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sábado, 21 de abril de 2018

O Herói de Mil Faces

Clara Nunes e uma fã. Uma das fotografias mais lindas e perfeitas que eu já vi.




“ “Lá”, disse ele, “vi a filha do rei, a mais bela mulher criada por Alá.” E passou a elogiar com entusiasmo a princesa Budur. “Seu nariz”, disse ele, “se assemelha ao gume de uma lâmina polida; as faces são como vinho tinto ou anêmonas cor de sangue; os lábios trazem o brilho do coral e da cornalina; o mel da sua boca é mais doce que o vinho envelhecido; seu sabor extinguiria o mais forte fogo do inferno. Sua língua é movida pelo mais alto grau do espírito e pela resposta pronta e engenhosa; o colo é sedução para todos que o vejam (glória Àquele que o construiu e lhe deu acabamento!); e, juntos, há também dois suaves e redondos antebraços; como disse dela o poeta Al-Walahan:
“Ela tem pulsos que, se as pulseiras não contivessem,
Sairiam de suas mangas em chuva de prata”. “ “

“O herói cujo apego ao ego já foi aniquilado vai e volta pelos horizontes do mundo, entra no dragão, assim como sai dele, tão prontamente como um rei circula por todos os cômodos do palácio. Aí reside o seu poder de salvar; pois sua passagem e retorno demonstram que em todos os contrários da fenomenalidade, permanece o Incriado-Imperecível e não há nada a temer.”

“ “Estrelas, escuridão, lâmpada, fantasma, orvalho, bolha,
Um sonho, um relâmpago, e uma nuvem:
Assim devemos olhar tudo o que foi feito” (Vajracchedika) “

“Somos perseguidos, dia e noite, pelo divino ser que é a imagem do eu vivo presente no labirinto fechado da nossa própria psique desorientada. Os caminhos para as portas se perderam; não há mais saída. Podemos apenas nos apegar, como Satã, furiosamente a nós mesmos e ficar no inferno; ou então nos soltar, terminar por ser aniquilado, buscando Deus.
“Ah, ó mais tolo, insensato e fraco dos homens,
Sou Aquele a Quem procuras!
Expulsas o amor de ti, que expulsas a mim” (Francis Thompson) “

“Naqueles períodos, todo o sentido residia no grupo, nas grandes formas anônimas, e não havia nenhum sentido no indivíduo com a capacidade de se expressar; hoje, não há nenhum sentido no grupo – nenhum sentido no mundo: tudo esta no indivíduo. Mas, hoje, o sentido é totalmente inconsciente. Não se sabe o alvo para o qual se caminha.”

O HERÓI DE MIL FACES – Joseph Campbell.

O Poder do Mito



“Já se disse que arte é fazer as coisas bem feitas.”

“Nessas histórias, a aventura para a qual o herói esta pronto é aquela que ele de fato realiza. A aventura é simbolicamente uma manifestação de seu caráter. Até a paisagem e as condições ambientes se harmonizam com sua presteza.”

“Já se disse, e bem, que a mitologia é a penúltima verdade – penúltima porque a última não pode ser transporta em palavras.”

“Os índios se dirigiam a todo ser vivente como “vós” – as árvores, as pedras, tudo. Você também pode se dirigir a qualquer coisa como “vós”, e se o fizer sentirá a mudança na sua própria psicologia. O ego que vê um “vós” não é o mesmo que vê uma “coisa”. E quando se entra em guerra com outro povo, o objetivo da imprensa é transformar esse povo em “coisas”.”

“Ah, é que o sonho é uma experiência pessoal daquele profundo, escuro fundamento que dá suporte às nossas vidas conscientes, e o mito é o sonho da sociedade. O mito é o sonho público, e o sonho é o mito privado. Se o seu mito privado, seu sonho, coincide com o da sociedade, você esta em bom acordo com seu grupo. Se não, a aventura o aguarda na densa floresta à sua frente.”

O PODER DO MITO – Joseph Campbell & Bill Moyers.

O Andarilho e sua Sombra



“As diferentes culturas são diferentes climas espirituais, cada um dos quais é particularmente danoso ou salutar para esse ou aquele organismo. A história em seu conjunto, enquanto saber sobre as diferentes culturas é a farmacologia, mas não a ciência médica mesma. É necessário antes o médico, que se utilize dessa farmacologia para enviar cada qual ao clima que lhe for proveitoso – temporariamente ou para sempre.”

“273.
O não-feminino. – “Tolo como um homem”, dizem as mulheres; “covarde como uma mulher”, dizem os homens. A tolice é, na mulher, o não-feminino.”

“317.
Opiniões e peixes. Possuímos nossas opiniões como possuímos peixes – na medida em que somos proprietários de um viveiro. Temos de sair para pescar e ter sorte – então temos nossos peixes, nossas opiniões. Falo de opiniões vivas, de peixes vivos. Outros se satisfazem em possuir uma coleção de fósseis – “convicções”, em sua cabeça.”

“As tolices do homem são uma parcela de fado, tanto quanto suas sabedorias: também aquele medo da crença no fado é fado. Você mesmo, pobre amedrontado, é a incoercível Moira que reina até sobre os deuses, para o que der e vier; que jaz atado o que é mais forte; em você esta de antemão determinado o porvir do mundo humano, de nada lhe serve ter pavor de si mesmo.”

“Aquilo que vocês com decrépita miopia, temem como sendo a superpopulação da Terra, é justamente o que proporciona ao mais esperançoso a sua grande tarefa: um dia, a humanidade deve se tornar uma árvore que cubra a Terra inteira, com muitos bilhões de brotos que devem conjuntamente se tornar frutos, e a Terra deve ser preparada para nutrir essa árvore. Fazer com que o atual esboço, ainda pequeno, aumente em seiva e força; com que circule em inúmeros canais a seiva para a alimentação do todo – dessas tarefas, e de outras assim, é que se há de extrair o critério segundo o qual um homem de hoje é útil ou inútil. A tarefa é indizivelmente grande e ousada: todos queremos contribuir para que a árvore não apodreça antes do tempo!”

O ANDARILHO E SUA SOMBRA – Friedrich Nietzsche.

Nietzsche contra Wagner

Eu encontrei esta piada infame aqui.

“ “O indivíduo deixa a si mesmo em casa quando vai a Bayreuth, renuncia ao direito de ter a própria escolha, a própria língua, ao direito ao seu gosto, mesmo a sua coragem, como a temos e exercitamos entre as nossas quatro paredes, em oposição a Deus e o mundo. Ninguém leva consigo ao teatro os mais finos sentidos da sua arte, menos ainda o artista que trabalha para o teatro – falta a solidão, o que é perfeito não suporta testemunhas... No teatro nos tornamos povo, horda, mulher, fariseu, gado eleitor, patrono, idiota – wagneriano: mesmo a consciência mais pessoal sucumbe à magia niveladora do grande número, o próximo governa, tornamo-nos próximo...”. ”

“O nojo e a altivez espirituais de todo homem que sofreu profundamente – a hierarquia é quase que determinada pelo grau de sofrimento a que se pode chegar -, a arrepiante certeza de que é impregnado e tingido, de mediante o seu sofrimento saber mais do que os mais inteligentes e sábios poderiam saber, de ter estado e ser versado em tantos mundos distantes e horríveis, dos quais “vocês nada sabem”..., esta silenciosa altivez espiritual, este orgulho do eleito do conhecimento, do “iniciado”, do quase-sacrificado, tem como necessárias todas as artes do disfarce, para proteger-se do contato com mãos importunas e compassivas e, sobretudo, de todo aquele que não lhe é igual na dor. O sofrimento profundo enobrece; coloca à parte.”

“Solitário então, e gravemente desconfiado de mim mesmo, tomei, não sem ira, partido contra mim e a favor de tudo o que me fazia mal e era duro: assim achei novamente o caminho para esse valente pessimismo que é oposto de toda mendacidade idealista, e também, como quer me parecer, o caminho para mim – para minha tarefa... Esse oculto e soberano Algo, para o qual durante muito tempo não temos nome, até ele se revelar enfim como nossa tarefa – esse tirano em nós toma uma represaria terrível contra toda tentativa que fazemos de nos esquivar ou fugir, contra toda resignação prematura, toda equiparação aos que não são nossos iguais, toda atividade, ainda que respeitável, que nos desvie do principal – e mesmo toda virtude que nos proteja contra a dureza da responsabilidade mais nossa.”

“Duvido que uma tal dor “aperfeiçoe”: mas sei que nos aprofunda... Seja que aprendemos a lhe opor nosso orgulho, nosso escárnio, nossa força de vontade, fazendo como o índio que, embora supliciado, obtém desforra de seu torturador mediante o veneno de sua língua; seja que ante a dor nos retiramos para o Nada, para o mudo, rígido, surdo entregar-se, esquecer-se, apagar-se: desses longos e perigosos exercícios de autodomínio retornamos uma outra pessoa, com algumas interrogações mais – sobretudo com a vontade de doravante questionar mais, mais profundamente, severamente, duramente, maldosamente, silenciosamente do que até hoje foi questionado nesta Terra... A confiança na vida se foi; a vida mesma tornou-se um problema. – Mas não se creia que isso torne alguém necessariamente sombrio, uma coruja agourenta. Mesmo o amor à vida é ainda possível – apenas se ama diferente... É o amor a uma mulher da qual se duvida...”

“Outrora ordenava às nuvens
que se afastassem de meus montes –
outrora dizia: “Mais luz, ó seres escuros!”.
Agora as chamo para que venham:
fazei escuro ao meu redor com vossas tetas!
- quero vos ordenhar,
Vacas das alturas!
Sobre a terra espalharei
sabedoria quente como leite, doce orvalho de amor...”

NIETZSCHE CONTRA WAGNER – Friedrich Nietzsche.

O Caso Wagner


“Que o teatro não se torne o senhor das artes.
Que o ator não se torne sedutor dos autênticos.
Que a música não se torne uma arte da mentira.”

“Perceber o nocivo como nocivo, poder proibir-se algo nocivo, é ainda um sinal de juventude, de força vital. Os exaustos são atraídos pela coisa nociva: o vegetariano, pelos vegetais. A própria doença pode ser um estimulante da vida: mas é preciso ser sadio o bastante para esse estimulante! – Wagner aumenta a exaustão: por isso atrai os débeis e exaustos. Oh, a felicidade de cascavel do velho mestre, ao ver que o procuravam justamente “as criancinhas”! “

“Já se percebeu que a música faz livre o espírito? Que dá asas ao pensamento? Que alguém se torna mais filósofo, quanto mais se torna músico? O céu cinzento da abstração atravessado por coriscos; a luz, forte o bastante para se verem as filigranas; os grandes problemas se dispondo à apreensão; o mundo abarcado com a vista, como de um monte. – Acabo de definir o pathos filosófico. – E de súbito caem-me respostas no colo, uma pequena chuva de gelo e sapiência, de problemas resolvidos... Onde estou? – Bizet me faz fecundo. Tudo o que é bom me faz fecundo. Não tenho outra gratidão, nem tenho outra prova para aquilo que é bom.”

“No momento me deterei apenas na questão do estilo. – Como se caracteriza toda décadence literária? Pelo fato de a vida não habitar mais o todo. A palavra se torna soberana e pula fora da frase, a frase transborda e obscurece o sentido da página, a página ganha vida em detrimento do todo – o todo já não é um todo. Mas isso é uma imagem para todo o estilo da décadence. : a cada vez, anarquia dos átomos, desagregação da vontade, “liberdade individual”, em termos morais – estendendo à teoria política, “direitos iguais para todos”. A vida, a vivacidade mesma, a vibração e exuberância da vida comprimida nas mais pequenas formações, o resto pobre da vida. Em toda parte paralisia, cansaço, entorpecimento ou inimizade e caos: uns e outros saltando aos olhos, tanto mais ascendemos nas formas de organização. O todo já não vive absolutamente: é justaposto, calculado, postiço, um artefato.”

“Eles estão certos, esses jovens alemães, tal como agora são: como poderiam eles sentir falta do que nós, outros, nós, alciônicos, sentimos falta em Wagner – la gaya scienza, os pés ligeiros; engenho, fogo, graça; a grande lógica; a dança das estrelas; a espiritualidade petulante; os tremores de luz do Sul; o mar liso – perfeição...”

O CASO WAGNER – Friedrich Nietzsche.

Crepúsculo dos Ídolos



“Nesse estado, enriquecemos todas as coisas com nossa própria plenitude: o que enxergamos, o que queremos, enxergamos avolumado, comprimido, forte, sobrecarregado de energia. Nesse estado, o ser humano transforma as coisas até espelharem seu poder – até serem reflexos de sua perfeição. Esse ter de transformar no que é perfeito é – arte.”

“Os “impessoais” tomam a palavra. - “Nada é mais fácil para nós do que ser sábios, pacientes, superiores. Nós estilamos o óleo da indulgência e da compaixão, nós somos absurdamente justos, nós perdoamos tudo. Precisamente por isso deveríamos ser mais rigorosos conosco; precisamente por isso deveríamos cultivar, de quando em quando, um pequeno afeto, um pequeno vício afetivo. Talvez seja duro para nós; e podemos até rir, entre nós, do aspecto que então assumimos. Mas de que adianta! Já não temos nenhuma outra forma de auto-superação: este é nosso ascetismo, nossa penitência...” Tornar-se pessoal – a virtude do “impessoal”...”

“Nossas verdadeiras vivências não são nada loquazes. Não poderiam comunicar a si próprias, ainda que quisessem. É que lhe faltam palavras. Aquilo para o qual temos palavras, já deixamos para trás.”

“Qual pode ser a nossa doutrina? – Que ninguém dá ao ser humano suas características, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e ancestrais, nem ele próprio ( - o contrassenso dessa última ideia rejeitada foi ensinado, como “liberdade inteligível”, por Kant, e talvez por Platão). Ninguém é responsável pelo fato de existir, por ser assim ou assado, por ser achar nessas circunstâncias, nesse ambiente. A fatalidade de do seu ser não pode ser destrinchada da fatalidade de tudo o que foi e será. Ele não é consequência de uma intenção, uma vontade, uma finalidade próprias, como ele não se faz a tentativa de alcançar um “ideal de moralidade” – é absurdo querer empurrar o seu ser para uma finalidade qualquer. Nós é que inventamos o conceito de “finalidade”: na realidade não se encontra finalidade... Cada um é necessário, é um pedaço de destino, pertence ao todo, está no todo – não há nada que possa julgar, medir, comparar, condenar nosso ser, pois isto significaria julgar, medir comparar, condenar o todo... Mas não existe nada fora do todo! – O fato de que ninguém mais é feito responsável, de que o modo do ser não pode ser remontado a uma causa prima, de que o mundo não é uma unidade nem como sensorium nem como “espírito”, apenas isto é a grande libertação – somente com isso é novamente estabelecida a inocência do vir-a-ser... O conceito de “Deus” foi, até agora, a maior objeção à existência... Nós negamos Deus, nós negamos a responsabilidade em Deus: apenas assim redimimos o mundo. –“

“Goethe concebeu um homem forte, altamente cultivado, hábil em toda atividade física, que tem as rédeas de si mesmo e a reverência por si mesmo, que pode ousar se permitir todo o âmbito e a riqueza do que é natural, que é forte o suficiente para tal liberdade; o homem da tolerância, não por fraqueza, mas por fortaleza, porque sabe usar em proveito próprio até aquilo que de que pereceria a natureza média; o homem para o qual já não há coisa proibida senão a fraqueza chame-se ela vício ou virtude... Um tal espírito, que assim tornou livre, acha-se com alegre e confiante fatalismo no meio do universo, na fé que apenas o que esta isolado é censurável, de que tudo se redime e se firma no todo – ele já não nega... Mas uma tal crença é a maior de todas as crenças possíveis: eu a batizei com o nome de Dionésio. –“

CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS – Friedrich Nietzsche.