles.

Semana passada, entre meus contatos no FaceBook, tornou-se popular o print screen de uma conversa entre duas jovens.
(Print screen é uma tecla comum que pode ser usada para "fotografar" tudo que esta na tela do computador no momento em que ela é acionada. Barra de ferramentas, ícones, as janelas que estiverem abertas... tudo. No caso de vídeos, o Windows Media Player tem uma frescura, a imagem fica negra e você precisa ajustar um trem que não lembro o que é.)

Bem, a conversa entre as duas amigas foi via computador e um trecho dela foi capturado por alguém e a imagem se espalhou. A veracidade da história toda não me interessa muito e sim o trem filosófico da coisa.
Uma das jovens perguntou como era andar de ônibus, pois teria que fazer isso e ela nunca tinha feito antes. A jovem parecia ter uns 20 anos e pela aparência julga-se facilmente que ela seja uma "patricinha": meninas rica, branca e alienada. (Não custa lembrar do filme "As Patricinhas de Beverly Hills", como oposição a esse preconceito. Principalmente o final, mas isso é outra história).

Antes de mais nada esta jovem merece um elogio claro: diante do desconhecido ela demonstrou interesse em perguntar para saber como era. Pode parecer engraçado e tosco escrever assim, mas há tantos jovens que se viciaram em drogas, pegaram doenças e morreram em acidentes violentos; sem antes fazer perguntas a amigos e parentes que poderiam aconselhá-los a serem mais prudentes!

A reação diante do print screen da imagem foi exclusivamente negativa: menina alienada, sabe nada da vida, que pais irresponsáveis ela tem, ela vive em uma torre de marfim fora da realidade, ela não sabe o que é a vida, não quero criar meu filho em uma bolha como os pais dela fizeram e etc.

É, mais ou menos. Sim, os pais devem ter o cuidado para que seus filhos não cresçam iludidos a respeito de como é o mundo e a vida. Sim, isso é difícil de se fazer.
Mas não é esse detalhe da questão que me interessa aqui, é outro, menos óbvio. E também importante: o de se encarar a vida e o mundo como coisas negativas exclusivamente.

Postura que, leitor de Nietzsche que sou, coloco na conta da influência de uma visão negativa da religião cristã na formação do Brasil. Não vou me referir a tristeza de manifestação culturais populares, como canções e poemas e tal. Basta para mim, que a leitora e o leitor deste texto aqui preste atenção nessas nossas expressões populares:

- Isso é bom demais para ser verdade!
- Caia na real! (*)
- Ele passou desta para melhor!
- Claro que essa situação boa não poderia durar!

* Sinal de prudência no geral, essa frase é sintoma de uma visão doente da existência uma vez que é usada exclusivamente como sinônimo de: assuma de uma vez por todas o problema invencível!

O mundo como um lugar mau, a vida como um conjunto exclusivo de experiências negativas e dolorosas.
Isso é patológico e contrário à vida.
O que aquela "patricinha" vive é tão real quanto o viver de uma mulher pobre de 20 anos que, -vamos imaginar-, esta desempregada, é mãe solteira e na última enchente de seu bairro tenha perdido toda a sua casa.

Experimentar a existência de maneira plena e viver a vida como ela é na íntegra, nunca foi fácil. Nem para a jovem pobre de 20 anos que é mãe solteira, esta desempregada e que  na última enchente de seu bairro tenha perdido toda a sua casa; nem para a "patricinha" de 20 anos que ainda não andou de ônibus, nem para o autor deste texto, nem para você leitora e nem para você leitor.

Mas ajuda lembrar com mais frequência, princialmente para quem acredita em um Deus justo, que existe também coisas boas para nós ainda que estejamos deste lado da sepultura.



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