Voltaire ajuda

Voltaire ajuda

domingo, 2 de abril de 2017

Um instante para Kant.

UM INSTANTE PARA KANT
Uma “amiga de FaceBook” pediu ajuda sobre um livro de Kant. O livro em questão eu não li, mas apaixonado por filosofia desde 1999 eu acumulei bastante material. E isso inclui muita coisa sobre Kant e o livro em questão.

O problema é que a “amiga de FaceBook” pediu ajuda muito em cima da hora, mas acho que da tempo. Não deu para “pedir ajuda” a História da Filosofia, de Reale e Antiseri; pois as suas mais de cem páginas dedicadas ao filósofo alemão priorizam as suas três críticas e acaba assim “espalhando” a análise da A Razão dentro dos Limites da Simples Razão em vários subcapítulos que pelos títulos eu não conseguia perceber se eram úteis à questão aqui. Vai mesmo História da Filosofia, de Will Durant, que tem um ótimo subcapítulo sobre o livro em questão e História da Filosofia, de Bryan Magee, que resume Kant de maneira rápida e completa.

Publico o que vou mandar por e-mail à essa “amiga de FaceBook”, pois é útil. Kant, ao lado de Platão e Aristóteles, forma o grande trio da filosofia.

Para o ensaio A Religião dentro dos Limites da Simples Razão
HISTORIA DA FILOSOFIA – Will Durant (Abril Cultural, São Paulo, SP, 2000)
- Sobre o ensaio A Religião dentro dos Limites da Simples Razão: Com todo o respeito às três Críticas, este é talvez o texto mais corajoso de Kant.

- A religião não deve ter como base a lógica da razão teórica, mas sim a prática do senso moral. Ou seja: as religiões devem ser julgadas pelo que elas acrescentam de valor á moralidade da sociedade. Pelo que elas podem ajudar as pessoas a se comportarem bem, pelo modo como podem ajudar as pessoas a se desenvolverem.
Por outro lado, as religiões não podem ser juízes de um código moral.

- Um líder religioso é muito importante, mas não pode substituir um presidente ou um rei. Isso aconteceu várias vezes durante a história e o resultado foram mil seitas e mil guerras religiosas.

- Testemunhos de milagres devem ser respeitados, mas não se pode confiar no testemunho dos envolvidos. Aqui a paixão domina e não podemos nos esquecer disso. Entendemos que uma pessoa deseje orar pedindo ajuda, mas temos que ter cabeça fria para compreender que uma oração não consegue ir contra as leis naturais que fazem parte da experiência.

Para um resumo da filosofia de Kant
HISTÓRIA DA FILOSOFIA – Bryan Magee (Edições Loyola, São Paulo, SP, 1999)
- Qual o limite do conhecimento humano? Antes de Kant este limite não estava bem esclarecido. A maioria dos filósofos acreditava que não havia mesmo um limite. Tudo que existia era possível que fosse conhecido pelo homem.
Kant diz que não é bem assim. O nosso corpo, nossos cinco sentidos, nosso celebro, tudo isso impõe limites ao que podemos conhecer. Podemos conhecer muito menos de tudo aquilo que existe, muito menos.

- Então podemos dividir a realidade total em aquilo que os humanos podem conhecer e aquilo que nunca poderemos conhecer, justamente por sermos humanos. Ocorre que a diferença entre esses dois mundos não era o que se pensava antes. Eles são ainda mais radicalmente diferentes do que se pensava. A coisa em si não é a representação desta mesma coisa, e apenas a representação desta mesma coisa é que temos algum acesso.

- O mundo dos fenômenos é o “nosso mundo”, é onde vemos as estrelas e sentimos o calor de uma xícara de café. Aqui temos as experiências que nos são possíveis.
O mundo numênico é o mundo das “coisas em si”, e não nos é acessível.

- O nosso mundo, o mundo dos fenômenos, não é um mundo louco. Há ordem aqui: leis matemáticas, leis da física... Qual é a estrutura de nossa experiência? Como podemos ter acesso à experiência de ver uma estrela de sentir o cheiro de uma rosa? Como é a “rede humana” pela qual podemos “pescar” aquilo que afinal podemos conhecer?
Esta “rede” é o espaço-tempo, a causalidade, as famosas categorias do entendimento identificadas por Kant. O que não se encaixa nessas categorias não nos é possível conhecer, é como se não existisse. Mas é claro que podem existir. Apenas não temos como saber. Como Deus e as almas imortais.

- Então neste nosso mundo podemos conhecer. Temos a ciência a nos ajudar. Mas neste nosso mundo existe um objeto material especial, algo meio complicado: nós mesmos. O nosso corpo é um objeto material. Como é possível o livre-arbítrio em um mundo que obedece as leis científicas?

- Kant acreditava que sim, temos livre-arbítrio. E isso era algo que podia ser demonstrado de uma maneira direta: pela ausência de uma pessoa que realmente acredite no determinismo aplicado a seres humanos.
Quem realmente acredita que não é livre? Se não existe livre-arbítrio, como uma pessoa poderia reclamar de um ladrão ou como poderia se arrepender de uma atitude triste ou ficar feliz diante de uma atitude generosa? Simplesmente não teria opção, agiu porque tinha que agir assim e pronto.
Mas não é assim. Sabemos intimamente que não é assim, sabemos intimamente que temos sim livre-arbítrio.

- Mas o livre-arbítrio não é contraditório com as leis deste nosso mundo fenomenológico, as leis científicas? É que a origem de nossos atos livres não é desse mundo dos fenômenos e sim no mundo numênico, aquela parte da realidade total que não temos acesso.
Mas como é possível o mundo numênico se manifeste por meio de nossas escolhas livres aqui no mundo humano dos fenômenos? É uma questão que Kant tentou responder mas não conseguiu muito e ainda esta em aberto. O seu grande seguidor Arthur Schopenhauer fez grandes avanços nesta área.

- Somos humanos e vimos que nossas decisões tem uma origem que transcende a experiência possível. Isso pode sugerir certa anarquia na moralidade, mas não é bem assim. Moralidade é para pessoas racionais e mais, a moralidade não é algo determinado por gostos individuais. Há uma universalidade aqui, há uma racionalidade aqui que impera a todos. E também intimamente acreditamos nisso, ou então não faria sentido querer convencer alguém por meio de argumentos. Uma razão que seja válida tem que ser universalmente válida.
Assim como na ciência existem leis que são universais, na moralidade também tem leis cuja aplicação é universal. Se é certo para mim, tem que ser certo para qualquer outra pessoa na mesma posição.
Estamos prontos para compreender o famoso imperativo categórico de Kant: “Age apenas segundo máximas que tu também queres que sejam leis universais”.

terça-feira, 21 de março de 2017

21 de março de 2017.

O Fotógrafo Evandro Teixeira
Assisti a um episódio da série Homo Brasilis dedicado a este fotógrafo celebrado no Canal Arte1.
O fotógrafo Evandro Teixeira é uma mistura de Gandhi e Espinosa: é impossível não gostar desse sujeito. Se não bastasse a humildade ser do tamanho de seu talento, ele ainda tem aquele sotaque nordestino que soa como açúcar aos ouvidos.
Dito isso, deixo manifestar um pouco a minha inveja sempre assanhada: mas precisava mostrar tantas câmeras Leica? Precisava, Evandro, precisava?
Nota: o documentário, bem feito, tem muito senso de humor por parte dos realizadores, o que não é comum. Não é mesmo.

Um momento inteligente
Então finalmente aquela borboleta saiu do seu imobilismo e começou a voar. Mas não adiantou muito, pois ela continuava fora do alcance de minha mão. Se ela continuasse assim, no dia seguinte eu iria vê-la morta pelas patas de alguma aranha e sua teia. E não faltavam ali aracnídeos candidatos. Em determinado momento ela começou a rodear a lâmpada acesa. “Mas ela gosta de luz, como mariposas e tal?”, pensei. Ela entrou na cozinha pela manhã, a procura de escuridão? Enfim, sei lá. Ocorreu-me de desligar a luz e não deu outra: a borboleta começou a voar mais baixo, imediatamente. Peguei um copo e rapidamente consegui prendê-la, levei-a para fora e a soltei. Era uma dessas borboletas que tem as asas transparentes. Gosto dessas, assim como gostos das gigantes de asas azuis e que também são comuns por aqui.

Radio
Mais um programa e mais uma vez feito no improviso. Nada de músicas com introdução antes.
Eu realmente perdi o gás.
A última vez que fiz um programa direito eu apresentei uma música do Chuck Berry e ele estava vivo, com 89 anos. Fora a primeira e única vez que toquei uma música dele. Lembro-me do susto que levei ao descobrir que ele estava vivo.

Reflexões de um ex-noveleiro
A última novela que assisti de verdade foi “Éramos Seis”, no SBT. Depois foi apenas pedaços de capítulos e o que vejo nos comerciais e algumas cenas no YouTube. Pouca coisa. A narrativa é muito lenta, muito teatral no sentido pejorativo do termo “teatral”.  Tentei assistir ‘Presença de Anita”, quando reprisaram uma vez, mas não consegui passar do primeiro bloco do primeiro capítulo. Mesmo assim algumas coisas eu sei:
- Casais com muita diferença de idade não costumam dar certo.

- É mais fácil ver uma mulher seduzir e agarrar um homem e levá-lo para cama do que o contrário, por um motivo óbvio: fazer o contrario sem parecer um estupro exigiria muita muita sensibilidade e técnica por parte dos diretores. E há uma vantagem adicional ao mostrar mulheres predadoras, que é o de agradas a maioria do público das novelas que costumam mser mesmo feminino.

- Às vezes da um desespero ver algumas de ação, como cenas de acidentes de carro. Eles repetem a cena de 20 ângulos diferentes, como se dissessem aos espectadores: “seus estúpidos, vocês entenderam que o que estão assistindo é um acidente de carro?” Mas há aqui um motivo que a gente esquece: dificilmente os espectadores estão exclusivamente assistindo a novela, sendo mais comum que estejam assistindo enquanto cozinham, vão ao banheiro, jantam, arrumam a sala, atendam uma visita e etc. Daí que muitas vezes realmente a narrativa seja lenta por necessidade.

- Se você assiste a todos os comerciais de uma novela nova você sabe tudo que vai acontecer, mesmo considerando as reviravoltas no final. E ultimamente piorou: os comerciais da Globo estão mais didáticos, com um narrador explicando a psicologia dos personagens principais e o enredo da trama. Isso diminui o mistério, mas acalma os espectadores como acontece em muitos trailers de filmes no cinema.  


- Não assisto novela há muito tempo, mas que da uma saudade de “Pantanal”, “Rei do Gado”, “Carrossel” (a primeira versão, naturalmente; sou o Cirilo desde aquela época em constante procura da minha Maria Joaquina) e “Tieta”; dá. E muita. Nossos atores brasileiros são muito bons. Eles são. Não podemos dizer o mesmo dos roteiristas e diretores. Por exemplo, o final de Eta Mundo Bom não terminou com a fala final do conto Cândido, de Voltaire, em que obviamente foi inspirado livremente. A fala de Cândido ao professor Pangloss: - Esta tudo muito bem, professor; mas vamos cuidar de nosso jardim. Seria fácil fazer essa referência mais explícita a Voltaire e depois, no VideoShow, eles poderiam fazer uma auto-reportagem-homenagem, como é o costume desse programa, explicando como aquela novela das seis é inteligente, filosófica e etc. Seria tão fácil, mas eles não fizeram. Devem ter tremido.

segunda-feira, 20 de março de 2017

20 de março de 2017.

Mudanças
Não tenho dados objetivos, números aqui, mas basta dizer que estou editando minhas fotos cinco vezes mais rápido do que antigamente. E eu ainda demoro muito, o que da ideia de quanto tempo eu demorava antes! A gente tem mesmo que ser cruel na hora de escolher que foto editar e que foto descartar e se concentrar mesmo em apenas cinco ou meia dúzia de ferramentas do programa de edição de imagens.

Carne e Carro
Se eu fosse um comprador estrangeiro eu não ficaria muito preocupado com essa história de carnes estragadas e envenenadas descoberta pela Polícia Federal, pois é óbvio que deve haver uma diferença tremenda entre os produtos vendidos para o mercado interno brasileiro e o que é exportado daqui. Por exemplo: não é possível que no EUA e na Europa as montadoras de carro façam um recall por mês, como praticamente acontece no Brasil.
 Os compradores estrangeiros de carne vão fazer cara feia mais é para comprar mais barato e vão usar essa crise como desculpa para isso.

Previdência
Festival de Baixarias – A reforma da Previdência se transforma em bate-boca e toma um caminho mais difícil no Congresso Matéria sem autoria indicada (Veja, 14 de fevereiro de 1996)
Notas minhas:

- Uai, uma reforma da Previdência em 1996? A Previdência deve ter sofrido algumas alterações ao longo dos anos. Pode parecer óbvio isso, mas é que em 2017, onde estamos, temos a impressão que o Governo Temer quer fazer a maior e a única das reformas.

- Ei, onde foi parar o Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho da CUT? Lembro muito dele. Ele era poderoso, não?

- Vicentinho e Euler Ribeiro discutiram feio. “Palhaço” de um lado, “vagabundo” do outro. Não sei quem estava com a razão, mas desse jeito os dois deviam estar errados. Não lembro desse Euler Ribeiro. A matéria tem uma foto, mas não consigo me lembrar. Ele era do PMDB e o relator da proposta da reforma. Seria interessante entrevistá-lo hoje para saber a opinião dele sobre o futuro da Previdência.

- Outros que discutiram feio naquela semana de fevereiro de 1996: Luiz Carlos Santos, Reinhold Stephanes e Roberto Freire. Roberto Freire esta poderoso e no palco público até hoje. Stephanes eu lembro um pouco, mas não sei onde ele foi parar em 2017. Esse Luiz Carlos Santos eu não me lembro, mas ele é o autor da fala que eu achei mais curiosa: Tirem esse maluco daqui. Tirem daqui, por favor. Cala a boca, cala a boca. Você não estava aqui ontem. (Isso me lembra uma das falas favoritas do filósofo fofinho Mario Sérgio Cortellla: Os ausentes nunca tem razão.)

domingo, 19 de março de 2017

19 de março de 2017.

Preço
Eu, assim como quem esta me lendo, tenho preço. Não sei exatamente qual é este preço, mas por motivo de heroísmo infantil espero que ele seja alto. Mas isso nunca é algo que a gente saiba a priori, é sempre algo que você sabe a posteriori: ou seja, depois que faz merda e o demônio aparece para levar a tua alma. E para piorar essa merda feita não é nem a merda mais importante e sim algo bem anterior e que você nem percebe. Tipo bola de neve, vocês entendem? Você nunca vende sua alma de uma vez só, é aos poucos e a atitude errada primordial é sempre algo bem bem bem beeeem bobinho.
- Mande essas fotos no máximo de tarde. Preciso mandar elas para a Vale.
A questão do patrocínio e tal. Não vou entrar em detalhes.
Ora bolas, já não basta eu tirar as fotos de graça elas vão ser mandadas para ajudar a trazer os abutres da Vale a Rio Acima? Nem por um jantar com a bela atriz Johann Carlo! Não mesmo! Os abutres já estão sobrevoando e irão pousar, eu sei, mas não vai ser com algum “sim” de minha parte. Sei que sou um fã marmota do Lúcio Flávio Pinto, mas ainda tenho um pouco de amor próprio.

A Fofinha de Vermelho
Não sei se é falta de opção, não sei se é saudade ou se é apenas “canteiros”, do Fagner; mas o fato é que agora fiquei pensando na minha antiga fofinha-psicóloga-ruiva-que-gostava-de-usar-aqueles-óculos-preto-gigante-tipo-Bono-Vox-e-que-me-deu-o-mais-dolorido-pé-na-bunda-que-já-levei.
Já faz uns dois anos que tudo quase-começou e terminou-terminou. Bom, espero que ela esteja bem. Mas o que isso adianta? Bom, de qualquer forma pelo menos isso. Que ela esteja bem.

Entrevista: Milton Almeida dos Santos
O MUNDO NÃO EXISTE – Avesso às teorias que exaltam a globalização da sociedade moderna, o laureado geógrafo baiano alerta para o que chama de corrupção do saber Por Dorrit Harazim (Veja, 16 de novembro de 1994)
Milton Santos é um orgulho para o Brasil. O certo seria eu transcrever a entrevista inteira, mas eu tenho medo da assessoria jurídica da Veja e uma simples transcrição não teria efeito didático sobre mim. É melhor eu esquematizar tudo que foi dito e misturar com observações minhas.
Apenas cito um trecho de Dorrit Harazim, pois ela é um dos principais nomes da história do jornalismo brasileiro no século XX e seu texto é valoroso.
“Sobretudo, mistura em aula o que chama de “fofocas da Geografia” com citações de um “pessoal alfabetizado”, como Schumpeter, Durkheim, Voltaire, Vico, Ricardo, Descartes e muito Marx. Ensina que, de forma intrusa, o geógrafo deveria ser também um pouco filósofo e despeja vinhetas de conhecimentos que soam inúteis para o currículo, mas lhe dão enorme prazer. Exemplo: “Vocês sabiam que a língua suaílie, por ter uma construção semelhante ao alemão, permite a criação de novos vocábulos para designar todo tipo de modernidade sem recorrer a anglicismos?” Não, não sabiam.”
Notas minhas:

- Parece que as aulas de Geografia do Milton Santos seria uma mistura engajada e ainda mais inteligente de Leandro Karnal, Mario Sérgio Cortella e Clóvis de Barros Filho. Com a vantagem de que Milton, ao contrário dos citados, não tem a obrigação de arrancar sempre meia dúzia de sorrisos.

- Dos autores citados o único totalmente desconhecido para mim é esse tal de Schumpeter. Schumpeter, Schumpeter... Schumpeter, meu filho, quem és tu????

- Milton Santos é brasileiro e ganhou o mais celebrado prêmio da geografia mundial: o Vautrin Lud. É; essas coisas acontecem.

- Geografia por buscar reunir e sintetizar o máximo possível; economia, cultura e etc.; acaba sendo assim uma parenta próxima da Filosofia que também busca a grande síntese. O chato é que as respostas lineares da Geografia não agradam o nosso mundo apressado e esquematizado tão porcamente.

- Geografia ganhou muito ao querer ser ciência, mas errou ao achar que para isso era necessário virar as costas para a poesia e a filosofia. Agora é o momento de pedir desculpas a essas duas.

- O coração é a região. E qual é o conceito de região hoje? O conceito errado: região como algo estável. Região não é algo estável.

- Produção é algo específico de determinado lugar. Você não produz a mesma coisa, da mesma maneira, e tem a mesma receptividade indiferente do lugar em que esta. Não, não! A vista na janela e o chão que pisa é alguma coisa. É preciso pensar nos territórios brasileiros para pensar no Brasil como um todo. Getúlio, Golbery conseguiram esse detalhe, pelo menos; e não muitos outros políticos brasileiros.

- O ponto de partida é sempre local, então cuidado para não se perder neste bonitinho e ilusório conceito de “aldeia global”. O ponto de partida é sempre local.

- Valores locais, certo? Ainda sabemos que é isso? Se não sabemos vamos continuar como estamos: achando que cidadão é sinônimo de “consumidor” e “usuário”. Nós queremos ser cidadãos ativos, certo?

- Cidadania doente é igual a essas migrações desesperadas. E aí os vizinhos viram inimigos nesta guerra que é o consumir por consumir. E os símbolos nascem antes da hora e sem o seu  conteúdo comunitário e espiritual, apesar de toda a sua rápida difusão além das fronteiras.

- Milton Santos ao falar da Bahia e da urbanização louca do Brasil a partir dos anos de 1950 mistura ternura e crítica violenta. Uau, eu queria fazer isso sem o risco de soar hipócrita e estéril. Devia citar a resposta dele para servir de modelo, mas não vou.

- Na Europa as pessoas consomem, mas criticam também. No Brasil a classe média aceita sem criticar; e não estamos falando de reclamar de preços e/ou do mau atendimento. Estamos falando de cuidar das economias, da poupança da família. De criticar produtos que surgem impostos à comunidade local. Frequentemente na timeline do FaceBook aparecem mensagens dizendo para a gente incentivar e comprar produtos de produtores locais.
O pessoal compra qualquer coisa só pelo preço e utilidade e acaba diminuindo o seu valor como cidadão e consumidor também. Tem que pesar em longo prazo e se dar algum respeito.

- Os Estados Unidos é a regra e não a exceção nesta história complicada de consumidor-cidadão por causa da defesa que conseguem fazer do poder do local. O patriotismo a legislação que coloca o estadunidense e o lugar em que vivem em primeiro lugar.
Quem mandava nas nossas pequenas cidades no passado? O cara da fazenda, lá longe. Lá longe, entenderam? Compromisso compromisso mesmo não havia.

- Mas existem flores. Parece que a tolerância pelo saber mais complexo, multidisciplinar esta aumentando. É bom, muito bom isso. Nada de mundo tão fragmentado e de silêncios entre as suas partes.

- A classe média enriqueceu, mas os pobres não acompanharam e daí que as cidades ficam sendo feitas apenas para uma parte de seus moradores. Quer construir um viaduto e as desapropriações são violentas e com indenizações baratas para quem morava nas casas precárias. Centros de compras e empregos longe da periferia. Subsídios para as montadoras de automóveis e transporte público péssimo, depois vem com aquela conversa mole que pobre comprando carro zero é o paraíso e tal. Todo mundo parado no congestionamento respirando diesel é paraíso?

- A esquerda fala muita besteira, mas não podemos relaxar: o abandono social é real e esta crescendo. Não podemos relaxar mesmo quando a oferta de emprego cresce e tudo parece legal. Não, não, o caminho é longo para o Brasil.

- O campo é mais frágil que a cidade, daí que uma cidade interiorana pode virar facilmente uma produtora de laranja. Todo mundo plantando laranja com tecnologia de fora e tal. Na cidade isso não acontece, não é assim. Há mais diversidade, há mais resistência ao nivelamento imposto pelo capital novo. Acaba que há mais futuro nas cidades do que no campo.
Agora é interessante imaginar que há mais futuro nas cidades do que no campo, quando o agronegócio brasileiro bate recordes de lucro impressionando mundo inteiro e dizendo a plenos pulmões que “o futuro do Brasil esta no campo”. O modelo de campo deles, a ideia deles de ocupação do campo. Ninguém fala “o futuro do Brasil esta no campo” dando as mãos para o pequeno produtor rural, não é?

- Não é para ter pobres, mas a existência deles acaba sendo um drama criador de mudanças: o pobre é menos acomodado quanto à ideia predominante de cidadão-consumidor e é mais fiel ao seu passado autóctone, ao contrário da classe média que sofre, mas vive melhor economicamente falando e acaba relaxando quanto a sua própria dignidade. Não é para a classe média apenas sonhar em ter duas geladeiras, é para ela sonhar em ter duas geladeiras visto que a sua família vai crescer em um mundo mais justo por ter valores melhores. Não é comprar por comprar duas geladeiras, pô!

- Muito cuidado com as estatísticas! Não são “apenas” os critérios usados que podem ficar engessados no tempo e espaço, mas toda a filosofia do trem: misturar todos os dados em um super-gráfico mais confunde do que esclarece. É bem menos do que uma ilustração. Precisamos de estatística, claro, mas é tão sedutor ficar apenas nos números!

- Você tem muito dinheiro, mas é pobre; basta para isso não participar das tecnologias que fazem o mundo atual. Não é “obrigatório” ter internet, mas é que não basta o dinheiro. Tem que participar. Não participar da caminhada da sociedade é também ser pobre.

- O acadêmico tem mesmo que sair na televisão e no radio e na internet e etc.; mas tem que continuar sendo acadêmico! Entenderam? Continuar sendo acadêmico! O sujeito se ofusca com os holofotes e acaba se transformando em um empregado informal da televisão! Pode isso? Não pode. Assim como não pode uma ala das ciências sociais orientar a sua pesquisa pela popularidade.

- Minha presença num lugar me dá características que seriam outras se eu mudasse de lugar. Pelo fato de ocupar um espaço e não outro; é nesse lugar que exerço meu quinhão de história geral. É isso que a geografia deve buscar entender para superar sua danação e ultrapassar seu dualismo e sua ambiguidade. – Milton Santos.

Nobreza esquecida, mas que esta lá
Quantas vezes fiquei bravo com o meu pai por ter me dado o nome de Aldrin, em vez de um nome mais simples como Paulo ou Matheus?
E quando eu era criança era ainda pior porque “bicho do mato” como eu era, a minha dicção era péssima. Aí juntava tudo: maldade de criança, nome difícil, timidez, aspereza de bicho do mato, dicção ruim, vergonha, raiva dos pais:
- Aldrin!
- Ândriu?
- Não, Aldrin!
- Íldran?
- Aldrin! Aldrin! 
- Andrei?
E aí eu me calava e ficava no canto sozinho, sob os risos dos outros. Como se eu precisasse de motivo para querer ficar isolado no canto.
Por outro lado, me lembrei do detalhe fundamental aqui. Quanta gente rica ou de classe média alta que vocês conhecem que se chama Carlos ou Bianca? E quantos Uéslei ou Aldrin vocês conhecem?
Pois é, era este o detalhe. Era esta a intenção dos pais.
Sacaram?
Ser, logo de cara, único. Bom, pelo menos isso.

sexta-feira, 17 de março de 2017

17 de maio de 2017.

Cansado. Até parece que estou um pouco doente. Enfim, vai uma série de sites interessantes. Na ausência de textos e gifs.

O melhor jornalista em atividade.
https://lucioflaviopinto.wordpress.com

A obra completa de Joaquim Maria Machado de Assis.
http://machado.mec.gov.br

Artistas para inspirar.
http://www.wga.hu/frames-e.html?/html/h/hals/frans/08-1658/68geraer.html

Para lembrar os meus anos de ensino médio, quando era completamente apaixonado por Química.
http://elements.wlonk.com/index.htm 

Quadrinhos!
https://www.lambiek.net/


quinta-feira, 16 de março de 2017

16 de março de 2017.

Rede Bandeirantes de Televisão e os protestos de quinta-feira contra as mudanças na Previdência e nas Leis Trabalhistas
O apoio da emissora da família Saad ao Governo Temer continua cada vez mais me surpreendendo e decepcionando. É incrível. No Brasil Urgente era jogo de futebol europeu (Manchester City versus Mônaco, o último conseguiu uma vitória surpreendente), em vez de destacar a Avenida Paulista lotada em pleno meio da semana. No Jornal da Band os protestos tiveram uma cobertura tímida e cheia de má vontade.

Mais uma lista de Janot com nomes importantes do Governo Temer em apuros? Ora, o refrão transmitido no Jornal da Band é: “Brasília não pode ficar esperando as longas investigações, que sabemos serem importantes e apoiamos, temos que dar continuidade às reformas trabalhista e previdenciária”.

Governismo horroroso! Nem se o Governo Temer fosse legal, esse governismo seria desejável uma vez que ele prejudica o exercício de um jornalismo equilibrado.

FICAR OU IR EMBORA – Ou, por outra: permitir ou não permitir a reeleição? Um apanhado da questão na História, e seus prós e contras, hoje Por Roberto Pompeu de Toledo (Veja, 17 de abril de 1996)
Observações minhas:
- Oito anos é muito tempo, pô! É possível fazer muita coisa em quatro anos, principalmente se tiver respeito pelas boas heranças dos candidatos anteriores.

- Vamos desistir de combater as tentações caudilhescas? As limitações legais aqui são uma tradição brasileira e latino-americana. Brasil e América Latina tem uma longa tradição de coronéis, as limitações legais são uma vitória que custou muito. A reeleição vai contra essa vitória.

- Os governantes vão ficar com uma vontade danada de gastar irresponsavelmente e usar a máquina do governo para tentar vencer a próxima eleição. Já faziam isso quando não tinha reeleição, imagine quando tiver!

- Duas vitórias do mesmo nome e mais uma vitória consecutiva de um nome próximo e etc, e teremos uma feudalização do poder. Sabe aquela coisa de uma ou duas famílias mandando em tudo? Sabe o que é oligarquia? Pois então!

- Reeleição, é verdade, não significa que o ex-chefe vai conseguir vencer. Mas significa que ele provavelmente vai tentar e que ele tem muita chance de vencer. O risco não compensa.

Fernando Henrique Cardoso, o Príncipe da Sorbonne, não deveria ter dado essa coisa horrorosa chamada reeleição de presente ao Brasil. Não devia.
= (

Manhã e Noite
De manhã aquele louva-deus estava livre na parede da cozinha, agora, enquanto escrevo essas linhas perdidas, ele esta preso em uma teia de aranha nesta mesma cozinha. A aranha dona da teia parece estar mordendo a ponta do abdômen do louva-deus. Não sei se injetando veneno ou se ela já esta sugando as entranhas da vítima.

Dei dois sopros e percebi pela reação do louva-Deus que ele ainda esta vivo, mas isso não faz diferença porque o veneno é para paralisar e não matar. Então não da para saber se a aranha ainda esta injetando veneno ou se ela já esta sugando as entranhas do louva-deus.

Fios brancos
Minha barba esta grande, pois faz um pouco mais de um mês que não a corto.

Olha só esse grupo de fios brancos em meu queixo! Será que com esses fios brancos em meu queixo eu consigo, nem que seja por alguns segundos, construir uma ilusão de sabedoria e respeitabilidade diante das pessoas na rua? Eu até ficaria calado, para ajudar a ilusão!

Entrevista: Hélio Jaguaribe
Ditadura do Congresso – O cientista político diz que o parlamento tem mais poder que o presidente e propõe a mudança do modelo eleitoral Por Ricardo Galuppo (Veja, 27 de janeiro de 1999)
Observações minhas:
- Brasil é uma bagunça por misturar presidencialismo e parlamentarismo. Na divisão dos poderes é para os dois “mandarem”, por assim dizer, mas na prática o que acontece é que tem hora que um manda no outro e é sempre no momento errado para o progresso do país.

- Pluralismo de ideias é bom e todo mundo gosta, mas falta disciplina por parte dos membros dos partidos. É ou não é oposição, pô!

- Pluralismo  de ideias é bom e todo mundo gosta, mas todo governo federal eleito tem obrigatoriamente de fazer uma maioria parlamentar; ou para que serve vencer a eleição? Político em campanha, a gente sabe, promete ponte onde nem rio há, mas essa falta de maioria no parlamento faz que uma semana após as eleições todo mundo já esqueceu o que era o plano de governo.

- O voto tem duas partes: o poder mais local e Brasília. Não, não é exatamente isso que acontece hoje no Brasil. Voto distrital misto, como na Alemanha, é uma boa sugestão de alternativa.

- Prefeitos municipais e os governadores dos estados tem que prestar mais atenção em seu quintal e deixar Brasília para os seus partidos. Segurança, postes com luz, limpeza não são problemas suficientes para a administração local?

- Prefeitos municipais e governadores dos estados tem razão quando dizem que Brasília fica com muito dinheiro, mas também esquecem que eles próprios são irresponsáveis na hora dos gastos. Prefeitos municipais e governadores dos estados só não são mais poderosos na hora de ajudar o povo porque são incompetentes.