Voltaire ajuda

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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Otelo em Rio Acima 1

OTELO EM RIO ACIMA

Personagens
DESDÊMONA Uma mulher.
OTELO Macho alfa.
IAGO Aquele vilão que amamos.
NARRADOR AUTOR O mais embriagado de amor dos embriagados de amor, o mais perdido dos casos perdidos. Também coloca aí que ele escreve textos geniais, esta solteiro e tem dezenas e dezenas de centímetros de pura ternura para dar às garotas nerds assanhadas e que estejam à procura de um amor proibido.

[Ato Um.]
[No local em que a garota e eu combinamos de nos encontrar, para conversar sobre nós e sobre o nosso tempo e espaço. Como todo bom ansioso, chego umas 20 horas antes do combinado para poder aproveitar melhor a minha agonia invisível.
Entram Desdêmona, Otelo e Iago.]

IAGO: - Meu Deus; olhem para isso! Olhem como ele já esta! Há!Há!HáHá!! Há!Há!HáHá!! Há!Há!HáHá!! Há!Há!HáHá!!

OTELO: - Vamos, vamos, se levante do chão. Desligue este Kenny G., porque senão quem dying young é você e [Olhando para Desdêmona e Iago] nós também!

IAGO: - Eu não me importo em morrer novamente! [Falando à plateia]
Se eu morrer eu volto para casa: para os braços do mais importante dramaturgo do ocidente e o mais perfeito autor de sonetos que já existiu! E me livro desse autor desmiolado!
[Colocando as mãos no peito, parecendo uma aborrecente apaixonada pela primeira vez.]
Todos, todos esses homens e mulheres indo ao teatro assistir Otelo, mais ou menos com vergonha de amar a segurança e a maldade do mais terrível vilão que William Shakespeare já criou! Eu mesmo! Se eu morrer eu volto para casa! Ah...!

DESDÊMONA: -
Este é o Iago que conhecemos
Cometendo erro que não podemos.

Quem só tem a si mesmo
Vive pobre e a esmo.

Um ego orgulhoso é coisa vazia e pesada
Espelho torto que aprisiona e ensina nada.
[Se agachando e ficando ao meu lado.]
Você já venceu porque conseguiu telefonar para ela e esta aqui para o encontro para conversar, agora tente ficar em um estado melhor. Mesmo que a garota seja uma feminista e saiba que todo homem para de amadurecer aos 12 anos de idade, não pega bem ela vê-lo neste estado. Vamos, vamos, se recomponha!

OTELO: - Ele esta me lembrando o meu antigo camarada Titus, quando ficava de porre. Grande camarada Titus! O pobre coitado morreu devorado por um camelo na Síria! Fico triste ao lembrar! A gente tava combatendo os turcos quando...

DESDÊMONA: - Amor!
[Apontando para mim.]

OTELO: - Oh! Foi mal, foi mal!

- Estou bem, estou bem...
[E me levanto.]


[A peça continua.]

domingo, 15 de outubro de 2017

JANE GOODALL


Otelo em Rio Acima 0

Aproximo meu rosto do monitor do computador e sopro: as frases digitadas não resistem no lugar e saem voando. Elas estão todas secas, ocas, fracas de sangue e de sinceridade. Mesmo soprando levemente tudo que escrevi desde 6 de setembro se desmancha facilmente. E se apaga. E eu apaguei mesmo!
Prometi que não falaria mais da decepção amorosa e mais do que colocar em risco este blog, esta em risco todo o meu prazer e sentido em escrever!
DESDÊMONA: - Mas além do Amor, de todas as suas cores e sorrisos, não há mesmo muita coisa sobre a qual valha pena a gente falar ou escrever!

Então que a promessa feita aqui de não escrever mais sobre a decepção amorosa que vá à merda! Mais de um mês sem escrever-publicar, um silêncio forçado e sufocante porque nunca posso escrever outra coisa que não aquilo que esteja queimando e desabrochando em mim, qualquer coisa que não possa mais ficar em mim! Tenho que cumprir a promessa e ficar em silêncio até quando? Escrever-publicar, editar-fotos e publicá-las, postar bobagens importantes no FaceBook; o que para um artista pode ser mais básico e urgente que dizer para as pessoas da sala de jantar “sempre ocupadas em nascer e morrer” que ele, artista, ainda existe e esta existindo?
Cumprir a promessa e ficar calado até quando? Quando vou conseguir esquecer? Quantas vezes essa decepção amorosa vai me matar?

Oficialmente ela me matou apenas uma vez.
Isso mesmo: antes de mais nada: a gratidão. Agradecer a ela. E eu declaro isso com toda sinceridade e toda lucidez. Ela me matou para que eu nascesse outra vez no melhor mês de minha vida; ou em uma fórmula mais promissora: agosto de 2017 foi o primeiro melhor mês de minha vida! Que 7 de agosto seja a partir de agora um segundo aniversário meu, por mais excêntrico que isso possa soar a quem estiver me lendo!
Realmente eu estou mais curioso sobre como estarei em 7 de agosto de 2018, do que na data de meu aniversário “oficial” em 30 de junho.
E pensar assim no futuro é apenas uma das mudanças que aconteceram em mim. Estou mais vivo, estou mais alerta e... Pausa; é difícil dizer o quanto mudei. Fazer este distanciamento crítico. Conto com a boa fé de quem estiver me lendo. Por favor, acredite em mim: estou diferente, estou melhor! A terapia, a academia, a busca por emprego pela primeira vez realizada de forma confiante de minha parte, a fotografia, a coragem, como converso com outras pessoas, tudo mudou e mudando...
Obrigado, mil vezes obrigado garota! Te desejo tudo de bom! Até mesmo por uma questão pragmático-racional: traído, pelo menos desejando tudo de bom para VOCÊ eu não fico com meu coração envenenado. Com o coração envenenado, como eu poderia amar novamente? O Amor não me perdoaria e não pousaria novamente em meu jardim; pois aqui temos mais uma vez lembrar o que Ele é: um passarinho fugidio.

Se ainda assim as justificativas para quebrar a promessa da última postagem deste blog não forem suficientes para quem estiver me lendo; que então, por favor, acreditem que eu ainda falo sobre a decepção amorosa porque eu sou um dos alquimistas sobre quem o Jorge Ben costuma cantar!
Entendem? Transformar tudo em ouro poético: eis a solução aqui, pelo menos é o que eu acho que faço.

[Um palco grande e vazio com apenas eu. Iluminado à meia luz, como um quarto antes de abrigar o sono. Estou deitado com a cabeça sobre o colo de Desdêmona, que esta sentada no chão naquela posição de lótus, de meditação. E usando o mais belo vestido do mundo. Amarelo, a minha cor favorita, e longo. Sim, mundo vulgar, um vestido longo pode ser sensual. No mais, seus braços e ombros estão nus, e isso é muito muito mais importante que saias minúsculas e decotes gigantes. Desdêmona faz carinho em meu cabelo para me acalmar e dá petelecos em minha orelha para me fazer sorrir.
Quantas vezes fiquei assim?, então acho gostosa imaginar esta imagem: deitado com a minha cabeça no colo de uma mulher. E já foi dito que é assim que um latino americano deve agonizar antes de morrer depois de lutar pela verdade, pela justiça e pela beleza.
Otelo e Iago também estão no palco, mas como eles não me interessam agora eu não sei o que eles estão fazendo. Como professores de dramaturgia, isso não basta? Ah, então coloque aí que Otelo e Iago estão flutuando!]

- Eu sei tudo, Desdê. Eu tenho que perdoar ela. Eu a perdoo e na hora metade dessa dor vai embora de mim. E para perdoá-la eu só preciso lembrar que ela é humana: que traição é algo que qualquer um pode fazer e também sofrer. Que a vida também tem isso. E que eu não preciso sentir essa inveja tão cancerosa que eu sinto do cara do forró, que só precisou de uma noite para vencer! Só uma noite, só uma noite, só uma noite, só uma noite para vencer...

[Ameaço fraquejar, fico em silêncio. Desdêmona pega em minha mão esquerda e aperta forte.]

- Ele foi e é o que ela precisava. Ela merece paixão e amor, claro que merece! Eu sei tudo isso, Desdê! Eu sei! Que eu também posso ser “o cara do forró” para uma outra garota gatinha! Eu sei, eu sei; Desdê!

[Desdêmona escuta em silêncio. Continua alisando os meus cabelos e passeando seus dedos pelo meu rosto. De repente ela para.]

DESDÊMONA: - É, é tudo isso mesmo. Você esta certo.

[E volta a fazer carinho. E o palco volta a ficar em silêncio. Dá até para ouvir os carros lá fora na rua, apesar do isolamento acústico do prédio. Silêncio. Até parece que o palco ficou mais escuro.
Viro o rosto para cima e olho para ela. Ela olha para mim e para de fazer carinho. Não é possível saber quanto tempo se passou até eu virar o meu rosto para a posição anterior.]

DESDÊMONA: - E... ?

- E AINDA ESTA DOENDO PRA C***!

[Ela me da uma série de petelecos em minha orelha. Expressão de seu rosto, entre o sério e o divertido.]

DESDÊMONA: - Olha a palavra feia! Esqueceu que eu sou uma nobre renascentista? Mas ainda bem que a ferida esta sensível e dói! Não tem nem um mês! Você seria um monstro se já tivesse superado tudo isso. Um monstro!

- Meu amado Nietzsche escreveu que o problema não é o sofrimento, mas a ausência de sentido no sofrimento. É difícil não tentar encontrar razões...

DESDÊMONA: - Cuidado, você esta machucado! Todas as razões que você encontrar assim irá trazer esta marca!

[Como se eu não a tivesse escutado, eu continuo.]

- Ela mudou de ideia? É a hipótese que me parece mais simples e ao mesmo tempo é a mais difícil de aceitar. Não consigo acreditar que ela nunca tenha gostado de mim para namorar, não consigo acreditar! Como Hermann Hesse afirma: a esperança e o desespero costumam andar próximos um do outro! Não é possível que para ela fosse sempre sempre amizade, não é possível! Não é possível! Estou sendo orgulhoso quando penso assim ou apenas apaixonado como um reles colegial? Outro motivo? Foi uma paixão súbita pelo cara do forró? Isso seria tão normal e tão imprevisível assustador! Outro motivo? Ela é uma jogadora especialmente fria, assim transformada por ter sido machucada pelos seus antigos homens? Foi uma questão política, por eu não ser tão esquerdista quanto ela? Por achar que sobre Stálin não há uma nova perspectiva? Isso explicaria porque ela nunca me deixou participar do seu grupo de estudos marxista e nunca me deixou ajudar o MLB por todos esses meses. Mas o mais importante que ser de esquerda ou de direita é tentar ser justo diante da cada situação: em uma atitude justa esta contida todas as virtudes, o que inclui o melhor do pensamento de esquerda e o melhor do pensamento da direita! Mas essa questão política para mim é tão ridícula! Se há Amor, não há distância, tempo, religiões, opiniões divergentes a impedir. Se há Amor, há Amor e nada mais. Se há Amor, há apenas Amor e o resto que se foda! Se duas pessoas se amam, elas devem assim se realizar mesmo que isso parta o universo ao meio!

[De repente paro de falar.]

- Mas que merda é essa?!?

[Eu me levanto meio que no susto. Susto mesmo leva Desdêmona, pois me levanto meio grosseiramente de seu colo.]

- Mas que merda... Eu falando de Amor... Falei bonito? Eu falei bonito, Desdêmona?

[Assustada pelo modo como me levantei de seu colo e pela altura e tom da voz, Desdêmona fica calada. Já vi expressões melhores em seu rosto. Expressões muito melhores.]

DESDÊMONA: - Por que essa brutalidade?

[Não estou escutando ou olhando mais para ela.]

- Falando de Amor, falando de Amor...

[Ando pelo palco. Fecho os meus punhos como se estivesse me preparando para uma briga de rua. Depois coloco minhas mãos em meu peito, como se estivesse me explicando em um tribunal. Paro e olho para Desdêmona. Agora não pareço suplicante, pareço um hipócrita mesmo, derramando ironia pelos olhos.]

- Eu te perguntei se falei bonito sobre o Amor, Desdêmona!

[Desdêmona esta com a mesma expressão em seu rosto.]

DESDÊMONA: - Me chama pelo nome completo quando sabe que gosto de ser chamada de “Desdê” por você, e fica com os dentes cerrados para mim! Fala sobre Amor como se essa eloquência toda fosse capaz de disfarçar seu medo da responsabilidade de amar e de suas incertezas espinhosas!

[Ela se levanta e com expressão agressiva vem em minha direção. A coisa toda é tão rápida que mal tenho tempo de lembrar-me o quanto ela é alta e porque um general temido como Otelo se apaixonou por ela.
Eu sei que ninguém vai acreditar, mas o barulho e o susto são piores que o tapa em si.
Seguem os empurrões e os dedos em riste na minha cara. Eu, cavalheirescamente, apenas recuo e recuo. Tento não cair do palco enquanto tento aprender alguma coisa.]

DESDÊMONA: - Posso te dar quantos tapas eu quiser porque eu não corro o risco de você se apaixonar por mim. Agora me escuta e me escuta bem, rapazinho! Não interessa o que você fala sobre o Amor, porque como o seu amado Nietzsche escreveu até os mais corajosos raramente tem coragem para aquilo que realmente sabem. E você não é dos mais corajosos. Ou é? Ou finalmente vai ser?

[Eu apenas com minha cara de espanto. Ela continua.]

DESDÊMONA: - Faz mil perguntas que viverão para sempre porque o senhor bancou o “machão” e mandou um e-mail para ela dizendo que nunca mais quer vê-la novamente!

[Tento me explicar.]

- Ai, ai! Era, era o pior que eu podia fazer contra ela! Ai, ai, para Desdê, para com isso!

[Desdêmona, naturalmente, não para. O palco é grande e apesar disso, tentando fugir de sua fúria eu já atravessei o palco completamente quase duas vezes.
A coisa toda é até bastante cômica, mas notar isso não é fácil naquelas condições. Nem de nervoso eu ria!]

DESDÊMONA: - Dizer que não quer vê-la nunca mais é o pior que você podia fazer contra ela? Privá-la de sua amizade e presença? Coitada dela, héin?, coitada dela! Você fez foi é um favor a ela, seu carente de mil toneladas! Seu bostinha, agora além de traído e rejeitado, você vai é morrer de saudade! De saudade, seu marmota!
Mas você sabe o que é perda, o que é saudade? Você não sabe o que é saudade, não sabe! Não sabe, mas quando você olhar para o futuro infinito, sem ela, e um abismo sem fundo começar a abrir-se em seu peito, você vai saber o que é saudade!
Mas isso não é tudo! Escrever que não quer vê-la nem foi o pior! Mas não foi mesmo! Depois de mostrar para ela mil vezes que estava sofrendo e sofrendo, - como se ela já não soubesse! -, você escreveu a coisa mais idiota das coisas idiotas que você um dia já escreveu na vida!

[Nisso minha bunda já tinha beijado o chão do palco há algum tempo. Vê-la assim em pé, invencível, imponente, nobre, cheia de fúria e cheia de verdades a declarar, uma verdadeira amazona no infinito sentido latu sensu, tão perto de mim não deixava de ter uma dimensão realmente excitante e erótica. Desdêmona sempre fora um mulherão! Mas eu estava era assustado e tenso.]

DESDÊMONA: - “A gente se conhece há muito tempo e quando olho para todo esse tempo eu só sinto vergonha e raiva de mim.”.

[Desdêmona olha fixamente para mim. Seus olhos me matam, mas seu sorriso sarcástico no canto da boca me mata ainda mais. Não sei como ela conseguiu imprimir o último e-mail que enviei para a garota e nem sei como um exemplar de o Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, de André Comte-Sponville, foi parar em suas mãos. Mas, enfim, o que uma mulher furiosa não é capaz de fazer?]

DESDÊMONA: - Tão orgulhoso de sua formação humanista, a ponto de criticar duramente Marx para uma militante marxista como ela, quando a prudência e os jogos de sedução mandariam você ser o mais tímido e receptível possível nesse assunto! Mesmo assim, é capaz de escrever essa merda que escreveu no e-mail...

- Mas é que no dia anterior eu tinha...

DESDÊMONA: - CALA A SUA BOCA!

[Não apenas eu que me calo, parece que o mundo inteiro ficou mudo. É apenas Desdêmona que abre o livro de Comte-Sponville. E eu sei exatamente qual o trecho de Pequeno Tratado das Grandes Virtudes ela vai ler para mim.]

DESDÊMONA: - “Ama-me enquanto desejares, meu amor; mas não nos esqueça.”

[Abaixo meus olhos. Desdêmona da mais um passo e se aproxima ainda mais de mim. Parece que eu diminuo de tamanho. Isso é possível?]

DESDÊMONA: - Você entende, não? O que é isso? A fidelidade à memória? Você entende? Esqueça o desejo de namorar a garota, esqueça o cara do forró, sofra como queira sofrer, mas não minta sobre o que aconteceu entre vocês! Foi bonito. Foi bonito o que vocês tiveram. Então não minta sobre isso, seu bosta! A pior traição foi você que cometeu ao escrever que todo aquele tempo de amizade entre vocês foi ruim! Sei que neste mundo que tantas homenagens rendem a mais vil vulgaridade, soa ridículo falar que a fidelidade à memória é algo importante. Mas ela é! Não minta sobre o que aconteceu! Imagino o quanto aquela frase deva tê-la machucado, imagino!

[Deve ter sido tudo planejado. Quando finalmente eu consegui erguer os meus olhos e ia dizer alguma coisa sobre tudo aquilo, a cortina, vermelha e do tamanho de um mundo inteiro, já tinha caído sobre mim e sobre o palco e estávamos todos prontos para o segundo ato.]


[Continua, mas sem promessas. Pelo menos sem promessas publicas, apenas àquelas feitas no silêncio do peito.]

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

14 a 17 de agosto de 2017.

Não é uma vitória do amadurecimento. Não é uma vitória da desconfiança. Não é uma vitória do tédio, este poderoso bombeiro que apaga todas as nossas chamas internas. E não é uma vitória do esgotamento físico, pois meu peito e meus cotovelos ainda conseguem aguentar muito esse coração que eu tenho.
Não é nada disso. É só uma decisão. É só uma coisa: não vou mais falar dessa minha última decepção amorosa. Essa é a última postagem em que este assunto vai aparecer. Nem devia aparecer, mas por motivos literários e de “terapia informal” eu ainda preciso falar um pouco sobre o assunto.
O que restou de veneno e de desejo reprimido e frustrado eu guardarei para mim. Tomara que isso não vire pesadelos ou úlceras. E nem misoginia.

A postagem no FaceBook era uma piada, meu comentário também era uma piada. Mas a minha “amiga de FaceBook” me mandou fazer terapia ao responder à minha piada. Gosto muito dessa minha “amiga de FaceBook”, mas como eu sempre vivo à flor da pele é comum algumas coisas bobas me morderem forte por dentro e foi este o caso. Mas já passou e esta tudo bem entre nós. E havia uma coincidência: eu tinha começado a fazer terapia no dia anterior.

A segunda-feira começou com eu indo ao psicólogo. Foi a melhor ida ao psicólogo que eu já tive na vida e olhe que sou quase um Woody Allen nessa área. Foi bom porque desta vez foi eu quem quis ir, fui eu quem procurou ajuda. E acho que pela primeira vez eu consegui me explicar direito. Ou pelo menos eu estava com mais autoestima e maturidade para explicar melhor a minha situação.
Gostei do psicólogo, simpatizei com ele. Claro que facilitou a minha fragilidade e o fato dele não ter puxado a minha orelha. Aparentemente eu não preciso tomar aquele remédio contra ansiedade, mas em compensação o acompanhamento deve ser constante: o psicólogo marcou a nova consulta para a próxima semana. É até bom porque aí eu fico mais alerta e produtivo até mesmo para ter o que contar a ele. Estou muito otimista, realmente acho que não sou tão ferrado assim da cabeça.
Nessa consulta aconteceu algo muito importante para mim: eu chorei. Fazia muito tempo que eu não chorava. Não chorei quando me senti traído e rejeitado, não chorei naquela crise no ônibus lotação, não chorei por causa da consulta com o médico de cabeça e seu veneno preto naquela sexta sombria; mas ali eu chorei. E foi bom chorar! A gente fica melhor e fica mais leve quando o choro é justo e aquele choro foi assim. Eu choro fácil e estava com muito medo que tudo que me aconteceu tivesse me travado, tivesse me bloqueado emocionalmente.

Logo após o almoço fui ao posto de saúde levar os resultados dos exames de fezes, urina e sangue. Nada de errado comigo, saúde ok. “Um dos melhores resultados que já vi!”, disse a clínica geral que me atendeu.
Então o que aconteceu no ônibus lotação no dia sete de agosto? Devo ter sentido muita fome porque eu tinha comido pouco e havia muito tempo e minha glicose realmente fez drama, mas a sensação de terror deve ter sido presente da ansiedade que eu sentia desde o início daquela manhã.
Manhã que começou com eu imaginando ela e ele dançando forró, quadril colado com quadril. Esse erotismo não combina com um romântico esfaqueado nas costas? Talvez porque imaginar ela sorrindo para ele como não sorria há tanto tempo para um homem era uma imagem horrível demais até para estar em um pesadelo. O meu inconsciente preza pela razoabilidade!
Os especialistas dizem que o café da manhã é a refeição mais importante do dia e eu digo que é a pior hora para estar em minha casa: assuntos sempre desagradáveis e uma diferença radical de pontos de vistas entre meus pais que me espanta desde que eu era criança e que sempre me faz pensar naquela citação do Antoine de Saint-Exupery. (Bom, acho que fui completo aqui como eu precisava ser e ao mesmo tempo fui bem diplomático).
O que aconteceu naquela segunda foi o estouro de algo que se acumulava: a decepção amorosa que culminou na conversa no restaurante na sexta, o “exorcismo emocional” ao escrever no dia seguinte 5 de agosto de 2017... Tudo acumulando e na segunda-feira finalmente explodiu. A dor física da fome era inédita e era isso que minha ansiedade precisava para me pegar numa crise que era apenas susto, mas que foi suficiente para me despertar.
Se eu fosse mais corajoso, - e engraçado -, eu ligava para ela e contava que a nossa música é “She drives my crazy”, do Fine Young Cannibals; e assim o é oficialmente! Mas eu não sou tão corajoso e tão engraçado assim.

Aqui não é o filme “Casablanca”, nós não teremos sempre Paris. Paris é para os outros. Nós? Nós sempre teremos eu fazendo chá para você naquele sábado perfeito. Ninguém nunca vai fazer um chá tão gostoso como eu fiz para você naquele sábado perfeito. Nunca, esta me entendendo? Nunca! Não sei se isso é uma declaração de amor ou se é uma praga que rogo sobre você, mas é bom nunca se esquecer disso: chá gostoso apenas aquele feito por minhas mãos trêmulas querendo de todo o universo apenas o suficiente para te agradar. E não adianta você reclamar porque nada que esteja sob o céu pode mudar o que foi dito aqui!
(O texto acima, que eu sei; esta piegas e uma *****; é trecho de outro texto, antigo e que não vou publicar. Usei-o porquê de repente me ocorreu que ele pode servir como um bom encerramento. Ou melhor: o encerramento do assunto.).
Opa, opa.
Ainda falta um detalhe. É mais estético-técnico do que romântico ou espiritual. Mas ele tem valor e merece ser registrado aqui. E também porque como animal humano eu gosto/preciso/é inevitável dar significado às coisas que acontecem.
Seguinte. Quando nos conversamos por telefone e ela me contou que no forró vegetariano ela tinha conhecido “um cara”, a ligação pelo celular estava péssima. Os telefonemas nossos sempre eram de boa qualidade, mas naquela vez a ligação estava muito muito ruim. Então foi assim:
... XXXXX....ZZZZ...SHIII....BSZ... BSZ... Eu não saía há muito tempo... Bzzzzz... Chi..... ZZZZZZZZ... Eu conheci... BZZZZSSS... uma pessoa... XXXXX.... SSSSSHHHIIII.... ZZZ.....
Eu não sei se vou conseguir explicar. Bom, só se começa a aprender a escrever quando se aprende que palavras nunca são suficientes. Mas vamos tentar.
Não foi culpa dela, não foi culpa minha, da Embratel ou das tempestades solares, e nem o Buda sabia se o karma é pessoal ou não; mas é que esse zumbido todo durante a ligação entre celulares deu um certo ar de banalidade e pequenez a uma coisa que bateu em mim de uma maneira nada pequena e banal. Esse zumbido deu uma marca única a esta dor. Vocês me entendem? Não sei se me explico bem. Não sei. Não, não, a questão não é se aquela informação devia ou não devia ter sido dada cara a cara, não é essa a questão aqui. A questão é que houve o zumbido e esse zumbido esta presente na marca que ficou em meu coração. Pronto, acho que agora finalmente expliquei direito. 
Pronto. (*)

De tarde fui à academia de ginástica e musculação fazer a avaliação física. Uma semana após a data da primeira marcação, pois tinham desmarcado a anterior. Cheguei antes da doutora e fiquei andando pela academia. Estava acanhado no meio daqueles atletas e meio oprimido por aquela música eletrônica que estava tocando, mas estava decidido a fazer aquilo tudo me ajudar. Então, de repente, comecei a gostar da música e de todo aquele pessoal mais forte que eu.

Foi uma segunda-feira maravilhosa. Gostei bastante dela. Por causa de um problema financeiro, vou ter que esperar apenas mês que vem para poder entrar na academia.

A terça-feira já não foi tão produtiva assim. A única coisa fabulosa para ser registrada aqui foi eu ter ido à prefeitura de Rio Acima tentar vender algumas fotos minhas da prefeita. Mas não deu certo. Preciso fazer um documento e blá blá. Coisa oficial e tal. Caramba, eu só queria entregar o CD com as fotos gravadas e ganhar algum dinheiro para eu me convencer que eu tenho alguma coisa de adulto em mim!

Na quarta-feira tive compromisso em Belo Horizonte. De Rio Acima a Nova Gameleira, sabem o que é isso? De ônibus! Ônibus de novo! Senti um pouco de ansiedade forte no café da manhã, mas deu tudo certo. E assim como naquela terça-feira, meu ato de coragem não teve “pódio de chegada e nem beijo de namorada”.
Fui ver o apertamento da família. Uma lata de sardinha com armários destruídos e paredes brancas cheirando a tinta fresca, apenas. Mas no meio daquele vazio e dos restos de reformas havia também um sonho querendo realizar-se.
Um fotógrafo solitário lutando para pagar contas e escrevendo um blog que é o seu escândalo inocente e analgésico. O que pode ter de impossível nisso, Brasil real? Merda, eu vou conseguir!

Quinta-feira. O que fiz quinta-feira? Bizarro: eu já esqueci? Ah, lembrei: salvei a poupança da família e consegui imprimir as minhas fotos em “fine art”!
Ligaram para minha mãe. Vejam só como ela é distraída: ganhou um super prêmio e ela nem sabia que estava concorrendo a um prêmio! Oh, oh! Parece preconceito, mas pelo tom de voz já dava para saber que era golpe. E era jovem demais e a linguagem não combinava com um técnico da Caixa Econômica Federal. E que história é essa de dizer que se ela não quisesse o prêmio o dinheiro ia ficar com o atendente que estava telefonando para ela? Esses caras revisam o texto que escrevem? Parece que nas penitenciárias tem celular, mas não tem folhas de rascunho para os presos.
Mas a minha mãe quase caiu no golpe. Minha mãe tem ensino superior completo e conseguiu o diploma numa época que isso para os pobres no Brasil era realmente um milagre. E minha mãe é uma mulher experiente. Mas a natureza humana, mas a quantidade de sonhos frustrados que há em nossa casa... Foi uma luta convencer a minha mãe que aquilo era um golpe. Uma luta. Tive que discutir feio com ela muitas e muitas vezes. O trem todo durou um pouco mais de duas horas.
- Mas ele não pediu nenhuma informação pessoal para mim!
- Pelas informações que ele te deu, você não teria como pegar o prêmio, então você teria que ligar para ele de volta. E nessa hora ele iria pedir mais informações para você. E para ter certeza que você não perderia o número dele, o desgraçado ligou para você duas vezes em menos de meia hora. Vê se alguém do governo vai ligar para casa de alguém duas vezes em menos de meia hora insistindo que a pessoa precisa receber um premio! Governo não dá, governo tira.
De noite eu vivi um momento histórico na vida de fotógrafo. Venci a minha velha impressora e as manhas da fotografia digital: depois de anos de luta, eu consegui imprimir as minhas fotografias com um resultado fiel ao que vejo no monitor do computador. Demorei tempo demais porque sou burro e solitário. O segredo era lembrar que eu podia diminuir o contraste e aumentar o brilho também e não, como eu sempre fazia, só aumentar mais o brilho e depois aumentar um pouquinho o contraste. É que a impressora sempre escurece a foto, então você tenta calcular o quanto ela vai escurecer a foto e tenta clarear na medida certa. Para compensar, entendem?

** Folheando e folheando Memórias, Sonhos e Reflexões, do C. G. Jung, eu encontrei este trecho. Como foi durante a escrita justamente daquele trecho do meu texto, achei que era muita coincidência. Então até por coerência achei legal colocar aquilo. Que os budistas não fiquem aborrecidos comigo. E nem com o Carlos Gustavo Jung!

[Antigamente era comum traduzir nomes estrangeiros quando havia correspondência em português. Descobri isso porque muitos livros que eu tenho são velhos, comprados em sebos. Eu às vezes me lembro de respeitar esse esquecido costume que acho divertido e simpático quando escrevo.]

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

14 de agosto de 2017.

Domingo, dia 6 de agosto de 2017. Foi um dia bom, gostoso. Eu ficava pensando no texto 5 de agosto de 2017. Em cada frase, em cada fala completa dos personagens e nas reações possíveis dos leitores em cada momento de suas leituras. Adorava pensar nessas coisas, orgulhoso que estava de ter escrito um texto bom. Um dos melhores que já escrevi. É raro eu ficar orgulhoso de mim assim. A felicidade só não era completa porque eu não tinha com quem compartilha-la e porque eu tinha me esquecido de fazer meu Iago destruir uma coisa importante: o chá. Naquele sábado perfeito eu fiz chá para ela duas vezes e achei aquilo a coisa mais linda e importante do mundo! Era para o meu Iago ter destruído isso também, mas esqueci. Fico confiando em minha memória e no instinto que na hora vai dar conta do recado e aí acontece isso na hora de digitar meus textos no computador. Tenho que andar com uma agenda ou algumas folhas de rascunhos para anotar tudo aquilo que me ocorre de criativo nas letras. Autores profissionais fazem isso, não? Tenho que ser mais profissional.
E por que eu escrevi 5 de agosto de 2017? Porque eu não queria morrer, se eu tivesse deixado para escrever aquele texto no dia seguinte um câncer espontâneo teria me levado. Se eu escrevi aquilo como vingança, para machucá-la? Pois é, aqui a coisa fica complicada. Queria machucá-la sim, mas mais importante que isso: queria que ela soubesse que eu era capaz disso. Avisar que sim, eu estava machucado e sim, eu também sabia machucar! O importante era avisar que em mim havia egoísmo, violência e obscenidade, e não apenas sensibilidade, delicadeza e uma carência infinita. Ela achava que eu era um fraco e eu tinha provado que sabia morder. Obviamente que ela não pensava isso, mas a minha dor tinha me tornado bastante cego. Mas era triste essa agressividade sim, pois não sou agressivo. Mas minha dor tinha colocado as coisas desse jeito: Lei de Talião pela metade, pois pelo menos ela tem com quem se consolar; ele; e eu tenho ninguém. Isso tudo parece adolescente e aborrecente a vocês? Bom, o que fazer? Não vou repetir um texto como aquele nunca mais.
Ah, eu quase me esqueci de um detalhe fundamental aqui. É óbvio que essa agressividade do texto era um reflexo torto do meu desejo por ela. Ora, se eu gostava dela e até achava que o que nós tínhamos se transformaria rapidamente em amor eterno, eu não deveria preocupar-me com o futuro: machucada, ela não iria se afastar de mim? Mas o texto 5 de agosto de 2017 era também um ultimato: olha é assim do lado de cá e pronto; agora é a sua vez garota. E eu também achava; e aqui mais uma vez o aborrecente e o carente reaparecem com força total; que como eu tinha me colocado tão completamente e tão verdadeiramente no texto que não havia possibilidade outra senão essa: ter dó de mim, pois se eu a machucava, também era verdade que eu estava me machucando ainda mais. Minha sinceridade visceral despertaria sorrisos cúmplices nos leitores e isso me salvaria no julgamento final do texto. É o que acho, mas é claro que não tenho controle sobre quem me lê.

Em 5 de agosto de 2017 eu consegui imitar Shakespeare de maneira digna e por um motivo improvável: eu brinquei com Shakespeare. E só pude fazer isso porque eu não tive medo do talento dele. Muita gente trata o Bardo Inglês como se ele fosse Deus e um Deus chato, aí realmente não da para brincar. E, principalmente, não da para se aproximar e criar. Eis todo o “segredo” do trem.

É difícil pensar em tudo e, estando apaixonado, não se pode esperar muita lucidez mesmo da gente. Bom, vamos ver o que o calendário pode nos dizer sobre esta última decepção amorosa minha.
Quando foi o sábado perfeito? Quando foi o forró vegetariano? E quando foi a sexta em que conversamos pessoalmente pela última vez? A matemática é implacável: três meses do primeiro ao último evento, sendo que o forró esta quase exatamente no meio deles. Três meses sem se ver! Três meses, p****! Três meses! Onde eu estava com a cabeça? Como podia achar que ela estava me dando esperanças? Como eu fui patético.
E o meu Otelo de 5 de agosto de 2017 estava correto, não teria sido uma boa ideia eu ter ido àquele forró vegetariano. Ela nunca gostou de mim para ser namorado e era óbvio que naquele forró eu iria ver coisas desagradáveis.

Mas eu gostava dela? O Amor... O Amor exige tanto da gente! Por exemplo, eu tenho certeza que ela e o cara do forró vão ficar juntos para todo o sempre. Como posso ter certeza disso? E isso não é uma maneira de fugir e desistir? E mais, se fosse amor verdadeiro eu não deveria aceitar ser apenas amigo e vê-la sorrindo para ele pelo resto de minha vida? Ah... Mas isso eu não consigo fazer. Sou orgulhoso demais. E meu afastamento não deixa de ser uma confissão de sentimento. Talvez não tão heroico, mas é alguma coisa.
Merda. Merda. Não sei amar. Alguém sabe? Alguém? Alguém me ensina? Já sei a parte da dor, falta saber viver a outra parte, a parte agradável do Amor.
Mas o que eu sentia por ela? Pergunta ferrada que não me deixa em paz. Temos deveres, mas também temos direitos. Ok, Amor exige sacrifícios e que a gente mande o nosso orgulho e o nosso egoísmo para a putaquepariu. Ok, ok, mas e a parte dos direitos? Qual o direito que eu teria se eu a amasse de verdade? De confessar meu amor? De dar um jeito de sempre ficar perto dela? Tem alguma coisa errada aqui. Algo me escapa. O que é? Não posso esperar que ela ficasse sempre ao meu lado. E confessar meu amor mudaria as coisas drasticamente. Hum, me parece que no Amor nós não temos direitos, mas apenas deveres. Amar verdadeiramente seria privilégio suficiente, não precisando de qualquer outra coisa a mais. Ah, me lembrei de algo: o espaço! Quando se ama se quer ficar perto, mas... Mas também quer que se fique livre! Então é só uma questão de saber se a pessoa amada esta feliz. Se eu sei que a pessoa amada esta feliz, não é covardia a gente se afastar. Não seria abandono.
OVÍDIO: - Mas se mais uma pessoa que a ama esta perto não seria ainda melhor para ela?
ERIC FROMM: - Quanto mais gente que nos ama nós tivermos por perto, melhor...
Ah, seus bando de fedazunha! Quem convidou vocês?

WESLEY SAFADÃO: - Aqui, eu acredito que você tem que dar um tempo sabe? Ficar ai mais na sua, cuidando de si. Esperar a poeira baixar... O mundo dá voltas! E foi muito inteligente de sua parte deixar em aberto, sem conclusão, um texto sobre o Amor. Nunca se pode mesmo dizer tudo sobre o Amor. É um desses assuntos inesgotáveis!
Por Júpiter, até o Wesley Safadão apareceu aqui para me dar conselhos!

Naquela noite no restaurante apareceu uma amiga dela. Meio francesa ou francesa mesmo. Acho que ela tentou bancar a cupido. Atitude inteligente: salva o coração do amigo apaixonado aqui ao mesmo tempo em que o manteria por perto... Mulheres! Sempre mais profissionais no mundo do Amor que nós, homens!
Mas não deu certo, eu tinha que sair. Estava machucado demais e não tinha onde dormir naquela noite em Belo Horizonte.
Devia ter ficado. Aquela francesa era deslumbrante e parecia mesmo muito inteligente. Conversar com ela e quem sabe ganhar pelo menos um beijinho! Merda! Sempre me acontece algo! Por que o Amor me odeia? O Amor credita que nada tenho a oferecer?

Naquela segunda-feira dia 7, decidi entrar em uma academia de ginástica e musculação. Eu quero ficar gostoso. Do jeito que eu sou franzino, eu tenho que pedir desculpas às mulheres. Devia ter feito isso há mais de 15 anos. Bom, o tempo meu sou eu mesmo quem faço.

Naquela noite no restaurante com ela, eu fui fotógrafo como nunca antes eu tinha sido. Fiz um truque de profissional!
Explico. Eu não estava conseguindo me abrir com ela, não conseguia sequer olhar para ela. Magoado, se ela entrasse em meus olhos a hemorragia interna ficaria ainda mais aguda em mim. As palavras, sempre sempre insuficientes, não saiam de minha boca. 
Então me lembrei da minha câmera fotográfica. Usei-a como máscara: coloquei a câmera em frente ao meu rosto e confessei meu amor. E tirei fotos das reações dela enquanto ouvia tudo. Falei de um jeito bobo para que ela sorrisse mesmo, mas sei que ela sabia que aquilo era sincero. O resultado final são oito das melhores fotos que já tirei em toda minha vida.
Por questões de privacidade, não quero atrapalhar o namoro dela com o senhor peeeeerfeição, não posso publicar as fotos em meu FaceBook. Mas por favor, quem estiver me lendo, acredite em mim: as fotos ficaram lindas. Acreditem! Por favor, acreditem!

Hoje é o dia que marquei para fazer um exame físico na academia. Tenho que fazer isso antes de “entrar” na academia, propriamente dita. Sou tímido e academia me inspira certo “ar de colégio”. Mas acho que ali ninguém vai se importar comigo. E não tem problema todo mundo ali ser atlético, eu estou no caminho e isto basta para mim. Não tenho pressa, mas vou ser bem militar no plano de exercícios que praticarei.

Falei em minha timidez. Naquele momento de desespero no ônibus lotação “3838 Rio Acima – Belo Horizonte”, naquela segunda dia 7 de agosto, eu estava morrendo de fome. Meu café da manhã tinha sido um pão com maionese quase três horas antes. Eu tinha perdido o ônibus das 8 e das 9 e tinha acabado de comer quase a 7 e meia. Atrás de mim havia uma mulher comendo uns salgadinhos. Olhei para ela umas cinco vezes, mas preferia desmaiar a parecer tão ridículo em pedir uns salgadinhos.

E eu tinha mais medo de desmaiar do que morrer. Tudo bem morrer, eu nunca tive medo de Deus, apesar do que a minha família e a Igreja me ensinaram, mas desmaiar era outra história. Se eu desmaiasse, eu iria acordar onde e como? Não queria desmaiar de jeito nenhum!

Naquela segunda eu vivi momentos de terror bem barra pesada e estava sozinho. Muito sozinho. Talvez alguém aconselhasse uma crença religiosa ou algo do tipo para aliviar momentos como esses no futuro. Pois é, eu não tenho religião e em casos assim eu tento ser otimista quanto ao futuro e tento pensar em coisas boas. É a alternativa que tenho. Nem sempre funciona. Naquele dia no ônibus lotação não funcionou. Não conseguia pensar em coisas boas. O que me salvou foi o fim da indecisão interna minha. Percebi que aquilo tudo não era frescura minha. Decidi que daria o sinal, desceria, acharia um lugar para comer algo e matar aquela fome lancinante e voltaria para Rio Acima para ir ao hospital público e etc. E foi o que fiz e foi o que aconteceu.
Mas mesmo uma crença em Deus não seria muito útil, pois se Deus existe é o Deus imaginado por Espinosa e pelos estoicos. Um Deus a qual não adianta muito orar pedindo ajuda. O máximo que você pode fazer é orar agradecendo, pois Ele já nos deu tudo que precisamos para ser feliz aqui: a nossa força de vontade e irmãos ao nosso redor. Claro que nem sempre somos fortes o suficiente e, num mundo governando por falsos valores, nem sempre podemos chamar estranhos de “irmãos” e nem mesmo nós mesmos nos comportamos de acordo com isso muitas vezes.


Espero não passar pelo que passei no ônibus lotação, mas isso não é algo que eu possa garantir. Aliás, nem sei o que aconteceu. Falei em “glicose fazendo drama” porque foi o que a médica plantonista falou para mim no hospital e mesmo ela não tem certeza. Só vou mandar as amostras de fezes e urina no dia 16 e sei lá quando os resultados virão e depois ainda tem que marcar no posto de saúde uma consulta com a clínica geral. O que dá um ou dois dias de espera. Mas mesmo assim tenho certeza que antes do fim do mês já estarei mais tranquilo. 

domingo, 13 de agosto de 2017

7 e 11 de agosto de 2017.

Deveria usar uma metáfora espiritual como “Maya tirou o seu véu sobre os meus olhos” ou “Moisés voltando para os hebreus depois de seus anos de formação no deserto”, mas sabem como é: sou apenas eu, o Aldrin! Foi apenas a minha glicose fazendo drama no ônibus lotação “3838 Rio Acima – Belo Horizonte”. Mas alguma coisa que começou em 1997 terminou nesta segunda-feira, dia sete de agosto de 2017. Se não é assim, assim vai ser; decidido pela medida da coisa que aconteceu: eu mesmo!

Ainda estão aí? O aforismo acima foi mesmo feito para prender a atenção. Agora que vocês decidiram continuar a ler, eu vou tentar ser mais exato. Mas é difícil, a coisa toda é grande e pequena ao mesmo tempo, dramática e simples: eu vejo as cores do mesmo jeito que antes e continuo basicamente ainda a mesma marmota de antes. Mas estou mais atento e concentrado. Compreendi a natureza da minha solidão e percebi, ao mesmo tempo, como eu sou igual às outras pessoas e não inferior e exilado. Mas o mais importante: eu venci sozinho uma situação difícil e estou usando isso como a rocha fundadora para aprender amar aquele homem que vejo todo dia no espelho. Se vou conseguir? Isso é um problema meu e acho que vou sim. Uma segunda-feira única de uma semana única.

Mas confesso que é decepcionante num momento seminal como esse, que realmente pode mudar tudo para sempre, você verificar que sua vida tem elementos de filme da “Sessão da Tarde” da Globo.
O médico de cabeça que procurei por causa da minha ansiedade, na sexta, depois de uma consulta de meia hora, me indicou um trem que só de pensar me causa arrepio, humilhação e mais ansiedade: agora que finalmente despertei, você quer que durma ou vire zumbi? Bom, você pode ser um doutor e eu mais um anônimo com defeito de fabricação falando as mesmas coisas que o senhor ouve o dia inteiro; mas eu tenho uma vantagem nesta situação que o senhor não tem: sou eu eu que estou mais perto de mim! Preciso de ajuda, mas eu já fui um jornalista especialista em toxicomania na faculdade então afaste de mim esse trem! Vamos procurar outros métodos, eu sei que isso é possível. Qual é a insinuação? Que eu vou me matar; que eu vou virar um mendigo? É isso? Me digam, é isso? É? Ainda vão me deixar livre para dizer que isso não vai acontecer?
Nesse mesmo dia da consulta, que me deixou chocado e triste como nunca eu estive em toda minha vida, eu voltei a pé para casa. Quase uma hora de caminhada sob o sol de meio dia. Durante todo o percurso eu sempre estive a ponto de ter que parar para me desmanchar em lágrimas, pois imaginava que agora teria que policiar todas as minhas atitudes e falas pois agora eu teria que desconfiar de mim mesmo e ficava imaginando o que as pessoas diziam de mim pelas minhas costas e pela primeira vez senti o peso de meus 34 anos em flashes internos e violentos; mas a luz do sol me esquentava e fazia de mim uma planta que, eu sei, nunca entregaria uma luta desse jeito. Muito obrigado, Sol! Mas muito obrigado, mesmo!
Quando cheguei à minha casa eu contei tudo para meu pai e perguntei a ele se ele acreditava que eu poderia morar e vencer em Belo Horizonte. Como tentei antes, anos atrás. A resposta de meu pai foi muito encorajadora, para minha surpresa, mas o seu estilo continua o de sempre: lógico e distante. Mas se a resposta de meu pai foi perfeita, ele se esqueceu de um detalhe importante para mim: ele não conseguiu olhar nos meus olhos enquanto dizia que acreditava no próprio filho. Valeu o esforço, pai! Eu sei que custou muito ao senhor gastar assim tão indignamente aquelas palavras todas. Ainda bem que eu não perguntei ao meu pai sobre amor! Minha mãe, por sua vez, ficou explodindo em nervos durante todo o dia. “Minha mãe é a emoção e meu pai é a razão, e eu sou o quê?” Não conseguia responder essa pergunta quando eu era criança, mas agora acho que sei a resposta. Albert Camus namorava o absurdo, eu danço com a angústia e apenas tenho que evitar que ela pise muito em meu pé durante esta minha festa.
Então que coisa mais barata e clichê nós temos aqui: ninguém acredita no herói! Há anos atrás era exatamente o contrário. Bom, paciência! Os filmes da “Sessão da Tarde” não terminam bem?

O ponto nefrálgico é que estou começando o jogo “do zero” e ao mesmo tempo eu não estou. Vou ter que administrar essas duas dimensões e heranças em minha caminhada. Como se faz isso? Mais dança para eu participar.

Decidi tentar voltar a Belo Horizonte por mim, mas também decidi voltar a Belo Horizonte por ela. Eu devo isso a ela!
Como explico? É coisa de homem. Difícil de explicar. Mesmo que a gente nunca seja amigos ou namorados no futuro, - já aceitei essa hipótese -, ela precisa saber que eu não sou fraco. Pelo menos isso ela precisa saber! Que eu não sou um “eterno filho”. Só isso. Só saber disso. Que esta passagem sua em minha vida não foi gratuita e que ela me inspirou coisas boas. Mandei uma mensagem de celular para ela falando sobre isso. Agradecendo a ela a inspiração. A gente terminou, mas pelo menos assim a gente terminou bem. Um bom futuro para todos nós, então!

Mandei essa mensagem de celular na terça-feira, ou seja: o dia seguinte àquela segunda-feira. Nesta terça eu fui corajoso como nunca.
Mas isso fica para a próxima postagem. Na próxima postagem, também, vou contar que no dia 6 de agosto eu descobri que sou escritor. Então além de ganhar dinheiro com fotos eu posso também fazer algum serviço como redator.

Vocês ainda estão aí? Se alguém aí estiver precisando escrever alguma coisa importante ou estiver precisando de uma sessão de fotos, tem profissional novo na praça. E eu cobro barato! Mas se a cliente for mulher linda, não pode me tratar bem. Sou carente e me apaixono fácil.
MARQUÊS DE SADE: - E na verdade, nem te tratar mal...

Ah, é... Esqueci! Vixe, então deixa pra lá!