Voltaire ajuda

Voltaire ajuda

domingo, 12 de fevereiro de 2017

12 de fevereiro de 2017.

Fotógrafo vida loka
Então sim, vamos tirar fotos do casal na cachoeira. A distância era de aproximadamente um metro e meio até onde eu tinha que ir para estar do outro lado. Atravessar o rio em uma parte bem curta em que ele era praticamente um riachinho. Bastava pular algumas pedras.
Minha coordenação motora é uma lástima e minha intimidade com cachoeiras é mínima. Amarelei e amarelei feio, acabei apelando: “vou pisar na água mesmo que é mais firme e ponto!”
A – A profundidade era maior que eu pensava.
B – Com todas aquelas pedras no fundo e um tênis velho, acabei escorregando do mesmo jeito.
E tinha gente na cachoeira naquela hora. Perto de mim duas sereias de biquíni que ficaram preocupadas com o meu estado. Preocupadas e perplexas diante de um fotógrafo molhado e que resmungava alto enquanto subia para o outro lado fazer o seu trabalho:
- Ô, National Geographic! Ô, National Geographic! Ô, National Geographic! Ô, National Geographic! …
Escorreguei mais ou menos e apenas minha calça ficou toda molhada. Minha câmera não caiu na água, mas sofreu um respingo considerável, um “fio grosso” na diagonal de água que também atingiu o flash externo. Mas não estragou. Pobre “Margarida 2.0”, já pegou tanta poeira e chuva! É uma guerreira. Pelo menos ela é.
Agora enquanto escrevo isso é que me ocorreu: devia ter guardado a câmera na bolsa e jogado a mesma do outro lado do rio e só após isso é que eu faria a “travessia heroica”. Imagino quantos erros elementares eu ainda irei cometer. Mas era a minha primeira vez fazendo um serviço fotográfico como aquele, na posse da prefeita e dos vereadores eu era apenas mais um e tinha o conforto e a liberdade do anonimato. Ali era só eu  eu e era bem mais sério. Eu tinha que agradar e estava com a ansiedade apertando o meu pescoço.

Cronologia
A minha mãe tem 14 anos e meu pai 3000, mas eu não sei quantos anos eu tenho.
Minha mãe tem 14 anos, mas ela não é exatamente uma menina. A ingenuidade, a capacidade de falar a coisa errada na hora errada e para a pessoa errada, os planos malucos, o romantismo e o entusiasmo, tudo isso sim; mas ela não é exatamente uma menina. Há nela, ao mesmo tempo, algo que percebe plenamente a tragédia que também existe no ato de viver.
Quando nós três estávamos em casa com dengue teve uma hora, três ou quatro dias após tudo começar, em uma manhã, que minha mãe entrou no meu quarto, pegou uma cadeira e com lágrimas de tristeza nos olhos e sorriso reconfortante nos lábios explicou tudo que eu deveria fazer caso ela morresse. Os documentos e etc., com aquela imparcialidade e didática de quem foi professora a vida inteira. Assim, sem mais nem menos. A coisa toda não durou uns dez minutos e logo logo ela saíra do mesmo modo surpreendente que entrara. Eu não fiquei assustado, pois já estou acostumado com a falta de cerimônia dela para falar desses assuntos “amenos”. Sempre foi assim. Um dia conto aqui sobre as histórias que minha mãe e minha avó materna costumam contar durante lanches ou almoços.
Eu sei que eu deveria ignorar aquelas lágrimas de minha mãe e apenas focar em seu sorriso forçado que tentava me reconfortar, mas eu não consigo: para mim a “cena”, a “coisa”, tem que ser completa. Ou tudo, ou nunca. “Fome de infinito”; me entendem? Mas isso é outra coisa que depois eu conto aqui. Mas onde eu estava? Bom, chega de minha mãe por hoje.
Agora meu pai. Depois de 3 mil aniversários um homem conhece todas as teorias e todas as técnicas, mas acaba, também, ficando com tédio e cansado. E depois de 3 mil anos se ele finalmente decide algo, com certeza não vai mudar assim tão facilmente. Sem desculpas, sem enganos, apenas o adequado aqui nesta condição: a perfeição!
Uma das tarefas as quais meu pai se propôs foi me ensinar que a vida é dura e implacável. Mas pobre pai, a vida não colaborou com ele! Classe media media meeeedia não é exatamente a pobreza e nunca tive doente de verdade, pelo menos a ponto de ter que ficar internado em hospital. Como então ele poderia, sozinho, me ensinar que a vida é dura e implacável? Com os seus julgamentos. Meu pai me julga do mesmo modo, desde que eu era uma criança. Um constância que por toda a minha vida sentirei profundo espanto. E a sinceridade dele? Meu pai não mente; como minha mãe bem sabe nesses mais de 30 anos de casamento e de “este jantar esta bom, você gostou? Foi tão difícil fazê-lo com poucos ingredientes e com o gás querendo acabar a cada instante!” Ah, este amor pela verdade e sinceridade! Quanto de sua empatia ele se viu forçado a abandonar para ser assim? Mas ele decidiu amar assim a verdade  ou ele não teve escolha? Minha mãe também consegue ser grossa várias vezes, mas não é por falta de empatia em relação ao interlocutor, mas apenas por falta de técnica com as palavras.
Agora vem mais um detalhe espetacular (muita coisa em meu pai realmente me impressiona): todo esse lado dele de juiz implacável e sobre-humano é apenas... quando ele fala. É! É isso mesmo: só quando ele fala. Calado, meu pai é comigo o pai mais amoroso, “coruja” que vocês podem imaginar. As caronas que ele me deu e ainda me da hoje, o curso de desenho animado que ele me pagou quando eu era criança! Mas quando ele abria a boca... Oh, desigualdade: ele falhou na parte mais fácil ou eu sou mesmo um ingrato sensível demais?
Eu sei que minha mãe tem 14 anos e que meu pai de 3000 anos, mas eu não sei quantos anos eu tenho.

Vejam só!
“No último fim de semana eu dormi fora de casa.”
“Fiz uma trabalho de fotografia ao cobrir a posse da prefeita e dos vereadores em primeiro de janeiro e até hoje não me pagaram.”
Quem vê o que esta aí em cima deve até pensar que eu estou virando adulto e virando gente.
Mas eu tenho direito de me sentir otimista, não? Adulto, sim senhor!

“Foto.Doc: Rui Mendes”
Acabei de assistir no Canal Arte1. Um minidocumentário de apenas meia hora dedicado a alguma fotógrafa ou fotógrafo.
Olhem só para este homem: aparência desleixada, gestos bruscos e caóticos, o modo de falar, uma postura que seria mais adequada em um churrasco entre amigos dez minutos após abrir o isopor...
Agora olhem as fotos que ele tirou.
As fotos!
Agora olhem o conteúdo de tudo que ele falou em apenas meia hora.
Uma aula magna!
Vai reprisar a noite e no sábado de madrugada. Vou assistir. Vou procurar na internet. E toda vez que o Arte1 reprisar, e eu tenho certeza que eles vão reprisar porque eles vivem reprisando os trem, vou assistir também. Essa coisa de repetir nos canais de TV por assinatura é como o Canal Futura com o filme Medianeras: reprisa sempre e eu sou sempre cúmplice por assistir de novo e de novo.
Eu quero ser um Rui Mendes!

Atualização: os ¨&¨¨&@!!**¨%&# do Arte1 não reprisaram na madrugada de sábado para domingo, como eles tinham programado. Bando de almas sebosas! Ainda bem que assisti a reprise na sexta à noite. 

Debutando
Agora vamos explicar esta história de dormir fora de casa neste último fim de semana. Uma sobrinha minha comemorou os seus 15 anos e meu primo me convidou a tirar as fotos da festa que houve. E com direito a pagamento!
Eu fui. Foi em um clube onde meu primo trabalha e todos ali eram amigos dele, o que incluiu o DJ da festa. Todo mundo me tratou bem, nadei na piscina, comi pra caramba e uma prima me deu uma carona junto com o namorado dela porque o clube é muito longe de Belo Horizonte. Foi bem legal, bem “coisa de gente normal”. Espero não ter deixado uma “impressão de alienígena” nos outros.
Na hora de dormir eu acabei tendo que ir ao dormitório coletivo masculino e não em um dos chalés. O dormitório estava cheio dos amigos de minha sobrinha. Mais de 40 adolescentes!
Acho que havia alguns que eram vizinhos da minha sobrinha, mas não tenho certeza. A maioria era mesmo do colégio dela. Pela aparência dava para perceber que eles eram de origem humilde, o que tornou ironicamente doce ouvir o lamento de um: “pô, agora só sobrou roupa de favelado na mochila para eu vestir!” O problema de ter roupa para nadar, o baile, a dança, a manhã seguinte e ir embora.
Antes do baile eles fizeram uma bagunça tremenda para vestir uma roupa adequada. Um ferro de passar roupa apareceu do nada, enquanto um garoto zoava o outro por este ter trago xampu e condicionador para os cabelos.
Fui esperto por ter conseguido ficar com o lado debaixo do beliche, mas fiquei um pouco preocupado porque o “beliche” não era exatamente um “beliche”: se o pirralho lá de cima tivesse um sono muito agitado eu poderia perder meu pobre nariz. Mas foi mais fácil do que parece, estou fazendo drama porque fica bem na hora de escrever aqui. Quer dizer, mais ou menos, é que também fica bem na fita dizer que foi moleza vencer todo aquele desconforto.

Aranha nova
Uma notícia boa: apareceu uma aranha grande de teia na varanda. Não sei o nome científico dela, é aquela magrela que gosta de guardar comida em uma espécie de reservatório que fica perto dela. É a primeira vez em mais de quinze anos que temos uma aranha grande de teia de volta ao teto da varanda. Lamento apenas que seja esta aranha grande e magrela de cor sóbria e não aquelas aranhas grandes e gordinhas com cores mais vivas. E cujo nome científico eu também não sei. Depois de mais de quinze anos! É realmente uma boa notícia.
(Quinze anos é muito tempo. Quedi os cientistas a explicar? Por exemplo: o mato ao redor da casa continua o mesmo. O mesmo. O que mudou nos últimos tempos foi o clima, o calor infernal o ano inteiro aqui em Rio Acima. O problema é que, apesar de amar as aranhas (nos dois sentidos) eu não sou especialista nelas (nos dois sentidos), me parece que calor e umidade não são inimigos dos aracnídeos. Por que elas sumiram por tantos anos?)

Gente famosa
Aposto com vocês que era mesmo aquele ator do filme Medianeras que eu vi naquele restaurante chique do edifício Maletta, em Belo Horizonte. Foi quando eu fui com uma amiga visitar a exposição do russo Kandinski, na Praça da Liberdade. Janeiro de 2016, para ser exato. E lá na fila da exposição, sem sobre de dúvida, era o jogador Tostão quem eu agora via. Muita gente famosa em um mesmo dia.
Era a segunda vez que via o ex-jogador do Cruzeiro Esporte Clube. A primeira eu era um adolescente e ainda estava no Colégio Santo Agostinho. Tostão fora lá participar de uma palestra. É que nas aulas de português costumávamos estudar as crônicas que o grande centroavante do futebol brasileiro escrevia para a Folha de S. Paulo. A coisa cresceu e o colégio resolveu promover um evento no auditório. Lembro nada da palestra, das crônicas do Tostão e daquelas aulas de português especificamente. A única coisa que me ficou naquele dia aconteceu na plateia e não no palco. Um pai de aluno, na hora de fazer perguntas ao Tostão, fez uma ode tão longa e barroca ao jogador do Cruzeiro que o mesmo até ficou sem graça e agradecido. Isso foi legal e é a única coisa que eu me lembro. O cara falou uns 5 minutos antes de fazer a pergunta, é verdade. Também quero ser elogiado de maneira extravagante por cinco minutos seguidos na hora de alguém me fazer perguntas.

Natureza Humana
Não há uma única aranha, por menor e insignificante que seja que eu ao precisar matá-la não me deixe triste e não me obrigue a fazer uma breve e silenciosa oração pedindo-lhe perdão. É sério, às vezes eu até me agacho e fecho os olhos e tudo; como se eu fosse um índio mesmo antes de ir a uma caçada (a única diferença é que eu faço depois e os índios fazem antes). Pernilongos e moscas, por outro lado eu... Bom, deixa pra lá, pode ter algum psiquiatra forense me lendo. Alguém do CSI Miami, também. Com o gosto do público medíocre como esta, tenho que sempre ter em mente que eu posso fazer sucesso a qualquer instante.

“A condição humana”
Desde que eu descobri a filosofia ainda na adolescência, não há expressão de seu mundo que eu ache mais fascinante e rico de significado que “condição humana”.
O que é a condição humana?
Qual será o futuro da condição humana?
E etc. E etc.
Reali & Antiseri (1de2)
Agora a hora de puxar algumas orelhas nobres.
Eu nunca terminei de ler os três volumes da História da Filosofia de Reali e Antiseri (Paulus, São Paulo, 1990), mas foi por pouco. Eu conheço a obra, li o primeiro volume, mais da metade do segundo e do terceiro volume eu esqueci quantas mordidas ali eu dei. É que antes de terminar o livro eu já tinha começado a ler os filósofos em primeira mão.
Bom, tem um trecho do livro que sempre me deixou bravo. Muito muito bravo. Tem haver com a parcialidade não científica e histórica dos autores diante do cristianismo. Segue o trecho:
“Um erro de fundo dos gregos, para usar as palavras de C. Moeller, esteve no fato de que “procuraram no homem o que só podiam encontrar em Deus. Foi grande o seu erro, mas trata-se do erro das almas nobres”.”
Nobre mais estúpida, não é Moeller? Ora Reali, Antiseri e Moeller, peguem essa sua simpática dicotomia e enfiem no seu #%%%!
Acreditar no humano, sim senhor! O coração humano é um pouquinho mais profundo que o céu estrelado é verdade, mas este pouquinho é muito para mim. E se Deus existe não ficaria aborrecido comigo. Estas pessoas que acreditam que Deus existe e que a comunidade humana é um pouco mais que um zoológico especial para Ele me deixam puto da vida.
O humano em primeiro lugar. O humano em primeiro lugar. Isso acaba sendo ateu e agnóstico na prática e na teoria na maioria das vezes, mas o divino nunca fica aborrecido com isso. Como eu falei: não estamos em um zoológico especial, parados e olhando para cima.

Reali e Antiseri (2de2)
Vamos aproveitar que estamos aqui e puxar mais um pouco as orelhas do Reali e Antiseri em sua História da Filosofia de Reali e Antiseri (Paulus, São Paulo, 1990).
Reali e Antiseri não gostam da dialética no capítulo dedicado a Marx, mas na hora de dizer que até o ateu mais hidrófobo é totalmente cristão sem saber e admitir eles usam e abusam do ideal dialético (o horizonte cristão impossível de superar e de criticar sem obedecer a este mesmo horizonte). Ora bolas, dialética boa é aquela que ajuda o nosso lado é?
Aproveito para apontar outra incoerência. É mais um erro que uma incoerência, na verdade. Nos comentários finais e críticos sobre David Hume; ali Reali e Antiseri não tão indiretamente assim dizem simplesmente que a causalidade é verdade absoluta e pronto! Para uma História da Filosofia este é o tipo de parcialidade que não deve acontecer. Do ponto de vista técnico, eles foram mais agressivo ao agir deste modo com Hume do que ao comentar Lênin, Gramsci e Marx.
A crítica de David Hume à ideia de causalidade talvez seja a opinião mais polêmica da história da filosofia. Mais que a “morte de Deus”, de Hegel e Nietzsche.
Bom, eu sou leitor de Nietzsche e para uma incoerência me incomodar o trem tem que ser muito feio. Então vou deixar estes dois pontos pra lá.
(OBS: a primeira mulher a merecer atenção no livro de mais de 2 mil páginas é... é... É, ela mesma: a Hannah. Ou seja: século XX!!!!)

Querendo ser arranhado e mordido
Estou entrando na página onze do Microsoft Word. Isso vai ficar grande no blog. E aí? Vou publicar assim mesmo. Quero nem saber!
Escutando Marcos Viana e a sua música tema para a novela Pantanal, no modo aleatório do Windows Media Player. Alguém aí do outro lado do monitor lembra da novela Pantanal? 1990? Eu lembro bastante. E levado pela música excepcionalmente gostosa em seu instrumental sou levado a especular:

- Meu gosto pelas mulheres bravas começou ali, com aquela mulher-onça interpretada pela atriz Cristiana Oliveira?

domingo, 29 de janeiro de 2017

29 de janeiro de 2017.

Caranguejo
Não acredito nessa coisa de signo, mas é que o perfil do canceriano, com aquela mistura de ternura pura e egoística manipulação, sempre me pareceu atraente. E uma das virtudes de nós cancerianos, pelo menos é o que dizem, é a de possuir uma memória tremenda. E isso eu tenho. Parcial, como toda memória, mas tremenda mesmo assim.
- Eu liguei para casa dele e foi o pai que atendeu. Aí ele me disse: “Por que você não tenta o celulite dele?” rs rs rs ...
Não sou fofoqueiro, não me levem a mal, é que eu não pude deixar de escutar esta fala. Fala esta que tem mais de dez anos e que por causa de uma coincidência eu estou lembrando. Lembrando da fala e de quem a disse. E de tuuuudo mais.
Ah! Que loucura eu tinha por ela! E que inveja eu tinha dos caras que tinham o quadril abraçados por aquelas coxas! Ela gostava de caras mais novos e nas fantasias minhas eu era mais novo e era toda aquela coisa freudiana de “eu vou ser a sua primeira e você vai levar o gosto da minha fenda molhada por tooooda a sua vida!” Ah! Ah!
Mas é deprimente depois de tantas lágrimas, noites em claro e vexames históricos eu ter transformado a coitada em um par de coxas em minhas memórias. Sou a raposa desdenhando o cacho de uvas intocável a mim? Vingança por eu ter me sentido sempre um verme diante da “deusa”? Mas vai ver ela sempre foi uma saia jeans e pernas para mim e eu nunca gostei dela de verdade. Vai ver nem paixão louca era.
DESDÊMONA: - Você não queria ser mais um e acabou sendo menos que um. Devia ter realmente tentado. Apenas tentado. Tanta fantasia e você acabou esquecendo que ambos eram apenas humanos.
OTELO: - O medo, o orgulho, o sentimento de inferioridade, a confusão de sentimentos... Praticamente cometestes todos os erros do livro do Amor!
IAGO: - “A eterna anatomia feminina”, como Will Durant escreveu uma vez! Por que a prostituição é a profissão mais antiga e popular? Teria poupado mais tempo e lágrimas a você. Naquela época e ainda hoje. Considere isso.
OTELO: - Cale-se, verme imprestável! Seus conselhos fedem como um aterro sanitário!

Palavras recicladas
Escrever esta mais difícil agora. Escrevo, apago, escrevo, apago, escrevo, apago, escrevo, apago... Há um prazer na dor de apagar um texto imenso e que demorara tanto para amadurecer...
Dane-se! Não existe este de “apagar”, pois todas as palavras que já convoquei na vida ainda vivem em mim. E até as palavras que ainda não chamei para a festa na página em branco já fizeram de mim o seu lar.

Ilha da Fantasia
Um sonho é viver em uma grande ilha deserta. E ficar dando e dando a volta nela, com areia e água do mar entrando nos dedos de meu pé por ficar o tempo todo percorrendo as suas praias.
Mas já não é este o meu mundo? Já não é isso que eu faço todos os dias?

Paladar
O meu equipamento fotográfico é barato, eu sou tímido e não dirijo. E escolhi ser fotógrafo no auge do “todo mundo pensa que é fotógrafo”, embora eu não reclame muito do fato do mercado estar assim tão saturado. Eu sei que liberdade não é algo ameno e que venha a nós de graça. Tanto é verdade que para mim a câmara mais importante da história não é aquela Leica de 1925 e sim as Brownies do Georg Eastman. É da natureza da fotografia ter esta popularidade louca. Sempre foi assim, então não adianta resmungar e sim afiar as nossasgarras.
Bom, mas onde eu tava? Ah, sim: a minha única boia neste mar revolto de fotógrafos é o bom gosto. Eu tenho um pouco de bom gosto. Tenho que continuar apurando este bom gosto. Os ilustradores de livros, como Maxfield Parrish e Edmund Dulac, os impressionistas, os renascentistas e fotógrafos que me encantam pelas suas fotos e pelo seu profissionalismo e etc, etc... Na verdade a busca por professores é tanta que eu nem saberia dizer quais são as influências favoritas minhas. Não tenho tempo e minha “obra” não esta ainda madura o suficiente para que alguma genealogia em mim seja valiosa para alguém. Então o máximo é dizer o que faço: busco, vejo e inspiro, busco, vejo e inspiro, busco, vejo e inspiro, busco, vejo e inspiro; e deixo que todas aquelas imagens trabalhem em mim de uma maneira que não consigo controlar ou mesmo perceber.

Futuro Oco
A humildade de Cristo e a sabedoria oriental me parecem dizer a mesma coisa: vencer, superar o ego.
Mas depois da vitória sobre o nosso ego, quem em nós vai comemorar? E como seria a festa dessa vitória?
Lembro-me de tantas obras de ficção científica sobre o futuro retratando a humanidade como uma massa de mulheres e homens apáticos, presos a remédios, incapazes de fazer o mal e de também fazer o bem; de sentir dor, mas também de sentir o prazer. São referências demais a um cenário assim para que eu possa ignorar dizendo ser “coincidência”.
Nietzsche estava certo ao considerar Cristo e Buda parentes próximos e um perigo para o desenvolvimento da humanidade? Estamos em 2017 e muitas dessas obras de ficção falam de um futuro próximo. O Profeta Bigodudo estava certo?
O fim de todas as florestas e o fim de todas as individualidades é o que nos espera amanhã?

Como nasce um clássico
Farei 34 anos em 2017 e assim como quase todos de minha geração a minha infância; e, portanto, toda a minha vida; foi marcada pelo seriado Chaves & Chapolin Colorado. Chaves é para mim um clássico da cultura, uma obra que desde a primeira vez até a última vez que eu a contemplar manterá o mesmo status e força. Um ponto cardeal, uma mina de riquezas que nem a eternidade poderá consumir.
Mas isso é para mim e quem sou eu? Eu sou ninguém, ora! Mas e se eu fosse um crítico trabalhando na imprensa? E se eu fosse um acadêmico respeitado?
Entenderam agora como nasce um clássico?

Papelada
Eu viro um Indiana Jones toda vez que mexo em minha papelada não por causa dos perigos, mas por causa das surpresas fascinantes. As porcarias que guardo são valiosas, apesar da minha desorganização e o tempo tornarem todas virtualmente inúteis.
Estou procurando o último currículo que fiz. É que tenho que escrever um currículo agora. Meu currículo é uma porcaria e praticamente tem nada. Nem eu mesmo me contrataria. Acontece que os currículos antigos têm datas exatas e eu agora lembro-me de nada.
Achei! Agora vou escrever um currículo novo.

Novela pelas ondas do radio
Imprimi o meu currículo e entreguei e depois fiquei pensando porque ele para de ter coisas a contar depois de 2013. Aí eu lembrei, mas já era tarde eu já o tinha entregado; que desde 2013 eu sou voluntário e tenho um programa semanal na radio comunitária aqui de Rio Acima. Três anos e eu esqueço de colocar no currículo!
MARCONNI: - Isso que é amor pelo radio, o mio babbino caro!
TESLA: - Cala sua boca, seu ladrãozinho adolescente!
MARCONNI: - Enfia o dedo na tomada, ô Tesla! Só me processou quando ficou pobre e esquecido. E o tribunal em Nova York te dá ganho de causa sobre a invenção do radio só depois que você tá morto! Quá! Quá! Quá! Quá!
PADRE LANDELL DE MOURA: - Que o Altíssimo tenha piedade dessas duas almas sebosas. Aldrin...
- Fala, seu Landell!
PADRE LANDELL DE MOURA: - No seu próximo programa de radio...
- Sim, padre.
PADRE LANDELL DE MOURA: - Toca Alice in Chains, toca!

Pensa como homem ou como uma mulher?
Fazendo várias coisas ao mesmo tempo. Ironia machista sobre o meu resultado daquele teste psicológico sobre celebro masculino e celebro feminino no FaceBook, ou apenas uma maneira de usar a minha falta de concentração a meu favor? Ou talvez seja apenas uma maneira de livrar-me do tédio crônico que eu sempre tive?

Editorial sem título
A internet voltou. É bom publicar este texto que estou escrevendo há quase um mês. A data “29 de janeiro” é enganosa e se refere apenas à data da sua publicação. Como já aconteceu outras vezes neste blog. Eu nem sei nomear os aforismos, quanto mais o texto em conjunto!
Que coisa bizarra isso: sei escrever o “coração do trem”, só não sei colocar os títulos. Meus textos são melhores quando nascem sem título. Isso tem nome? Ou até isso não tem nome?

É preciso lembrar
“Brasil é um país sem memória.”

Esta declaração foi a primeira interpretação sobre o Brasil que me ensinaram, a primeira. Concordo com ela desde o início e à minha maneira precária e tosca, luto para que isso mude. 

sábado, 14 de janeiro de 2017

14 de janeiro de 2017

As orelhas da Fabiana Murer
O rostinho em perfil de Geneviève Bujold
E a Kalki Koechin
Escolheu Deus para desenhar o melhor pincel.
O PEDREIRO POETA

Presente e Mudanças
Livros doados para a biblioteca comunitária. Estou fazendo uma seleção. De repetente um encontro dramático: eu simplesmente não consigo parar de olhar para um livro. Pego-o o tempo todo, folhe-o-o e leio algumas frases aleatoriamente. Faça isso uma, duas, três... Por todo o longo tempo que fiquei ali organizando os livros. Tenho vontade de morrer, de vomitar, de queimar o livro, meu peito fica encolhido e sinto aquela famosa "dor sem dor". 

Síndrome de Peter Pan - Dan Kiley.
Com 33 anos, morando com os pais e no currículo uma série de frustrações profissionais e afetivas; este livro deve ter sido escrito exclusivamente para mim. É óbvio, não? Sou doente, sou uma criança e pronto. 
Mas sem tanto drama, pois uma das grandes mensagens do último século é justamente que somos todos doentes. Eu, quem esta me lendo, todo mundo é doente de alguma forma. Ou você acha que passaria incólume por um encontro fortuito com algum terapeuta, psicólogo ou psiquiatra? A felicidade, o desejo de mais e mais, quem consegue se olhar no espelho e se dizer "feliz"? Mais um pouco e isso sera considerado crime. 
Mas eu sou um solitário e ficar pensando que todo mundo é doente não consola muito, nem é capaz de fazer nascer em mim um sorriso irônico. O caso, o meu estado de espírito; eu tenho que me "curar" e o resto do mundo que cuide de si.
Então vamos entender a "doença" e a "cura". Pelo que já li do livro de Kiley tudo pode ser resumido em dois pontos:
- Assumir responsabilidades
- Deixar-se tocar pelo mundo

Eu sei que estou fazendo drama, que não sou exatamente um "Peter Pan" e que livros como esses são assim estruturalmente genéricos e tal justamente para assim atrair "leitores que se sentem inseguros e culpados"; mas decidi que quero lê-lo. E como gosto de um "excesso de abstração", o livro de Kiley terá companhia de alguns "livros irmãos". 
Passagens - Crises previsíveis da vida adulta; Gail Sheehy.
A Consciência de Zeno; Italo Svevo.
Os três livros tratam do mesmo tema, por assim dizer.

Um brinde aos doentes!
Esta última doação de livros pode acabar sendo mesmo um presente para eu mudar alguma coisa em mim.

Wagner
Não é qualquer filho da p* que, apesar de tudo, consegue nos fazer ficar de joelhos diante de sua obra artística. 
É incrível, eu não estou conseguindo parar de ouvir A Morte de Siegfried e sua Marcha Fúnebre. O modo "replay" nunca ficou tanto tempo acionado.

Livros, músicas, filmes... É sempre claro para mim que esta minha formação humanista é a minha bússola neste mar que é o viver. Mar nem sempre sereno e feliz.

domingo, 8 de janeiro de 2017

8 de janeiro de 2017.

Luís da Câmara Cascudo

Comecei a ler a Antologia do Folclore Brasileiro, o livro mais antigo dos que comprei deste autor. É uma seleção de relatos de brasileiros e estrangeiros sobre o nosso folclore. 

Apesar disso, de ser basicamente uma seleção de trechos de outros autores, tem muito da personalidade de Cascudo no livro. Primeira coisa: o danado adora fazer citações em língua estrangeira. Ele pode, é um Mestre; mas a Editora Global poderia fazer as traduções em notas de rodapé. Como a Martins Fontes e a Abril Cultural fazem nos livros que tenho dessas editoras. Uma pena, pois além de facilitar a vida de leitores tornariam os livros ainda mais bonitos que já são por causa das capas: coloridas e com cores vivas. Outra coisa: Cascudo conversa com os leitores, em uma mistura bem única de formalidade e informalidade. Essa característica encanta e deve dar vontade em todos que o leem de imitá-lo. 

Como eu escrevi, Antologia do Folclore Brasileiro é uma seleção de relatos de brasileiros e estrangeiros sobre o nosso folclore. Chama atenção algumas coisas incômodas aos leitores do século XXI:

“Estas mulheres são muito alvas e altas, com o cabelo muito comprido, entrançado e enrolado, na cabeça.” 
(Adivinha quem o frei Gaspar de Carvajal (1504 - ?) esta descrevendo, adivinha? É, elas mesmo: as amazonas. Alvas, senhor Gaspar? O primeiro relato dessas guerreiras míticas em terras brasileiras. Apesar de tudo, emocionei-me quando encontrei esta frase histórica. Política a parte, não podemos perder a ternura.)

“... vêm uns feiticeiros de mui longes terras, fingindo trazer santidade e ao tempo de sua vinda lhes mandam limpar os caminhos...”
“... com grandes tremores em seu corpo, que parecem demoninhadas (como decerto o são), deitando-se em terra, e escumando pelas bocas...”
(A gente entende a posição do Padre Manuel da Nóbrega (1517-1570), é uma religião encarando a outra pela primeira vez em uma cerimônia não muito amena, mas não da para negar a aspereza das palavras.) 

“Têm uma outra opinião idiota: estando sobre água, seja do mar ou dos rios, indo contra seus inimigos, se forem surpreendidos por uma tempestade ou furacão, como tantas vezes ocorre, creem que a origem é a...”
(“Idiota” é você, André Thevet (1502-1590/1592?). 

Já os relatos selecionados de José de Anchieta, Jean de Léry, Gabriel Soares de Sousa, Fernão Cardim e Anthony Knivet (que vida teve este inglês, quanta tragédia e desejo de liberdade! A minúscula biografia escrita para apresentá-lo, que Luís da Câmara Cascudo fez, impressionou-me.), são mais doces e adoráveis.
A leitura continua.

O Domingo
Tirei fotos da posse da prefeita Dorinha e dos vereadores aqui de Rio Acima, era esse o compromisso importante sobre a qual eu tinha escrito na postagem anterior. Deu tudo certo e as fotos que tirei me deixaram contentes. Estão entre as melhores que já tirei e, como um “pai coruja” não paro de olhar para elas. Foi a minha primeira vez com o flash externo e ele não aprontou para cima de mim. Para quem não sabe, a luz do flash é para os fotógrafos o que a língua portuguesa é para os alunos do ensino médio: um cavalo bravo.
Arredondando, eu tirei umas 300 fotos e aproveitei 60, o que da uma média de uma foto que presta em meio a cinco imprestáveis. É uma média razoável, apesar de obviamente o julgamento do que é uma “foto razoável” aqui é bem parcial. Fui convidado para o evento e me falaram que vou receber pelas fotos. Ainda não recebi e é isso que me impede de publicá-las na internet. Quero saber a opinião dos outros, embora os meus contatos sempre sejam muitos lacônicos quanto as minhas fotos. 
Acho que finalmente estou tirando fotos melhores, encontrando um estilo pessoal. 
Tive que usar “traje passeio completo”. O único terno aqui de casa é o que o meu pai usou em seu casamento, os outros vieram de um bazar feito com material de alguns alemães religiosos que visitaram Rio Acima. Eu escolhi uma camisa laranja e uma calça branca, o que me fez parecer um vilão do filme Scarface. Sobre o sapato é melhor nem comentar. Mas tudo isso é folclore pessoal de um domingo que vivi e foi feliz.

sábado, 31 de dezembro de 2016

31 de dezembro de 2016.

Quem nunca entrou em 2017 "pelado" por ter comprado seis títulos do Luís da Câmara Cascudo de uma vez só? Quis acabar com a dívida teórica que eu tinha com o sábio potiguar e agora estou com uma dívida prática.

Antologia do Folclore Brasileiro (dois volumes)
Rede de Dormir - Uma Pesquisa Etnográfica
Civilização e Cultura
Folclore do Brasil - Pesquisa e Notas
Lendas Brasileiras
Locuções Tradicionais no Brasil

O seu livro mais celebrado, Dicionário do Folclore Brasileiro, ainda me escapa. Mais um dia eu ainda o devoro.

A compra louca foi no dia 28 de dezembro, esta última semana esta tensa porque domingo agora eu tenho um compromisso importante. Já era para eu te começado a ler os livros do Cascudo, mas essa coisa no domingo esta me deixando agoniado. É para eu tirar fotos de um evento e essa história de "agradar" me agoniza. Que a Julia Margareth Cameron me proteja!

É uma boa mudança para 2017: manter-se zen. Esta minha ansiedade louca nunca me preparou para momentos difíceis, então é melhor ser pego de surpresa com um sorriso do que com dentes cerrados.