Voltaire ajuda

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domingo, 13 de dezembro de 2015

13 de dezembro.

Alguns foram para o show do David Gilmour.
Alguns foram paras as ruas, iludidos ou não, para tentar melhorar o Brasil.
Eu acordei tão tarde e cansado que minha visão de mundo esta tomada de melancolia e vazio.

"denegado"
Sou feliz? 
Felicidade é produtiva ou improdutiva? O ideal é uma felicidade ousada e que não pare.
Sabedoria é quase boa memória. Mas prestar atenção e pensar nas coisas ruins que podem acontecer causa desconforto até físico, e não apenas espiritual. 
Ter um pouco de Helenismo.
Use a razão, aceite e caminhe nas chamas.
Eu escolho, eu perco. Eu escolho, eu perco. 
Alguma energia.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

10 de dezembro de 2015

Sábado passado, 5 de dezembro de 2015, fiz minha primeira entrevista no meu programa na radio comunitária “Super Nova FM”. 

Foi com uma professora de Direito Penal. Quase três anos depois de começar na radio e quase 10 anos após eu me formar em jornalismo (o nome do curso era “Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo”)! Eu não tinha conseguido dormir na noite anterior, de tanta ansiedade e também por causa de um mal estar que depois se confirmou ser uma gripe. Foi uma das piores noites que já tive, um pesadelo. Tentava, mas não conseguia dormir. Não sei se me espantava mais com o desconforto físico ou com a irracionalidade da situação. Uma noite tão ruim quanto a noite da dor de dente.

Mesmo assim a entrevista foi maravilhosa. Os ouvintes telefonaram e fizeram perguntas. 70% da entrevista fora puro improviso e como em muitas coisas da vida, ela foi uma dança: o mérito é meu, mas também é da professora. Ela depois me disse que se sentiu a vontade e até esqueceu que estava em uma entrevista. Ela gostou muito e até me indicou um colega para participar do meu programa. 

Ainda não entrei em contato com ele, porque eu estava preocupado com outros colegas locutores que fazem um programa sobre Direito na radio. Embora o programa deles seja menos teórico e mais prático. Resolvi esse dilema e vou procurar quem a professora me indicou.

O cara é do Direito Econômico. Faço a menor ideia do que seja isso. Considerando o excelente resultado da primeira entrevista, não preciso ficar com preocupações exageradas. Apenas aquela medida certa para o frio na barriga.

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O Governo Dilma Rousseff vai realmente acabar? Quero que ela continue, para que possa melhorar. Não pelo PT e seu projeto, pois as futuras eleições para mim são misteriosas mesmo. Falo pelo Brasil. O pessoal fala em derrubá-la, ora, o governo seguinte seria obrigatoriamente de coalizão e assim sendo dependeria da boa vontade de todos, incluindo políticos de oposição, grandes empresários e grande imprensa. Não é mais saudável construir essa coalizão ainda em dezembro de 2015? O PT não vai sair vencedor nas próximas eleições e mesmo que saia, não seriam vitórias grandes e seria um Partido dos Trabalhadores diferente. Eu espero que sim. Todos terão que mudar, todos os políticos terão que mudar.

QUEIJO: - Vota na Dilma duas vezes por raiva da oposição e agora nessa crise toda você pensa em um Brasil politicamente diferente e melhor? Sendo bravo ou Pollyanna, o senso crítico fica abalado do mesmo jeito. Tudo pode continuar na mesma: um país de prostituição infantil, um país que não lê, um país que fica de joelhos para pernilongos e um país que também fica de joelhos para ratos de terno e gravata.

AMOR: - Não, as coisas mudam sim.

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AMOR: - Será que dói o coração da imprensa transformar estudantes adolescentes em vilões? Os estudantes de São Paulo realmente estão fazendo o poder tremer. Futuras lideranças políticas vão sair dali. Não há idade para sentir o sabor do poder. Gritar um refrão e dezenas repetirem, sentir alvo de olhares brilhantes e ansiosos, ter a sensação de construir algo mais duradouro e impessoal do que tudo aquilo que tinha feito antes em suas próprias vidas... Ah, a política!

QUEIJO: - Não sei se o coração dói, não imagino como é o caráter do jornalista brasileiro e dos empresários do setor. Lembro-me da posição deles quanto às cotas raciais, dos direitos trabalhistas para empregadas domésticas, do “Caso Escola Base” e, mais recentemente, dos seus dedos melindrosos diante da lambança da Samarco/ Vale/ BHP. De qualquer forma, deve dar trabalho filmar passeatas de helicóptero por medo das ruas, repetir numa mesma reportagem a palavra “engarrafamento” mil vezes e ter que procurar sinais de destruição em escolas ocupadas por estudantes.

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AMOR: - A polícia do Rio de Janeiro erra e um carro com jovens inocentes é atingido por 111 tiros. Cinco futuros são agora cinco cadáveres e o Brasil vai ter que pedir desculpas para cinco famílias. Se não me engano 111 é o mesmo número de criminosos assassinados no Massacre do Carandiru.

QUEIJO: - Devem ter mentido o número de tiros por causa dessa simbologia e tal, mas com certeza foram muitos tiros. O fato de serem negros e humildes só piora a situação. É fundamental que a polícia tenha uma boa imagem.

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AMOR: - Foi acidente o rompimento da barragem da Samarco/ Vale/ BHP em Mariana, Minas Gerais? Foi um acidente absolutamente evitável que atingiu mortalmente o Rio Doce e o litoral do Espírito Santo?   

QUEIJO: - Mas que raios de perguntas são essas? Passou as últimas semanas em Saturno?

AMOR: - É que estou chocado com um detalhe neste caso todo: tem documento tal? Temos. Tem outro documento? Temos. Tem autorização pra isso? Temos. Tem autorização para aquilo? Temos. Eles têm todos os documentos, tem todas as autorizações, do IGAM ao raio que o parta! Tudo tudo tudo certinho nos paspéis!

QUEIJO: - Grande espanto esse seu! Gente poderosa ter os papéis que precisam! Eu, héin? Nasceu agora?

AMOR: - É que esse exército de papéis dizendo que tudo ia bem e carimbados por todo mundo, me parece sugerir que o culpado pela barragem ter se rompido foi de um ataque interestelar feito por marcianos!

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QUEIJO: - Não foi para a cidade comprar aquelas edições de luxo das fábulas de Esopo e da “Odisséia”, de Homero? Quase duzentos paus de uma vez só? Aquelas edições da Cosac Naify? O que aconteceu? Bateu a cabeça? Ficou com medo de 2016? Tomou jeito?

AMOR: - É uma velha sensação minha: aquela mistura de cansaço e amadurecimento. Mas no caso do Esopo a desculpa é irrespondível: há fábulas ali que são inéditas em língua portuguesa.

QUEIJO: - Irrespondível uma ova, estamos falando de Evangelhos Apócrifos de Judas ou de Maria Madalena? Ora, aposto que essas fábulas esquecidas de Esopo assim o foram porque elas não eram grande coisa mesmo. Um pouco mais que pura curiosidade para acadêmicos, eu garanto.

AMOR: - O tempo é o melhor juiz, houve razão para aquelas fábulas não terem sido lembradas por todos esses séculos como as outras? Elas não vão mudar o que sabemos hoje sobre o coração da Grécia?

QUEIJO: - Essencialmente acredito que não.

AMOR: - Mas eu sou desejos e o máximo que posso fazer é construir máscaras diferentes para cobrir quando sucumbo a um deles. Antes de comprar essas edições de luxo, vou ler as edições que eu tenho. Quando eu terminar, vou lá à cidade e compro.

QUEIJO: - E se não encontrar os livros?

AMOR: - Me consolarei bebendo cerveja.

QUEIJO: - Comprando impulsivamente algum outro título?

AMOR: - Talvez eu compre uma caixa de som para o computador, estou começando a ter certeza que o fone de ouvido esta me deixando surdo.

QUEIJO: - Você é mesmo uma marmota.

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AMOR: - Pare e ouça...

QUEIJO: - Cigarra tornando tudo mais bonito...

AMOR: - Tchaikóvsky e Bach iam amar ouvir isso. Aliás, eles amavam mesmo. Eram artistas e sabiam aquilo que é belo e de valor.

QUEIJO: - São cigarras, anus, saracuras...

AMOR: - Não posso ficar surdo!

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QUEIJO: - Conta a história da aranha armadeira ( Phoneutria nigriventer ), ela chegou ao fim ontem e tem momento de filme de terror.

AMOR: - Era madrugada e eu fui dormir. Pela primeira vez em meses eu ia ler na cama antes de dormir. Gosto disso porque parece que a cama é uma nave espacial que pode me levar para qualquer lugar do tempo, do espaço, da beleza e da sabedoria. Acendi o abajur e...

QUEIJO: - Quando olhou para o teto...

AMOR: - Ela estava lá, ao lado da lâmpada apagada. A iluminação do quanto escuro apenas pelo abajur dava uma atmosfera toda especial á perigosa visitante noturna. Uma armadeira Phoneutria nigriventer ) .

QUEIJO: - Como sabe que era uma armadeira Phoneutria nigriventer ), ela não estava com as suas quatro patas dianteiras fazendo o seu inconfundível gesto de dissuasão?  

AMOR: - E de onde ela estava eu não podia conferir se essas quatro patas eram negras com listras brancas, outra forma de reconhecer uma armadeira Phoneutria nigriventer )

QUEIJO: - Então como pode ter certeza?

AMOR: - É que as quatro patas estavam em uma posição de atenção, juntas em duplas. Isso não é muito comum. Dava para notar que aquelas quatro patas eram diferentes. Era sim uma armadeira Phoneutria nigriventer ).

QUEIJO: - A ajuda foi atrapalhada e ela escapou. E você dormiu em um quarto onde foi borrifado veneno. Para um hipocondríaco dormir em um quarto naquele estado... que raios de hipocondríaco é você?

AMOR: - Acho que eu queria me matar mesmo.

QUEIJO: - Ontem a noite tinha uma armadeira Phoneutria nigriventer ) perto da cama e você a matou com facilidade. Acredita que seja a mesma que apareceu no teto? Seria mais de uma semana entre uma aparição e outra.

AMOR: - Acredito, até porque transformaria a morte dela em algo com lirismo. Compensaria e consolaria.

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AMOR: - Só pararam de usar chumbo na fabricação de combustíveis quando aqueles estudos com crianças sul-africanas demonstrou que o seu desenvolvimento mental esta sendo prejudicado, lá na década de 1960, mais ou menos 40 anos depois do início da fabricação industrial. O fato do Aedes aegypti conseguir agora atacar a formação do crânio das crianças em gestação vai conseguir convencer o povo brasileiro a limpar suas casas? Temos quatro doenças sendo transmitas por esse mosquito. Vamos conseguir limpar as nossas casas?  

QUEIJO: - A falta de educação vence aqui também. A esperança vai ser mesmo uma vacina. É mais fácil vacinar do que prestar a atenção e limpar a casa sempre.

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

2 de dezembro de 2015

QUEIJO: - Tão firme quanto educado foi o puxão de orelha que você recebeu ontem. Ainda bem que você agradeceu, pois foi sinal de distinção merecer uma resposta assim. Mas aqui...

AMOR: - Sim?

QUEIJO: - Compartilhar aquele tipo de vídeo no FaceBook? Não é o tipo de coisa que você costuma compartilhar, nem mesmo curtir.

AMOR: - Queria provocar mesmo. Estava achando que o feminismo estava “cantando de galo” por tempo demais no Face e quis dar uma equilibrada no trem.

QUEIJO: - Não existe isso de “equilíbrio”, existe apenas o movimento. E o feminismo vai “cantar de galo” agora e para sempre. 

AMOR: - Receio que o poder possa sujar o coração das mulheres como suja os dos homens.

QUEIJO: - Isso já acontece aqui e ali, é algo que se trata e previne. Mas não é motivo para o repouso. Nem que se desejasse.

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QUEIJO: - Parabéns por ter imprimido os seus cartões de fotógrafo. Você esta 7 anos atrasado, mas parabéns mesmo assim.

AMOR: - Ficou pequeno e o slogan (“Todo mundo gosta de uma fotografia. Então deixe a fotografia ajudar você.”) é cafona. E as cores, - amarelo e azul -, faz parecer que eu trabalho para os correios e torço pelo Boca Junior.

QUEIJO: - Pare com o drama e trate de espalhar esse cartão pela cidade. Você tem que se preocupar é com o seu celular que só da sinal duas vezes por dia.

AMOR: - Lá na gráfica em Belo Horizonte, enquanto esperava para ser atendido, eu pude ler alguns exemplares da revista “Veja”. Era uma boa oportunidade, fazia meses que não lia a revista.

QUEIJO: - Sim e era melhor do que ler na biblioteca de Rio Acima. Sempre tem crianças saindo das escolas e que ficam fazendo pesquisas lá e elas podiam  ver você lendo a revista “Veja”. Por Júpiter, nunca esquecer que exemplo é tudo!   

AMOR: - E eles devem ter sentido mesmo o golpe: e em uma das matérias sobre os atentados terroristas em Paris, no dia 13 de novembro, eles explicaram porque deram mais atenção a Paris do que sobre a tragédia ambiental sem precedente que aconteceu em Mariana, no Brasil.

QUEIJO: - Escreveram o quê?

AMOR: - Não pediram desculpas e disseram que o que aconteceu em Paris foi mais importante.

QUEIJO: - É sempre bom pedir desculpas quando a gente erra, alivia o coração nosso e mostra que importamos com o outro. Mas de acordo com o papel político que você escolhe exibir aos outros, pedir desculpas significa fraqueza.

AMOR: - Lembrei, quando na casa de uma tia paterna no Natal, li a edição da "Veja" de fim de ano para 2005. Nas páginas de obituário, eles escolheram dar mais destaque para a morte da atriz estadunidense Anne Bancroft, do que para a cantora Emilinha Borba. Acho que a morte de uma das mais importantes intérpretes da musica popular brasileira é mais significativo do que o falecimento de uma atriz estadunidense.

QUEIJO: - A fotografia de Anne Bancroft era mais bonita do que a fotografia de Emilinha Borba.

AMOR: - Quantas fotos eles tinham da Emilinha? Era só gastar um pouco mais de tempo e procurar uma melhor.

QUEIJO: - É sofisticado falar de assuntos estrangeiros e você não deve usar o termo “estadunidense” ao referir-se ao Estados Unidos. O Reinaldo Azevedo já escreveu uma vez que isso é coisa de quem odeia os Estados Unidos. Você quer destruir a pátria de Henry Thoreau e do rock dos anos de 1950 e por isso usa o termo “estadunidense”?

AMOR: - Dizer que o aconteceu em Paris é mais importante? Como pode? O que mudou? A Europa esta unida? Os Estados Unidos e a OTAN vão pensar duas vezes ao elaborar seus planos para o mundo islâmico e árabe? Os muçulmanos moderados vão ter mais espaco na imprensa e na cultura ocidental em geral? O que mudou? 

QUEIJO: - Ao dar destaque aos atentados em Paris, no “calor do acontecimento”, a equipe da revista “Veja” pode destilar na cabeça e nos corações de seus leitores ...

AMOR: - Coitado de quem precisa consultar um dentista e chega antes da hora marcada! Coitada da pessoa!

QUEIJO: - Cala a boca, seu selvagem! Olha o drama! A revista “Veja” tinha oportunidade, ao falar do terrorismo em Paris, de desfilar todo o seu moralismo e toda a sua visão de como o mundo é e de como o mundo deve permanecer e de como o mundo deve mudar. Era uma oportunidade realmente excepcional.

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AMOR: - O Alexandre Garcia, no “Jornal da Itatiaia”, hoje de manhã, comentou a derrota nos tribunais de Lula; diante do que tinha escrito sobre ele o senador Ronaldo Caiado. E também comentou a vitória de Lula, nos tribunais, pelo menos inicialmente, diante do que tinha falado sobre ele o professor Marco Antônio Villa.

QUEIJO: - Sim, e daí?

AMOR: - E daí que Alexandre Garcia repetiu o que tinham escrito e falado o Ronaldo Caiado e o Marco Antônio Villa. Para todos os que escutam as suas opiniões pelo radio. O Alexandre Garcia foi esperto. Se alguém o acusar de parcialidade diante do ex-presidente Lula, ele pode dizer que estava dando informações mais completas!

QUEIJO: - Sim, o Alexandre Garcia foi esperto. Ele estava naquela zona cinza, entre a oportunidade única e a diligência ao dar uma opinião embasada com mais informações.

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AMOR: - Que irônico, e meio triste também, o livro que ia comprar do Shakespeare tinha sido vendido. Depois de finalmente comprar ele, descubro que alguém já o comprou.

QUEIJO: - Que livro?

AMOR: - Aquele volume com todas as tragédias e que tinha sido traduzido pelo médico apaixonado pelo William (Teatro Completo - Tragédias, Editora Ediouro/Agir, 2008. Tradução de Carlos Alberto Nunes). Fui à livraria e ele tinha sido vendido.

QUEIJO: - Você não tinha ganhado juízo e parado de comprar livros?

AMOR: - Mas era uma boa oportunidade! Era melhor e mais barato do que comprar a tradução da Bárbara Heliodora na editora Nova Aguilar. Que preço é aquele? Cruz credo! E com isso eu teria uma situação curiosa. Como eu já tenho aquele super tijolo da editora L&PM, com todas as principais peças de Shakespeare, e tenho um volume com todas as comédias e como eu dei de presente o “Romeu e Julieta”; eu teria apenas uma peça de Shakespeare com três tradutores bem diferentes: “Otelo”. Justamente a sua peça sobre amor e ciúme!

QUEIJO: - Seriam quatro tradutores, pois cedo ou tarde você acabaria comprando aqueles volumes da Nova Aguilar, com a Bárbara.

AMOR: - É mesmo... Mas tudo bem...

QUEIJO: - “Tudo bem”? Tudo bem, nada! Você ficou chateado e foi nos sebo comprar livros de teatro. A sorte sua foi ter encontrado aquele volume barato e ter ficado nele.

AMOR: - Sim, sim! As seis principais tragédias gregas reunidas em um único volume e por apenas R$ 10,00! Uma pechincha!

QUEIJO: - Mas... ? Mas... ?

AMOR: - Bom... É parte de uma coleção de popularização da leitura, os “Clássicos Jackson”. Impliquei com o tradutor.

QUEIJO: - Pobre J. B. Mello e Souza!

AMOR: - É que nesses casos de edição populares a tradução não costuma ser direta. Vai da língua original para o inglês (ou francês) e só então vai para o português, finalmente. Nessa trajetória a alma dos autores costuma ir para o brejo.

QUEIJO: - Não necessariamente. O que importa é que o tradutor ame desesperadamente o texto que traduz e a própria língua pátria, ao mesmo tempo e de forma absolutamente conflituosa.


AMOR: - E como eu vou saber se o J. B. Mello e Souza amava a língua portuguesa e a língua francesa a ponto de gritar até ficar rouco, uivar para lua  e se pendurar pelas paredes? As chances de isso ter acontecido e assim as suas traduções de Eurípedes, Sófocles e Eurípedes serem perfeitas são remotas.




NOTA: Na verdade, se eu tivesse conseguido comprar o Shakespeare de Alberto Nunes, eu não teria o seu teatro completo como eu tinha pensado. Embora já tivesse todas as suas comédias, faltaria o volume dedicado aos seus dramas históricos. Percebi isso agora, ao fazer a publicação deste texto.

[ ... ] 

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

30 de novembro de 2015.

QUEIJO: - Ia perguntar por que não consegue dormir em um horário melhor? A resposta esta à sua frente: o que você acabou de fazer à sua manhã.

AMOR: - Uma tentação puxa uma outra tentação, a memória experiente é traída, uma repetição consegue esconder-se por trás de uma máscara inocente e de efemeridade a efemeridade: o tempo é perdido.
Ou quase.

AMOR: - Ou quase. Essas poucas dezenas de minutos podem ser alargados pelo entusiasmo. A volta por cima. A poeira sacudida. Um sonho pode ganhar depois de ser derrotado.

[ ... ]

“Não existe racismo no Brasil, ou pelo menos não temos o suficiente para sermos considerados um país racista. Como pode haver racismo em um país tão miscigenado?”

AMOR: - Que doce subestimar a criatividade do brasileiro!

QUEIJO: - Que idiota esquecer que a imaginação e a coragem podem ser usadas de muitas maneiras!

AMOR: - O que as pessoas esquecem aqui?

QUEIJO: - Um racista europeu ou estadunidense pode, com relativa facilidade, evitar muito o contato com pessoas negras ou morenas. Esses encontros podem ser em menos número e ter um desfecho muito mais grave. Aqui é muito diferente. No Brasil o racista não consegue evitar o contato com o negro e com pessoas morenas. O racista brasileiro vai ter que diluir o seu racismo por vários caminhos, alguns mais visíveis que outros: é contratar um negro com salário igual e tratá-lo mal, é um sujeito manter relações com uma mulher negra e tratá-la mal e etc.

AMOR: - Pode ser o caso de um patrão idiota e pode ser um caso de um machista. Não se veria aqui traços de racismo.

QUEIJO: - Nós temos tantos machistas no Brasil!

AMOR: - E também temos tantos patrões idiotas por aqui!

QUEIJO: - Sim.

AMOR: - E como a justiça vai pescar o racismo naquilo que à primeira vista parece ser outro tipo de violência? Formalizar isso em lei? “Vai se caracterizar racismo se o sujeito agir assim e assim e pronto.” Parece limitado qualquer formalização. Não deve ser fácil criar leis para combater o racismo no Brasil.

QUEIJO: - Não é fácil, é difícil.

AMOR: - Muitas pessoas não gostam das cotas raciais nas universidades. Elas dizem que é “criar racismo para combater o racismo”.

QUEIJO: - Fazer sacrifícios nunca foi algo popular, é mais gostoso fazer seminários para discutir maneiras de combater o racismo. E confortavelmente ficar nisso.

AMOR: - Em alguns seminários longos é servido um lanche. Pão com mortadela, suco de caixinha de uva quente porque foi mal guardado e um cafezinho. E às vezes biscoito recheado.

QUEIJO: - Só às vezes um biscoito recheado.

AMOR: - Os que não gostam das cotas raciais também falam que no Brasil nunca tivemos leis raciais depois da abolição da escravidão. O que responder-lhes?

QUEIJO: - Responder com Issac Newton, a luz britânica, e sua “Lei da Inércia”. Depois da escravidão os racistas não sentiram necessidade de criar leis raciais no Brasil, que problema eles teriam com os negros?

AMOR: - Pelo mesmo motivo que não foi preciso ser mais específico naquele parágrafo da Constituição Federal. Aquele parágrafo! (Parágrafo terceiro do Artigo 226.) Lembrando o julgamento do STF que tratou da dignidade jurídica para as uniões homoafetivas? O parágrafo constitucional em questão era ambíguo demais.

QUEIJO: - Pegaria mal ser muito específico naquele parágrafo.

 AMOR: - Constituição é constituição... Tem que ser bonita...

 QUEIJO: - Os legisladores que eram conservadores estavam tranquilos. O Brasil é o maior país católico do mundo, somos profundamente religiosos e nossa religiosidade não é exatamente a do tipo liberal.

AMOR: - Em se tratando de amor a Deus, não somos parecido “os filhos das flores”, os hippies!

 QUEIJO: - Sim. Aqueles religiosos sabiam que aquela causa dos homoafetivos jamais chegaria ao Supremo Tribunal, ou se chegasse, que a decisão seria aquela.

AMOR: - E eles estavam certos!

QUEIJO: - Certos em 1990, 1991, 1992...

AMOR: - As ocasiões que leis que promoviam uma maior igualdade de gênero eram solenemente ignoradas no Congresso Nacional! Em várias e em várias ocasiões.

QUEIJO: - A maneira firme...

AMOR: - Mas discreta!

QUEIJO: - De dizer “não”.

AMOR: - E o que aconteceu?

QUEIJO: - Aconteceu que 2011 não é 1990.

AMOR: - A história muda e a vez chega.

QUEIJO: - Se a gente sempre continuar.

AMOR: - Se a gente sempre continuar.

[ ... ]

QUEIJO: - Bem feito, mas bem feito mesmo! Teve uma recaída depois de mais de um ano e agora quem o bloqueou no FaceBook foi sua psicóloga fofinha que usa os óculos do Bono Vox. Bem feito!

AMOR: - Achei que meu comentário no blog dela era educado e simpático. Mas ela deve ter visto minha manifestação como uma tentativa de aproximação. Como isso seria ruim para mim, ela me bloqueou no FaceBook. Ela quis me ajudar se afastando.

QUEIJO: - Se vingue dizendo que acha a irmã dela mais bonita e gostosa. Não é verdade?

AMOR: - É verdade, mas não ia adiantar muito; e eu ia aparecer àquela raposa que desdenha as uvas.

QUEIJO: - E um pouco pervertido também. E na verdade isso também não significaria muito. Olha, você tem que lembrar dos momentos bons, entender o que aconteceu e pronto.

AMOR: - Apagar as fotos que ela me mandou foi fácil, fiz no dia que brigamos feio pela primeira vez. Apagar as mensagens de celular foi mais difícil... Precisei de muito mais tempo e de muito mais coragem.

QUEIJO: - Ah, quando um carente recebe tanta atenção...!

AMOR: - Era tão meigo... Que vaca desgraçada!

QUEIJO: - Você teve coragem de pedir o telefone e de telefonar, disse para ela que ira visitá-la. Gostou de alguém e teve coragem. Isso foi muito. Foi alguma coisa. Segue adiante.

AMOR: - Aquela mudança de humor. Não sei se era preguiça, medo de seguir; mas eu perdi a confiança. Ela parecia doida, brava. Ela podia responder qualquer coisa. A gente conversava por horas e agora tinha medo de conversar. Tento racionalizar e mesmo me colocando como o único culpado daquilo tudo, é difícil compreender o momento e o motivo de tudo ter acabado.

QUEIJO: - Ela deve ter se cansado de você. Você não mudou. E mesmo hoje a pergunta mais dolorosa que ela poderia te fazer é sobre as suas novidades. Ela podia ter quem quisesse, era uma profissional competente e mesmo assim tinha aquela insegurança toda. Ora e ia ser justamente você o companheiro que ia dar o empurrão e o apoio para que ela desabrochasse?

AMOR: - Mas conversando direito...

QUEIJO: - Pois vocês conversaram muito, demais até. Ela deve ter feito com você o mesmo que fez com outros, mas com você a coisa não progrediu. Ela percebeu que você não tinha mais a oferecer e que não poderia te melhorar. Você era uma das sementes que o “homem que plantava árvores” não selecionaria. Lembra-se do vídeo que ela te mandou?

AMOR: - Lembro. E da pergunta sobre a música “Radio Blá”, do Lobão, que ela não me respondeu.

QUEIJO: - Você não era um bom paciente para ela.

AMOR: - Aquela dor de dente me deixou louco, isso durou dias. Nunca tinha deixado de dormir por causa de uma dor. Aquele dia no dentista, em Belo Horizonte, eu só sobrevivi porque eu e ela ficamos trocando mensagens de celular o dia inteiro.

QUEIJO: - Olha, isso é realmente lindo de se contar; mas em seguida ela poderia ter perguntar por que você não fez hoje o que tinha planejado.

AMOR: - O meu maldito ritmo.

QUEIJO: - Foi tudo apenas um desencontro que demorou um pouco a descobrir a si mesmo como um desencontro.

AMOR: - Este diálogo ficou legal. Acho que com isso temos um fim. Alguma coisa eu consegui. Estou satisfeito.

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AMOR: - Estou desenhando o meu cartão de fotógrafo. Amanhã mando imprimir e também compro as sementes.

QUEIJO: - Um fotógrafo que mexe com hortas e jardins. Como tem tudo para dar errado...

AMOR: - Pode dar certo! Oh!, dialética doce!

QUEIJO: - Você leu muitas biografias quando criança, isso foi outra coisa que te afetou.

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QUEIJO: - Você precisa de amigos. Quem tem amigos tem tudo. Não viu o presidente do “Mercado Central”, lá em Belo Horizonte, José Agostinho de Oliveira Quadros, chamando os deputados e a Polícia Federal de “invasores”? Ele fez porque pode.

AMOR: - Com direito a dedo em riste! Mas o que mais gostei foi de um dos seguranças do “Mercado”. Ele estava levando o maior puxão de orelha do deputado Ludívio Carvalho. O segurança ficou parado, impedindo a passagem, e olhando para todos os lados, menos para o Laudívio. Achei aquilo fabuloso!

QUEIJO: - Em muitas ocasiões a troca de olhares é mesmo um sinal de agressão.

AMOR: - A história de falta de higiene na hora de guardar os animais no “Mercado Central” é uma das histórias mais tradicionais de Belo Horizonte. Coisas de décadas e décadas. No Brasil de Dilma Rousseff podemos ter banqueiros presos, mas aqui em Minas Gerais mexer com mineradoras e mexer no “Mercado Central”?

QUEIJO: - Os comerciantes do “Mercado Central” são tão arrogantes que nem se preveniram, mesmo sabendo que a Câmara de Deputados estava investigando e mesmo depois de o último sábado haver tido uma manifestação de defensores dos direitos dos animais bem na porta do “Mercado”.

AMOR: - Alguém esqueceu de dar um telefonema.

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[ “Torna possível a reforma das instituições sem usar de violência e, portanto, o uso da razão na formulação de novas instituições e no reajustamento das antigas. Não pode, porém, fornecer razão. A questão do padrão moral e intelectual de seus cidadãos é em amplo grau um problema pessoal (A ideia de que esse problema pode ser atacado, por sua vez, por um controle institucional eugênico e educacional é errônea, creio; e certas razões para essa crença serão dadas abaixo.) É inteiramente errado censurar a democracia pelos defeitos políticos de um estado democrático. Devemos antes censurar-nos a nós mesmos, isto é, aos cidadãos do estado democrático.”

A SOCIEDADE ABERTA E SEUS INIMIGOS – Sir Karl Raimund Popper. Tradução de Milton Amado. ]

QUEIJO: - Não leu esse livro ainda por quê?

AMOR: - Fiz um ajuste nas minhas leituras. Prioridade e ordem.

QUEIJO: - Marmota.

AMOR: - Mais do que pelo assunto, é pelo estilo que tenho prazer ao folhear este livro de Popper. Uma delícia, um manjar! Não há outra metáfora a ser aqui usada senão aquela que lembre cheiros e sabores. E você o abre e encontra um trecho como este que citei.

QUEIJO: - Lembrando que dos 4 gigantes do século passado, - Heidegger, Wittgenstein, Bertrand Russell e Popper -, é justamente Popper que ainda não teve toda a atenção merecida. Dica do Bryan Magee.

AMOR: - Grande Bryan Magee!

[ ... ]



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Eu já cheirei uma Elisabeth e o Humberto precisa morrer

AMOR: - Dezenas de cidades atingidas em dois estados, Minas Gerais e Espírito Santo. Vidas humanas perdidas. Milhares de atingidos pela falta de água e pelo medo do futuro. Peixes mortos e centenas de quilômetros de um litoral que nunca viu suas águas tão vítimas. A irresponsabilidade da Samarco/ Vale/ BHP e a chance que a gente possa mudar a legislação e vencer a promiscuidade entre políticos e donos do dinheiro. Um tiro no coração do Rio Doce e o Brasil inteiro esperando a capa das três principais revistas do país. E “Veja”, “IstoÉ” e “Época” destacam as crises do Congresso Nacional e o terrível atentado terrorista em Paris. Por que essas capas, por quê? Nós somos franceses, que ninguém duvide por um segundo disto; mas o grito do Rio Doce doeu mais em nossos corações e os nossos corações brasileiros sabem o que fazem. Por que a “Veja”, “IstoÉ e “Época” não destacaram a maior tragédia com barragens de mineração até hoje no Brasil naquele fim de semana? Até o patriotismo da nossa imprensa foi atingida pelas lamas tóxicas da Samarco/ Vale/ BHP?

QUEIJO: - Não é possível responder a essas perguntas sem ser acusado de ser marxista.

AMOR: - Justamente ou injustamente?

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QUEIJO: - O grande “Calcanhar de Aquiles” da imprensa sempre foi a reunião de pauta. Ainda falando da falta de destaques das principais revistas do país ao rompimento da barragem: uma capa é uma capa. Revista semanal não é jornal diário. A pressão existe. A mineradora Vale é uma das maiores patrocinadoras da grande imprensa brasileira e isso é alguma coisa, isso se torna alguma coisa nesses momentos.

AMOR: - E jornalista brasileiro vai continuar com medo de cobrir uma manifestação popular no meio da rua. Erro que rivaliza com o “Caso Escola Base”. Tantas vítimas em uma tragédia que nem chegou à sua metade. Pobre Minas Gerais, pobre Espírito Santo e pobre jornalismo brasileiro livre!

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AMOR: - Mas convenhamos que o rock dos anos da década de 1970 era muito joia.

QUEIJO: - Sim, sim. Principalmente a metade final desta década. Guitarra simples do punk e os teclados com apenas o doce do rock progressivo.

AMOR: - Só para dançar!

QUEIJO: - Be Bop Deluxe: “Maid In Heaven”!

[ ... ]

AMOR: - As pessoas são diferentes.

QUEIJO: - Sim, as pessoas são diferentes.

AMOR: - As pessoas não olham para a mesma direção e veem a mesma coisa.

QUEIJO: - De fato, até quando as palavras são as mesmas vai saber o que se passa em tantos corações e mentes?

AMOR: - Então como foi que Platão venceu?

QUEIJO: - Amor, nós só fomos para a Lua durante o governo Nixon. Olhe a cerca e tome mais uma dose de ilusão gregária.

[ ... ]

QUEIJO: - Você realmente acha que neste último diálogo você foi profundo? Que foi um soldado nietzschiano a puxar a orelha de Platão/ São Paulo/ Tradição Ocidental?

AMOR: - Uai, sim!

QUEIJO: - A partir de amanhã vai acordar e vai tomar uma xícara a menos de café.

[ ... ]

Estou escrevendo em uma folha de papel toalha. Pareço aquele prisioneiro do filme “V de Vingança” (... ). Aqui no estúdio da radio comunitária não tem papel rascunho para escrever, mas tem uma certidão de casamento que foi perdida há muito mais que um ano.

AMOR: - Não sabia que casar era tão ruim!

QUEIJO: - Olhe o drama de novo! É apenas mais um dos documentos que foram perdidos e estão no estúdio esperando os donos.

AMOR: - O Brasil é um pouco mais que o pesadelo tropical de Kafka; é bom que aquele casal lembre que sem a certidão de casamento eles não podem abrir conta no banco, não podem tirar carteira de trabalho, não podem vacinar, não podem colocar os filhos em escolas públicas e se eles estiverem em um ônibus que sofrer batida policial é bom que pelo menos tenham dado um beijinho nos filhos!

QUEIJO: - Mas esta mesmo falando besteira. Fique quieto, selvagem!

AMOR: - Deixe eu ser feliz, deixe eu ser feliz! Quando o Brasil entrar na puberdade e finalmente merecer sofrer sua “Revolução Francesa”, vão lembrar que nossas Bastilhas são os cartórios?

No site da “Sky”, a nossa tv por assinatura, não consegui abrir a página contendo os canais de nosso pacote. Mas a página onde posso imprimir até a segunda via dos pagamentos estava ok.

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É bonito ficar 5, 6 vezes o tempo de meu programa na radio ajudando os outros locutores. Mas também é chato pra caramba. Assim como no colégio eu preciso fugir de alguma forma. A forma favorita é viajar pelo site do YouTube. Acidentes engraçados, papel fine art e outros equipamentos fotográficos a me torturar, National Geographic, os curtas do cinema mudo, Monty Python, cenas de filmes queridos e etc. Mas eu não posso usar o som.

AMOR: - É impressionante assistir a esses vídeos sem os seus sons! Não são os mesmos vídeos, não são! Aquele tributo ao Stanley Kubrick, quando assisti em casa, quase tive que ir ao banheiro quando descobri as músicas que o mané escolheu para trilha sonora! Eeeeca!

QUEIJO: - Olha o drama, olha o drama! Já esta fazendo o drama de novo!

[...]

Mas proibiram o uso da internet para fins recreativos no estúdio.
AMOR: - É impossível convencer-me a suportar os mesmo telefonemas. Sou um artista, qualquer coisa que cheire a indústria industrialização pode acabar comigo. Ira divina é uma coisa, dor de dente já me fez não dormir, mas repetições as quais uma secretária tem que suportar... Que Júpiter abençoe as secretárias! Que Júpiter abençoe as secretárias!

QUEIJO: - É, e eu não sei como aquele telefone ainda não quebrou com você. E você nem se importa mais se tem gente estranha no estúdio a testemunhar os seus rompantes de fúria... E a cidade é pequena e fofoqueira!

AMOR: - É melhor ser irascível do que pegar câncer por segurar. Eu lembro muito bem do meu avô paterno segurando a minha vó paterna quando ela estava tendo uma crise. Fizeram de tudo para eu não ver e eu só precisei virar-me e olhar o fim do corredor dos fundos da casa. Ela segurava e segurava, aí aconteceu isso com ela depois.

QUEIJO: - Isso é ridículo, você não teve acesso a documentos médicos. Não tem certeza do diagnóstico. Mesmo porque a gente sabe o seu grande interesse pelas intimidades da família... Desculpa esfarrapada para manter-se impulsivo, isso sim. Pura auto ilusão!

AMOR: - Mas confessa que é uma puta auto ilusão poética, confessa! Fizeram, fizeram, fizeram de tudo para que eu não visse as crises que ela tinha e foi tão fácil ver...

QUEIJO: - Foi só uma vez!

AMOR: - Duvida das minhas habilidades de escultor de memórias afetivas? Eu nunca usei mármore do Paraguai!

QUEIJO: - Mais respeito ao MercoSul, que eu nunca tive certeza se alguma vez já saiu do papel. Aqui, você reclamou agora pouco em ser um artista cercado de cinza industrial. Mas amava de todo coração o cheiro da oficina da máquina a vapor.

AMOR: - O cheiro de óleo fervente, o cheiro da lenha no forno... Ah... O cheiro da minha inglesinha “Elisabeth”!

QUEIJO: - Ela era alemã, seu marmota. Não é a rainha da Inglaterra. Elisabeth era a mulher do primeiro dono dela, lá nos 1900 e alguma coisa.

AMOR: - Detalhes!

QUEIJO: - Então ... ?

AMOR: - “Então”, o que?

QUEIJO: - Então ... ... ?

AMOR: - “Então”, sua ricota assinante da revista (**** censurado na última hora ****)! Eu não sei!

QUEIJO: - Mas esta mesmo ficando loiro!

AMOR: - Olha o preconceito! Além de ricota é preconceituoso?

QUEIJO: - Sua anta, eu sou você. Lembra? Te chamei de “loiro” porque você riu quando a Lucilene te chamou assim, em uma das vezes que aprontastes uma de suas trapalhadas na cozinha. Há um tempão, quando trabalhava em Sabará.

AMOR: - É mesmo. Eu ri. E foi legal porque ela era morena e pintava o seu cabelo de louro.

QUEIJO: - Então ela devia mesmo entender do assunto. Imagino quantas vezes você mereceu ser chamado de “loiro”, enquanto trabalhava naquele centro social comunitário!

AMOR: - Cala a boca, queijo! Se juiz diplomado leitor de latim flu flu excelência acha que Rafinha Bastos é canibal de mãe grávida, imagina  o que vão achar de nós! Imagina!

QUEIJO: - Eu tenho medo de sindicato de funcionário público, não existe sindicato de pessoas loiras. Não há motivo para preocupações. Eu estava era questionando que já que você gostava do cheiro da oficina de máquina a vapor, quando trabalhava lá, você gosta um pouco de indústria. O que contradiz o que você tinha dito.

AMOR: - É. Mas cheirar a “Elisabeth” é exceção. A exceção que confirma a regra!

QUEIJO: - “A exceção que confirma a regra”?

AMOR: - “A exceção que confirma a regra”.

QUEIJO: - Vou embora.

AMOR: - O quê? Por quê?

QUEIJO: - Drama? Tudo bem. Filosofia? Tudo bem. Anarquia destruidora de castelos de poder e etc e etc a fazer tremer os deuses? Tudo bem. Mas frase clichê, não! Vou embora.

AMOR: - Depois eu que sou o selvagem a fazer drama.

[ ... ]

AMOR: - Humberto Gessinger é um dos maiores compositores brasileiros. O que falta para ele vencer o nariz empinado do jornalismo cultural do sudeste e assim ter o reconhecimento que merece em todo o país?

QUEIJO: - Pegar uma bota que ele usa em seu pé esquerdo. Pegar uma bota em que ele usa em seu pé direito. Depois ficar jogando uma contra a outra.

AMOR: - Isso parece complicado. Prefiro a manga com leite!

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“Na segunda-feira, dia 23 de novembro de 2015, no “Jornal da Itatiaia”, mencionaram que foram dois distritos atingidos mortalmente pelo rompimento da barragem da Samarco/ Vale/ BHP. Não eram 5 distritos de Mariana mortalmente atingidos?”

“Ficou popular no FaceBook o vídeo amador da discussão entre a equipe de gravação da Rede Globo, com Isabele Scalabrini, e as pessoas desabrigadas pelo rompimento da mesma barragem da Samarco/ Vale/ BHP. A discussão foi motivada porque o pessoal não gostou que a Isabele tivesse cortado a entrevista quando o entrevistado, mais exaltado, começou a citar nomes de “pessoas jurídicas”. Pois no dia 24 de novembro de 2015, no “Jornal da Itatiaia”, a repórter Mônica Miranda interrompeu o prefeito da cidade de Perpétuo Socorro quando este começara a mencionar que fora detectada presença de metais pesados na água de várias cidades atingidas. A Mônica cortou a fala do prefeito para falar do fundo de um bilhão e blá blá blá. Sinceramente não sei se beber água com arsênico e depois consolar-me com um bilhão vai funcionar, principalmente se meus filhos e netos forem uns ingratos de uma viga!”

AMOR: - Sabe de uma coisa? Isso me pareceu mais contundente como exemplo de guerra de propaganda na primeira vez que escrevi. Agora nem tanto.

QUEIJO: - Nooooooooossa... Que meda!

AMOR: - Grrrrrrr ...

QUEIJO: - Vou correr para debaixo da cama!


AMOR: - Queijo ajuizado!

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